Vinte Linhas 567

Na morte de Aurélio Márcio – uma memória antiga para Juventino Freire

A morte (apenas física e de registo civil) do jornalista Aurélio Márcio veio trazer-me memórias felizes dos meus tempos de A BOLA. Conheci Carlos Pinhão através de uma carta que lhe enviei com um poema dedicado a Ruy Belo em Agosto de 1978. Como A BOLA era composta e impressa (ainda a chumbo…) no Diário Popular o meu poema foi entregue por Carlos Pinhão a Jacinto Baptista e de imediato publicado no suplemento cultural das quintas-feiras do vespertino – era assim que se dizia por oposição a matutino. Foi com Carlos Pinhão que vim a conhecer os jornalistas mágicos que Ruy Belo tanto admirava: Aurélio Márcio, Vítor Santos, Carlos Miranda, Alfredo Farinha, Silva Resende, Homero Serpa, Cruz dos Santos, Santos Neves, Vítor Serpa, António Simões. Um nunca acabar de nomes e memórias. Aurélio Márcio (pai do também jornalista e escritor João Alves da Costa) pertenceu a uma geração de jornalistas que reescreveu a história do desporto em Portugal. Às vezes falávamos disso: as Ligas entre 1934/38 que não podem nem nunca poderão «apagar» os campeonatos de Portugal desses anos, a data da fundação do SLB com efeitos retroactivos de 1908 a 1904 e outros temas que nunca nos separaram embora nos opusessem.

A minha paixão pelo jornalismo desportivo tinha nascido muitos anos antes com a leitura das crónicas de Juventino Freire no jornal O Catarinense de Santa Catarina – Caldas da Rainha. No campo do Rio da Pedra eu em 1959 tinha 8 anos mas já gostava de acamaradar com o repórter do jornal da minha terra. Este jornal foi-me oferecido por Virgínia Freire. Não por acaso sobrinha do meu primeiro jornalista desportivo.

Na república dos juízes

«A alegação de erro informático começa a ser demasiado recorrente para podermos acreditar que a culpa é sempre dos computadores», que «só fazem errado o que os humanos fazem de errado», disse o presidente da ASJP, defendendo que o Ministério da Justiça deve explicar esta situação.

António Martins disse ainda que o facto de o caso não ser resolvido em 24 horas revela «descontrole e inépcia total» da tutela ou que «o Estado está com dificuldades de tesouraria, sendo, se for esse o caso, necessário que o Ministério assuma «claramente isso».

Fonte

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Na república dos juízes os computadores só fazem errado o que os humanos fazem de errado. As falhas técnicas, de hardware ou software, foram abolidas e os sistemas informáticos são agora meras emanações das psiques humanas. Este estádio de fusão cibernética foi alcançado quando se conseguiu transformar a infalibilidade dos juízes em determinismo computacional. Resultado: máquinas sem culpa.

Na república dos juízes, quando os humanos enganam os computadores, os Ministérios ou estão completamente descontrolados ou são completamente ineptos. Há, contudo, um terceiro cenário. De facto, é sabido que Governos com dificuldades de tesouraria podem ser tentados a manobras de espectacular perversidade: num universo de mais de 4.000 funcionários, fazem com que 19 não recebam o ordenado, e outros 12 não recebam o subsídio de compensação, durante um ou dois dias na semana do Natal. Isso permite aos bandidos que foram eleitos o adiamento da iminente bancarrota, e o respectivo usufruto dos bens públicos para proveito próprio, até às festas da passagem de ano. A única forma de lutar contra estes abusos inomináveis é uma luta sindical sem quartel, dizem os mais esclarecidos.

Na república dos juízes o ridículo não mata. A raiva corporativista também não.

A propósito das baixas fraudulentas

A notícia é esta: Segurança Social descobre mais de 67 mil baixas fraudulentas. Uma pessoa pergunta-se imediatamente o que é uma baixa fraudulenta. Quem é o infractor? O doente mentiroso? O médico cúmplice e portanto ambos?

Quando a Segurança Social faz um esforço fiscalizador, e chega a um resultado destes, está em causa, claro, durante um determinado período de tempo, apurar quem se candidatou, recebeu ou estava a receber indevidamente o subsídio de doença.

Num universo gigantesco de pessoas, haverá de tudo: quem está ou esteve efectivamente doente mas, por efeito da própria situação de doença, pura e simplesmente não preencheu todos os requisitos legais para poder receber o subsídio (sim, isto acontece); quem se fez passar por doente e levou o médico a acreditar em si; e casos haverá em que doente e médico “combinam” uma situação de baixa, esteja o candidato bem de saúde, esteja ele mal, mas não ao ponto de se justificar uma baixa médica (nunca tive conhecimento de uma situação destas).

Pedro Nunes vem dizer que os médicos de família não são polícias dos doentes.
Na verdade, é este o ponto que me interessa, porque pouco discutido, os médicos de família, concretamente os médicos dos centros de saúde empurrados para o papel de polícias. Mas não estou a pensar em policiamento dos doentes, estou a pensar em policiamento de médicos: temos polícias forçados dos médicos que exerçam, legitimamente, a sua actividade fora do sistema público de saúde (é usual ouvir-se que são os que trabalham “no Privado”).
Acontece que os médicos que diagnosticarem, nas suas clínicas ou hospitais privados, uma situação de doença que justifique uma baixa, não estão habilitados para isso emitir um certificado.
Esta situação coloca um problema com duas perspectivas evidentes: por um lado, o médico “do Privado” está qualificado pelo Estado para exercer medicina, logo para diagnosticar maleitas; por outro lado, o doente, o cidadão, deve ter a liberdade de escolha no que toca ao médico que o observa.
Estas liberdades estão comprometidas. Exemplificando, imagine-se que eu, tal como milhares de pessoas, sou seguida, há anos, regularmente, por um médico da especialidade y. Numa consulta é-me diagnosticada uma doença e o meu médico entende que eu tenho de parar de trabalhar, para fazer uma série de tratamentos. Se ele me passar uma baixa, com aquela vinheta, ela de nada serve. Não posso entregar o atestado à minha entidade patronal e rumar aos tratamentos, porque o Estado não tem por fiáveis as declarações sobre o meu estado de saúde produzidas por um médico “do privado”.
É neste condicionamento do exercício da profissão de médico e na escolha de quem eu quero que me trate que acontece a tal fiscalização policial dos médicos privados pelos públicos. Por isso, parece-me que já que se fala em polícias, devia falar-se do que se passa na vida concreta das pessoas, ou de tantas pessoas, as tais que estão numa situação de doença diagnosticada pelo médico que escolheram, em quem confiam, mas que têm de rumar a um centro de saúde, pedindo ao médico que aí esteja que acredite no médico que lá não está, e que assim emita o tão almejado Certificado de Incapacidade Temporária por Estado de Doença, para que não nos falhe 66% da remuneração, se a doença for coisa para 90 dias, por exemplo.
Não sei qual é o melhor sistema; sei que vale a pena pensar nisto.

Balada para a Taberna do Manelvina

As paredes de madeira
Aquecem todo o salão
Quando é a vez primeira
Não se esquece a situação
A memória de uma praça
As cabeças dos animais
Entre triunfo e desgraça
Vida e morte são iguais
Pão de milho na peneira
Pão alvo sobre a mesa
Esta é a melhor maneira
É um início em beleza
Um prato de morcelas
Já começa a refeição
As batatas amarelas
São fritas na ocasião
Salada de bom azeite
Sabor a ervas que resta
O vinagre é um enfeite
Dos tomates em festa

Começa a entremeada
Segue febra e costeleta
Se parece já terminada
Afinal não está completa
Falta uma sobremesa
Um café e um bolinho
Água do Luso na mesa
Um cascol apertadinho
Quarta feira de Inverno
O cozido aconchegado
Traz ao tempo moderno
Todo o prazer do passado
No Verão são sardinhas
Com a frescura do mar
Junto às batatas vizinhas
É um prazer descascar
Taberna do Manelvina
Onde o prazer é preceito
Na despedia em rotina
Até sempre, bom proveito!

Aprendendo a ser humilde com Freitas do Amaral

Pegando no mote do texto inaugural da Isabel, a que junto as chicotadas do Eduardo, aproveito para deixar a minha perplexidade a respeito de Freitas do Amaral. Este homem é um dos mais importantes senadores do regime democrático, tendo já inscrito o seu nome na História pátria por múltiplas e magníficas razões, e é um monumento vivo do que seja uma vocação de serviço público e de realização do ideal da liberdade. Por isso despertou tantos ódios; primeiro dos imbecis, dos ranhosos depois. A independência tem preço, alto, e no caso dele até se fez pagar em dinheiro.

Pois bem, como se explica o silêncio de Freitas aquando do escândalo da inventona de Belém e, para piorar o que já era mau de mais, o seu militante apoio à reeleição de Cavaco? Seja lá qual for a justificação que o próprio dê, em nada modifica o sarilho que arrasto comigo: um dos portugueses que mais admiro é cúmplice político de um dos portugueses que mais me envergonha.

Não pretendo fugir do paradoxo. A humildade também se faz pagar, a puta.

As suaves declarações de cavaco

Já gastei do meu latim anteriormente a explicar por que razão o actual PR representa tudo aquilo que jamais terá o meu voto.

Não vale a pena repetir-me, mas vale a pena dar com as declarações de Cavaco, numa entrevista, onde ele acha por bem caracterizar o seu mandato como o de quem tem uma visão moderada dos poderes do PR, atirando areia para os olhos de qualquer leitor desavisado com a mágica demonstração da sua moderação e do seu brilho a “segurança” que é a não dissolução da AR.

Numa palavra, Cavaco diz uma série de disparates sobre o seu mandato, caracterizando-o como entende que ele deve ser visto, como dá jeito ao voto, até porque todos temos memória curta, e, para alcançar o seu objectivo, lembra que não houve bomba atómica.

É como se pudéssemos dizer, de acordo com esta nova doutrina, que um PR é uma pessoa moderada, equilibrada e referencial de segurança se não dissolve a AR.

Acontece que o critério demagogicamente apresentado é de uma pobreza avassaladora, quando pensamos em todos os poderes presidenciais e na forma como um PR se propõe a exercê-los ou na forma como efectivamente os exerce.

Esta triste – e geradora de equívocos – leitura de um mandato presidencial não é um acidente; é sim uma estratégia pensada, a estratégia de um homem que é tudo menos ingénuo e, pelos vistos, se não estivesse esclarecida a dúvida após o episódio das escutas, um faz-de-conta.

Se Cavaco bateu com a cabeça e, nos últimos tempos, deu em tentar em corresponder ao que se espera de um PR, nomeadamente ter uma intervenção moderadora (o tal referencial de segurança), uma intervenção que não favoreça Partidos, isso aconteceu apenas porque a partir de certa altura passou a estar em vista uma recandidatura. Mas, antes desse período, Cavaco não fez outra coisa que não desdizer com os seus actos qualquer ficção de homem moderador e suprapartidário.

Desde o início do seu mandato (2006), observamos uma vertigem entre o proclamado e o praticado, entre o verbo e a acção. Cavaco era o homem da cooperação estratégica, essa coisa esquisita que ele inventou e que não serve para nada, que envenena, quando o que queremos é uma mão a garantir como possa o regular funcionamento das instituições, ou do sistema, tanto faz.

Cavaco não surpreende, porque é o mesmo de sempre, o que sempre teve o Parlamento como uma câmara que não deve ser maçadora, que deve, antes, chegar, não a maiorias, mas a consensos.

Cavaco Silva, quando a democracia faz aprovar o que não lhe agrada, estranha que uma maioria simples, uma maioria absoluta ou mesmo uma maioria qualificada não desista do seu desígnio cedendo à minoria derrotada.

Concretizando, e lendo umas páginas de um livro inteiro a não perder de Jorge Reis Novais, o nosso PR, o tal que não lançou mão da bomba atómica, como se isso chegasse para o qualificar, dedicou-se a fazer malabarismos, com mensagens sofridas na promulgação.

Talvez haja gente que não se recorde da lei da paridade, ou da lei da procriação medicamente assistida, ou, pior, da lei eleitoral para os Açores, a tal que foi aprovada por uma maioria de 2/3, um consenso parlamentar raro, mas que Cavaco repudia em mensagem porque há a desagradável circunstância de o PSD não estar nos insatisfatórios 2/3. Foi em 2006. Uma pessoa esquece.

Devemos sempre e mais uma vez voltar ao episódio das escutas, em 2008, já com Manuela Ferreira Leite à frente do PSD, num cenário maravilhoso para a tal da cooperação estratégica…com a oposição.

Estando uma campanha a decorrer, não admito que Cavaco não seja escrutinado acerca deste episódio memorável, não entendo como é que não se faz o homem explicar a coisa. Como foi possível Belém tentar lançar a suspeita de que o Governo andava a “escutar” a PR, pedindo-se confidencialmente a ajuda do “Público”? Como foi possível isto acontecer ou como é possível ter acontecido e Cavaco apresentar-se a eleições com palavras de moderador prometido e cumprido? Não sei.

Como já escrevi noutro texto, Cavaco, usando poderes estranhos à garantia do funcionamento do sistema, continuou uma ofensiva à sua oposição, com o mais sofisticado e inadmissível processo de arrastamento de uma crise fictícia de que tenho memória, esse dilema nacional, o Estatuto dos Açores, que parou o dia de todos em Julho de 2008, uma tragédia que se abateu sobre a Pátria infinitamente.

Mensagens, vetos usados contra a natureza dos mesmos, tudo para que o drama, o horror, continuasse, a metáfora encontrada para um alegado atentado aos poderes presidenciais. Seria delírio se não fosse estratégia.

Em 2008, fiquei segura da má-fé de Cavaco. Era difícil explicar numa mesa que os Estatutos eram uma não-questão, tratava-se apenas de uma interpretação da Constituição num ou noutro sentido, ambos perfeitamente admissíveis. Toda uma ópera. E má.

Cavaco fez o que não lhe compete fazer: andou a praticar a sua estratégia de arruinar o Governo como fosse possível, enquanto sonhava e esperava com o PSD de Manuela Ferreira Leite. Cooperação estratégica, não é?

Já nem perco muito tempo com a promulgação da lei que permite o acesso ao casamento civil por pessoas do mesmo sexo. O PR tem o direito de discordar da mesma. Mas, quando mais uma vez se indigna perante o país porque a democracia funcionou, não sei que sinos dobram por esse homem.

Vinte Linhas 566

Proença-a-Nova, o menino Diogo e as concertinas do Natal

O Grupo dos Amigos das Concertinas arrancou, a tocar um vira pelo Pavilhão Gimnodesportivo da Escola de Proença-a-Nova, de uma cabina onde estava escrito – Visitante. E não deixavam de ser visitantes trazendo no bojo do seu som, amplo e sentido, alto e antigo, uma memória que os antropólogos sabem definir e enquadrar mas que eu, simples mortal, me limito, de modo feliz, a usufruir.

Cinco concertinas tocadas por cinco homens feitos, um bombo tocado por um jovem adulto e a sexta concertina tocada por um menino (Diogo de seu nome) que já nasceu no século XXI. Tão menino o menino Diogo que precisou de uma cadeira para se sentar no palco. Estávamos no Domingo dia 19 de Dezembro, em vésperas de Natal de 2010 e o som da concertina do Diogo, misturado no som mais geral e mais amplo das outras cinco, tinha um timbre diferente. E nem era importante que a música fosse do Minho – «Tenho um amor em Viana, oh ai, outro em Ponte de Lima!» O mais importante foi a festa que irrompeu no Pavilhão onde se vendia pão, bolo finto, licores, enchidos, coscorões, filhoses, artesanato variado entre as peças de verga e de crochet, o ponto de Castelo Branco e a pureza da cortiça trabalhada.

Porque vejo nos olhos de Diogo o meu tempo de menino quando nas canções de roda ouvia cantar as meninas da escola primária ali ao lado: «Fui lavar ao rio Lima / Cheguei lá sem o sabão / Lavei a roupa com rosas / Ficou-me o cheiro na mão».

O Natal é, afinal, nada mais, nada menos do que o Diogo com a sua concertina no palco do Pavilhão da Escola em Proença-a-Nova. Sinal de que o Homem se recusa a morrer.

Festa

A Isabel Moreira, num daqueles desatinos que definem uma alma artística, achou graça ao convite para vir passear a sua indomável liberdade, e subidos conhecimentos, neste pardieiro chamado Aspirina B. Obviamente, não a merecemos; restando só a curiosidade de ver quanto tempo demora até ela se aperceber da péssima companhia onde se foi meter.

Este blogue, por honrosas e prazenteiras razões, está em festa – embora estejamos em condições de garantir que tal em nada se relaciona com estrelas decadentes a caminho de Belém. É só pelo presente que acabamos de receber, a admirável Isabel.

Natal vermelho

Como é belo ver as classes C1, C2 e D invadirem os espaços comerciais no exclusivo fito de entregarem os seus míseros rendimentos aos empresários, unidos com o grande capital no esforço titânico para aumentar o consumo interno e, assim, financiarem os bancos, alimentarem os impostos e salvarem o País das garras do FMI.

Um livro por semana 215

«No dorso do vento» de Alice Ruivo

O pano de fundo da acção deste romance de amor é o intervalo entre 1945 e 1974: o fim da II Guerra Mundial e a Revolução de Abril. Por oposição a uma Europa devastada o ponto de encontro (e de desencontro) é Sintra, lugar onde o romantismo a tudo resiste. No dorso do vento de 1945 havia conflito mas também amor: a família Ávila (Jeremias e Olívia) com sua fortuna e pergaminhos, encontra a família Teixeira (Manuel e Rosa) apenas com fortuna. O encontro breve entre Jacinta e João origina o desabafo com o mordomo Tomás («amo-o como nunca amei ninguém») e, tempos depois, nasce Mariazinha: «quando a menina a invadia com perguntas acerca do pai, Jacinta falava dele sem rancor». Anos depois o «25 de Abril» proporciona-lhe o relacionamento com o médico David: «Este interesse de David não passava despercebido a Jacinta mas ela, alegando respeito à filha, não queria qualquer envolvimento». Mas quando, anos depois, parecia ter chegado a paz entre João e Jacinta, esta descobre o seu drama em gente: «O meu pai teve outro filho? Então quer dizer que tenho um meio-irmão». E é num ritmo quase policial que a narrativa evolui. Obtidas certidões de nascimento dos pais de David se percebe melhor a frase de João: «se algo aconteceu… não tens de te sentir culpada. Vocês não sabiam».

Nem a morte física de David o levou no dorso do vento: «Para Jacinta ele fora o irmão, o apaixonado, o confessor e o amigo que lhe dera, ao longo de muitos anos, a força de que ela precisou para agora ser feliz».

(Editora: Terramar, Ilustração da capa: Rita Ruivo Simões)

Para um guarda-redes na sombra

Levanta os teus olhos para a luz que (embora amarga)
é o único destino das tuas lágrimas depois de secas,
depois de soltas pelo teu rosto, depois de convertidas
em agricultura no perímetro da pequena área. A tua.

Levanta-te e sai da sombra, sai do silêncio prolongado na nossa vida
depois da defesa feita em vão aos avançados da morte,
quando não foi mais possível segurar a bola
na direcção da baliza que sozinho defendias. A tua.

Levanta-te e volta as costas ao pó, ao sol e à chuva
do lado do Oceano Atlântico nas tardes de domingo.
Tu sabes. É urgente ter as quotas em dia, pagar à lavadeira,
pedir a quem possa costurar alguns números soltos nas camisolas:
o quatro, o seis e o número um. O teu.

Levanta-te e diz-me de novo tudo o que sabes sobre os jogos dos anos vinte,
as manias do Zamora, o Roquete, o Casoto, o Cipriano dos Santos,
as cambalhotas dos vencedores.
Tu estás do outro lado,
na dificuldade em sair do lugar da derrota, do silêncio e da sombra .

Levanta-te e vem à linha receber as instruções
para a segunda parte que só agora começou:
Pôr um boné por causa do sol, mudar de equipa e de lugar,
trocar a morte pela vida.

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Virgínia Freire (foto)

Grande castiço

Uma das figuras mais castiças da blogosfera é o joshua. Esta figura teve um gesto magnânimo como só os grandes castiços ousam ter – escreveu a mesmíssima merda em três blogues diferentes: PALAVROSSAVRVS REX, 2711 e Aspirina B. O costume é repetir em dois blogues, uma estereofonia para impressionar o povo. Em três, já estamos na globalização.

Quanto a isso de me julgar apoiante de Alegre, só vem confirmar que a Internet é um meio que serve principal e primeiramente para escrever. As leituras podem esperar.

Atenção, pessoal

A nossa amiga Ana Cristina Leonardo está aqui a pedir autorização para traduzir a «Eigentlichkeit heideggeriana» por «“Autenticidade”».

Eu sei que calha em má altura, este é o pior fim-de-semana do ano para validar traduções de conceitos heideggerianos com tanta compra ainda por fazer, mas sejam compinchas e haja alguém que vá lá permitir a coisa; para ficar o assunto resolvido e a senhora descansada, pronto.

Afinal, é Natal, ó pessoal!