11 thoughts on “Conto de Natal”

  1. Conto de Natal:

    O dia nasceu frio. Quando espreitou pela janela e viu a brancura da neve é que se lembrou que esse dia era o vinte e quatro de Dezembro. João, era assim que se chamava, da véspera de Natal não guardava grandes lembranças. Era um dia igual a tantos outros e como sempre tinha de ir para o monte com o seu rebanho. Por ser véspera de Natal as ovelhas tinham de se alimentar e os pastos dos montes sempre saíam mais baratos que os comprados no Grémio de Lavoura do seu concelho. Uma vez por outra era do pasto comprado que se alimentavam – dia de Páscoa, Natal e nas festas em honra a S. Pedro, padroeiro da sua terra, nunca na véspera de Natal.
    Mesmo de férias escolares, primeiro, estavam os afazeres domésticos, os escolares eram feitos enquanto vigiava o rebanho e o dia três de Janeiro estava próximo. Era quando começava o segundo período lectivo. Também beneficiava da ajuda de Mondego, o seu cão, que era um amigo inseparável e que tantas vezes o ajudou quando as ovelhas se tresmalhavam. Nunca por nunca em véspera de Natal deixou de ir ao monte com o rebanho. Também a idade não era muita para ter bastantes recordações. Mas, nos seus dez anos de vida, esta véspera de Natal era a segunda passada no monte com o seu rebanho.
    Mesmo com a neve lá se dirigiu para o monte na companhia do inseparável rebanho e Mondego. Previa um dia difícil mas para os pastores não se pode olhar a este tipo de dias. A vida nas aldeias não se compadece e os dias, principalmente os de Inverno, são quase todos iguais, de chuva ou de neve. É o que faz manter a verdura nos montes e deliciar o gado com este tipo de alimento e o dono com estas dádivas da Natureza.
    Como sempre João ali passava o dia. Regra geral só à noitinha é que trazia o rebanho e o metia no curral. O dia era passado a fazer os deveres escolares e entretinha-se com uns acordes da sua gaita de boca. O Mondego entretinha-se a caçar umas moscas que amiúde o aborrecia com os voos no seu dorso e de vez em quando com um passeio a ver se o rebanho se mantinha sossegado com o seu pastoreio.
    As horas lá iam passando e não demorava muito a chegada da noite. Era neste momento que se devia estar mais atento para que não acontecesse nada ao rebanho. Não tinha vislumbrado pelos arredores nenhuma raposa ou lobo, nos dias de neve, remetem-se às suas tocas para estarem melhores agasalhados. Também não queria demorar porque queria comer as batatas com bacalhau nesta véspera de Natal.
    Quando passava revista às ovelhas reparou que lhe faltava uma. Voltou a contá-las e realmente faltava-lhe uma. Não podia ser. A Rica, era assim lhe chamava, tinha desaparecido. Gostava de todas mas por esta sentia um carinho especial. Quando nasceu era muito magrinha e por várias vezes esteve entre a vida e a morte. Melhor tinha sido do que morta e comida por uma qualquer raposa ou lobo. Miseráveis. Logo a Rica.
    Não a encontrou e teve de se meter ao caminho porque a noite já se vislumbrava ao longe. Não sabia o que devia de dizer a seu pai. A vida corria mal. Sabia que seu pai tinha umas contas a pagar ao banco devido ao investimento no rebanho e a perda de uma ovelha é sempre qualquer coisa para quem tem tão pouco. Mas também sabia que o seu pai compreendia a situação. O que o ralava mais era por ser a Rica. Como as horas iam passando e demorava a chegar a casa o seu pai foi ao seu encontro. A meio do caminho lá se encontraram e teve de dar a notícia. O seu pai disse-lhe para não se afligir que estas situações acontecem aos mais adultos o que fará a uma criança.
    Chegaram a casa meteram o rebanho no curral e foi tomar banho para se preparar para a ceia de Natal mas, sempre a pensar no que teria acontecido à Rica. As batatas e o bacalhau não lhe sabiam a nada. Noutras vésperas de Natal comia com tal apetite pois não era todos os dias que se comia batatas e bacalhau. O pai falava do seu tempo de menino e das peripécias de Natal mas João não lhe prestava atenção. Na sua mente só estava a Rica. Já não lhe apetecia pôr o sapatinho para o Pai Natal lhe dar a prenda. Antes de se ir deitar o seu pai disse-lhe para não se esquecer de pôr o sapatinho junto à lareira. Só o foi pôr para fazer a vontade a seu pai.
    De manhã acordou a pensar na Rica e não sentia vontade de ir buscar a prenda do Pai Natal. A sua mãe é que lhe disse se já tinha visto com o que foi contemplado e só por isso se dirigiu para a lareira onde estava a árvore de Natal e o sapatinho. Ao chegar próximo ficou estupefacto. Não era que junto ao sapatinho estava a sua ovelha Rica. Os olhos humedeceram-se de alegria. Nunca tinha recebido prenda tão rica.
    Ps: Ainda hoje na aldeia é lembrada a prenda que João recebeu. Uns dizem que foi seu pai que durante a tarde se deslocou ao monte e furtou a ovelha para a pôr no sapatinho como prenda porque a vida estava mal e não sabia o que lhe havia de dar. Outros dizem que os poderes do Pai Natal são imensos e que faz do impossível, possível, para ver as crianças felizes e radiantes. Vou pela segunda. Nos meus tempos de criança idealizava assim as coisas o que nunca consegui foi concretizá-las.

  2. Parabens Manuel Pacheco! Belissimo texto que oscila entre o mistério e o óbvio – maravilhoso intervalo das palavras. Um abraço JCF

  3. bem , então as religiosas festas celtas de Beltane nem te passa como deixavam a malta feliz. nem tem comparação com uma missa. nada como regressar a uma religiosidade de celebração anárquica para largar o pessimismo do sacrificio hierárquico do vale de lágrimas. até no Samhain os mortos bailam com os vivos.

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