Aprendendo a ser humilde com Freitas do Amaral

Pegando no mote do texto inaugural da Isabel, a que junto as chicotadas do Eduardo, aproveito para deixar a minha perplexidade a respeito de Freitas do Amaral. Este homem é um dos mais importantes senadores do regime democrático, tendo já inscrito o seu nome na História pátria por múltiplas e magníficas razões, e é um monumento vivo do que seja uma vocação de serviço público e de realização do ideal da liberdade. Por isso despertou tantos ódios; primeiro dos imbecis, dos ranhosos depois. A independência tem preço, alto, e no caso dele até se fez pagar em dinheiro.

Pois bem, como se explica o silêncio de Freitas aquando do escândalo da inventona de Belém e, para piorar o que já era mau de mais, o seu militante apoio à reeleição de Cavaco? Seja lá qual for a justificação que o próprio dê, em nada modifica o sarilho que arrasto comigo: um dos portugueses que mais admiro é cúmplice político de um dos portugueses que mais me envergonha.

Não pretendo fugir do paradoxo. A humildade também se faz pagar, a puta.

20 thoughts on “Aprendendo a ser humilde com Freitas do Amaral”

  1. Bom dia Val,
    Por estas e por outras é que eu deixei de admirar figuras reais e os meus heróis são apenas os personagens de filmes, de banda desenhada ou dos romances dos autores que gosto de ler.
    E mesmo assim alguns desiludem-me.
    Um Bom Natal.

  2. O problema dos monumentos vivos é esse, não é? Vivem, respiram, e movem-se nem sempre da maneira que esperamos. Sem entrar em mais detalhes, a primeira grande desilusão, aquela que me fez pôr em causa o que eu pensava do homem, foi a sua reacção cobarde à polémica dos cartoons de Maomé. Sempre achei irónico que tivesse saído pouco depois, por problemas de coluna. O ídolo tinha, afinal, uma espinha de barro.

    Mas sempre tinha sido melhor que o Alegre…

  3. Só mesmo os idiotas úteis como o Valupetas, adeptos do centrão «independente» e da situação, e criadores de dicotomias palermas e desligadas de qualquer demarcação ideológica, é que depois conseguem encontrar paradoxos nas posições e apoios eleitorais do Freitas.
    Ainda que o Freitas não seja nada daquilo que o Valupetas diz ser (nomeadamente o ser um «nome inscrito na História por magníficas razões», a não ser que o idiota útil se esteja a referir a ele ter sido o menino bonito do Marcelo Caetano), uma coisa tem que se reconhecer ao homem: é coerente. É que não há nada de estranho no seu apoio ao Cavaco quando antes apoiou e foi ministro do Pinto de Sousa, até por que não é o único ex-ministro do socretino que se pode considerar «paradoxal» aos olhos dos apaixonados pela situação. Para além do Freitas ainda temos o Campos e Cunha, já para não falar do Júdice: tudo gajos «independentes», claro!
    A família política do Freitas sempre foi a família dos conservadores e liberais, e portanto o que se podia considerar estranho foi o convite que lhe foi feito para integrar um governo de «esquerda». Mas esta estranheza rapidamente desaparece quando se toma consciência (o que é difícil, senão impossivel, para os socretinos) de que à frente desse partido estão uma série de oportunistas que fazem política (ou melhor, campanhas de marketing) em função de modas e daquilo que centros neoliberais do poder determinam.
    Por isso valupetas, não fiques tão angustiado com esses pseudo-paradoxos que atormentam o teu espírito «puro» e «inocente».
    Como já dizia Jesus Cristo, o reino dos céus é dos pobres de espírito, e por isso já sabes: enquanto fores um fiel socretino sempre pronto para elogiar e adorar (por tudo e por nada) as Câncios, os Pittas, os «corporativos, etc, etc, aquele lugar no «além» porque esperas e rezas todos os dias há-de ser teu! Pensa no Vara ou no Pedro Soares e vê lá se eu não tenho razão….

  4. Valupi, não percebo essa tua admiração por Freitas. Que fez o homem de tão marcante? É professor competente de direito, dá pareceres? Há mais a sê-lo e a fazê-lo. Fundou o CDS, nada contra, tinha todo o direito. Estávamos já em democracia. Depois deixou o CDS, esteve uns anos na ONU, pareceu regressar mais arejado, a ponto de aceitar integrar um governo socialista. Sol de pouca dura. OK, estava doente. No geral da sua trajectória política, deixa-me a impressão de alguma insconstância, à mistura com o gosto de algum protagonismo para o qual, no entanto, não tem estofo. Parece-me sempre um tanto desadaptado (afinal, teve o seu baptismo político no tempo do antigo regime). Por isso, o apoio a Cavaco não me surpreende, mas também não se pode dizer que seja um apoio de peso.

  5. Caro Valupi,
    Uma aulitas de história de Portugal Contemporâneo não fariam nada mal a alguns dos seus comentadores.
    Mas se a Professora Maria Fernanda Rollo diz, que alguns alunos de terceiro de História, na Universidade Nova, na disciplina de História de Portugal Contemporâneo “têm dificuldade em distinguir o 28 de Maio do 25 de Abril”…quem sou eu para “acusar” de incompetência alguns dos que por aqui passam.
    Freitas do Amaral e Amaro da Costa, criando o CDS “cobriram” toda a direita conservadora (liberais? onde foram descobrir tal aleivosia?…) do “Portugal profundo” e ajudaram a construir uma Democracia plural, moderna, ocidental e deram-lhe um referencial partidário.
    Acham pouco?
    Dos pais fundadores da nossa democracia, com Mário Soares, é o único vivo.
    Sá Carneiro e Álvaro Cunhal já se “passaram”.
    Não ter memória admite-se: questão geracional impõe essa desmemoriação.
    Grave, mesmo grave, é a ignorância.
    Mas, como o escreveu Bento Espinoza: -A ignorância nunca foi argumento.
    Diogo Freitas do Amaral tem um lugar na história, e por boas e muitas razões.
    E isso não se pode confundir com a espuma actual dos seus, dele, dias.
    Isto é válido para ele como, e também, para Mário Soares.

  6. Freitas do Amaral teve o azar de ter nascido tarde demais. Tivesse ele mais 30 ou 40 anos e teria tido uma brilhante carreira política na União Nacional.

    Assim…

  7. Como o albergaria estranha a associação do Freitas ao liberalismo, penso que eu sou um daqueles comentadores ignorantes a quem ele se refere. Bem, então lembremos alguns factos históricos ao «sabichão» que parece ser um dos tais que confunde o 28 de Maio com o 25 de Abril.
    Freitas era o «menino bonito» do Marcelo Caetano (o tal da «primavera»), já o disse; o CDS foi o único partido que votou contra a constituição saída do 25 de Abril (nessa altura até o PPD se dizia adepto do socialismo); a família política do CDS na Europa sempre foi a dita democracia-cristâ, de que, como é sabido, fizeram e fazem parte os partidos da Thatcher e do Cameron, da Merkel e do Kohl, isto é partidos conhecidos por serem conservadores nos costumes e (neo)liberais na economia (e em sintonia com os quais agora anda a «esquerda» socretina).
    Portanto e olhando para o resto da Europa se há partido português que é um equívoco é o PSD (pois até quis fazer parte da internacional socialista), sendo que o CDS (equívoco no nome, também) é que seria naturalmente o maior partido de direita em Portugal. Assim, também por isto se pode dizer que se o Freitas fica para a história é porque não teve o papel que devia ter como líder da direita (e portanto não fica para a história), ao ser ultrapassado pelo Sá Carneiro «social-democrata» (mais um equívoco, a par do «socialista do PS, lembre-se). Porque se há partido que cobriu o Portugal profundo conservador foi o PPD e não o CDS, bastando ver os resultados eleitorais dos anos 70 para ver que todo o interior norte e centro rurais eram laranjas.
    Enfim, se o Freitas não tivesse qualquer ligação ao liberalismo então sim é que seria estranha a sua passagem pelo governo «socialista», porque no que diz respeito aos costumes o Pinto de Sousa só aprovou coisas que escandalizariam qualquer conservador (como o Freitas moderno, isto é o César das Neves, demonstra). Mas quem sabe se não foi por isso mesmo que ele ficou doente e cansado e se foi embora…

  8. Penélope, para além de te remeter para as sempre rigorosamente informadas e vividas notas do nosso amigo josé albergaria, valorizo em Freitas a sua independência, aquilo que te leva a dizer que ele foi “inconstante”. Ora, a que achas que ele devia ter sido constante senão à sua consciência?

    A sua aceitação do convite para entrar na política depois do 25 de Abril, precisamente pelas suas conotações com o anterior regime, foi um acto de grande coragem. E a sua vida até agora confirmou como ela estava enraizada no seu ser. Quando aceitou ir para um Governo PS, amigos e familiares deixaram de lhe falar, o partido que fundou retirou a sua fotografia e enviou-a para o Rato e passou a ser apodado de vendido pelos mesmos que o idolatraram no passado. Depois de ter estado no Governo de Sócrates, não se inibiu de o criticar em variadas ocasiões. Com Freitas, temos a certeza de que fala em total liberdade, sem dever nada a alguém. É uma autoridade.

    Aquilo a que chamas “gosto de protagonismo” eu vejo como paixão pela política, nesse sentido mais alto em que a sua realização pessoal passa pela experiência de deixar a sua marca na Cidade. Isso, para mim, é admirável. É um dos fundamentos da democracia, a matéria-prima da cidadania.

  9. Valupi: discordamos. A independência pode ser louvável, mas, quando é ditada por estados de alma, como parece ser demasiadas vezes o caso de Freitas, transforma-se em errância e desenquadramento. Ficará na história como o fundador de um dos partidos da democracia, o da direita mais conservadora, em condições na altura bastante adversas. Depois dessa fase, Freitas fez um percurso, quiçá surpreendente, mas, na minha opinião, mais no sentido da desorientação política do que no da coerência. Este seu percurso foi-lhe retirando peso político e esbatendo a sua aura de autoridade. No entanto, admito que, neste momento, até poderia ter sido uma alternativa a Cavaco.
    Esta é uma resposta forçosamente rápida ao que disseste. Encontro-me rodeada de Natal beirão, correntes de ar, lareiras e alvoroço da criançada por todo o lado. Voltaremos certamente ao assunto. Passa um bom Natal! O mesmo para todos os que nos estiverem a ler!

  10. «Independência», «coragem», «paixão pela política»: eis as «magníficas razões» pelas quais o Freitas vai ficar para a História, segundo o Valupetas. Está visto que os «pobres de espírito» são puros e inocentes, e que, por isso, os livros de História adequados à sua inteligência são aqueles livros infantis com muita bonecada e em que os «bons» vencem os «maus». É a tal coisa: a pequenada gosta é de herois, principalmente daqueles que voam e que por isso estão acima de quaisquer interesses ou visões ideológicas do mundo.
    Mas provavelmente aquelas serão também as «magníficas razões» pelas quais o Valupetas anda tão fascinado e hipnotizado pelo Pinto de Sousa. De facto, o Pinto de Sousa como personalidade «independente» que é, e apenas fiel à sua consciência (de aldrabão, claro), é um tipo «liberto» de quaisquer compromissos ideológicos e eleitorais; «corajoso» como é, e sendo um lutador contra os privilegiados, é um tipo sempre disponivel para fazer cortes nos salários, nos subsídios, nas despesas sociais, mas também para baixar a cueca aos mercados e à banca (para a qual dirigiu dois terços da despesa do Estado «Social», segundo o Tribunal de Contas); apaixonado pela política como é, e sendo um mestre na arte da manipulação, gosta de aparecer constantemente para apresentar relatórios e estatísticas manipulados e omissos, mas que convecem as cabeças da pequenada socretina sempre desejosa de assistir a qualquer palhaçada ou fantochada (como é o caso da subida do salário mínimo quando se sabe que a inflação dos bens essenciais vai anular essa subida e mesmo superá-la).
    Ah… Como é bonito e feliz o mundo da pequenada socretina… Enfim, é Natal.

  11. Reconheço, Artur S: com esse teu comentário bateste-me por KO*. Fiquei sem palavras e acho que hoje já nem vou conseguir dormir…

    *A ler com duplo sentido.

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