Os elefantes iam esmagando os macaquinhos de imitação.
Arquivo mensal: Junho 2010
Um livro por semana 188

«Vozes do Ventre da Lua» de José Miguel Noras
Depois do efémero da publicação no jornal «LAMEGO hoje», 38 textos surgem agora em livro num registo mais permanente. Livro não é jornal; sabe-se. O título justifica-se numa ideia do autor: «Se o paraíso não for na Terra, como assinalou Herculano, então o Douro só poderá ser comparável ao Ventre da Lua.» Como exemplo do tom e do timbre destas crónicas cita-se uma parte do texto do autor sobre Alexandre Herculano (1810-1877) intitulada «um escritor entre aspas?»:
«Quem entrar na capital do Ribatejo, pela Calçada do Monte, depara com uma placa toponímica assinalando tratar-se da Rua Alexandre Herculano. Logo a seguir fica o Mercado Municipal, da autoria de Cassiano Branco. Ainda antes de chegar à Sé Catedral, há um monumento a Alexandre Herculano, virado para Vale de Lobos, onde o escritor viveu e morreu. As inscrições desta estátua enfatizam a homenagem do povo de Santarém ao autor de O Monge de Cister, promovida em 1935. Estranhamente, sob o nome da Rua Alexandre Herculano, a placa toponímica ostenta a palavra «Escritor», assim mesmo: escritor entre aspas! Este vulto do liberalismo, além de escritor, foi poeta, teatrólogo, jornalista, historiador, deputado, presidente de Câmara, bibliotecário, soldado, publicista, agricultor, especialista em azeites, etc., etc. Reduzir a dimensão de uma vida plena e preenchida como a de Herculano, à sua faceta literárias, já seria um atrevimento. Apresentá-lo como «escritor» entre aspas é puro «delírio cultural» – dirá a voz da crítica».
(Editora: O MIRANTE, Prefácio: José Saramago, Capa: Casulo de Xico Lucena)
Prémio Confirmação – Blogosfera 2010
No dia 2 de Janeiro, mandei um abraço ao Carlos Santos, adentro das manifestações de estima da quadra e em correspondência a uma simpatia sua no A Regra do Jogo, blogue entretanto apagado. Na altura, saiu-me a fórmula Prémio Revelação, não por alinhar nessas populares correntes de premiação, muito menos por as iniciar, mas por ser uma expressão ilustrativa do percurso do Carlos na blogosfera. De facto, o que fez foi notável, desde que começou a invadir as caixas de comentários dos blogues políticos para deixar links dos seus textos, algures no princípio de 2009, até ao seu feérico apoio ao Governo e ao PS, tendo sido um dos mais activos promotores do Simplex. Após as eleições, entrou numa deriva política de 180º, alteração tão súbita e radical como não se via desde a conversão de Sabbatai Zevi ao Islão. Enfim, não mudaria nada ao que escrevi, pois o Carlos foi aquilo: uma inacreditável máquina de escrever, um polemista de vocação e um exemplo exterior de serôdia etiqueta com todos, camaradas e adversários.
Salto quântico para 17 de Fevereiro e a ranhosa calúnia publicada pelo Correio da Manhã, com o nosso Carlos como protagonista pimpão. Já tudo foi dito, os alvos reagiram de imediato, e até há bem pouco tempo pensei que, pura e simplesmente, iria desaparecer de cena por não ter mais ninguém que nele voltasse a confiar, nem sequer para lhe dizer as horas. Afinal, foi para o Corta-Fitas, um blogue ultramontano, e nele tem estado em acelerada mutação molecular para o absolutismo monárquico e o fundamentalismo católico. Isso quer dizer que estamos a lidar com uma personagem maior do que a vida, um ser que já não pisa o solo que pisamos, um ente cujo corpo é constituído exclusivamente por luz e sombra – o Zelig lusitano.
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Vinte Linhas 494

Dissertação breve para o olhar de Marta
Há, no olhar de Marta, a sombra das partituras da música das ondas do mar, compassos felizes que, sempre de sete em sete, organizam novas melodias. Nos poucos metros quadrados de um escritório, o olhar de Marta prolonga o rumor da água, o som do vento, a luz da espuma, o doirado da areia sem fim.
No tempo agressivo desta rua (Bombeiros, Polícia, Viaturas oficiais) o olhar de Marta organiza, por cima das sirenes, uma gramática de harmonia. Porque o olhar de Marta delimita a Rua do Alecrim como as fronteiras de um país ou de um quadro. À direita, como por milagre, os cacilheiros surgem colados às telhas dos prédios do Cais do Sodré. Do lado mais próximo do perímetro do olhar de Marta estão os carris molhados há minutos pela chuva inesperada de Junho. Parecem duas linhas de um caderno de apontamentos onde os olhos de Marta fazem a nova pontuação do lugar.
Mas há sempre algo de nebuloso no fascínio dos olhos de Marta. Não são as pestanas nem as sobrancelhas, não é o rebordo ciliar nem a pupila, não é a íris nem as pálpebras mas é o conjunto no seu todo, é uma espécie de perfume, é o seu porte solene e quase altivo sabiamente misturado com a humidade da ternura que faz do seu olhar uma enseada de sossego e paz à beira de um mar de conflitos.
No bulício desordenado da cidade, o olhar de Marta agrupa, constrói e ordena de novo o ritmo do Mundo. Entre a Rua da Misericórdia e o Largo Camões, entre a Rua do Alecrim e o Cais do Sodré fica o mundo de Marta, um mundo delimitado pelo esplendor da luz. Digamos, a concluir, o Mundo assim como num quadro de Silva Porto.
Domestic Violence: Why Some Women Have Real Reason to Fear the World Cup
Um aviso que faz sentido em vários países.
Cineterapia

Don Juan DeMarco_Jeremy Leven
You want Don Juan DeMarco, the world’s greatest lover, to talk to you? What do you know of great love? Have you ever loved a woman until milk leaked from her as though she had just given birth to love itself, and now must feed it or burst? Have you ever tasted a woman until she believed that she could be satisfied only by consuming the tongue that had devoured her? Have you ever loved a woman so completely that the sound of your voice in her ear could cause her body to shudder and explode with such intense pleasure that only weeping could bring her full release?
Ainda só realizou um filme, apesar dos 69 anos. Mas já escreveu vários. Começou como psicólogo, é casado com uma psicóloga, continua ligado à psicologia. E o filme realizado tem como protagonista um psiquiatra. Um psiquiatra que é tratado e curado pelo seu paciente esquizofrénico. Milagre do amor.
Have you never met a woman who inspires you to love? Until your every sense is filled with her? You inhale her. You taste her. You see your unborn children in her eyes and know that your heart has at last found a home. Your life begins with her, and without her it must surely end.
Quando se vai fazer o primeiro filme aos 53 anos, é natural que se reúna um grupinho de gente conhecida para não assustar: Francis Ford Coppola, Marlon Brando, Johnny Deep, Faye Dunaway, por exemplo. Também ajuda ter actores secundários irrepreensíveis. Depois é só juntar o argumento, montar e está pronto a servir.
There are only four questions of value in life, Don Octavio. What is sacred? Of what is the spirit made? What is worth living for, and what is worth dying for? The answer to each is the same: only love.
Este filme é obscenamente terapêutico. Quem o vê, e revê, e volta a ver, corre o sério risco de trocar a máscara que julga ser a do seu destino pela que é da sua liberdade. Cuidado. Isto é, cuidado contigo se ainda não a trocaste.
Sadly, I must report that the last patient I ever treated, the great lover Don Juan DeMarco, suffered from a romanticism which was completely incurable, and even worse, highly contagious.
Tanatos
Desde meados de 2009 que o DIAP de Aveiro é um elemento de grave perturbação social e condicionamento político. Apesar das suas práticas e critérios terem sido desautorizados pelo Procurador-Geral da República e pelo Presidente do Supremo, Marques Vidal e Costa Gomes continuam a pretender obter consequências da tese de atentado contra o Estado de direito que defenderam com base em escutas. O PSD é cúmplice desta judicialização da política, explorando os materiais captados para lançar suspeições caluniosas, o que configura uma situação de espionagem política. Mas toda a oposição é igualmente cúmplice da violação do segredo de Justiça, e respectiva falência do Estado de direito, pois foi a partir da publicação ilegal de alegados excertos das escutas que os deputados decidiram levar o caso para a Comissão de Ética e para a Comissão de Inquérito.
É sintomático que Marcelo Rebelo de Sousa, famigerado mentiroso, se tenha saído com uma declaração decadente:
Estamos em crise e tirar consequências significaria dissolver a assembleia, eleições antecipadas, uma paralisia para o país.
Marcelo, recorrendo ao confrangedor argumento de que Sócrates mentiu por ter respondido no Parlamento como Primeiro-Ministro sem esclarecer que também possui um cérebro que lhe permite ler jornais, não se pronuncia acerca de todas as implicações do que propõe irresponsável e displicentemente. E são elas:
– As respostas escritas dadas por Sócrates à CPI ou são aceites como verdadeiras ou continuam a gerar novas questões. Se não há mais perguntas, nem provas que desmintam essas respostas, o caso acabou. Se a CPI nada mais procura descobrir, e não refuta as declarações de Sócrates, mas conclui pela existência de dúvidas e suspeitas, então estamos perante uma manobra que viola a Constituição. Será um escândalo inaudito e não deve ficar impune.
– Se a posição do grupo parlamentar do PSD continuar a ser a de convicção pela existência de uma conspiração política para controlo da TVI, tanto Passos Coelho como Cavaco Silva terão de ser confrontados e responderem inequivocamente quanto à validação que fazem da acusação. Caso não se demarquem da suspeição, e a repudiem, o Governo deve apresentar a demissão.
– Se há partidos que vão sair da CPI a dizer que a compra da TVI tinha intenções políticas, terão de pedir a demissão de Zeinal Bava e Henrique Granadeiro. Eis um corolário inevitável.
Marcelo alinha no despautério a que assistimos incrédulos, apenas se preocupa com o calendário mais favorável para ir a votos. Os fins justificam os meios, esta a regra de ouro dos sociais-democratas, ensina o Professor. E é muito útil imaginar o que aconteceria se a CPI dispusesse das escutas para fazer os seus interrogatórios. A visão de um Pacheco a espumar da boca, exigindo a Penedos e Vara que descodifiquem esta frase e aquele nome, humilhando-os com a teatralização de uma superioridade moral implacável, é a imagem mesma da degradação suprema. A política teria desaparecido substituída pela tirania da verdade, a verdade dos acusadores.
E para quê? Para que serviria essa tortura quando, à volta das escutas, responsáveis e factos desmentem a possibilidade de conspiração? Para destruir os adversários, ora, ancestral pulsão de morte. Acima de tudo, para o Pacheco poder ir para a velhice convencido de que foi ele quem derrubou o formidável Sócrates.
Menos vezes menos
Se ainda havia alguma dúvida quanto ao fatal azar que Queiroz arrasta consigo, a lesão de Nani contraída a treinar, num movimento acrobático a pedido do seleccionador, afastou-a para sempre. As expectativas já eram anãs, a Selecção não entusiasma nem convence ninguém, mas agora o anão estatelou-se ao comprido com o afastamento de um dos jogadores em melhor forma, mais motivado e com talento suficiente para resolver jogos sozinho em jogadas e remates inspirados.
Que desvario se segue? Cristiano Ronaldo lesionar-se ao dar um autógrafo? Danny raptado e vendido em peças num recanto do Soweto? Sá Pinto aparecer de surpresa no Valley Lodge para espancar Liedson e quem mais apanhar pela frente?
Por incrível que possa parecer, essas aberrações seriam o melhor que podia acontecer a Portugal. Queiroz, para se livrar da maldição, tem de chegar a um ponto em que até os adversários se comovam com a sua desgraça e, vencidos pela misericórdia, desistam de querer ganhar.
Com muito azar – determinado, rigoroso, crescente – podemos mesmo acabar campeões.
Vinte Linhas 493
Dissertação para Marta sobre uma foto de 1966
A Avenida João XXI em 1966 era só meia rua, terminava nuns taipais que davam para uma velha quinta abandonada. Quem reparasse bem, via os quintais e as traseiras dos prédios do Campo Pequeno. Foi preciso deitar abaixo dois desses edifícios para a Avenida ser rasgada do lado da Praça e para ficar ligada ao Areeiro, lá onde durante o Verão se ouviam os ecos dos aplausos das corridas de touros de quinta-feira à noite. Essas pessoas que viviam nesses prédios foram cuspidas para onde? Talvez Olivais, Amadora, Porto Salvo, Cacém ou Queluz. Não sabemos, nem saberemos nunca para onde foram desterrados os seus mais elaborados sonhos de futuro.
Hoje, quando o Sol rasga o silêncio da tua casa, entre a varanda do lado da Avenida João XXI, debruçada sobre a febre do trânsito citadino e a marquise do lado das traseiras, debruçada sobre o sossego dos quintais, ninguém imagina tudo o que aconteceu na Avenida João XXI nestes últimos 44 anos.
A foto regista o que restou das casas demolidas, os carris da linha do Bairro do Arco do Cego, um cilindro vagaroso sobre o saibro, um monte de pedras, um automóvel estacionado, uma camioneta com ferramentas, outro cilindro mais afastado e, bem no meio de tudo, um homem que parece dar vozes de trabalho aos da camioneta. A lentidão visível de tudo isto contrasta com a actual velocidade.
Hoje quem cruza este espaço parece que procura apenas o usufruto da velocidade. Não sabe nem talvez possa vir a saber que em 1966 a Avenida João XXI era só meia rua e terminava nuns taipais que davam para uma velha quinta.
A deontologia nunca fez farinha
Crespo, num espaço denominado Jornal das 9, e com aquela cara de ódio à beira da explosão que se tornou usual nos últimos 2 anos, noticia-se. Informa que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social arquivou a sua queixa contra o director do Jornal de Notícias; por alegada censura ao recusar, ou questionar, a publicação da crónica “O Fim da Linha”, na edição de 1 de Fevereiro de 2010. Faz uma pausa e especifica, funéreo, ter a decisão sido unânime. Faz nova pausa. E remata com outra notícia, esta de 16 de Abril, quase dois meses passados: o parecer do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas acerca do mesmo caso, no qual se conclui pela existência de atitude censória. Fim de opinião em causa própria mascarada de jornalismo.
Talvez se deva deixar de falar no Crespo, ele é apenas mais um egomaníaco que representa o papel de semideus anti-regime. Enquanto for útil a Balsemão, continuará nas nuvens a espalhar a sua verrina contra os políticos, os partidos, o Estado, a sociedade. Que quer, que ideias e valores defende, que tipo de jornalismo é este que vive de insinuações e suspeições? Ninguém adivinha, ninguém vai perder uma caloria a tentar descobrir. O modo como não se inibiu de pôr em causa os nomes de Nuno Santos e Bárbara Guimarães, subitamente suspeitos de serem cúmplices ou testemunhas de conspiração governativa para o afastar, chegaria para arrumar a figura e esquecê-la de imediato. A forma como explorou comercialmente o caso, primeiro escrevendo uma crónica baseada em declarações não provadas, e depois aproveitando a responsabilidade de José Leite Pereira para uma vitimização canalha, então, prova que Crespo é um bufão venenoso e patético. Nem a Assembleia da República escapou à sua hipocrisia megalómana.
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Vinte Linhas 492
Fernando Grade – A minha Amália chama-se Hermínia Silva
Acaba de ser publicado o nº XLVII dos cadernos de Poesia Viola Delta com «poemas sobre as Mãos e outros textos» de 15 autores além de um poema de David Mestre (1948-1998) na contracapa: «Todas vós / e tu Noémia e tu / Branca Rosa do meu coração / por todas / vós / o gengibre, a cola / o fel. Por ti / pkena Suzette do (bairro) Marçal / as bicicletas dormindo, dormindo / sorrias, sorrias / Onde / a manhã / (pedalando, pedalando / a navalha da tua boca) / braba / rompia /encostada / à lata».
O livro abre com o texto de Fernando Grade intitulado «A minha Amália chama-se Hermínia Silva» que responde a Joaquim Ferreira de Bragança, ex-delegado da Editora na dita cidade. Vejamos um excerto: «A verdade é que os restos mortais da cantadeira alcantarense nunca deveriam ter sido levados para o Panteão Nacional. Criou-se assim um precedente levado da breca. Amanhã, quando for embora o futebolista Eusébio da Silva Ferreira, o Eusébio deve ser sepultado no Panteão Nacional. E antes disso, seria o interior leonino José Travassos que foi o primeiro futebolista lusíada a ter dragonas de grande estrela, foi o primeiro nacional seleccionado para uma selecção europeia, através da qual ganhou o apodo de «Zé da Europa». De outro modo não aceito que levem um dia para o Panteão Nacional a Rosa Mota, mais justo seria que levassem a atleta Fernanda Ribeiro, porque é mais medalhada internacionalmente que a Rosinha. Esta, depois de ter deixado as corridas a sério, corre furibunda por uma popularidade barata, não quer ser esquecida nem por mais uma, o que é deveras ridículo. A Hermínia Silva não tina menos carisma; a Amália era muito mais penteadinha.»
Speculum Calumniae
É mesmo o que parece? Ou seja usa neste post informação pessoal que obteve na sua actividade clínica para responder a um dos membros do blogue Insurgente? Dir-se-á que é muito vago e muitíssimo variável aquilo que Ana Matos Pires sugere sobre os familiares da pessoa do Insurgente a que responde mas, mesmo como brincadeira de mau gosto, é difícil aceitar este tipo de alusões. E francamente há coisas com que os médicos não podem brincar. Espero sinceramente ter percebido mal.
*
Foi só com este exercício de miséria moral, de uma das mais fanaticamente difamantes personagens da praça pública, que aceitei uma nova explicação para o fenómeno da sua intervenção cívica: ela não entende o que lê.
Porém, ficámos a saber que na sua infeliz realidade há médicos a usar informações confidenciais para troca de galhardetes em blogues. Porquê? Porque foi só isso o que lhe ocorreu perante uma referência cujo contexto era linguístico, abstracto, remetendo para temáticas disciplinares, conceptuais, teóricas, não de relação clínica fulanizada. E foi essa pulhice que resolveu tornar pública para efeitos de ataque pessoal, usando um registo de cagança tão bolorento que lhe deve ter deixado o teclado encardido.
Estar esta noja relacionada com o Zé Manel não é apenas uma coincidência, antes resulta da evidência que a frente da calúnia, a tal obra do Demo que o mentiroso do Pacheco inventou para a sua milionária indústria da política-espectáculo, tem obreiros e actua com crescente força. Não mora é nos locais para onde ele apontou, coisa que se explica recorrendo a algumas noções básicas de óptica.
CHACHA
De cada vez que o actual Presidente da República discursa, segue-se o desporto do tiro à citação. Os melros que botam faladura largam os seus palpites quanto aos destinatários de certas passagens, frases, palavras e vírgulas. O endereço que desperta maiores certezas e entusiasmos é o do Governo. Tudo o que pareça ser mensagem de Belém para S. Bento é exaustivamente analisado e repetido. Este frenesim prova que os discursos presidenciais são opacos e equívocos, caso contrário ninguém perderia tempo com hermenêuticas de café feitas em cima do joelho. Passaríamos para as consequências das intervenções. Ora, nunca há consequências, diga lá o Presidente o que disser, nem mesmo quando chega ao ponto de profetizar uma situação explosiva. Não admira que a Casa Civil aposte antes no poder de um outro tipo de verbo Público para levar a água ao seu moinho.
Existe um certeiro índice de avaliação dos discursos presidenciais chamado CHACHA (Converseta Habitual e Aparvalhada para Cavaco Hipnotizar as Audiências). Existe porque o acabo de inventar, o que muito me facilita a sua aplicação. Resulta da soma de três indicadores: a taxa de inanidade, a taxa de aborrecimento e a taxa de sonsice. O índice varia de 0 a 10, sendo 10 o valor correspondente à chachada máxima.
Vejamos citações retiradas do discurso proferido hoje, em Faro, por Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa – pedindo antecipadas desculpas pela reduzida quantidade exibida face à quantidade de exemplos ao dispor no texto:
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Vinte Linhas 491

Irina Marcelo Curto – cruzes e ícones na Rua do Século
No Convento dos Cardais (Rua do Século, 123) está patente até 30 de Junho das 14h30 às 17h30 (excepto aos domingos) uma exposição de 20 trabalhos de Irina Marcelo Curto. O seu interesse pelos ícones desenvolveu-se em 2004 na cidade de Moscovo quando, por sugestão do representante do Patriarca de Antioquia, teve lições com a pintora e restauradora de ícones M. F. Kirillova. Já antes, enquanto viveu no México, se tinha interessado pelos trabalhos em gravura de metal. As suas peças de prata e estanho são criadas com instrumentos originais. Ela desenha os seus próprios modelos, converte-os para metal e assina gravuras de excepcional qualidade.
Nas suas pinturas respeita a tecnologia autêntica e antiga; utiliza materiais de bases orgânica e mineral – lápis-lazúli, cinábrio e siena que envolve numa emulsão de ovo e numa solução de álcool. As auréolas e as molduras dos seus ícones são decoradas com luzalite, cornalina, ametistas, granadas, turmalinas e outras pedras preciosas.
Preciosa seria a palavra escolhida se fosse obrigatório escolher uma única palavra para definir esta exposição. A Divindade do Belo é um título feliz para este conjunto. A reprodução que acompanha este texto (convite aos leitores) é uma imagem de preciosa atenção. Pelo que se percebe do trabalho de minúcia do desenho da Mãe e do Filho que segura o globo do Mundo. O Rei dos Reis é ainda uma criança mas já dispõe dos fios que vão fazer girar o Mundo entre milagres e sermões, entre pães e peixes multiplicados e quarenta dias no deserto a meditar. Mas já é o Menino de Sua Mãe que antecipa trinta anos neste abraço o doloroso segurar do corpo descido da Cruz.
Imbecilidades da esquerda imbecil
Transformar Salazar, Estado Novo e PIDE num tabu foi uma das maiores imbecilidades que os comunas fizeram contra as promessas democráticas do 25 de Abril. Ainda continuamos a pagar por esse silenciamento que perpetuou o atrofio cívico do anterior regime. Para o PCP, organizado para a clandestinidade, não havia qualquer interesse em regenerar a comunidade como um todo, antes importava segurar o monopólio da revolução e manter erguidas as barricadas.
Onde há interditos, há sectarismo, acefalia, culto. Fica bem numa pseudo-religião, não tem lugar na cidade livre.
Geografia, uma ciência maltratada
Olli Rehn recordou ontem que Portugal e Espanha já anunciaram ou vão efectuar “reformas estruturais substanciais”, mas avisou que “mais terá de ser feito”.
“Eu apenas posso encorajar os dois países a continuarem as reformas estruturais, por exemplo no mercado do trabalho e no sistema de pensões”, disse ontem Olli Rehn, acrescentando que isso terá de ser feito “com toda a determinação que é necessária nesta situação delicada”.
*
Que um finlandês misture Portugal com a Espanha, pode ser esquisito – até porque eles lêem jornais que se farta para ajudar a passar o Inverno – mas não é grave. Grave, grave, mesmo grave, é o caso daqueles que vão para o Parlamento Europeu berrar que já não somos um Estado de direito. Para estes galifões, a realidade é uma terra muito distante.
Traidores à Pátria
Tinha de ser um lampião a ir vender os nossos segredos a uma potência estrangeira.
Gazeta 125
ESTRADA DE MACADAME – José do Carmo Francisco
LCXXV – «Sabra e Shatila – Um acto de suprema cobardia»
No tempo da Estrada de Macadame a minha relação com a guerra era muito distante. Lembro-me de uma tarde ter fugido para o sótão depois de ter assistido à passagem de largas dezenas de jipes do Exército Português em manobras. A guerra para mim era e foi sempre longe. Houve soldados de Santa Catarina em Cabo Verde, nos Açores, na Índia. O meu primo Luís Freire esteve na Índia e foi feito prisioneiro na invasão de Goa. No tempo da guerra colonial eu próprio estive muito perto de ser mobilizado mas acabei por ser escolhido para uma especialidade (Contabilidade e Pagadoria) que me levou para o Lumiar, Évora e Pontinha onde participei no «25 de Abril». A recente invasão do Líbano por parte do exército de Israel veio trazer à memória dos mais atentos o cenário de uma outra invasão em 1982. Nessa altura o jornalista brasileiro Cláudio Abramo escreveu um notável libelo no jornal «Folha de São Paulo» em 20 de Setembro, faz agora 26 anos. Vejamos: «No sábado, por volta de mil civis palestinianos prisioneiros nos campos de refugiados de Sabra e Shatila foram massacrados por autores desconhecidos. As suspeitas voltam-se para o major Haddad, quisling libanês dos israelitas, que tem uma milícia própria e que combateu ao lado do glorioso exército de Israel na sua brutal invasão do Líbano e que, nesta operação, liquidou vários palestinianos, fez interrogatórios e outros serviços sujos. Esse major Haddad é municiado e mantido por Israel e o mundo sabe que ele recebeu, como presente pessoal de Menachem Beguin, o forte de Beaufort, tomado pelos tanques de Israel aos palestinianos, no início da ofensiva judaica contra o Líbano, um país sem defesa. A ligação entre esse major Haddad e Israel é, portanto, conhecida, reconhecida e sacramentada. Não há dúvida possível. Assim como Israel é satélite americano, o major Haddad é satélite, extensão, braço e arma de Israel. Não há como escapar disso. Se foram os seus milicianos que massacraram os civis palestinianos – entre os quais há crianças e mulheres – o culpado por esse crime hediondo e por esse acto de suprema cobardia (afinal não foram os palestinianos que incineraram os judeus nos fornos, foram os alemães de Hitler) é o primeiro-ministro de Israel, Menachem Beguin, que devota ao major Haddad um carinho todo particular. Beguin é, portanto, o culpado pelo massacre de palestinianos ocorrido no sábado. A acção de Israel foi tão desastrada e deu-se dentro de tão grande violência que o Conselho de Segurança da ONU, pela primeira vez por unanimidade (os EUA tiveram de votar com a maioria), condenou a operação e exigiu a imediata saída dos judeus.»
Um dos aspectos mais interessantes desta crónica tem a ver com a palavra «quisling» que o jornalista brasileiro aplica ao major Haddad. Lancei-me à descoberta e consultei o meu velho «New Collegiate Dictionary» da editora Merriam Webster. Lá aparece o nome Vidkun Quisling: nome de político norueguês que nasceu em 1887 e morreu em 1945. Foi colaborador dos nazis e chegou a primeiro-ministro entre 1942 e 1945. Foi julgado e assassinado em 1945, no fim da II Grande Guerra.
Cláudio Abramo terminava a sua crónica aplicando a Menachem Beguin a mesma frase sintética que um dia Carlos Lacerda tinha dito de um ex-presidente: «Ele é mais feio por dentro do que por fora». Eu termino a minha crónica lembrando que é positivo aprender pelo menos uma coisa nova em cada dia. Eu também não sabia qual era o sentido da palavra «quisling» nem sabia quem era a pessoa «Quisling» e fui à procura de uma explicação. Aqui fica para todos os nossos leitores que ainda gostam de pensar pela sua cabeça e não tomam ideias em «comprimidos» dos comentadores televisivos.
Pináculos da estupidez
Requisito este texto do João Pinto e Castro para cumprir a função consignada.
Ferreira Leite bem avisou
Ferreira Leite andou desde 2008, altura em que sentiu um abalozinho na economia internacional, a repetir que a Alemanha ia em direcção ao abismo por teimar em omitir o grande problema do país: o endividamento. Todos nos lembramos da Manela a gritar que Merkel estava fora da realidade e era uma mentirosa. Ao tempo, ninguém lhe deu ouvidos. Até gozaram, os trastes.
Agora, é o que se vê: a Alemanha vai entrar numa redução draconiana das despesas e aumentar os impostos, contra tudo o que foi prometido ao eleitorado. Fica só a faltar que o Pacheco conte o que já sabe do envolvimento da Angela na tramóia para mudar a programação das sextas-feiras à noite na TVI.

