Vinte Linhas 493

Dissertação para Marta sobre uma foto de 1966

A Avenida João XXI em 1966 era só meia rua, terminava nuns taipais que davam para uma velha quinta abandonada. Quem reparasse bem, via os quintais e as traseiras dos prédios do Campo Pequeno. Foi preciso deitar abaixo dois desses edifícios para a Avenida ser rasgada do lado da Praça e para ficar ligada ao Areeiro, lá onde durante o Verão se ouviam os ecos dos aplausos das corridas de touros de quinta-feira à noite. Essas pessoas que viviam nesses prédios foram cuspidas para onde? Talvez Olivais, Amadora, Porto Salvo, Cacém ou Queluz. Não sabemos, nem saberemos nunca para onde foram desterrados os seus mais elaborados sonhos de futuro.

Hoje, quando o Sol rasga o silêncio da tua casa, entre a varanda do lado da Avenida João XXI, debruçada sobre a febre do trânsito citadino e a marquise do lado das traseiras, debruçada sobre o sossego dos quintais, ninguém imagina tudo o que aconteceu na Avenida João XXI nestes últimos 44 anos.

A foto regista o que restou das casas demolidas, os carris da linha do Bairro do Arco do Cego, um cilindro vagaroso sobre o saibro, um monte de pedras, um automóvel estacionado, uma camioneta com ferramentas, outro cilindro mais afastado e, bem no meio de tudo, um homem que parece dar vozes de trabalho aos da camioneta. A lentidão visível de tudo isto contrasta com a actual velocidade.

Hoje quem cruza este espaço parece que procura apenas o usufruto da velocidade. Não sabe nem talvez possa vir a saber que em 1966 a Avenida João XXI era só meia rua e terminava nuns taipais que davam para uma velha quinta.

9 thoughts on “Vinte Linhas 493”

  1. Bom dia de véspera de Sto. António! Se a chuva não deixar assar sardinhas, dê-se-lhe a volta por cima, como à vida, e que se comam fritas.
    Quanto á foto:
    Tenho um amigo que nasceu naquele sítio, entre a Fábrica da Cerveja e a Fábrica Lusitania, e que, de vez em quando me fala deles e de como foi criança naquele pedaço de cidade que, naquele sítio, ainda ainda mostrava o campo donde os seus pais tinham vindo.
    E a Isabel nasceu ali e foi expulsa para o Bairro das Pedralvas onde se habituou a viver, suspirando pela bairro onde nasceu e que chegou a ser o que de mais chique Lisboa tinha, com a Pastelaria Roma, o Café Londres, o Cinema Roma e sei lá que mais. No Club do Bairro, o Zé Ricardo, se a memória não me nega onome, dançava-se nos domingos à tarde, eram matinés dançantes, esta faz parte das memórias da Isabel que aqui evoco.
    Eu próprio conheci o sítio pois, com intermitências, trabalhei na Praça de Londres desde 1968, já tinham aberto a João XXI. Foi por ali a escola das minhas filhas e com elas brinquei no intervalo do almoço nos jardins que havia, aos índios, à escondidas, ao lobo mau.
    E assisti à construção da CGD, o edífio imenso para a nossa dívida pública.
    Guardo, da antiga fábrica, um vaso de plantar sardinheiras e o respectivo prato de resguardo, policromados, também pode dar craveiros, manjericos e até salsa.
    Meu caro José do Carmo Francisco, acrescente estas minhas memórias às suas e ofereça-as à sua filha.
    Se ela se mantiver por ali, ainda se lhe vou oferecer o vaso da Lusitânia que agora está à entrada da minha porta com uma avenca velhinha.
    Bom dia
    Jnascimento
    Com tuda esta treta, estava a esconder-vos que eu próprio fui cantor no coro da igreja de S.João de Deus que se ergue ufana ali bem perto. Uma segunda voz modesta.
    Jn

  2. Obrigado Caro Amigo . São memórias valiosas com o espírito do lugar. A minha filha vai gostar, tenho quase a certeza embora ela seja de um tempo «outro»: o tempo em que já não se ia de eléctrico para o trabalho ou para a escola de semana e para a bola ao domingo. Ainda recordo os eléctricos: Sporting 2, Benfica 5, Atlético 18, Belenenses 16 e 17.

  3. O amigo que eu refiro chama-se Agostinho Monteiro e hoje obsequiou fraternalmente um grupo selecto de amigos, onde esu estava, com um prato neorealista, uma sopa de beldroegas, que é do paladar dele e que nós lhe comemos com muito agrado.
    Se fosse um prato ribatejano poderia ter saido de uma página de Redol ou de Soeiro. Assim, alentejano dos ganhões, até pode ser de Saramago, desculpe lá Zé Francisco, antes da gastronomia castelhana o ter lenvantado do chão.
    Boa tarde
    Jnascimento

  4. Sobre o texto nada, sobre a imagem nada, apenas falas de uam coisa lateral. Assim nunca vais chegar a lado nenhum. Safa!

  5. Tanta conversa só para dizeres que a tua filha foi morar para a Avenida João XXI, porque é chique, se tivesse ido morar para Chelas, Pontinha ou Picheleira, ficavas calado! És sempre o mesmo peneiras.

  6. Não percebes nada, és um lapão: o princípio e o fim do texto têm a ver só com a Avenida JOão XXI rasgada na Praça do Campo Pequeno. Conforme foto anexa de autor desconhecido e descoberta na Livraria das Escadinhas de São Crsitóvão.

  7. O princípio e o fim do texto? Então e o meio? Estás a esquecer-te do que para ti foi o mais importante. Sim, tu percebes e vês tudo, os outros não. És mesmo um percevejo!

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