Dona Viola Minha Dama

Viola da Terra, menina

Nas mãos de Hélio Beirão

Cria uma voz divina

Na humana condição

Viola de cinco parcelas

Nas mãos de José Elmiro

Traz a luz das estrelas

Até ao ar que eu respiro

Volta o som das trindades

Júlia, David, José Beirão

Um ciclone de saudades

Sai de dentro do violão

Viola regional Terceirense

Por ela a Terra tem voz

Assim a morte se vence

Nas festas de todos nós

A morte não mata Lira

A Lira fugiu na canção

A sua vida ainda respira

Nas mãos de Hélio Beirão

Entre Angra e Monte Brasil

O cicerone é uma viola

Sai uma música gentil

Que não precisa de escola

Olhos pretos numa esquina

O Sol perguntou à Lua

Por onde foi a menina

Que vinha por esta rua

Está na viola da Terra

Escondida na madeira

O amor em pé de guerra

Perdura uma vida inteira

Sapateia e chamarrita

Chegou no sabor a beijo

Casa dos Açores, visita

Debruçada sobre o Tejo

Intermitência

“Você é mas é uma puta de uma advogada”, vocifera, agressiva, a mulher irada na direcção de C. “Sim”, intrometo-me. “As palavras que usou estão, efectivamente, correctas. A ordem é que não”, explico. “Ela é, na realidade, a advogada de uma puta”, finalizo.

Lost in translations

Men’s talk tends to focus on hierarchy—competition for relative power—whereas women’s tends to focus on connection—relative closeness or distance.

But all conversations, and all relationships, reflect a combination of hierarchy and connection. The two are not mutually exclusive but inextricably intertwined. All of us aspire to be powerful, and we all want to connect with others. Women’s and men’s conversational styles are simply different ways of reaching the same goals.

The context in which women’s focus on hierarchy and men’s on connection is most obvious and most intense: the family. In particular, sisters provide insight into relationships among women that are deeply influenced by competition and hierarchy as well as connection.

Fonte

Um livro por semana 185

«A Carvão» de Fernando de Castro Branco

Fernando de Castro Branco (n. 1959) reúne nestas 313 páginas os seus cinco volumes anteriores e os recentes «Arte do espaço», «Marcas de verões partidos» e A carvão». Poesia que se organiza numa voz pessoal e muito própria, ramifica-se logo em duas direcções: Natureza e Cultura. A Natureza está em poemas como «Folha de gelo»: «As noites continuam a arrefecer no Planalto. Antigas / lendas descem pelas telhas e é necessário guardar o lume / inteiro para escrever esta folha de gelo». A Cultura surge nas referências ao Cinema, à Pintura, à Ficção ou à Poesia, tanto estrangeira (Neruda, Maria Zambrano, Ezra Pound, Rimbaud – entre outros) como nacional – por exemplo Ruy Belo, Duarte Faria, A.M. Pires Cabral, José Agostinho Baptista ou Sophia: «Em Creta haverias de falar da dura luz, da redundância / da sabedoria e de Sophia. Também da pureza das águas, / da transparência dos instantes, dos mil anos / das oliveiras e dos barcos. Ou a canção / do silêncio sobre os sepulcros / em forma de palácios».

Outras leituras são possíveis. O poeta parte do individual («Continuo alegremente a festejar dias de aniversário, há gente morta por todo o lado») para chegar ao colectivo: «Há tantos amigos tombados no fundo da memória / e assim os deixamos entregues a cicatrizes incuráveis / às laboriosas aves de rapina do remorso. Minha culpa / minha máxima e intransferível culpa».

(Editora: Cosmorama, Capa: Antoine Pimentel, Grafismo: Jorge Melícias)