Gazeta 125

ESTRADA DE MACADAME – José do Carmo Francisco

LCXXV – «Sabra e Shatila – Um acto de suprema cobardia»

No tempo da Estrada de Macadame a minha relação com a guerra era muito distante. Lembro-me de uma tarde ter fugido para o sótão depois de ter assistido à passagem de largas dezenas de jipes do Exército Português em manobras. A guerra para mim era e foi sempre longe. Houve soldados de Santa Catarina em Cabo Verde, nos Açores, na Índia. O meu primo Luís Freire esteve na Índia e foi feito prisioneiro na invasão de Goa. No tempo da guerra colonial eu próprio estive muito perto de ser mobilizado mas acabei por ser escolhido para uma especialidade (Contabilidade e Pagadoria) que me levou para o Lumiar, Évora e Pontinha onde participei no «25 de Abril». A recente invasão do Líbano por parte do exército de Israel veio trazer à memória dos mais atentos o cenário de uma outra invasão em 1982. Nessa altura o jornalista brasileiro Cláudio Abramo escreveu um notável libelo no jornal «Folha de São Paulo» em 20 de Setembro, faz agora 26 anos. Vejamos: «No sábado, por volta de mil civis palestinianos prisioneiros nos campos de refugiados de Sabra e Shatila foram massacrados por autores desconhecidos. As suspeitas voltam-se para o major Haddad, quisling libanês dos israelitas, que tem uma milícia própria e que combateu ao lado do glorioso exército de Israel na sua brutal invasão do Líbano e que, nesta operação, liquidou vários palestinianos, fez interrogatórios e outros serviços sujos. Esse major Haddad é municiado e mantido por Israel e o mundo sabe que ele recebeu, como presente pessoal de Menachem Beguin, o forte de Beaufort, tomado pelos tanques de Israel aos palestinianos, no início da ofensiva judaica contra o Líbano, um país sem defesa. A ligação entre esse major Haddad e Israel é, portanto, conhecida, reconhecida e sacramentada. Não há dúvida possível. Assim como Israel é satélite americano, o major Haddad é satélite, extensão, braço e arma de Israel. Não há como escapar disso. Se foram os seus milicianos que massacraram os civis palestinianos – entre os quais há crianças e mulheres – o culpado por esse crime hediondo e por esse acto de suprema cobardia (afinal não foram os palestinianos que incineraram os judeus nos fornos, foram os alemães de Hitler) é o primeiro-ministro de Israel, Menachem Beguin, que devota ao major Haddad um carinho todo particular. Beguin é, portanto, o culpado pelo massacre de palestinianos ocorrido no sábado. A acção de Israel foi tão desastrada e deu-se dentro de tão grande violência que o Conselho de Segurança da ONU, pela primeira vez por unanimidade (os EUA tiveram de votar com a maioria), condenou a operação e exigiu a imediata saída dos judeus.»

Um dos aspectos mais interessantes desta crónica tem a ver com a palavra «quisling» que o jornalista brasileiro aplica ao major Haddad. Lancei-me à descoberta e consultei o meu velho «New Collegiate Dictionary» da editora Merriam Webster. Lá aparece o nome Vidkun Quisling: nome de político norueguês que nasceu em 1887 e morreu em 1945. Foi colaborador dos nazis e chegou a primeiro-ministro entre 1942 e 1945. Foi julgado e assassinado em 1945, no fim da II Grande Guerra.

Cláudio Abramo terminava a sua crónica aplicando a Menachem Beguin a mesma frase sintética que um dia Carlos Lacerda tinha dito de um ex-presidente: «Ele é mais feio por dentro do que por fora». Eu termino a minha crónica lembrando que é positivo aprender pelo menos uma coisa nova em cada dia. Eu também não sabia qual era o sentido da palavra «quisling» nem sabia quem era a pessoa «Quisling» e fui à procura de uma explicação. Aqui fica para todos os nossos leitores que ainda gostam de pensar pela sua cabeça e não tomam ideias em «comprimidos» dos comentadores televisivos.

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