O evangelho de Saramago

Saramago diz que as suas declarações em Penafiel foram retiradas do contexto, o que muito o chateou – até porque ele já tinha descontextualizado magistralmente o que havia para descontextualizar ao falar da Bíblia, não havia necessidade de andarem para aí armados em macaquinhos de imitação. O contexto, explicou com paciência, era a promoção de um livro. O seu. Lamentavelmente, os Torquemadas de serviço quiseram discutir umas coisas sem interesse nenhum.

Saramago queixa-se de que anda tudo a falar do que ele disse ou não disse, mas ainda ninguém leu o livro. O seu. E há muitos à disposição para serem lidos. Muitos.

Saramago diz que a Bíblia deve ser lida literalmente, sem carência de padrecos a bichanar a diabólica exegese que nos hipnotiza. Tal como se fazia nos primórdios, afiança, e tal como ele faz num livro. O seu.

Cheira a catinga

O que os ranhosos se têm rido à pala dos bacanos do Mali, só porque alguns jornalistas portugueses responderam a um questionário e deu nesta esfrega, nós e os pretinhos ou nós e os pobrezinhos. É escolher – mas o cheiro, esse, é inconfundível.

Tem razão Marinho Pinto?

No Prós e Contras, Marinho Pinto hierarquizou os males da Justiça e colocou na base, ou no topo, o poder irresponsável e vitalício dos juízes. A solução passaria por lhes pagar mais e responsabilizar melhor. Também aludiu à excessiva juventude, e inevitável imaturidade, em começo de carreira; pessoas que aos 27 anos, por exemplo, podem estar a exercer um poder absoluto sobre terceiros e nas matérias ética e antropologicamente mais complexas e melindrosas.

Quem conhece pessoalmente juízes, seguramente que reconhece neles traços de soberba. É inevitável, o sistema assim o promove ou acentua. E até há pouco tempo ninguém na sociedade portuguesa, civicamente atrofiada por razões históricas, ousava levantar a voz contra a qualidade do trabalho dos magistrados judiciais. O mesmo que maldizer o médico antes da consulta, nem um louco seria tão louco ao ponto de apelar a que se fizesse injustiça. Mas será bonito este respeitinho? Muito feio, é fonte de disfunções sociais tão graves que afectam a economia, e de perversões psicológicas tão trágicas que destroem vidas.

Se os partidos, que existem no pressuposto de serem representativos e responsáveis, continuarem a permitir esta monarquia judicial, competirá aos cidadãos livres organizarem-se para defenderem o seu direito a uma Justiça verdadeiramente republicana. Ou vai Marinho Pinto continuar a ter razão nos próximos 100 anos?

Pilas e pilares

Parece que chegou ao fim o caso que opôs Sócrates a João Miguel Tavares, com base no texto José Sócrates, o Cristo da política portuguesa. Ao tempo, e ainda antes de saber da existência do processo, revoltou-me a violência moral do que o João fizera. Aquele registo obscenamente juvenil e ressabiado, apenas para dar nas vistas e brincar aos machos Alfa, era injusto. Vindo da nova geração de cronistas, era triste. Especialmente, estas duas passagens:

o apartamento de luxo comprado a metade do preço

À medida que se sente mais e mais acossado, José Sócrates está a ultrapassar todos os limites. Numa coisa estamos de acordo: ele tem vergonha da democracia portuguesa por ser “terreno propício para as campanhas negras”; eu tenho vergonha da democracia portuguesa por ter à frente dos seus destinos um homem sem o menor respeito por aquilo que são os pilares essenciais de um regime democrático. Como político e como primeiro-ministro, não faltarão qualidades a José Sócrates. Como democrata, percebe-se agora porque gosta tanto de Hugo Chávez.

Na referência à compra do apartamento, reproduzia-se insidiosamente uma notícia que carecia de posteriores informações para sequer se saber da sua verdade objectiva. No entanto, ela aparecia num elenco de suspeitas confirmadas, ao lado de casos já fechados e outro em investigação, enquanto este nem sequer era um caso fora da zona de influência do Zé Manel.

No referência aos predicados democratas de Sócrates, expelia-se uma bisonha e parola comparação com Chávez, misturada com a pior cegueira de não querer ver como a postura do Primeiro-Ministro, até quando nomeou a TVI e o director do Público no Congresso do PS e numa entrevista na RTP, foi sempre de exemplar lealdade para com a democracia. Em todas as ocasiões foi salvaguardada a autoridade da Justiça e das equipas de investigação, tal como foram dadas explicações aos portugueses do que se podia assumir: a inocência. O resto, tinha de esperar – apesar dos pulhas não terem dado uma semana de tréguas nos ataques soezes. Aquele quem não deve, não teme no enfrentar a campanha negra, atitude galharda e rara em Portugal, surgia como deves, porque és temido, no subtexto canino de mais um Tavares assanhado.

Os publicistas podiam acompanhar as suas rábulas com anexos, apêndices ou entradas na Wikipidea. Quais serão os pilares essenciais de um regime democrático segundo a sapiência do plumitivo? Não faço ideia, mas ter depositado nas mãos dos tribunais uma queixa em matérias de honra faz de Sócrates alguém que se dispôs a receber do Estado uma lição de moral. Não estou certo de que o João Miguel Tavares tenha facilidade em perceber quão essencial para a democracia é o carácter de quem assim procede.

As casas de Blackheath Park

São todas de madeira e de vidro

As casas de Blackheath Park

A outra metade é feita de tijolos

Tristes porque são todos iguais

Na sua tão repetida monotonia
À volta da avenida fica o arvoredo

Antigo como as casas dos guardas

Lembra um velho tempo de quintas

Com cavalos e carroças no mercado

Hoje só recordado aos domingos
Esquilos nos ramos, corvos na relva

De noite raposas fogem assustadas

Dos poucos táxis a circular na rua

Na escuridão fria da noite inglesa

À hora dos comboios mais raros
Envolvido nas rotinas das escolas

Levo na mão o meu neto de manhã

E vou buscá-lo perto do meio-dia

Pego na pasta azul com o seu nome

E levo o saco da fruta que ele espera

Todos os dias trocam o livro da mala

São elefantes, borboletas e ovelhas

Entram na floresta que eu lhe conto

E tremem de medo dos monstros

Como eu tremo de medo da doença
São todas de madeira e de vidro

As casas de Blackheath Park

Frágeis perante a neve a chegar

Tal como eu frente ao pâncreas

Que de súbito há-de ficar cansado

Tudo é intenso e frágil nos dedos

Maneira de eu dizer adeus à vida

Todos os momentos são preciosos

Para que o meu neto me lembre

E não se esqueça de me recordar

Escuta, Israel

As declarações de Saramago acerca da Bíblia e religião têm a indisfarçável marca da senilidade. O seu cérebro regrediu ao infantilismo, mostra-se incapaz de discernir entre sentidos literais e figurados, denotação e conotação, sinal e símbolo, fantasia e realidade, histórias e História. Que fez Deus ao oitavo dia, pergunta um impaciente Saramago, farto de saber que o Barbudo esteve ocupado na criação dele próprio, o luciferino e rebelde Saramago. Ah, se lhe dessem metade, ou a metade da metade, ou a metade da metade dum cagagésimo do poder que Deus é, quanta actividade, tantos milagres… A semana não teria dias de descanso, ele não dormiria. E ai de quem recusasse alinhar na obra do Senhor Saramago, ai de quem se opusesse à Sua criação…

O registo alienado das suas declarações é equivalente a dizer-se que a Muralha da China é um atroz monumento à segregação étnica e racial, que as Pirâmides do Egipto nasceram da ociosidade da classe burguesa, que a destruição dos Budas de Bamiyan lhe poupou dinamite e que a empregada da Carolina Patrocínio vive em regime de escravatura por causa das putas das grainhas. Eis um anjo caído, furibundo com a tal avaria nos mecanismos celestes.

O fel de Saramago é primário e patético demais para merecer consideração. A sua visão materialista e biológica da divindade é grotesca, pois em nada corresponde aos significados dos textos, das práticas e das experiências dos religiosos. É enquanto cidadão que ele ofende os crentes, não enquanto pensador ou escritor. Como escritor, que escreva o que quiser. Como pensador, que pense se conseguir, o que não é o presente caso. Muito longe vai o tempo em que se deu a vida e o destino contra as tiranias de capa ou espada cristã – muitas e muitas vezes em nome dessa mesma Bíblia manipulada pelas feras e do sopro de liberdade que as suas palavras guardam. Muitos morreram para que Saramago pudesse ter nascido numa sociedade secularizada, científica e humanista. Essa guerra acabou, Deus morreu – não persigas o Deus ressuscitado, Saramago, pois ele esconde-se agora nos miseráveis e tu continuas a procurá-lo dentro do teu narcísico bestunto.

É impossível dizer que se leu o Antigo Testamento, ou a Tora, sem dizer que se encontra lá o exacto grito que Jesus lança em direcção ao Céu, nesse momento em que se transforma em nós:

Eloí, Eloí, lemá sabactáni?

Como sabemos, não vem dos que se sabem abandonados por Deus o mais leve perigo. O perigo vem dos que nos querem forçar a trocar de Deus. O perigo vem dos que alegam possuir a Verdade, mas não fazem o Caminho, nem celebram a Vida.

Guerra ao Nobel da Paz V

Qualquer Nobel é uma consagração. Pressupõe obra feita. Mas não obra acabada. Acaso se espera que um cientista largue a investigação por ter recebido o Nobel? Ridículo. O contrário, sim. Aplicar o dinheiro na investigação, também. E quanto aos escritores? O Nobel será o certificado do fim da inspiração e da gana de escrever? Absurdo. Então, por maioria de razão, para um político o Nobel não será mais do que farol.

Explicar a escolha de Obama como fenómeno de moda é preguiça ou cinismo. Porque o fenómeno da moda é sociologia inevitável em qualquer das categorias. Há modas na Física, na Química e na Medicina. Há modas na Economia, tantas. E sem modas, ou o seu exacto reverso, não seria sequer possível atribuir o Nobel de Literatura, não se formaria quórum.

Assim como um Oscar não é um Nobel, e ninguém se baralha, assim um Nobel pode ser um Oscar, e muitos ficam baralhados. Precisam de ir mais ao cinema, precisam de maravilhas.

Vinte Linhas 418

As ameixas de Outubro

Na manhã de domingo, entre os numerosos suplementos dos jornais, por cima do som do saxofone tenor à porta da estação do comboio, para além dos grupos nas mesas do lado de fora do café a aproveitar todos os minutos de sol, surge o esplendor do mercado semanal de Blackheath. Ainda há pequenas quintas entre Dartford e Dover, entre Rochester e Whitstable, essa magnífica Whitstable com as suas casinhas de madeira junto aos últimos seixos da praia em frente ao início estuário do Tamisa.

Por isso os feirantes vendem ostras e peixes diversos, cenouras e batatas, couves e tomates, galinhas e carne de porco, leite e maçãs, empadas e flores, pão e ovos. Aos domingos, o espaço do parque da estação de caminho de ferro está livre de automóveis, as pessoas ficam em casa, às nove e meia as igrejas abrem-se às crianças e o seu ruído alegre é tolerado pelos celebrantes. Blackheath já foi uma terra de ninguém, algures entre Greenwich e Lewisham. Por isso as caravanas de ciganos ficavam aqui sabendo que nenhum município os iria expulsar. O mercado de domingo tem o aspecto das feiras antigas (carne, peixe, vegetais, leite, pão) mas sem os saltimbancos. Os furgões comerciais com refrigeração datam o mercado de 2009 mas, de súbito, as ameixas, as inesperadas ameixas de Outubro, instalam a dúvida no tempo. Em Portugal as ameixas aparecem em Junho pelo Santo António. De um momento para o outro a incerteza no calendário. As ameixas de Outubro, algures perto da cada onde viveu John Stuart Mill e onde Charles Gounod escreveu música, fazem a insólita pontuação do tempo nas manhãs de domingo, entre os jornais e o som do saxofone tenor à porta da estação do comboio.

O mercado é sagrado

A Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana.

Sobre o livro sagrado, eu costumo dizer: lê a Bíblia e perde a fé!

Na Igreja Católica não vai causar problemas porque os católicos não lêem a Bíblia, só a hierarquia, e eles não estão para se incomodar com isso. Admito que o livro possa incomodar os judeus, mas isso pouco me importa.

Caim matou o irmão porque não podia matar Deus. É uma história horrível de crime e violência e, mostra um Deus cruel, porque deixa que isso aconteça.

A Bíblia passou mil anos, dezenas de gerações, a ser escrita, mas sempre sob a dominante de um Deus cruel, invejoso e insuportável. É uma loucura!

O Corão, que foi escrito só em 30 anos, é a mesma coisa. Imaginar que o Corão e a Bíblia são de inspiração divina? Francamente! Como? Que canal de comunicação tinham Maomé ou os redactores da Bíblia com Deus, que lhes dizia ao ouvido o que deviam escrever? É absurdo. Nós somos manipulados e enganados desde que nascemos!

No Catolicismo os pecados são castigados com o inferno eterno. Isto é completamente idiota! Nós, os humanos somos muito mais misericordiosos. Quando alguém comete um delito vai cinco, dez ou 15 anos para a prisão e depois é reintegrado na sociedade, se quer.

Mas há coisas muito mais idiotas, por exemplo: antes, na criação do Universo, Deus não fez nada. Depois, decidiu criar o Universo, não se sabe porquê, nem para quê. Fê-lo em seis dias, apenas seis dias. Descansou ao sétimo. Até hoje! Nunca mais fez nada! Isto tem algum sentido?

Deus só existe na nossa cabeça, é o único lugar em que nós podemos confrontar-nos com a ideia de Deus. É isso que tenho feito, na parte que me toca.

Saramago

*

Uma figura da Bíblia serve como fonte de inspiração para um escritor. Esse escritor odeia os outros escritores que criaram a tal figura. E odeia os leitores desse livro cheio de livros e de histórias inventadas, umas, e registadas, outras, onde foi roubar o material literário. Acontece que o escritor vende os seus livros, não os oferece nem guarda no baú. O escritor está velho e gasto, fragilizado, mas não pára. Pode estar xexé, não está gagá. A seguir a este, virá outro livro. Outro negócio. Agora é só o tempo de ofender os católicos, os cristãos e os judeus. Porque o mercado é sagrado.

Delenda Cavaco

Parece que se instala antes a lei da selva no jornalismo, que acabará por sair prejudicado, pois as fontes confidenciais perderão a confiança nos jornalistas e deixarão de lhes transmitir informação.

Provedor dos Leitores do Público

*

Espectacular sofisma de Joaquim Vieira, o último de quem se esperaria tal erro dada a sua função e correctas tomadas de posição neste imbróglio. Realmente, se tudo se resumisse à categoria informação, o DN teria violado a deontologia ao publicar as tais informações que lhe chegaram por fonte que pretende ficar anónima. É óbvio, não mereceria qualquer discussão. Só que estamos noutro campeonato, o da intensa discussão. Ou seja, o que aconteceu não é óbvio. Melhor, a publicação de emails entre jornalistas do Público, onde se descreve uma conspiração tentada, apresenta uma óbvia antinomia: entre os interesses do Público e os interesses do jornalismo. É que eles não correspondem, e espanta que Vieira não só ignore, como perverta a lógica do caso.

A tese que defende é a que José Manuel Fernandes tem usado desde a publicação das noticias em Agosto – sustentar que as suspeitas de vigilâncias eram reais e que a sua divulgação tinha sido permitida pelas autoridades da própria Casa Civil. Visto assim, o Público tinha feito muito bem em dar à estampa a novidade, pois havia no paranóide clima psicológico uma legítima, relevante e urgente matéria jornalística. Problema fundamental nesta questão toda: há uma contradição insanável entre as responsabilidades da Casa Civil, sob tutela unipessoal do Presidente da República, e a utilização anónima de um órgão de comunicação social para uma sua intervenção institucional. Pura e simplesmente, e logo na origem, a notícia do Público transcendia os códigos jornalísticos e constituía-se como acção política. A neutralidade era impossível, sequer foi tentada. Por um lado, a notícia garantia estar autorizada, por outro lado, impedia uma directa responsabilização ao manter anónima a sua fonte. Em termos institucionais, portanto, estávamos numa esquizofrenia. A notícia era e não era para levar a sério. Dava para todos os gostos e usos, mas só até ao momento em que Cavaco a confirmasse ou desmentisse. Ora, nem uma coisa nem outra ele fez, antes pelo contrário.

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A moral da amoralidade

Estratega partidário que se preze não vê nas vitórias de Isaltino Morais e Valentim Loureiro o triunfo dos porcos, nem antecipa na derrota de Fátima Felgueiras e Ferreira Torres a regeneração da Grei. Basta ter o hábito de tomar café no café para ser especialista em corrupção. Não se fala de outra coisa, da corrupção no desporto à corrupção na política, passando pela corrupção que melhor e mais profundamente se conhece: a da vidinha, a nossa. Assim, votar num político acusado de corrupção, ou deixar de votar, não é assunto de moral. Muito menos da moral de plástico utilizada para brincar aos politólogos.

Talvez Isaltino tenha vencido porque é mesmo um excelente gestor autárquico, pouco interessando ao eleitor que tenha tido o azar de se deixar apanhar a roubar. Talvez Fátima tenha perdido por já não conseguir roubar, pouco interessando ao eleitor a qualidade da sua gestão autárquica.

É preciso ter sempre presente uma noção ancestral: é a lei que faz o criminoso.

Discípula de Dostoiévski

Dia entediante, moroso e deprimente. Tudo anunciava um dia sem surpresas. No café da esquina, esperando o café e o pão integral com manteiga, vasculhando na net do telemóvel o último resultado do Euromilhões, dou com o sorteio 42 com resultados e números mais que familiares. Será possível? Eu nunca ganho nada. Tenho o 30. Tenho o 12. Tenho o 4 nas estrelinhas. Vou ver quanto me deve calhar: 9 Euros e uns restos. Fixe. Vou voltar a jogar. Faço notar à cambada leitora que gastei apenas 2 euros na jogada, ok?
Vou à tabacaria onde joguei:
- Acho que isto dá alguma coisita.
A canastrona melosa mete o papel na máquina:
- Dá. 9,04 Eur. Mas não lhe posso dar o dinheiro. - começou a gemer. Sabe como é, hoje é Sábado... Se fosse dia da semana...
- Mas eu tencionava voltar a jogar!!! - digo eu, toda lixada pela sovinice trenga da outra.
Emudeceu, não respondeu e tirou os 9,04 Eur. da caixa.
Pego num papel e começo a preencher: 4 apostas + 1 jocker.
- Mas assim a menina gasta o dinheiro todo!
- Quero lá saber. O dinheiro é meu, não é? - retorqui, irritada pela lição de moral logo de manhã.

De tarde, na reunião de trabalho, o pessoal todo acusava uma cara de aterro por causa dos horários. Lembrei-me então de jogar, não jogar com números, mas jogar com palavras.
- Ei, sabem que eu ganhei no Euromilhões?
As cabecinhas atarefadas ergueram-se de imediato:
- Hã? O quê? A sério?
- Ganhei, sim - corroborei com o sorriso mais Pepsodent da cidade do Porto.
Ficou tudo a olhar para mim, de olhos esbugalhados, à espera de algo. À espera de quê? Da quantia?
- Ganhei 9 euros e tal.

*

Oferta da nossa amiga Cláudia

Oposição à oposição

Desde a maioria PS, em 2005, o maior obstáculo ao aproveitamento dos talentos nacionais, inteligências e vontades, tem sido a crise da oposição. À esquerda, temos duas forças que não podem ambicionar a mais do que aos 15-20% nos ciclos em que recolham extraordinário voto de protesto. Para crescerem acima dos 20%, teriam de abandonar o radicalismo lunático, alteração que, por sua vez, os faria perder o estatuto de contrapoder. À direita, a paupérrima qualidade dos seus quadros dirigentes conduziu o PSD para um progressivo terrorismo político, onde o labor programático foi substituído pela fúria caluniosa e conspirativa. O CDS assumiu o nicho e ficou a ver como paravam as modas, especializou-se em fiscalizações farsantes.

Eis o cozido à portuguesa que acaba de engrossar com um Parlamento onde não há garantia de governabilidade. Os partidos da oposição não querem assumir responsabilidades para além daquelas que considerarem de modo avulso, e chamam a esse oportunismo merdilheiro fidelidade ao voto recebido. Acontece que o voto se esgota na eleição. Nada mais diz. Não condiciona o eleito. Não pode. Apenas o responsabiliza, o que é algo que apela à sua acção, não à sua inacção. O voto assume que o eleito é capaz de representar o votante numa situação que já não é eleitoral, mas deliberativa, governativa. Continuar a invocar o voto recebido para não governar, ou impedir que outros governem, é estar a perverter o sistema democrático e seus ideais. A questão é de uma evidência confrangedora: caso um qualquer partido da oposição tivesse sido o mais votado, mas sem maioria, desistiria de tentar governar? Ou será que alinharia com a lógica boicotadora da democracia e recusaria qualquer tipo de negociação com a oposição alegando que os votos não lhes foram dados para andarem a fazer cedências aos interesses dos outros partidos? Estamos no reino da estupidez, o reino de Pacheco.

A crise da oposição prejudica gravemente a comunidade, cria disfunções e atrasos, até retrocessos. Não é no PS que está o problema da nossa democracia, bem pelo contrário. O actual PS ousa ser reformista, é uma força de crescimento da riqueza. O problema está naqueles que não conseguem ajudar-se a si próprios ajudando o País. Esses fazem-nos mal, muito.

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Quem se mete com o Coelhoni, ri

Jorge Coelho foi o alvo preferido dos caluniadores, à esquerda e à direita, durante as campanhas para as Legislativas e Autárquicas. Parece que é ilegal ter vida profissional depois de sair do Governo e alguém esqueceu-se de avisar. Passou automaticamente a corrupto, acusação que espelha o carácter de quem a faz, saindo a sorte grande à oposição com o caso do Terminal de Contentores. Só faltou Louçã ter dado ordens para se formarem piquetes de rua, o PC fornecer camionetes de estivadores e gajos de bigode, o PSD oferecer-se para ficar nas esquinas a vigiar, o CDS aproveitar para vender umas mocas de Rio Maior e, justiceiros, partirem para a caçada ao felpudo mamífero.

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Guerra ao Nobel da Paz IV

Obama está apenas nos primeiros 10 meses de contrato, mas já tentou impressionar o patrão com o seguinte:

– Começo da normalização das relações diplomáticas com Cuba.

– Histórico discurso no Cairo, dirigido às comunidades muçulmanas de todo o Mundo, a marcar o início de uma postura dos EUA que é radicalmente nova, ecuménica e pacificadora.

– Operação de Clinton na Coreia do Norte, libertando as prisioneiras e dando um surpreendente sinal de ser possível negociar com o bizarro tirano.

– Fim do conflito com a Rússia relativo ao Escudo Antimíssil. Possibilidade de inversão completa da situação herdada, resultando numa aliança defensiva com a Rússia.

– Papel crucial no acordo de paz entre a Turquia e a Arménia, acabando um dos mais antigos conflitos internacionais.

Portanto, se Obama, até Janeiro, ainda conseguir marcar pontos na Palestina ou no Irão, creio que os noruegueses não terão outro remédio senão fazerem a primeira dobradinha na história dos Nobel. E, estando em causa o que está em causa, o feliz dono de um Cão de Água Português até que merecia esse absurdo cheio de sentido.