Espero que se aguentem muito tempo no 1º lugar. E a dar espectáculo. O futebol merece este saudosismo.
Arquivo mensal: Outubro 2009
Contra a apagada e vil tristeza
«Esta é a ditosa pátria minha amada». Inspiro-me em Camões para terminar. Aqui estamos. Para servir a República. Para servir os portugueses. Para servir a Pátria que, tal como Camões, todos amamos.
Discurso da tomada de posse do XVIII Governo
Amar a Pátria. É uma ideia chocante. Escandalosa.
Denial – Not a river in Egypt
Tenho mantido, ao longo do meu mandato, uma rigorosa imparcialidade perante as diversas forças políticas. Como afirmei na minha tomada de posse, sou e serei o Presidente de Portugal inteiro. Enquanto Presidente da República, sou um observador atento da realidade e tenho, perante todos os Portugueses, o dever de dizer o que penso nos momentos que considerar oportunos.
Não me movo por cálculos políticos. É a consciência que me interpela todos os dias no exercício das minhas funções. Os cargos públicos são efémeros, mas o carácter dos homens é duradouro. Não são os cargos que definem a nossa personalidade, mas aquilo que somos em tudo aquilo que fazemos.
Discurso do Presidente da República na Tomada de Posse do XVIII Governo Constitucional
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Cavaco voltou às justificações, à lamúria ressabiada. Ele repete e repete e repete que é um homem de carácter, de palavra, de inatacável e impoluto sentido de Estado. Logo, se algo corre mal no País, a culpa não é dele. A culpa é dos que se movem por cálculos políticos. Desses, os políticos. Aqueles cuja consciência fica adormecida, preguiçosa, não os interpelando diariamente. Talvez nem sequer mensalmente.
E, ó Povo, não são os cargos que definem a personalidade. Por isso, aconteça o que acontecer em Belém, o carácter de Cavaco passará por essas efemeridades como cão por vinha vindimada. Aliás, nem adianta tentar pedir-lhe explicações pelo que se conspira na Presidência, o seu carácter não dá qualquer importância às vicissitudes do exercício de cargos públicos. Interessa-lhe é estar rodeado por pessoas de carácter igual ao seu. E, quanto a isso, já não restam dúvidas.
Do salazarismo que ficou
Os largos anos em que temos vivido sem que se exerça sobre os homens públicos e os seus actos uma crítica independente e salutar, morigeradora dos costumes e sentinela vigilante da moral administrativa, missão que só pode ser exercida por uma imprensa livre; os hábitos e os vícios adquiridos durante esse longo período da nossa história contemporânea, em que uma censura implacável calou as vozes que não afinam pelo diapasão oficial criaram uma hipersensibilidade que se manifesta à mais pequena beliscadura no amor próprio de cada um, ao mais leve toque de florete, ao mais inocente gracejo com que se pretende alvejar seja quem for, desde os mais modestos servidores do Estado aos mais altos dignitários do Regime, pois todo o mundo se considera intangível neste país. Perdeu-se a elegância antiga do torneio dialéctico, o poder de encaixe, o gosto pelo dito de espírito que diverte e não ofende. Não se faz jogo franco e à luz do dia. Ataca-se na sombra. Não se respeitam as regras do jogo. Desferem-se golpes baixos, golpes proibidos. Luta-se com armas desiguais. Concede-se a uns a liberdade que a outros se recusa. Em nome de princípios que se julgam eternos, num mundo em permanente mutação e em plena florescência de ideias.
Norberto Lopes in: A FUNDA, 4º Volume, Portela Filho
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Escrito hoje, numa tentativa de explicar as inventonas de Belém? Escrito mesmo em cima da Revolução e tendo sido publicado dias antes da mesma, em Abril de 1974. Norberto Lopes já merecia ter 3 biografias, 2 romances e 1 filme, ou 1 biografia, 3 romances e 5 filmes, feitos a partir da sua memorável carreira e vivências, caso tivéssemos, cá pela terrinha, uma indústria de conteúdos competitiva tal como a têm os irmãos brasileiros. A sua vida acompanha o século XX, ele que nasceu em 1900 e deu admirável proveito à longa existência. Aqui, aos 73 anos, é de uma acutilância que permanece relevante e actual em 2009. Foi contra os hipócritas da seriedade e da verdade que o Norberto escreveu luminosamente; estando longe de imaginar que Salazar continuaria a influenciar a cultura portuguesa, e parte da sociedade, 40 anos depois de ter caído.
Todos os nomes
não sei se se chegou à parte em que ele enrola e não explica como é que daquelas narrativas alegórico-metafóricas se chega às verdades absolutas da ICAR nem porque cargas de água nestes debates a Bíblia não deve ser levada literalmente mas depois se usa literalmente a Bíblia, cherry-picked, para «justificar» o que interessa…
Comentário de Palmira F. Silva em O não-crente Saramago versus o crente padre Carreira das Neves (ou, refiro-me à crença, será ao contrário?), hoje à noite na SICN
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Muitas pessoas recusam discutir temas de religião, política e moral para evitarem a agressividade verbal que, invariavelmente, nasce incendiária. Essa agressividade ameaça as relações pessoais, ou sociais, ou profissionais. E com razão, pois o mundo profissional, social e pessoal é condicionado pelas ideias que se perfilhem acerca da moral, da política e da religião. Contudo, o preço a pagar por esse absentismo dialógico pode ser, faltando esse outro tipo de discussão que consiste na leitura, o atrofio do pensamento. E com o pensamento atrofiado, é a vida que mirra. Pelo que o melhor é perder o medo às emoções e à má cara das feras, e dos censores, e tratarmos do que mais importa – a vida abundante, a vida viva.
A Palmira faz um excelente trabalho de levantamento, e marcação cerrada, das formas perversas do religioso, esse inevitável confronto da vontade de poder dos credos com a secularidade e seus valores. E, dada a sua formação científica, não poderá ser acusada de carências lógicas. Contudo, este seu comentário permite apelar para o seu treino epistemológico, e pedir-lhe que dê uns passinhos para um território que, aparentemente, conhece mal: a identidade. Para mais, está num blogue que é uma referência nessas matérias, até pode pedir ajuda aos generosos colegas de prosa e reflexão.
Ó PSD, finge que vais cagar e desaparece
João Pinto e Castro deixou a sugestão óbvia: acabar de uma vez por todas com o PSD. Pelo menos, haveria alguma nobreza nessa higiene. Mas tal não vai acontecer, claro, porque aquela rapaziada é alérgica à autocrítica, por um lado, e dada à mania das grandezas, pelo outro. Isso gera as aberrações que temos visto, e que continuam a piorar no diagnóstico e no prognóstico. Neste momento, já nem o reservista Marcelo é capaz de salvar um partido muito mal frequentado e onde terceiras e quartas figuras se vão aproximando, em frenesim de cobiça, do trono vazio.
Olhe-se para esta juliana: Cavaco, Dias Loureiro, Oliveira Costa, Jardim, Barroso, Santana, Ferreira Leite, Deus Pinheiro, Menezes, Paulo Rangel, Aguiar-Branco, Sarmento, Catroga, Arlindo Cunha, Amílcar Theias, Cadilhe, Negrão, Arnaut, Paulo Mota Pinto, Macário Correia, Mendes Bota, Gomes da Silva, Pacheco Pereira, Valentim Loureiro, Isaltino Morais. Faltam aqui muitos outros nomes, claro, mas chegam estes para fazer a pergunta: que lhes deve Portugal? É que estes passarões da política, da finança, dos negócios e da comunicação social representam os últimos 25 anos do PSD. E o cheiro que tresanda dos seus percursos profissionais e/ou intervenções políticas é nauseabundo.
Depois temos os jovens e os outros. Os jovens como Pedro Duarte, que se reclamou vítima de invasão da sua conta de Twitter só para não ter de assumir que tinha um talento especial para detectar mulheres com falta de homem. Ou os jovens como José Eduardo Martins, que em plena Assembleia manda outro deputado para o caralho e lhe oferece porrada, nunca lhe tendo pedido desculpa e passando a exibir vaidoso o novo estatuto de rufia. Eles são um exemplo acabado da cultura de taberna e bordel que faz o encanto dos bastidores do PSD. E temos também os outros, o tecido sociológico de apoio, aqueles que corporizaram no Jamais uma confrangedora reunião de ódio e indigência politica e intelectual. Todos eles alinharam sem um pingo de vergonha nas campanhas de difamação contra Sócrates e Governo, ao mesmo tempo que proclamavam possuir a Verdade. Agora, andam a bicar-se espasmodicamente até que chegue a ração, galinhas tontas que sempre o foram.
Já só falta fechar a porta e mandar fora a chave. Portugal não precisa de vocês, precisa é do espaço que ocupam e dos recursos que abarbatam.
ESTRADA DE MACADAME
CLXXXVIII – «Eu cá nan sei fazeri mas sei pôr defêto!»
No tempo da «estrada de macadame» uma das situações que mais me chocou ao chegar a Lisboa no ano de 1966 com 15 anos de idade, foi a quantidade de pessoas que nas ruas me perguntava e me pedia para ler os destinos inscritos nas bandeiras dos autocarros e dos eléctricos.
Percebi então que, na verdade e apesar das minhas ideias em contrário, em Lisboa havia muitos e muitos analfabetos. E não eram como os de hoje que sabem ler e escrever mas se manifestam por grunhidos e monossílabos; eles não sabiam, mesmo, ler e escrever. Até aí eu tinha visto o analfabetismo como algo de folclórico, insólito e especial tanto em Vila Franca de Xira como no Montijo e também em Santa Catarina mas deparar com muitos analfabetos na capital do nosso país foi algo que me fez estranhar, chocar e surpreender. Não estava nada à espera.
Um salto no escuro
Traquinices
Existe no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros uma mão cheia de grandes explorações de inertes pertencentes a empresas subsidiárias das grandes construtoras. São responsáveis por algumas enormes crateras mas não consigo sequer imaginar que os estudos de impacto ambiental não estejam devidamente aprovados ou que os buracos posam ser simplesmente abandonados no final da exploração. Com essas, suponho que o Parque Natural pouco se deve preocupar e pouco mais lhes resta do que fazer cumprir as condições de licenciamento.
A maior dificuldade para os responsáveis do Parque Natural é lidar com as dezenas, senão centenas de pequenas explorações que proliferam por concelhos como Porto de Mós, Alcanede*, Rio Maior, Mira d’Aire* e outros, porque têm alguma consciência da sua importância na economia local, sobretudo depois do colapso de alguma agricultura e pecuária de subsistência resultante da adesão à CEE e das suas famosas politicas agrícolas.
Vinte Linhas 420
«História de Portugal» de Maria Cândida Proença
A partir do pedido expresso da sua neta Marta, a autora organizou uma História de Portugal para os mais jovens em 7 volumes. Acaba de chegar à minha banca de trabalho o terceiro volume – «Descobrimento s e Expansão».
O grande desafio não é o conhecimento da matéria mas sim a linguagem usada, sempre no ponto de equilíbrio entre o rigor científico e a simplificação que o público-alvo (dos 9 aos 14 anos) pode sugerir. O texto final contou com o apoio de sugestões de José Mattoso, Teodoro de Matos e José Subtil.
Um aspecto muito curioso desta obra diz respeito ao grafismo; além das barras cronológicas e de mais de 700 fotografias, mapas e gráficos, surge nestas páginas a ilustração em 3 dimensões – a fórmula encontrada para, a partir de genuínas gravuras de época, reconstituir mais a carácter as cenas da vida quotidiana em Portugal e no Mundo nos séculos XV e XVI.
De notar que as palavras mais estranhas e difíceis (para os jovens) integram o texto a negro com chamada de atenção para o glossário de 94 termos no fim do volume.
O período de tempo a que diz respeito o volume fica bem ilustrado por esta passagem de Damião de Góis («Crónica de D. Manuel») na página 90: «Eu vi muitas vezes na Casa da Índia mercadores com sacos cheios de moedas de ouro e de prata para fazerem os pagamentos do que deviam por conta das especiarias que compravam. E os oficiais lhes diziam que voltassem outro dia porque não havia tempo para contarem o dinheiro, tanta era a soma que se recebia todos os dias».
(Editora: Círculo de Leitores, Capa: RPVP Designers/Booktailors, Mapas: Leonor Antunes, Revisão: Conceição Candeias, Coordenação: Jorge Garcia)
Pecaminosa trindade
Três erros de casting: Crespo, que não sabia o que perguntar porque não entendia o que ouvia; Carreira das Neves, que não sabia o que dizer porque não entendia o problema; Saramago, que não sabia dialogar porque não se entendia a si próprio. Felizmente, havia Saldanha Sanches, que soube lançar um anátema fiscal sobre um ilustre habitante de Lanzarote, assunto sobre o qual dizem ser um dos maiores entendidos.
A posição de Saramago, fazendo agora uma epoché que nos liberte do seu corpo, resume-se a duas crenças: (i) a de que Deus existe, e que existe como natureza antropopática, e (ii) a de que in illo tempore existiram seres humanos capazes de ler sem pensar. Pela primeira, Saramago mostra-se agastado e denuncia, censura, ofende e castiga o comportamento, personalidade e falta de carácter de Deus. Pela segunda, Saramago imagina ser possível a interacção com um qualquer texto sem um texto prévio (cultura), um texto paralelo (sociedade) e um texto futuro (história), tal e qual como fazem hoje as máquinas, que lidam com arranjos de letras e não com a arrumação das ideias.
Para quem tenha o infortúnio de tentar discutir com ele esta aporia senil, um, e só um, deve ser o repto: que Saramago escreva, ou descreva, o manual de bons costumes para a Humanidade.
Vícios que libertam
Imagina a MTV antes de ter sido transformada num canal para donas de casa com 13 anos e troca a democracia das tabelas pela aristocracia dos clássicos. O resultado são 24 horas de escapismo, com tudo aquilo que faz do escapismo uma das mais inteligentes respostas que 3,7 mil milhões de anos de evolução produziram neste planeta e redondezas.
Como escreveu um chinoca, quem foge vive para fugir mais uma vez. Se for com música, muito melhor.
Bela homenagem
Esta do Daniel Oliveira.
Pelos frutos os conhecereis
De um lado, a nova coqueluche do BE, José Manuel Pureza. Do outro, Frei Fernando Ventura, biblista capuchinho. Um deles, pese embora a sua simpatia e urbanidade, não justifica o esforço de ligar dois neurónios para conservar qualquer pedaço do que disse. O outro é tão rico de saberes e sabedoria que até o espaço entre as palavras se aproveita.
Eis 28.42 minutos que enterram uma polémica que nasceu morta. Mas da qual podem vir bons e sumarentos frutos. Olha um cesto deles aqui dentro.
Só nesse caso
Maneiras que estamos nisto
Enquanto Sócrates volta a repetir o brilhantismo de ter feito convites para o Governo sem que se tivesse ouvido uma pena a cair no chão após a passagem do anjo, o PSD vive num estado de permanente gritaria, intriga e peixeirada.
Enquanto Sócrates volta a surpreender com a inteligência dos seus convites (e nem sequer sabemos, nem temos de saber, quais os que eventualmente terão sido recusados), o PSD não faz a menor ideia de quem quer na sua liderança, nem para quê, nem por quanto tempo.
Enquanto o PS volta a mostrar que é a única escola de boa governação no actual Parlamento, o PSD é um albergue de anarquistas espanhóis.
A carroça precisa do teu empurrão
Ricardo Sardo aproveitou o meu comentário às declarações de Marinho Pinto para partilhar a sua experiência. E o retrato que faz é simultaneamente realista e optimista. De facto, a dança da sociedade com a cultura, havendo desenvolvimento económico, produz gerações mais inteligentes, mais preparadas, mais humanistas. Tem sido assim em Portugal, onde as consequências das sucessivas crises económicas foram sempre inferiores ao desenvolvimento, tamanha era a miséria do País aquando do 25 de Abril. Hoje, o número de alfabetizados, finalistas da escolaridade obrigatória e licenciados, ficando por estes indicadores simples, é enorme por comparação com os resultados do Estado Novo; e mesmo tendo em conta a sua aposta na educação básica. Tal como o quadro moral, legal e intelectual também sofreu alterações que em certas dimensões correspondem a cortes radicais com o passado. Então, sim, a renovação das corporações na área da Justiça está a ser feita inevitavelmente, o futuro é risonho. Mas, e quanto ao presente?
Ocasião para repescar um comentário do Ricardo aqui no Aspirina:
Há muita coisa que aqui poderia escrever, muitos problemas que poderia elencar, mas tudo se resume a uma questão: mentalidade. Temos muitos Velhos do Restelo na nossa Justiça e os problemas só poderão ser ultrapassados com uma nova atitude e uma mentalidade mais aberta e menos conservadora e corporativista. Como já disse o Bastonário Marinho Pinto, a Justiça deve servir as pessoas e não estas a servir a Justiça e os seus operadores.
Neste diagnóstico, falando-se do mesmo, a mentalidade, pressinto uma urgência que não se compadece com a lenta e secreta renovação das águas. Mais: vejo nestas palavras do Ricardo um convite a uma participação dos cidadãos no processo de renovação em curso. Porque não o temos feito, a sociedade tem sido de uma passividade conivente ou autodestrutiva. Ainda não há um clamor suficientemente forte que comprometa os partidos nesta causa.
Entretanto, a referência aos 27 anos veio do mesmo Marinho Pinto, e ele deu-a como exemplo das disfunções do sistema, pois o recrutamento estaria a preencher as magistraturas com pessoas experientes em conhecimentos teóricos, e cultura pop, mas inexperientes nos outros e em si mesmas. Era este o sentido da sua observação, tocando num aspecto para todo o sempre melindroso e inescapável: a aplicação da Lei é uma actividade de interpretação e justificação, mais do que de cálculo ou identificação – logo, encontra na subjectividade do juiz um dos seus fundamentos.
A mera discussão aberta das características cognitivas, psicossociológicas e antropológicas dos profissionais que nos servem pode ser um contributo para a Justiça a que temos direito. Não ambicionava a mais a minha displicente nota, a que o Ricardo, para nosso benefício, deu atenção.
Saramago não resiste ao Benfica
pois
pois. o deus da bíblia não é de fiar. palminhas, saramago.
o deus da bíblia é um autoritário: criou o homem e exigiu-lhe que dominasse os peixes do mar, as aves do céu e os animais que se arrastam na terra
(e ordenou que os comesse quando a fome apertasse, claro).
mas esse deus também é sexista: criou um homem e depois decidiu que o homem que andava nu precisava de uma companhia – criou a mulher e vestiu-os de peles, claro
(alguém teria, depois, de passá-las a ferro).
ai. o deusinho da bíblia andava preocupado com a performance sexual, com a carne do prepúcio, daquele que criou à sua semelhança
(de outra forma, para que mandou circuncidar os meninos de treze anos?)
palminhas saramago: esse deus ordenava homicídios e proclamava as concubinas
(e os guisados).
pronto. não vos chateio mais, seguidores fieis, leitores de palas sem tempo. urge, agora, perguntar: não terão tanta credibilidade esses textos escritos – talvez sobre efeito de marijuana, quem sabe, ou ópio – como os de luz, mais luz, ainda mais luz da alexandra solnado que jura, a pés juntos, receber as mensagens que escreve desse mesmo deus?
o único deus que existe é aquele que sentimos. a força que nos grita para continuar; o sorriso que damos quando, a chover cá dentro, nos olhamos ao espelho; o que nos faz ter prazer em oferecer comida a alguém; o que nos dá alegria em levar, para casa, um cão. esse não precisa de evidências escritas para mostrar qualidade e, perdoem-me, serem alvo de não conformidades explicitas.
pois. o deus da bíblia não é de fiar. palminhas, saramaguinhõ. :-)
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Oferta da nossa amiga Sinhã
Vinte Linhas 419
A Câmara de Lisboa e os alucinados do lixo
Quando era membro da Assembleia de Freguesia detectei que as obras num prédio da Rua da Atalaia me tinham tirado a vista do Tejo. Na Junta e na Assembleia disseram que não valia a pena protestar porque «na Câmara eles não fazem nada». Aqui à porta tenho o muro dum colégio de freiras mas os alucinados dos Sapadores Bombeiros só deixam estacionar em 4 lugares quando podem ser 12. Em suma – má vontade, delírio e autismo. Mais abaixo há o colégio dos Calafates onde os mesmos Sapadores só deixam estacionar 2 quando podem ser 6 lugares. E a Câmara não faz nada para defesa dos moradores pelos 8 lugares perdidos na Travessa da Boa Hora. Mas restaurantes continuam a roubar lugares de estacionamento para colocarem assadores e mesas nos dias de mais freguesia sempre sem multa. Uma pessoa aqui da rua recebeu agora uma carta registada para pagar 90 euros de multa por ter deixado à porta um saco com papéis às 15h 25m dum certo dia de 2008. Incrível e espantoso. Alguém se deu ao trabalho de abrir o saco de plástico e vasculhar para descobrir um nome. Fez fotografias e instaurou um processo de contra-ordenação mas esqueceu-se de perguntar à pessoa em causa se conhecia o regulamento. Se tivesse procurado saber saberia que essa pessoa viveu 5 anos noutra cidade a tirar um curso universitário. Bastava isso para perceber que essa pessoa fez o mesmo que fazia em Évora onde o regulamento é diferente. Mas para esta gente não basta o delírio, é necessária a alucinação. São os alucinados do lixo. Fecham-se em gabinetes e decretam as multas – uma gente que não vive, apenas destrói a vida dos outros. Kafka não faria melhor; com esta gente entra-nos em casa o mundo do delírio e da alucinação.

