A grande lição sobre o caso da professora de Espinho

A confirmar-se a autenticidade da gravação apresentada, temos aqui um caso onde há a realçar os seguintes pontos:

– A professora será, usando uma linguagem técnica de extremo rigor clínico, completamente chanfrada dos cornos. Coisa que pode acontecer a todos, mas que aqui releva pelo facto do seu trabalho ser público.

– Há 3 anos que a comunidade discente nesta escola denunciava nos corredores o que se passava dentro da sala de aula, e ninguém fez a ponta de um caralho. Aposto que há milhões de histórias como esta, de variada tipologia, bastando fazer de mim uma amostra estatística (tenho várias ocorridas até ao 12º ano, a que se acrescentam as da universidade e ainda as das salas de professores e reuniões de avaliação que frequentei como setôr).

– Esta professora constitui-se, segundo os parâmetros do sistema de progressão na carreira docente que os sindicatos querem a todo o custo manter, como um caso de sucesso profissional.

– O psicótico discurso apresenta os topos da superioridade profissional, social e moral que temos vistos exibidos pelos professores nas manifestações e declarações contra as reformas educativas do actual Governo. Esta mesma pessoa, se posta perante uma câmara de televisão agora a verberar o seu ódio contra a Ministra, daria origem a testemunho que a comunicação social aproveitaria para dramatizar a justeza da luta dos desgraçados professores.

A grande lição não é relativa à necessidade de avaliar os professores, apesar de estar definitivamente comprovado que a maior parte deles nem quer nem sabe avaliar um colega, quanto mais ficar exposto ao olhar de terceiros. A grande lição é outra, tão-só prática e irónica: que todos os pais distribuam gravadores e telemóveis aos seus filhos e peçam-lhes para gravar qualquer comportamento anómalo dos professores. Se essa gente não consegue tomar conta de si, que a comunidade assuma a responsabilidade de ensinar quem ensina os seus filhos.

Nota: a pessoa em causa será, provavelmente, uma vítima de distúrbios do foro psiquiátrico, merecendo todo o cuidado e respeito, mas o contexto da situação relatada tem importância política e social que transcende a sua esfera privada.

Se o João Miranda fosse uma gaja


parte II, parte III

Ayn Rand, já ouviste falar? Claro que sim, há sempre alguém a falar dela nos cafés e transportes públicos de Portugal, até aparece na Internet. Por isso sabes bem que esta mulher é absolutamente fascinante, a começar pela facilidade com que pode ser vista como um absoluto monstro inumano. Mas um monstro que está na origem desse superlativo filme: The Fountainhead — entre outras peculiaridades de causar babada admiração. Adiante.

E agora repara na data da entrevista, 1959. Excelente ano, viçoso como poucos. Há exacto meio século, aqueles dois aqui em cima estavam a conversar sobre os mesmíssimos assuntos que, na actualidade, têm ocupado as melhores inteligências planetárias desde Setembro de 2008. E faziam-no na televisão americana, para os burros dos americanos. Desperdícios.

Pois esta exótica e rara mulher tinha um amigo que está no epicentro da crise actual, o famoso Alan Greenspan. Isto anda tudo ligado, eles conhecem-se de ginjeira; sendo mais do que tempo, até porque estou cheio de pressa, para chamar o Miranda. E perguntar: ó Miranda, és homem para te reconheceres nesta gaja?

Louvor e simplificação de Armando Silva Carvalho

Nos mais difíceis momentos, nós, sós

somos o campo na cidade, a surpresa:

– a luz eléctrica, o autoclismo, o jornal à porta

(Era assim quando chegámos, debruçados

na fotografia amarrotada da nossa alma).

Eram eles que há vinte anos partiam

procuravam nomes, ruas, padrinhos vagos,

e, mal pagos numa selva de secretárias,

iam estudar à noite, procurar.

Partimos, saímos mas voltamos sempre

ao pó, quando os carros passavam tão poucos,

quando os moinhos hoje páram tão cansados

quando os rios morrem nos peixes mortos

para lá do horizonte e da ganância.

Eram eles que dormiam mal, sós,

cavaleiros dum selo de correio para a mãe

dez tostões de palavras trémulas

entre os pontos e o relógio de ponto.

Partimos, saímos, o Império a chamar

tínhamos tido um tio em Cabo Verde

um primo na Índia, anos depois,

nós mesmos temos encontro marcado

seja em África ou num qualquer regimento.

Eram eles que tremiam na voz do padre

nos domingos na missa campal ao sol

e a mãe desmaiava nos braços da avó

ou no coração da tia mais sentimental.

Partimos, saímos, mal habituados

aos cinemas no Inverno, legendas breves,

os olhos a piscar, dois Cineclubes, a voz

– entretanto um remorso a crescer

nos mais difíceis momentos

quando somos o campo na cidade.

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in «Leme de Luz» 1993 edição «Sol XXI Poesia»

Re-Intermitência

 

 

 

 

“O teu cérebro faz-me lembrar, por vezes, o do Picasso”, digo, sinceridade e seriedade, a L., companheiro de uma noite de debate intenso. “Porquê? Por parecer, por vezes, genial”, pergunta-me, surpresa e ego inflamado. “Não. Por parecer, por vezes, estar morto”, respondo.

Uma das maiores tangas relativas ao PSD e PS

É dizer-se que nada há que os distinga. Alguns elaboram sobre a proximidade ideológica, ambos partidos de centro-esquerda na sua génese ou evolução, a outros basta o currículo de partilha do governo numa continuidade ininterrupta, onde as opções ficaram condicionadas por igual pragmatismo. Mas essa suposta homogeneidade não passa de preguiça ou mentira. Porque as pessoas são diferentes, os grupos ficaram culturalmente distintos, os resultados do uso do poder diferem. Os sociais-democratas são gente de menor confiança do que os socialistas, são seres de moralidade mais ténue, de ambição mais desregrada e urgente. Vamos reformular: no PSD há mais cínicos do que no PS, porque no PSD houve clientelas no seu financiamento mais ricas do que no PS. Terceira tentativa: no PS ainda há românticos e um horizonte romântico ou idealista.

Consequências? O PSD tornou-se num partido sem recursos humanos, sem ideias, sem contacto com a realidade. Enquanto o PS tem um banco cheio de estrelas capazes de substituir a actual vedeta em caso de lesão ou expulsão. Para além disso, o PS é um partido de sólida cultura política e de pujante cultura democrática.

Iguais? Quem nos dera.

Boas notícias acerca do Ministério Público

As boas notícias acerca do Ministério Público consistem nisto de andar meio mundo a dizer mal dos seus magistrados e procedimentos metodológicos. Quem sabe, com tanto alarido, até pode acontecer que um dos partidos se chegue à frente com uma qualquer forma de resolução da esplendorosa ineficácia de tal órgão, pilar do regime democrático. Enquanto continuarmos sem ouvir dos partidos, seja qual for, propostas que sejam exequíveis, continuaremos a acreditar que o problema é insolúvel.

O aproveitamento desta desgraça, à esquerda e à direita, apenas para desgaste do Governo e Sócrates, atesta da miséria partidária que nos imobiliza civicamente.

Quem vê TV

O nosso amigo Carlos Santos, um dos autores mais prolíficos da cena, lembrou-se de me incluir na corrente das 15 séries televisivas favoritas (que raio, mas porquê logo 15?…). E não fez só isso, também se ofereceu para me escrever o texto respectivo; está aqui. A sua simpatia chegou ao ponto de elencar os próximos participantes, pelo que nem essa tarefa tenho para me ocupar.

Mas conto um sonho de espectador, e relativo às séries. Desejava, adolescente, que no futuro existisse uma forma de recuperar todos os episódios das séries que só via parcialmente, por falhar episódios e momentos. Isto é, na minha genialidade, antecipava a Internet.

Vinte Linhas 351

Fotobiografia de José Afonso ou a nossa memória do andarilho

Falei duas vezes com José Afonso. A primeira foi na Livraria Forja no Bairro Alto a propósito de uma notícia publicada no jornal A BOLA sobre as suas ligações desportivas à Académica: «É pá, em Setúbal e em Azeitão toda a gente me falou disso. Parece que a última página é mais lida que a primeira!». A recente «Fotobiografia de José Afonso» assinada por Irene Pimentel (edição Círculo de Leitores) veio em boa hora porque a sua leitura me emocionou. Fiquei espantado em ver como, passados tantos anos, a autora conseguiu recuperar fotografias de 1950, 1951, 1952 e 1953 ou seja, as fotografias do casamento de José Afonso com Maria Amália de Oliveira, as fotos de José Manuel e de Maria Helena, filhos ambos nascidos em 1953 (Janeiro e Dezembro) numa altura em que o pai de José Afonso lhe suspendeu a mesada e ele foi incorporado no serviço militar. Na segunda vez ou seja na entrevista que me deu para o jornal «Poetas e Trovadores» falou desses tempos difíceis: foi revisor do «Diário de Coimbra» e deu explicações a alunos do Liceu. Mas a vida era muito complicada e o casamento naufragou talvez porque se tratava de um casamento de dois náufragos – ele, longe dos pais e a dar-se mal com a tia Avrilete e ela, uma costureira, órfão de 18 anos de idade, pobre mas muito bonita, a dar-se mal com a família adoptiva. Um dos aspectos que emociona neste livro é a sensação de que estamos todos lá dentro. Na página 96 revejo a capa do livro «Cantar de Novo» da «Nova Realidade» de Tomar. Esse livro obrigava as pessoas da editora a irem aos Riachos, a Ourém ou a Torres Novas enviar os livros de Zeca Afonso porque em Tomar havia um bufo nos CTT que desviava as encomendas da editora.

Provavelmente, o melhor parágrafo de toda a língua portuguesa

O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saúde o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornais o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e têm baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos médicos, e outros partem para as suas casas aqui e ali, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e há artigos assinados por outros e retratos e anúncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isto o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que ficou no parapeito da janela de limpar o sinal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da água.

Maria José, corcunda e tudo

Louvor do pastel de nata (Doce Real)

Como no pódio em lugar cimeiro
Acima do queque e do croissant
O pastel de nata é o primeiro
Da mais bela fornada da manhã

O forno cozeu pão de madrugada
Não esgotou o calor e a doçura
O pão mata uma fome já esperada
A nata adoça o sal da amargura

Quem chega e se dirige ao balcão
Zangado com notícias e jornais
Recebe prazer da boca ao coração
E fica com vontade de pedir mais

No ritual da manhã de cada dia
Tem lugar ao balcão e à mesa
O pastel de nata dá a energia
Para combater a nossa tristeza

Louvor do Vinho Fino

Nas linhas onde o comboio já não anda
Só ecos do rumor de gente nas estações
O poema principia na voz de Fernanda
Versos são socalcos de pedras e canções

Nos seus lábios, palavras são rebanhos
Que se unem à Terra como quem reza
O santuário, o ritual parecem estranhos
O altar já está escolhido, é esta a mesa

Aqui juntamos no cálice todo um mundo
Paisagem povoada por lentos lavradores
Nos seus braços existe um saber profundo
Repetido tanta vez entre pedras e sabores

O vinho bebido longe, no café da cidade
É líquido e mais que líquido é resultado
Da lenta fermentação de uma diversidade
Junta paisagem, luz, suor, tudo registado

Aqui chega o aroma perfeito e suspenso
Há no copo um silêncio que não termina
Prazer está no sabor, no aroma, é imenso
Castas Aragonês, Arinto e Malvasia Fina

Outras são Touriga, Verdelho, Folgazão
Celebradas num lagar em nova liturgia
Cada vindima é o fruto de uma paixão
Repetida cada ano numa ansiosa alegria

De súbito Leandro, menino de dois anos
Quer deixar de ser apenas um espectador
Embrulha-se na azeitona, nos seus panos
Como já tinha procurado andar no tractor

Na poda, na empa, o trabalho é empresa
Joaquim, Nuno e Nely cuidam do tesouro
Tempos depois a garrafa trazida à mesa
Tem o frio e o calor das terras do Douro

Pateta Alegre by Nik

A utilidade do Pateta Alegre só é sentida à direita e à esquerda do partido dele, e só enquanto estiver a fazer trabalho cisionista. O Pateta não interessa nada ao PS. Se sair, não interessará logicamente a ninguém, nem à esquerda, nem à direita. Todos passarão a adversários dele.

Deitar-se com a mulher do próximo é sempre uma hipótese para o Pateta, no que dizem que tem já bastante treino. Mas quem o atura já? Ninguém o vai querer como parceiro ou sócio, com toda a sua pesporrência e vaidade. E velho e acabado.

Os socialistas andam a fazer este joguinho de puta com ele, para ver se o gajo não rouba votos nas próximas eleições. E para ver se o gajo não traz para a praça pública possíveis informações que tenha e que possam ser prejudiciais ao partido que ainda é o dele. E ele a chantagear, que isso sabe fazer.

Se o Pateta resolver criar um movimento ou partido novo, vai ter que sair amanhã do PS e que se colocar na margem da bancada socialista no parlamento, onde há muito já devia estar.

Se o odre de vaidade resolver ficar no PS, por amor ao lugar certo de deputado e outras prebendas de “senador”, será muito mau para todos. Para ele, para o PS e para o país. Ele não tem a mínima chance de aspirar a nada dentro do seu actual partido, excepto um retrato na parede do corredor mais escuro do Largo do Rato. Não o estou a ver a contentar-se com isso. A vaidade é muita.

Mas formar um movimento e concorrer a eleições numa lista autónoma dá uma grande trabalheira – e o ego dele, no final, pode ficar mirrado como um carapau seco. Não tem coragem para isso. Aliás, o modelo perfeito dele, Jean-Pierre Chevènement, quis suceder a Mitterrand, não conseguiu, armou uma barracada semelhante no PS francês, saiu, formou um movimento de merda e hoje ninguém sabe quem ele é. Nem quem ele foi.

Então?

Acho que vamos ter mais do mesmo: nem fode nem sai de cima, antes pelo contrário. Vai facturando, enquanto tiver poder de causar dano. Para mais não serve.

Depois das eleições o PS devia expulsá-lo rapidamente.

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Daqui

Se isto fosse a Inglaterra

Se isto fosse a Inglaterra, já haveria sacas de carcanhol gasto em apostas quanto ao desfecho da novela Alegre, marcada para amanhã. Vai criar um partido ou ficar como voz solitária e independente? Vai ser outra vez candidato a deputado por um PS que não respeita seja fora ou dentro do Parlamento? Ou nem uma coisa nem outra, antes pelo contrário?

Claro, se isto fosse a Inglaterra, há muito que se teria perdido a pachorra para o aturar.

Crespologia – II

O Jornal das 9 da passada terça-feira contou com um Crespo risonho e ufano. Durante a tarde tinha sido confirmado o agravamento do sarilho à volta de Lopes da Mota, boa nova antecipada pela imprensa desde o final da semana anterior. Havia que explorar a ocasião, esse seria o único tema do espectáculo. O qual abriu com Eurico Reis, juiz desembargador, e teve Ângelo Correia e Vicente Jorge Silva no frente-a-frente. Que nada disseram digno de memória futura.

Crespo, sim. Muito. E sempre. Tanto que excede a verbalização, dispensa-a. O homem especializou-se na pantomima, nos remoques de expressão facial e prosódia. O que faz na televisão passou a ser um assunto exclusivo entre ele e a câmara, ele e a imagem que ele próprio consome. Os convidados reduzem-se agora a pretextos para as suas perguntas, pouco importando o que digam ou não digam, e as perguntas sabem-se intencionais declarações políticas, o sentido que importa reter depois de esquecida a resposta. De cada vez que Crespo abre a boca, a audiência recolhe um libelo contra o Governo e um retrato fatal para a honorabilidade dos governantes. E o rapaz não tem a mão leve, atente-se no exemplo de uma pergunta-clímax feita ao juiz:

Mas não podemos ser ingénuos, e pensarmos que Lopes da Mota agiu apenas e só por sua iniciativa, pois não?…

Seguiu-se a recordação do caso macaense onde Alberto Costa foi suspeito de interferências na Justiça. Se porventura alguém estivesse distraído, o jornalista Mário Crespo garantia diligente a cobarde transmissão da sua crença: anunciou à audiência que Alberto Costa e Sócrates são os responsáveis máximos por factuais actos de pressão ilegítima sobre os procuradores do Freeport, para tal lhe bastando a referência a indícios adentro de um processo ainda por realizar e sujeito a segredo de Justiça.

Nesta dinâmica debochada, de quem se imagina impune bolce a calúnia que bolçar, Crespo e Ângelo acabaram a sessão a rir com uma alarvidade mal contida. Para eles, o momento era festivo: os outros, os cabrões dos xuxas, tinham sido entalados e não havia como se defenderem. Saboroso triunfo, alucinada vingança. Sócrates começava a pagá-las.

Foi então que o anjo das telecomunicações & programação da SIC desceu até mim com uma importante mensagem das alturas. Que era mais ou menos isto: a dissonância cognitiva que me andava a perseguir há uns meses, sempre que via o Jornal das 9, não passava, afinal, de uma questão semântica. O anjinho disse isto e partiu. Tinha razão, claro. O problema residia no elemento conceptual da designação: Jornal. A denotação do termo sugeria que estávamos perante um bloco noticioso; ora, não estávamos, nem vagamente perto. O que ali acontecia era outra coisa, coisa que não respeitava códigos deontológicos ou metodológicos relativos à procura de uma qualquer objectividade — e cujo singelo nome é opinião. Sem segredo, o Jornal das 9 evoluiu por selecção artificial até se tornar no órgão oficioso da opinião do cidadão Mário Crespo. O que em si não tem mal nenhum, mas nenhum nenhum. Há que, tão-somente, resolver o problemazito da nomenclatura daquela hora diária, esgalhar outro nome e não se fala mais nisso.

Por exemplo, este: Na pocilga do Crespo . Mas há outros.

Re-Intermitência

 

 

 

 

 

“Não me leves a mal o que acabei de te dizer. Adoro, efectivamente, o desenho das tuas nádegas”, revelo, carinhoso, a C. “Mas não suporto, mesmo, a forma como se expressam”, acrescento. E abandono, em grande velocidade, a casa de banho que partilhávamos.

Vinte Linhas 349

A cidade começava o dia devagar

Não fosse a espuma levantada pelo cacilheiro e eu não teria percebido o início do movimento. Há mulheres que se demoram na luz do dia. Também a cidade, nesse distante dia 9 de Setembro de 1966, me pareceu adormecida, suspensa num sono de séculos, um sono marginado pelas colunas do cais e pelo castelo de S. Jorge. Uma vedeta da marinha levava operários do Arsenal do Alfeite e contornou uma fragata com cortiça vinda do Montijo. Já havia ponte sobre o Tejo mas as galeras de Vendas Novas e de Pegões deixavam ainda a sua carga no Cais dos Vapores da antiga Aldeia Galega. Deste lado das colunas é a apoteose do silêncio: acabo de chegar a Lisboa para o meu primeiro dia de trabalho e ainda não vi os eléctricos com bilhete de operário. A Sé à direita e as ruínas do Carmo à esquerda são compassos de oração numa cidade sem vida. Tenho 15 anos e nada sei do Mundo. Um avião por cima do Jardim Botânico anuncia o movimento mas o resto da cidade dorme o sono das muralhas. O Rossio ainda tem eléctricos mas agora só vejo árvores e anúncios luminosos nos telhados. No Terreiro do Paço ninguém se cruza com a estátua de D. José. Nem sequer um guarda-nocturno com as chaves a tilintar. Tal como um poema, uma peça de teatro ou uma orquestra segundos antes de uma sinfonia, o esplendor do silêncio da cidade espera-me. Caminho até à Rua do Ouro, amanhã vou tirar medidas ao alfaiate, sei que vou ganhar 900 escudos por mês. Os telhados alinhados da Baixa parecem livros. Mais de 40 anos depois estou fascinado como na primeira vez. A cidade começa o dia devagar. Os prédios alinhados continuam a parecer livros nas prateleiras dum alfarrabista. Hoje como em 1966. Lisboa – minha cidade, meu amor.