O caso Pacheco Pereira

Existe um caso Pacheco Pereira. E é mais interessante do que o caso Freeport. Este último está condenado a acabar em revelações patéticas ou sórdidas. Mesmo que a suspeita sobre Sócrates se confirmasse — o que implicaria esse feito, digno de entrar no Guiness, de Sócrates ter de ser mais estúpido do que o irrecuperavelmente imbecil Charles Smith — tal teria apenas uma consequência relevante para a política nacional: António Vitorino, António Costa e António Seguro iriam disputar o lugar vago. E este triunvirato de Antónios, por ordem decrescente de popularidade e probabilidade, agarraria o eleitorado PS e de centro sem dificuldade. Os pulhas não teriam muito, se é que alguma coisa, a ganhar com a troca.

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O segundo segredo de Ourozinho

Oh Senhora da Assunção

Meu lugar de ser e estar

Os andores ali no chão

Esperam quem vai cantar

No desfile em lentidão

Da música, seu compasso

Os ritmos do coração

Revelam tempo e espaço

Como esquecido brasão

Invisível para o Mundo

Há em mim a inscrição

Do contrato tão profundo

Entre o instinto e a razão

Entre a paixão e a lucidez

Dum lado o apelo do chão

Do outro a luz dos porquês

Estou dentro da procissão

Vivo de novo a verdade

São momentos de paixão

Largas horas de saudade

Na festa e na ocasião

O meu corpo nada pesa

Estar aqui é a oração

Que em silêncio se reza

Oh Senhora da Assunção

Eu canto para não chorar

Os andores ainda estão

Só agora se vai andar

Oh Senhora da Assunção

Vou dar-te a despedida

Não posso dizer que não

Aos desafios da vida

Némesis

Amanhã, Dias Loureiro irá ao Parlamento voltar a ofender Portugal na sede da democracia. Esta figura não é apenas um amigo de Cavaco Silva que goza da protecção do Presidente da República, é igualmente um Conselheiro de Estado e eminência parda do PSD ao longo dos anos 90 e seguintes. Representa a elite social-democrata e enriqueceu por ter sido ministro de Cavaco, mas não com o salário que recebeu do Estado. A área que tutelou, Administração Interna, é de especial importância e melindre — pelo que, na eventualidade de ter usado conhecimentos e relações obtidos nessas funções para proveito empresarial, ilícito ou lícito, a gravidade do caso atinge também moral e politicamente o PSD e Cavaco Silva. Sem piedade.

Entretanto, este homem continua a saber mais de Dias Loureiro do que os seus amigos mais próximos e com maiores responsabilidades perante o País.

O segredo de Ourozinho

O segredo de Ourozinho

Está na luz do teu olhar

Que trouxe pó do caminho

Ao asfalto deste lugar

Nela veio a terra trazida

Batata, milho e centeio

As origens de uma vida

Onde não cabe o receio

Onde o futuro sonhado

Infância em pensamento

Não é o comboio lotado

Nem cidade de cimento

Na festa do padroeiro

Coração em pé de guerra

Santiago é o verdadeiro

Vértice entre rio e serra

Monumento ao emigrante

Pedra feita num abraço

Nossa vida é um instante

O caminho é só um passo

Na tua voz tão devagar

No seu timbre de metal

Chega o som do lagar

Com o azeite sem igual

No sabor destas castanhas

Vinho doce do teu Mundo

Vem o frio das montanhas

E o calor forte e profundo

E já noutra sonoridade

Mais alta que um moinho

A roda chega à cidade

No segredo de Ourozinho

Lembretes

– Paulo Rangel ainda não teve uma única ideia que valha a pena ouvir, quanto mais discutir. Quando debateu com Vital mano-a-mano, na SIC, o que se viu foi um sabotador que seguiu os códigos das pelejas parlamentares e para lamentar. O resultado foi repugnante. Logo depois, vai à Assembleia mostrar que o 25 de Abril vale menos do que a baixa política. No que diz respeito ao seu calibre de estadista, estamos conversados.

– O BE cresce não devido ao apelo das suas propostas ou à confiança nos seus responsáveis, mas como íman dos votos de protesto. Isso faz do BE um partido condenado a um insolúvel dilema: se ficar refém de uma atitude apenas e só opositora, vai defraudar a sua base de apoio; se vier a ser Governo, vai defraudar a sua base de apoio.

– Se amanhã o CDS fechasse as portas e nunca mais enviasse um comunicado à imprensa, passariam 10 anos antes de alguém dar por isso.

– A propósito da entrevista a Sócrates, voltou o estafado epíteto da arrogância no refugo das críticas. É um fenómeno risível. Porque aquilo que se considera ser arrogante em Sócrates é, afinal, um acto de humildade: consiste na entrega apaixonada ao confronto político. O homem chega a parecer juvenil, de tanto entusiasmo. Alguns portugueses, nados e criados no cinismo e mesuras hipócritas dos governantes, reclamam por não estarem habituados à autenticidade.

– Emídio Rangel é um bravo. Dava 1 euro para ter assistido ao Moniz a ler isto.

– Jesualdo vai ser tricampeão. O Benfica até a mim me deixa doente. E o Paulo Bento prestaria um melhor serviço à Humanidade se deixasse de protestar contra os árbitros e desatasse a protestar contra si. Quando é que começa a próxima época?

– 2009 já só tem 8 meses para dar cabo desta merda toda.

Vinte Linhas 346

Uma mentira repetida desde 1966

Começou a Feira do Livro e a minha filha mais nova lembrou-se da minha paixão pelo desporto e ofereceu-me «A história dos campeonatos do Mundo de futebol», uma edição da «Ideias & Rumos Lda.». Até aqui tudo bem mas a partir daqui deu barraca. Na página 116 surge uma legenda errada – «Pelé lesionou-se no jogo contra Portugal». O erro está no seguinte facto: Pelé lesionou-se em 12-7-1966 no jogo com a Bulgária, não jogou em 15-7-1966 a partida com a Hungria (no seu lugar jogou Tostão) e jogou em 19-7-1966 quando ainda não tinha recuperado da cacetada violenta de Voutsov em 12-7-1966. Na página 196 lá aparece outro erro crasso. Alguém escreveu o seguinte: «para a selecção canarinha a partida com Portugal torna-se decisiva por força da derrota por 3-1 diante dos búlgaros no qual Pelé não jogou por lesão». Está tudo errado, a verdade é outra coisa: em 12-7-1966 há uma entrada violenta do búlgaro Voutsov sobre Pelé; em 15-7-1966 Pelé, lesionado, não jogo com a Hungria; em 19-7-1966 Pelé joga inferiorizado com Portugal. O treinador lança, com Pelé, um grupo de nove jogadores que não tinha ainda alinhado: Manga, Fidelis, Brito, Orlando, Rildo, Denilson, Lima, Silva e Paraná. Uma mentira repetida muitas vezes não deixa de ser uma mentira mas esta cheira mal e acontece desde 1966. Primeiro foram alguns jornalistas brasileiros, cheios de complexos em relação ao futebol português que sempre falaram dos portugueses com preconceito («jogam de tamancos em vez de botas de futebol») e por isso nunca perdoaram o seu desaire com Portugal esquecendo a sua derrota com a Hungria. Agora os portugueses é coisa que não tem mesmo piada nenhuma. Não sabem? – Estudem e informem-se!

E as crianças, senhores?

O episódio do tempo de antena do PS com imagens ilegítimas parece uma encomenda da oposição. Tem os ingredientes ideais para que os imbecis do costume se babem alarvemente: PS, propaganda, crianças, escolas, pais, Ministério da Educação, computadores Magalhães, Sócrates e absoluta irrelevância política e social. A partir daqui, é malhar enquanto estiver quente. O inimigo foi ao tapete, os merdas aproveitam para o pontapear e cuspir. Sem qualquer surpresa.

Surpreendente seria que alguém dissesse o óbvio: que uma oposição reduzida à chicana é uma tirania desgraçada, transforma o debate numa permanente criancice.

Vinte Linhas 345

A mais pequena livraria do Mundo

À cautela deverei afirmar: esta é, provavelmente, a mais pequena livraria do Mundo. Fica nas Escadinhas de São Cristóvão nº 18, ali à Rua da Madalena e ocupa uma superfície de 3,8 metros quadrados mas está cheia como um ovo. Gosto de livrarias porque gosto de livros. Depois da roda, a invenção mais importante do Homem foi o livro. A roda permite todas as viagens, o livro permite levar na mão todas as memórias e dissertações do pensamento. Ainda outro dia publiquei um poema sobre a livraria Fábula Urbis na Rua Augusto Rosa (à Sé). Fiz uma nota para a «Ler» sobre uma livraria nas catacumbas de Provins, já estive em Veneza numa livraria que empresta galochas aos clientes no tempo da acqua alta, quase cheguei atrasado ao casamento da minha filha mais velha porque me perdi na livraria de Helmesley num velho quartel de bombeiros. Nas Caldas vou à 107. Gosto de ir ao Bocage na Calçada do Combro 38 e aos Bonecos Rebeldes nas Escadinhas do Duque 19ª ou ainda à 1870 na Travessa de São José ali a São Bento. Quando posso começo no Largo da Misericórdia e bato-as todas do Calhariz ao Poço dos Negros. Quando não posso vou aos sábados à Rua Anchieta onde eles estão quase todos. Esta livraria das Escadinhas de São Cristóvão é especial e recomenda-se pela sua variedade: José Afonso, Raul de Carvalho, António Nobre, Jorge de Sena, Cesário Verde, Ruy Cinatti, Pablo Neruda, Ramos Rosa, António Osório, José Fernandes Fafe, Ângelo de Lima, Manuel Bandeira, António Botto. E uma raridade bibliográfica: o «Levantado do chão» com as dedicatórias entretanto apagadas. Só por isso valeria a pena a visita. Mas conversar com o livreiro é um valor acrescentado ao passeio entre chás e ortopedia.