Um artigo que nos recorda, ou acorda, a evidência: o amor não é o sentimento, muito menos o afecto, e jamais apenas a emoção – é a vontade. É na vontade que somos inteiros. Dito de outra forma, o teu destino é a liberdade. Eis uma ideia medieval que está muito à nossa frente. Tens 15 minutos para ganhar?
Arquivo mensal: Novembro 2008
O 1º filme viral é de 1948
E de quem poderia ser? Da Coca-Cola, pá, a marca mais valiosa do Sistema Solar e arredores. Muito antes da invenção do computador portátil já estes manos utilizavam técnicas de marketing típicas da Web 2.0. Claro que eles irão negar, escusas de ir até Atlanta fazer perguntas. Mas podes confiar nos teus olhinhos. Está tudo bem explicado e à mostra.
Vinte Linhas 296
Eu fui o enviado especial à Nazaré em 15-7-1997
Todo este vendaval à volta da péssima arbitragem de Bruno Paixão no jogo Sporting-Porto para a Taça de Portugal fez-me recordar o dia 15-7-1997 quando fui como enviado especial ao jogo decisivo Boavista-Sporting para atribuição do título de campeão nacional de juniores. O jogo disputou-se no estádio Municipal da Nazaré e o árbitro foi Bruno Paixão auxiliado por António Godinho e Francisco Mendes. Pelo Sporting alinharam: Nuno Santos, Travassos, Caneira, Valente, Orlando, Gomes, Kakinda, Assis, Gabriel, Vargas, Simão, Nuno Moreira, Alhandra e Paulo Costa. Os «leões» marcaram primeiro por Gabriel mas o Boavista na segunda parte e só com 10 jogadores deu a volta ao jogo. Segundo A BOLA de 16-7-1997 «o Boavista, em inferioridade numérica, apelou a todas as suas reservas físicas e anímicas, para operar a reviravolta. Com alguma sorte e a ajuda do árbitro que lhe perdoou uma grande penalidade aos 85 minutos (braço na bola de Nuno Gomes).» Repare-se que o jornal A BOLA foi fundado por Ribeiro dos Reis, um reputado especialista em arbitragem e trata sempre as arbitragem com luvas mas este itálico na palavra «ajuda» diz tudo sobre o caso: Simão Sabrosa fintou Sérgio Leite e o defesa Nuno Gomes desviou a bola com o braço mas o árbitro marcou, heroicamente, um pontapé de canto. Lá no alto da tribuna de honra Valentim Loureiro sorria. Cá em baixo o treinador boavisteiro Queiró dizia ao treinador dos «leões» Rui Palhares, mesmo ao meu lado, quando me preparava para recolher as suas palavras: «Pensava que eras tu a trazer o árbitro mas fomos nós!». Conclusão: as pessoas não mudam e quando por acaso mudam, mudam mas para pior…
Bute lá ajudar o PSD
A Manela foi a Fátima e regressou de joelhos. As suas declarações não equivalem à revelação de um segredo, pela simples razão de não haver segredo algum para ser revelado: a sua liderança é um falhanço. Sim, foi um alívio ver Menezes sair pela esquerda baixa, mas a senhora não tem quem a ajude. Perante a evidência de lhe ser mais vantajoso estar calada, assim prolongando aquilo que agora se tem a certeza de ser apenas uma ilusão, deveriam ter sido os lugares-tenentes a blindar o castelo. A Comissão Política poderia ter protegido a chefe avançado para o combate, para evitar o esboroamento do mito ao mesmo tempo que se simularia uma nova dinâmica. Isso teria assustado o PS, pois, e pela primeira vez, se estaria a fazer oposição inteligente a Sócrates. Incrivelmente, não só ninguém se chega à frente, como não há qualquer ideia que seja bandeira deste consulado. E da parte dos publicistas engajados a miséria é igual, com Pacheco Pereira, o mais assanhado e o que estaria em melhores condições de ser catalisador, a exibir uma confrangedora e pateta inépcia.
Não se pode ambicionar convencer o eleitorado do centro quando se nega a realidade ou não se consegue lidar com dificuldades. O silêncio do PSD sobre o que se passa na Madeira é desonroso. O modo como tentam sacudir a água do capote no caso BPN, uma pérola do cavaquismo e do centrão, é escabroso. O apoio à estratégia reaccionária dos sindicatos da educação é escandaloso. E por aí fora, que há muitos outros adjectivos acabados em “oso” para aplicar e eu tenho de ir almoçar. Por exemplo, estas declarações em Fátima são um monumento do argumentário chungoso:
Uma acção em que nós estivemos, em que interviemos, foi passada como 14ª notícia durante quatro segundos na televisão, quando já ninguém vê a notícia e ainda foi passada no exacto momento em que começou o jogo do Sporting-Benfica. Isto foi feito ao maior partido da oposição, com media assim é muito difícil fazer passar a mensagem.
Há-de vir o momento em que com seriedade, profundidade e conhecimento apresentamos as propostas ao País [não o tendo feito ainda] porque até às eleições eram todas adoptadas por este Governo socialista.
Temos de concordar com ela: passar mensagens quando começa o Sporting-Benfica é muito difícil. E é a própria a confirmar que o Governo aplica todas as boas ideias a que puder deitar mão. A solução passará, eis o meu contributo, por reduzir a frequência com que esses dois clubes se encontram, antes de mais, e depois nas eleições entregar a cada eleitor, juntamente com o boletim de voto, o programa do PSD. Finalmente, no recato e segurança da cabine de voto, ler as promessas da Manela e votar em conformidade.
Um livro por semana 88
«Música de viagem» de Cristino Cortes
Neste conjunto de 77 poemas, nesta «sinfonia poética» (como lhe chamou António Salvado) o autor revisita poemas de Pasolini, Francisco Sá de Miranda, Almeida Garrett, António Nobre, Guerra Junqueiro, Pascoaes, Vitorino Nemésio, Jorge de Sena, Florbela Espanca, Miguel Torga, Alberto Pimenta, Cesário Verde, Cecília Meireles, Fernando Pessoa, Luís de Camões e Manuel Simões, em Veneza:
«Deusa vivendo da beleza própria e exterior, Veneza / A aumenta e mantém com seu perfume, invencível filtro / De amor atraindo o tempo e os deuses, os da música / Aérea e aquática fluindo em força da natureza».
Música de viagem porque viaja entre o «eu» e o «Mundo» mas também viagem ao lado de dentro da construção do poema:
«Em todo o sítio a encontro, nas viagens que abraço / Ou imagino, também entre as pregas da rotina / Desse fluir diário, qual face de vulgar esquina / Com ela vivo e decerto que bem pouco faço! / É uma inconsciência quase, específica forma / De respirar, um pressentimento, um vago aroma / Na atmosfera se evolando ou pressentindo, oh dona / De magia e mistério, sem fixar regra ou norma! / Ela é fado ou destino, uns dirão graça ou bênção / E outros, talvez, falha, falta ou maldição, depende / Da perspectiva, objectivos em que alguém se entende / – Estes anos em que por algo bate o coração… / Ando com ela, sou-lhe fiel, e não saberia / Fugir-lhe ou deixá-la, mistério, aragem esguia.»
(Edição: Papiro Editora, Capa: Ana Machado, Apresentação: António Salvado)
Que dizeis e quereis?
Atribuir notas e avaliar são duas actividades diferentes, não necessariamente relacionadas. Eu saí do ensino nos finais de 90, entre outras razões, porque os alunos não eram avaliados. As reuniões de avaliação eram, isso sim, veículos para o preenchimento das pautas. Estive em cinco escolas, onde leccionei Filosofia, Psicologia e Psicossociologia a alunos do 10º, 11º e 12º: Escola Secundária da Moita, Escola Secundária de Linda-a-Velha, Escola Secundária Ferreira Borges, Escola Secundária Alves Redol e Escola Secundária Professor Herculano de Carvalho (nesta sequência). Licenciatura com Via de Ensino, estágio feito, dezenas de turmas e centenas de reuniões depois, posso não ter autoridade para falar em nome da classe dos professores, mas tenho autoridade para falar da falta de classe de alguns professores com quem partilhei os intervalos, participei em actividades, acompanhei em excursões, fui almoçar e jantar, criei amizade e me reuni vezes sem conta para realizar essa apaixonante e nobilíssima missão: ensinar na escola pública.
Se há pessoas maravilhosas a dar aulas? Ignotos santos, heróis e sábios? Sim, muitos. Milhares. Olha, há milhares e milhares de professores portugueses, em escolas públicas portuguesas, que são anónimos, humildes e sacrificados santos, heróis e sábios. Sim, há. Aos milhares e milhares. Mas agora puxa uma cadeira e vamos falar um bocadinho dos outros.
Cada vez mais nus
Mais um escândalo a comprometer o Governo revelado pelo Zé Manel
Há muito que o Público suspeitava da existência de razões secretas por detrás da mudança do novo aeroporto da Ota para Alcochete. Sócrates tentou escondê-las por todos os meios, alguns deles legais (tal o desespero), mas foi incapaz de impedir que a verdade fosse descoberta por uma equipa de jornalistas com treino anti-máfia. Comprova-se a total incompetência do Governo, e só nos resta aguentar a desgraça de não estarmos neste momento a ser conduzidos à prosperidade pelo PSD, ou pelo PCP, ou pelo BE, ou pelo CDS, ou por todos eles juntos, numa grande coligação salvadora do Portugal que tão bem representam.
Eis os factos:
– A Ota, afinal, fica no Japão. Isto tornaria a ligação a Lisboa um pouco mais demorada do que foi prometido pelo Governo.
– A Ota, como se vê pela imagem e a legenda reforça, é um dos locais mais solarengos do país. Maneiras que, para conseguir convencer esses aristocratas todos a sair dos seus casarões, nem em 2300 teríamos aeroporto.
Um livro por semana 85
«Mataram o chefe de posto» de E. S. Tagino
Recém-chegado a Kimbali no interior de Moçambique, o alferes Ferreira compara as duas vivências depois de ser convidado a jantar com um casal: «Em Portugal tudo era acanhado, fechado, mesquinho. As pessoas espreitavam por detrás das cortinas. Comiam com a cabeça dentro da gaveta. Eram desconfiadas e maledicentes. Guardavam segredos que viravam boatos. Viviam e morriam enclausuradas, esfíngicas e indecifráveis. As mulheres não iam aos cafés nem sorriam a estranhos, das varandas das casas. As mulheres não andavam de vestidos claros. Na Metrópole as mulheres estavam recolhidas e só usavam vestidos pretos ou de cores escuras.» Em total oposição ao discurso político oficial, o chefe de posto explica com todas as letras que os militares portugueses não são bem aceites em Kimbali: «Você e os seus homens, como militares, desculpe a franqueza, não são nem nunca serão bem vindos a Kimbali. Esta é uma terra pacata que tem sabido desde sempre preservar a paz. A vossa chegada veio perturbar, perigosamente, o nosso quadro de serenidade e equilíbrio». O envolvimento geral em Moçambique é ainda mais complicado: «Em 21 de Julho de 1969 ocorre no Zambeze o maior desastre de toda a guerra colonial. Cento e um homens morrem afogados quando um batelão de transporte se afundou no rio. Com os militares perdeu-se também um número significativo de viaturas e diverso armamento que seguia para o norte de Moçambique. Exactamente no mesmo dia o General era nomeado Comandante do Exército de Moçambique. Esta extraordinária coincidência só podia profetizar um desastre ainda maior.» É neste teatro que se desenvolve a componente policial deste livro que recebeu o Prémio Cidade de Almada 2006. O moleque Formiga é o pregoeiro desse drama em que a morte e o amor se envolvem. A moral da história parece ser esta: a única resposta à morte é o amor porque só o amor constrói novas vidas, novas esperanças, novas apostas no futuro.
(Editora: Saída de Emergência Apoio: Câmaras Municipais de Almada e de Grândola)
Está provado: o ridículo não mata
Declarações que metem nojo
A arbitragem portuguesa, os problemas da arbitragem, tudo isso mete nojo. Penso que o Sporting tem sido demasiado simpático.
O Sporting é demasiado simpático para as arbitragens. Alvalade tem de criar um ambiente mais difícil às outras equipas do que, por vezes, cria à nossa. E aos três que vêm arbitrar, se tivermos de lhes criar maus ambientes, não tem problema, porque é o que merecem.
Acabámos por perder com muita Paixão.
Chris Jordan
Um livro por semana 86
«Tudo bem em Santarém e outros poemas menores» de Mário Rui Silvestre
A infância, sendo o tempo no qual nem as lágrimas nem os beijos têm preço, é o ponto de partida deste livro: «A casa às vezes enchia-se de gente / comigo no chão olhando em redor». Esta paisagem é povoada pelos heróis do «Mundo de aventuras»: «de lá guardarei as costas ao Zorro / que vai num galope pela pradaria / salvar dos bandidos o que resta da tarde». Nos intervalos da escola e da catequese, o pião e o berlinde: «azul e verde rubi sanguíneo / água marinha quartzo transparente / ametista irreal anil iridescente / os berlindes jogados no terreiro». Os ranchos da azeitona passam pela infância e ficam no poema («Finda a campanha / fazem a festa / da adiafa / regressam cantando / às suas terras / sempre tão pobres / como vieram») lado a lado com a poluição do Rio Alviela: «um cheiro a morte turva o dia / nojenta náusea paira sobre a vila / odor ao que o dinheiro corrupto exala / dos que à vida dos outros pouco ligam».
O poema-título não refere a infância mas o tempo do Liceu: «Terra dos Leões o clube de futebol regional / de vários campeões que gostávamos de imitar / nos jogos no campo da bola atrás de Santa Clara / um pouco depois das aulas e antes dos matraquilhos». Três autores povoam este espaço: Alexandre Herculano, Guilherme de Azevedo e Ruy Belo: «A melhor coisa que fez / a sua poesia aqui não jaz / pois vive inteira em quem a lê / glória ao autor que durma em paz». Um dos poemas acaba por desenhar o perfil do livro: «o desenho no caderno / linhas vivas num só plano / sangrento sol no poente / tens os olhos tens a mão / o desenho que principia / trémulo só no começo / o cigarro na sinistra / o fumo no olhar aceso». O caderno que o jovem pede à amada para não fechar é o livro que o adulto assina e não se fecha porque povoado de gente a amar e a morrer: «Vinte mil soldados miguelistas / agonizam de peste em Santarém / cercados por vinte mil soldados liberais / rotos famintos fartos de tanto sofrimento». O título é irónico: nem os poemas são menores nem está tudo bem em Santarém.
(Editora: Auctoris, Capa e design: Flávio Carlos Silvestre, Apoio: Fundação Comendador José Gonçalves Pereira)
Guerra o ano todo
Os professores não querem ser avaliados. Porque os professores odeiam a escola. A escola está cheia de um tipo de seres em quem eles não têm a mínima confiança: professores. Como aceitar que esses fulanos, e logo aqueles da própria escola onde se trabalha, tenham o poder de avaliar o que os professores fazem na intimidade e reclusão das suas turmas? Temor e tremor. Andarilhar Marquês de Pombal-Terreiro do Paço em cuecas, ida e volta, seria mais confortável do que ser avaliado pelos colegas. Pelos colegas seniores! Aquelas gajas e gajos horrorosos, de quem se diz mal pelas costas, que são uns velhos rabujentos ou depressivos, uns vaidosos do pior, que estão meio chechés, que são comunas, que são fachos, que têm a mania, que estão ultrapassados, que não sabem dar aulas, que não percebem nada de pedagogia, com quem ter de falar nos intervalos é um suplício, quanto mais ficar à sua obscena mercê. Não, deixem-se disso. Estão mas é malucos.
Os professores não querem avaliar. Porque avaliar implica pensar; e pensar só dá problemas, como todos sabem. Pensar em critérios de avaliação já é suficientemente difícil quando se trata de alunos, que comem e calam, quão mais não será tratando-se de professores, entidades capazes de questionarem os relatórios e seus pressupostos? Por favor, não lhes façam essa maldade. Como é que o professor português, nado e criado numa sociedade de hipócritas, perfeitamente adaptado à suave decadência de nunca ter de prestar contas do que fez e, em especial, do que deixou por fazer, vai agora ser exigente com o colega? Isso é uma enorme indelicadeza, cria mau ambiente, estraga relações de longa data e dá azo a situações imprevisíveis. Avaliar, vejamos, avaliar é, vamos lá ver, é assim a modos de… de… espera… de olhar para o que acontece, aferir os resultados, verificar as práticas, corrigir eventuais erros, valorizar eventuais talentos, reconhecer e premiar eventuais dedicações, enfim, conhecer a realidade. Donde, a pergunta: mas passa pela cabeça de alguém querer conhecer a realidade do ensino em Portugal?… Tenham a santa paciência.
Um livro por semana 90

«No vértice da noite» de Adalberto Alves
Nascido no Ocidente, Adalberto Alves desde sempre se deixou fascinar pelo Oriente. Não por acaso o título de um dos seus livros é «O meu coração é árabe».
O seu ponto de partida são as palavras: «há palavras / impossíveis de ser ditas / como corações / que nenhum peito comporta / são palavras sem nome / mudas / noites sem lua».
O seu ponto de chegada é o amor: «mesquinho é quem não soube amar / nem provou jamais a embriaguez do amor / ó tu que nunca amaste, como dás valor / ao ofuscante sol e à luz do luar?»
Pelo meio uma viagem pelos mitos do nosso tempo; sejam eles do mundo da literatura como Lorca («Granada são meninos mouros / que o absurdo crescente devora / buraco de sete balas acordadas / um touro triste brame e espanta / o bando das bandarilhas ilegítimas») ou do mundo do futebol como Matateu: «deste cor azul à alegria / que há na finta e cada golo tem / no campo ergueste alto cada dia / o nome português e de Belém / chegaste de um terra quente / e foste acabar em terra fria / vives agora no coração da gente / que contigo aos domingos renascia / há um desafio que nunca finda / há corações batendo em sobressalto / no coro que se ouve e que te chama / está o jogo no momento alto / prá frente Matateu! um golo ainda! / todo um estádio se ergue e te aclama.»
(Editora: Argusnauta, Capa: Figueiredo Sobral, Retrato do autor: Luís Veiga Leitão)
Coisas que acontecem só para chatear o Daniel Oliveira
A bófia ao serviço do Governo ditatorial que temos voltou a exibir o mais completo desprezo pelos direitos das populações desfavorecidas ao ter capturado assaltantes de carrinhas de valores, entre outros crimes, logo no seu local de residência: Quinta do Mocho. Isto é mais uma prova da completa irresponsabilidade policial. Porquê? Porque o Daniel Oliveira assim o decidiu. A 2 de Setembro, esclareceu-nos que uma acção policial tida neste mesmo bairro nada tinha a ver com os crimes noticiados. Não, nada a ver, disse ele:
Na melhor das hipóteses essa reacção tenta apenas agir na aparência das coisas, sem grandes consequências a longo prazo. É o caso da acção policial na Quinta do Mocho, Quinta da Fonte e Bairro da Arroja. Apesar de nada terem a ver com os crimes que estão a ser noticiados, os poderes públicos, reagindo às notícias, reservaram para os moradores daqueles bairros um papel: são os outros, são o perigo, são os suspeitos do costume. Não espanta, por isso, que no meio da histeria ninguém se indigne com o facto de bairros inteiros serem transformados em palco de uma exibição de força que tem como única função, como a própria porta-voz da PSP confessa, aparecer na televisão.
Para o Daniel Oliveira, Sócrates coordena as polícias e profere frases como Rápido, cerquem um bairro qualquer e chamem as televisões. Invariavelmente, a escolha recai nos bairros dos pobrezinhos por vantagens de casting: eles, de seu natural, já têm pinta de bandidos.
Que dizer? Nada de especial, são os raciocínios do costume.
Os cabrões dos pretos
Os pretos que aparecem nos filmes e canais TV americanos são sempre uns porreiraços. São afáveis, educados, humanistas, exibem paradigmático bom-senso e universalista sabedoria, revelam especial vocação para cargos de chefia policial e carreiras militares excepcionais, jogam futebol americano, basquetebol e golfe com igual sucesso, ninguém os vence no boxe vai para 80 anos, enxovalham nações arianas apenas com os músculos das pernas, dominam a indústria musical, moldam a cultura (sub)urbana, ficam impecáveis à porta das discotecas da moda com aqueles penduricalhos auriculares, dançam como mais ninguém, parecem ter algum jeitinho para o Jazz, espalham o mito da afro-verga impunemente, são líderes de audiências entre as donas-de-casa branquelas e contam as melhores anedotas de pretos.
Filho que vem na frente, alumia-se duas vezes
Esta pesquisa revela o segredo do sucesso dos primogénitos na comparação com os irmãos. Claro que há excepções, muitas, imensas, mas a receita em causa é estupidamente simples. E aplicável a qualquer relação amorosa.
O Qi faz-te mal ao QI
Experiência nunca até agora realizada, e sem previsão do vir a ser, revelou que o Quociente de Inteligência é diminuído pelo Quociente de ideologia. As perdas chegam aos 30 pontos, em média. O estudo utilizou as eleições presidenciais norte-americanas como modelo de aferição. Constatou-se haver um grupo largo de indivíduos escandalizados, ou perplexos, com a eleição de Bush em 2000 e 2004. Esse grupo forçava o seu sentido de realidade a encaixar o pressuposto ideológico que lhe garantia haver erro nessas vitórias. Assim, em conformidade com o sofrimento causado pela eleição democrática de um taralhouco daquele calibre, o povo americano teria de ser falho de várias qualidades positivas ou farto de várias qualidades negativas. O mais das vezes, as expressões Os burros dos americanos e Americanos imperialistas sintetizavam essa polaridade.
Ora, acontece que a vitória de Bush em 2000, e esquecendo o episódio Florida, é lógica: Clinton tinha sido protagonista de um escândalo moral como não havia memória, o qual puxou os independentes para um castigo legítimo aos Democratas; a economia estava ultra-saudável, imaginando-se que assim ficasse viesse quem viesse; não havia 11 de Setembro, nem possibilidade de o imaginar. E, em 2004, mais lógica foi a vitória de Bush: a nação estava traumatizada, ainda incapaz de racionalizar o desastre Bush; a nação estava em guerra, ainda incapaz de racionalizar o desastrado desastre Bush; Kerry não apaixonou, a sua campanha veio 4 anos antes do tempo.
Um Qi elevado impede o entendimento destas relações que chegam lógicas a um QI médio. Nos casos mais graves, nem sequer se consegue a mera percepção dos objectos no espaço bidimensional. Por exemplo, muitas vítimas de um Qi especialmente bem desenvolvido não são capazes de encontrar no mapa dos EUA as zonas onde os habitantes vivam da agricultura, pecuária, indústria, serviços e em que façam questão de ir à igreja ao domingo, gostem mais de música country do que do Zizek e favoreçam com especial carinho o ideal da propriedade privada e da livre iniciativa. Eles acham que tais zonas estão cheias de zombies controlados por militares e agentes da CIA disfarçados de tele-evangelistas; e, podendo, mandavam prender essa gentalha toda que lhes estraga o retrato de uma América desenraizada, ateia, urbana, cosmopolita, europeia, esquerdista e desejosa de ser governada pelo ticket Jerónimo-Louçã. Uma América cujo QI tivesse 30 pontos a menos, pelo menos.
Um livro por semana 52
«O calcanhar d´Aquiles» de Rafael Bordalo Pinheiro
Tem data de 1870 a 1ª edição deste álbum de caricaturas de Rafael Bordalo Pinheiro que, como refere Manuel de Sousa Pinto em 1915, representa o primeiro documento notável da caricatura portuguesa num tempo em que esta forma de arte era ainda em Portugal «raquítica e balbuciante». Tudo terá começado nas páginas do jornal «Revolução de Setembro» com a publicação de quatro sonetos mostrando o calcanhar de Aquiles de várias figuras das letras daquele tempo: Luís de Campos, Ramalho Ortigão, Manuel Roussado e Eduardo Vidal. Clemente dos Santos convidou Rafael Bordalo Pinheiro a conceber desenhos capazes de «pôr em evidência a parte vulnerável ou grotesca de cada cidadão caricaturado». É assim que surgem (entre outros) as figuras de Manuel de Arriaga, João de Deus, Alexandre Herculano, Mendes Leal, Pinheiro Chagas, Júlio César Machado, Bulhão Pato, Camilo Castelo Branco e António Feliciano de Castilho. Além de repetir o álbum de 1870 esta edição actual inclui vários desenhos preparatórios e esboços que estão no Museu de Rafael Bordalo Pinheiro. Como afirma Teixeira de Vasconcelos toda a caricatura tem uma filosofia: quando Pinheiro Chagas aparece travestido de Morgadinha de Valflor recebendo apenas coroas de flores enquanto o empresário recebe muito dinheiro, está indicada na caricatura a mesquinha proporção entre o modesto prémio dos homens de letras e os lucros avultados dos teatros. Ontem como hoje…
(Editora: Frenesi, Paginação: Paulo da Costa Domingos, Assistência editorial: Telma Rodrigues)











