O Dr. Oliveira Costa disse-me [no convite para a SLN],
“Eu preciso, aliás, de um número 2, não tenho, preciso de gente lá”…
Arquivo mensal: Novembro 2008
No país dos loureiros – V
No país dos loureiros – IV
No país dos loureiros – III
Oliveira e Costa, devo dizer, é um homem brilhante! É um homem brilhante, um homem muito inteligente, um trabalhador incansável. Eu não acredito, se quer que lhe diga, que ele tenha alguma vez lucrado pessoalmente com alguma coisa que lhe tenha corrido mal naquele banco… naquele banco ou naquele Grupo. É a minha convicção pessoal. Ele pode ter feito o que fez, não sei, não faço ideia, ele saberá. Agora, não acredito que ele tenha feito isso para seu interesse pessoal. O que eu vi foi sempre uma dedicação… Vi que ele tinha um sonho.
No país dos loureiros – II
No país dos loureiros
Começou o julgamento do cavaquismo
O cavaquismo está por estudar. Tal deve-se a diferentes razões, a principal sendo a permanência dos seus responsáveis em posições de alto, e fundo, poder. Outra razão de peso está nos agentes da comunicação social, onde não há protagonistas independentes. Todos os grandes grupos querem apenas fazer negócios, não denunciar aqueles com quem negoceiam. No plano individual, para reforço do mesmo, o fenómeno mais fácil ao cimo da terra é o de comprar jornalistas. O jornalista português, por formação e faro, não quer investigar. Se confidenciar a alguém, colega, familiar ou amigo, esse seu desejo, ouve logo pedidos alarmados para não o fazer. A cobardia é sistémica, e conforta. Mas, se mesmo assim insistir em investigar, e se, por talento ou sorte, chegar a algum conteúdo comprometedor, não irá resistir às prendas que o esperam, as quais são sempre muito mais eficazes do que as ameaças. Aqueles que são comprados transformam-se em aliados, enquanto os que são apenas ameaçados até podem ter a infeliz ideia de optarem pelo martírio, o que seria uma chatice. É por isso que em Portugal não há corruptos presos ou acusados ou expostos. É por isso que em Portugal até as equipas de investigação se baralham e conseguem encrencar os processos. Se preciso for, roubam-se uns computadores, desaparecem umas provas, as testemunhas desdizem-se. Finalmente, os partidos da esquerda radical não querem combater o suposto inimigo, apenas garantir um espaço à mesa. Os seus recursos, próprios e legais, não são utilizados para o estudo e diminuição da corrupção que lhes dá lenha para os inflamados discursos. Assim, o cavaquismo está por estudar. Ou melhor, está agora a ser estudado no Tribunal Central de Instrução Criminal através da observação desse espécime chamado José Oliveira e Costa. Amanhã, na RTP, teremos outro grande momento para a ciência, com Dias Loureiro. Caso algum dia se disseque um cavaquista de calibre equivalente ao destas figuras, as descobertas mudarão a História de Portugal.
Pateta Alegre
Manuel Alegre fica bem em Portugal. Não faz parte da esquerda caviar, antes é lídimo representante da esquerda robalo e perdiz, herdeira latifundiária. Na sua juventude foi um romântico, um aventureiro, e um romântico aventureiro. Deve ter comido gajas até mais não, num frenesim a misturar poesia, boémia coimbrã, cantorias, revolução, clandestinidade internacional e anos 60 e 70 muito libertinos e muito ganzados (se não comeu, tivesse comido). Na política pós-25 de Abril ficou sempre na prateleira, tornando-se numa jarra decorativa tanto no Parlamento como no PS. O dia 22 de Janeiro de 2006 foi o mais feliz da sua vida passada e futura, pois ficou à frente de Soares nas eleições presidenciais, tendo obtido votação superior a 1 milhão de votos e o 2º lugar. Qualquer um destes três resultados já teria correspondido ao acúmen da sua carreira política, mas juntos só encontram análogo no que Salomão terá sentido aquando da festa de inauguração do Templo. Desde esse dia que adormece a rememorar a noite das eleições, os gráficos, os jornalistas, os abraços, os telefonemas, os charutos, a cara do Soares a assumir o desastre e, no final, descendo em catadupa, os algarismos que perfazem o número 1000000. Ei-los galhardamente alinhados, brilhantes e tonitruantes, ocupando a extensão máxima do ecrã mental. Depois, sorridente, adormece. É isto todas as noites, vai para 3 anos.
Na última entrevista, só se aproveita o momento em que diz gostar de falar com Sócrates. O modo como o diz é sincero, menino. E nós ficamos a imaginar a franqueza dos encontros. O resto é uma continuada celebração narcísica, revelando que os seus 72 anos têm algo de pateta. E tudo de Alegre.
Se és mulher, e queres ser feliz, faz isto:
* Não tenhas filhos
* Dedica-te à tua carreira
* Se estás divorciada, faz operações plásticas
A Penelope explica.
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Entretanto, se alguém souber o que Pacheco Pereira pensa sobre os casos Madeira, BPN, variegadas declarações da Manela, denúncias de Menezes e actual momento da Selecção, é favor partilhar.
Maldita independência
Um livro por semana 89
«Em Teoria (A Literatura)» de Manuel Frias Martins
Manuel Frias Martins, doutorado em «teoria da literatura», é vice-presidente da Associação Portuguesa dos Críticos Literários e professor da Faculdade de Letras de Lisboa. Este volume bilingue (português e inglês) recolhe reflexões recentes do autor sobre temas como a tradução, a definição de literatura ou os novos horizontes da teoria literária: «Independentemente das questões de valor estético, julgo que é à presença da ficcionalidade que se deve a identificação milenar da literatura. Neste sentido, sem ficção nunca houve nem haverá literatura. Apesar daquela universalidade, aquilo que é ou não autêntica literatura esteve, desde sempre, dependente de códigos epocais dominantes. Embora mutáveis, esses códigos marcaram e marcam fortemente a evolução literária ou o diálogo intra-literário entre diferentes gerações de escritores e leitores. Isto quer dizer que os dispositivos expressivos da literatura se modificam e se transformam em função das modificações e das transformações da sociedade humana. Tanto a ideia genérica que temos do nosso presente como as congeminações que hoje podemos fazer acerca do futuro podem ser epitomizadas no extraordinário horizonte de possibilidades abertas à humanidade pela informática e pela comunicação multimédia e interactiva. São múltiplos os sinais que nos dizem que o texto electrónico irá introduzir mutações importantes nos géneros literários e implacavelmente redefinir a escrita, a leitura e também a profissão literária.»
(Editora: Âmbar, Colecção: Referência)
Contexto, pretexto e subtexto
CONTEXTO
Ela está a fazer uma hipérbole, e não uma ironia, quando projecta a imagem de um período sem democracia e outras afirmações congéneres. Por isso alguns constataram que o registo de voz não transmitia duplicidade de sentido, inerente à ironia. Tratou-se, isso sim, de uma declaração sincera através de um recurso retórico que só por má-fé, ou preguiça intelectual, é ocasião de vitupério.
PRETEXTO
O PS perdeu uma excelente ocasião para ficar calado. Essa – e por várias razões, até para aproveitar inteligentemente o letal embaraço – teria sido a melhor opção. Ao invés, saiu uma declaração emocional disparatada que só criou ruído e desviou o foco do alvo.
O PSD continua refém da imbecilidade, vindo falar no Sócrates e seu autoritarismo. É preciso ser-se muito estúpido, adiante e etc.
Os blogues que debocharam estão certos: os blogues estão ao serviço das palhaçadas. Pelo menos, é isso que eu faço.
Menezes veio, mais uma vez, pedir ajuda. Está louco. A sério. Mas teve supina graça ao falar em golpe de Estado a propósito da sua demissão da presidência do PSD. Raia, ou ultrapassa, a genialidade.
SUBTEXTO
O mais interessante, e o verdadeiramente interessante, está no subtexto das declarações. E há duas dimensões:
– Por um lado, ela revela-se incapaz de lidar com a complexidade, e aparece perigosamente adepta de um voluntarismo que tresanda a impaciência ou ignorância. Esta hipótese é consistente com o seu percurso político e respectivos resultados. A escolha da solução City Bank, por exemplo, não teria sido, afinal, a vitória do que parecia mais fácil? Inclusive, esta hipótese permite consolidar uma explicação retrospectiva para Barroso a ter preterido em favor de Santana.
– Por outro lado, ela está a expressar um pensamento comum na direita mais comum, o de que não vale a pena fazer reformas. Isso está à vista com o conflito na educação, o qual nunca teria acontecido com Governos PSD ou CDS. Então, o que as declarações também transmitem é um fundo elogio a Sócrates, juntamente com a assunção de impotência própria.
CONCLUSÃO
A Manela é uma menina mimada, indicada para segundas linhas e, ainda mais agora, para papéis simbólicos. Prestará um superior serviço ao PSD, e ao País, se encontrar rapidamente um sucessor que consiga distinguir entre o mau e o pior, o bom e o melhor. Atacar um Governo reformista é sempre o pior, mesmo quando pareça mau não ter alternativas, pois se está a atacar Portugal. Não, esse ser não se chama Passos Coelho.
anúncio com uma lágrima de crocodilo no canto do olho
Há tempos deixei aqui este comentário:
a susana tem andado soterrada debaixo do trabalho e demais assuntos que foi deixando pendurados enquanto andou algum tempo dependurada nos blogues. lê regularmente o aspirina, que eu sei, mas evita comentar para não prolongar suspensões. vai deixar o aspirina por não fazer sentido estar não estando, mas ainda não encontrou vagar para escrever a sua lacrimosa despedida.
A verdade é que tenho andado a procrastinar. Por nenhuma razão especial além da apontada acima, associada ao desejo de deixar uma mensagem significativa do prazer que experimentei neste lugar e em tão boa companhia.
Assim, concluo agora o processo: saí.
Os comunas comem professores ao pequeno-almoço
Mais do que a revolta de 1956 na Hungria, e do que a invasão da Checoslováquia em 1968, foi a eleição de Carlos Carvalhas para Secretário-Geral do PCP, em 1992, que revelou o erro histórico do marxismo-leninismo. Se era para acabar com sopinhas de massa a comandar a Revolução, alguém se tinha enganado gravemente no caminho. Pois este amigo continua a botar discurso, sempre com o declarado objectivo de vencer a burguesia pelo aborrecimento. As suas crónicas na TSF são desafios ao estado de vigília, o qual já se encontra, de seu natural, basto debilitado para todos os que tenham o bom gosto de não estar na rua às 8.40 da matina. Mas hoje foi especial.
Hoje, Carvalhas apareceu feliz, rejuvenescido, com o grau de tonteira do costume e confiante que chegasse para nos dizer o seguinte:
Optar pela suspensão, para a Ministra, não seria uma postura de bom-senso e de humildade democrática, mas uma vergonha. E o Governo, em ano de eleições, não pode passar por vergonhas. O ensino e o País que fique em segundo lugar.
Este brilhante raciocínio de Carvalhas desmonta por completo a estratégia do PS: como o ano é de eleições, o Governo pode perder o ensino e o País, remetidos a um segundo lugar, não pode é passar por vergonhas. Faz todo o sentido, é exactamente isso. Fosga-se, Carvalhas, tu topas tudo.
E como não consegue impor o seu modelo pelo convencimento e pela razão [a Ministra], ameaça os professores. Não pode chamar os gorilas, como antigamente.
Inquestionável. Se a Ministra pudesse chamar os gorilas, há muito que esta macacada teria acabado. Mas não pode, azarinho, não estamos no antigamente, esclarece Carvalhas. Ai, eu fico com afrontamentos só de pensar na pobre da Ministra, coitadinha, que não pode chamar os gorilas. E um sagui, pode ser?
Simultaneamente, Primeiro-Ministro e Ministra repetem em uníssono que a lei é para cumprir. É a estratégia da confrontação, em vez de se sentarem à mesa com os sindicatos.
É das piores exibições de arrogância que se pode ter na política, essa de repetir, para mais em coro, ser a Lei para cumprir. Está-se mesmo ver que, com essa atitude de merda, os fachos querem é a confrontação. Afinal, conquistámos a democracia para andar a cumprir leis?! É só malucos. O que a malta quer é faltar aos acordos, recusar-se a negociar e fazer chantagem com greves e boicote às avaliações dos professores e alunos, não estamos com cabeça para essas confusões da lei e não sei quê. Pois se nós nem conseguimos interpretar o que lemos… Ah, e podem sentar-se à mesa com os sindicatos, claro, mas fiquem caladinhos e passem as batatas.
Cavaco Silva disse que a manifestação dos professores é um direito constitucional. Mas podia ter ido mais longe: a resistência a qualquer ordem iníqua e injusta é igualmente um direito. E, pela nossa parte, acrescentamos: um direito e um dever.
Cavaco Silva podia ter ido mais longe, podia até ter chegado à Madeira, bastando para isso ter dito que temos o direito de nos recusarmos a obedecer a qualquer regra ou preceito que nos desagrade, nos irrite ou provoque comichão. Só que Cavaco não é Carvalhas, e há alturas em que isso se nota. Esta é uma delas, em que ficamos a saber que o PCP entrou em modo de resistência. Todo o militante e simpatizante tem agora o dever de se apresentar na sua célula para receber instruções. É obrigatório levar pelo menos duas dúzias de ovos e um professor. O Partido fornece o talher.
Um livro por semana 91
«Os Narcóticos» de Camilo Castelo Branco (volume 2)
Camilo Castelo Branco subintitula este seu livro (uma miscelânea) como «Notas bibliográficas, históricas, críticas e humorísticas» e avisa os leitores: «O leitor não se assuste. Pelo facto de chamar-se Narcóticos o meu livro, abstenha-se V. Exa. da pretensão egoísta de abrir a boca logo que abrir o livro e estirar-se de papo acima numa regalada modorra cheia de roncos assobiados em cromática infernal pelas trompas nasais. Não pretendo ser mais opiado e calmante que outro qualquer livro nacional. Estimo que adormeçam mas devagar, com os espreguiçamentos usuais nas duas Câmaras e etiquetados com frascos na grande farmácia do Diário das Cortes».
Camilo comenta a sub-literatura, os direitos de autor, discorda de Alexandre Herculano e afirma: «A literatura-mercadoria, a literatura-agiotagem tem na verdade progredido espantosamente». Mais à frente, sobre a poesia, proclama: «A poesia não tem presente: ou é esperança ou saudade».
As eleições de 1879 originam esta observação: «O Governo progressista de 1879 fez retroceder a liberdade do sufrágio a 1845, com a diferença que antepôs à violência da paulada o suborno das consciências com mais suaves pressões, exceptuando os dorsos que as sentiram duras».
A suspensão do «Boletim da Bibliografia Portuguesa» dirigida por Fernandes Tomás merece a Camilo este reparo: «A suspensão deste periódico é um dos sintomas da podridão que nos vai relaxando e acanalhando a um raso de desprezo das letras que não tem semelhante em parte do Mundo, onde, alguma hora, houvesse livros e civilização».
(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)
Gazeta 91
ESTRADA DE MACADAME – José do Carmo Francisco
XCI – «Todas as casas tinham o milagre de D. Fuas Roupinho»
A recente publicação do livro «Canto de mar – uma antologia de poesia sobre a Nazaré», organizada por Alexandre Isaac e Mário Galego, com capa de Mário Botas e publicada pela «Biblioteca da Nazaré» na sua colecção «Bico da memória», veio trazer-me à memória as minhas primeiras idas à Nazaré. Embora haja uma distância entre nós e a famosa praia pois temos primeiro que passar por Alcobaça, a verdade é que sempre senti a Nazaré muito próxima. Desde logo em Santa Catarina todas as casas tinham na parede o milagre de D. Fuas Roupinho ao lado do Sagrado Coração de Jesus ou da Pomba do Espírito Santo. Eram imagens compradas nas feiras de Rio Maior ou de Alcobaça quando não eram vendidas pelas quinquilheiras que apareciam às vezes por Santa Catarina à porta das casas de raparigas casadoiras. Tal como apareciam os ourives com a caixinha do oiro na parte de trás da bicicleta. Hoje já não há enxovais embora continue a haver casamentos. Aliás o que hoje não existe é a paciência que levava as pessoas a costurarem durante as longas noites de Inverno o enxoval de um elemento da família. Mas vejamos o livro de poesia sobre a Nazaré. Para além dos poemas deste obscuro poeta que se assina ao fim da página, integram este «Canto de mar» poemas dos seguintes autores: Afonso Lopes Vieira, Alexandre Isaac, António Borges Coelho, António Feliciano de Castilho, António Jacinto Pascoal, António Osório, António Sales Macatrão, Augusto Oliveira Mendes, Aurelino Costa, Casimiro de Brito, Epifânio Souza, Henrique Manuel Bento Fialho, Jaime Rocha, Joaquim António Emídio, Jorge Reis Sá, Jorge Velhote, José Antunes Ribeiro, José Luís Peixoto, José Soares, Levi Condinho, Luís Paulo Meireles, m. parissy, Manuel de Arriaga, Mário Botas, Miguel Torga, Murilo Mendes, Nicolau Saião, Nuno Rebocho, Paulo Reis Mourão, Pedro Silva Sena, Rui Serafim e Ruy Ventura.
A minha memória da Nazaré que surge nesses poemas é a de um tempo adulto mas em criança tudo aquilo me parecia mágico. O Sítio, a Praia, as Festas, os Círios, o Elevador, as palavras cantadas das mulheres, a voz rouca dos velhos pescadores, o Rancho Tá Mar, as touradas nocturnas. Havia uma ligação às touradas pela simples razão que a Filarmónica Catarinense era convidada de vez em quando para abrilhantar as touradas das Festas da Nazaré e por isso a primeira tourada que vi foi uma nocturna. Era no tempo da grande rivalidade entre o Manuel dos Santos e o Diamantino Vizeu sem esquecer outros como o Amadeu dos Anjos e o José Trincheira além de outros dois ribatejanos (Mário Coelho e José Júlio) que eu viria a conhecer em Vila Franca de Xira. Lembro-me perfeitamente de uma das pessoas que tinha ido connosco da minha terra às Festas da Nazaré ter dito nessa noite: «Olha entrou agora o capinha!». Não se dizia toureiro nem novilheiro nem matador mas sim capinha. São todas essas memórias do tempo da Estrada de Macadame que aparecem convocadas no meu espírito a propósito da alegria que foi ver os meus poemas numa antologia de homenagem à Nazaré, sua paisagem e seu povoamento.
Para mim é algo especial eu ter poemas meus publicados num livro que integra poemas de Afonso Lopes Vieira e de Miguel Torga. Se como dizem «toda a literatura é uma homenagem à literatura» então a prova está aqui neste livro. Eu que comecei a gostar de ler poesia no Ciclo Preparatório com dez anos de idade percebo que o facto de os meus poemas estarem lado a lado com esses dois clássicos (e de todos os outros, obviamente) prova que a literatura é (mesmo) uma homenagem à literatura.
25 de Novembro sempre!

Conhecido dirigente, de um partido nacional e socialista, saúda o desfile dos que vão combater na Guerra da Avaliação, prevista durar o ano todo.
Uma das características que melhor identificam o Governo Sócrates é a capacidade de negociação. Não temos memória de tal, e o Governo de Guterres foge à comparação dado que não negociava, cedia. A primeira grande exibição desta virtude – porque é de força que se trata – aconteceu com o processo de localização do novo aeroporto de Lisboa. A 11 de Abril de 2007, em entrevista na RTP, Sócrates dizia que a Ota era, indubitavelmente, a melhor localização: 30 anos de estudos, validação por diferentes Governos anteriores, recente consulta aos melhores consultores internacionais, urgência na construção do novo aeroporto, ausência de estudos quanto a outros locais, necessidade de dois ou três anos para ponderar uma alternativa. Deste rol de pressupostos, concluía o Primeiro-Ministro ser um erro parar o projecto Ota. 8 exactos meses depois, o Campo de Tiro de Alcochete era confirmado como o local para o novo aeroporto de Lisboa pelo mesmo governante. Que aconteceu? Política. Às claras e nos bastidores, a sociedade moveu-se, fez pressão e o Governo geriu a situação da melhor forma. Isso não quer dizer, porém, que a Ota fosse um erro. Quer é dizer que o Governo, mesmo de maioria absoluta, sabe negociar.
Quando se deixou cair Correia de Campos, estávamos no auge de um novo cenário em Portugal: a assustadora realidade das reformas. Não por acaso, não se fizerem reformas em 30 anos de democracia, antes se acumularam e aumentaram vícios e disfunções. É que reformar é a tarefa mais difícil para os políticos no poder, os quais devem sempre favores às forças da situação, os mesmos que temem perder na próxima eleição. Momentos de grave crise são propícios à reforma, como a História ilustra, onde guerras, desastres financeiros e catástrofes naturais podem diluir os factores de constrangimento, oposição e inércia. Em Portugal, a grave crise tinha sido protagonizada pela fuga de Barroso e pelo desastre de Santana. O regime tinha batido tão no fundo que se deu ao PS a sua primeira maioria absoluta, cenário que alguns só julgavam possível acontecer com Cavaco. Era fatal: se as reformas agora viessem, com elas teria de vir uma inusitada e imprevisível convulsão social.
Tentar mudar a mentalidade de uma qualquer organização é sempre a tarefa mais difícil para os seus dirigentes. No caso, o desafio não podia ser maior, e os comentadores de referência não acreditavam que o País fosse reformável, tivesse salvação. Pois este Governo revela uma e outra vez ter força e cultura política para aguentar o barco no meio da tormenta das reformas que já efectuou, pouco interessando contabilizar se foram muitas ou poucas. No caso do Ministro da Saúde, a sua presença esteve assegurada até às últimas, e foi preciso ver o PS também em pânico para que Campos fosse sacrificado. Assim que saiu, publicaram-se elogios que tinham ficado na gaveta enquanto os reaccionários e os néscios atacavam furiosamente. É a hipocrisia a reconhecer a bravura do Governo. Mas o que importa realçar é a lógica de Sócrates: dada a irracionalidade que os opositores da reforma na Saúde tinham promovido, intoxicando com mentiras e cenários alarmistas as populações ignorantes, parar foi a forma de negociar com uma sociedade cujo inconsciente ainda pertence a Salazar. Esse mesmo inconsciente que arrasta os professores contra a avaliação.
O Sporting explicado ao seu treinador de futebol
Paulo, o Sporting tem orgulho da sua capacidade de sofrimento. Lidamos bem com travessias do deserto, árbitros empanturrados de fruta em trânsito para o Brasil, épocas natalícias, arquitectos com queda para o azulejo, goleadores em final de carreira, médios medianos, defesas em crise de identidade, guarda-redes frangueiros, treinadores copofónicos, treinadores rurais, treinadores artolas, treinadores cientistas, treinadores engenheiros do penta, presidentes com bigodes farfalhudos, presidentes cervejeiros, presidentes que não batem bem da bola, presidentes muito betos. Até aceitamos calados, mas tristes, a extinção do ecletismo que teve décadas de serviço público e foi glória do espírito amador. Todavia, contudo, porém, não admitimos que nos mandem calar. Ora, não só nos mandaste calar como deixaste que outros dois lampiões como tu, Moutinho e Veloso, repetissem o gravame. Por isso, e por não seres capaz de lidar com o verdadeiro leão Vukcevic, tens o estádio às moscas. Um estádio que sempre recebeu a mais leal, amorosa, entusiástica, apaixonada massa de adeptos. Um estádio que se une a uma só voz e canta. Perder com o Porto por causa do árbitro (o que, aliás, é mentira) não te devia dar o direito de revelar ao público que o Sporting paga ordenados a imbecis. Mereces um castigo valente, diga-se em abono da higiene no futebol. E perder com o Leixões não seria problema algum, se não fosse evidente teres perdido a equipa, teres perdido o bom-senso e teres perdido os adeptos. Espera aí, não te vás já embora – tens o telefone do Carlos Carvalhal?
Aspirina Z
(Valupi: tenho uma aqui para contar; lembras-te daquela ponte romana-filipina que eu andei a namorar, e contava aqui no Aspirina, e andei mesmo, passava-lhe a mão pela pedra, até lambi num cantinho para ver como andava o calcário, pois olha disseram-me anteontem que já está classificada como monumento municipal, publicado e tudo. Nada como fazer um basqueiro e trufa. Portanto com essa já posso ficar descansado.)
Vinte Linhas 297
Uma tarde no banco de Marta
Estamos no meio de Novembro mas o sol permanece como se fosse Verão.
Há nove espreguiçadeiras ocupadas, cinco pescadores com seis canas de pesca e o mar que parece um espelho gigante com o sol a bater-lhe em cheio. Efeitos do anticiclone dos Açores, dirá um especialista. Mas o que conta para estas dezenas de pessoas aqui à volta é o usufruto do esplendor do sol, a quase ausência de vento, o ruído feliz das ondas a lembrar os primeiros sons do álbum «Bom voyage» de Vangelis Papathanassiou.
No banco de Marta estendem-se os jornais do dia, a vitória de Obama, o escândalo do Banco Português de Negócios, a polémica das arbitragens em Portugal provando uma vez mais duas coisas: depois de 1983 ninguém acredita em ninguém no futebol português e os estádios só não estão completamente vazios porque a paixão clubista ainda não morreu.
As conversas chegam aqui perto da âncora deitada que parece um enorme travessão no meio da tarde: uma senhora tem o cabelo fraco e precisa de acertar as pontas, a outra tem a filha no estrangeiro e já não a vê há largos meses. Além disso não sabe o que há-de fazer para o jantar neste sábado de sol. De súbito um fotógrafo de meia-idade e um jovem operador de câmara aparecem nas rochas, por cima dos antigos viveiros dos restaurantes e dos hotéis da Ericeira. Fotografam e filmam um rapaz e uma rapariga que parecem noivos em despedida de solteiro ou em ensaios para as fotografias do casamento de amanhã. Assim como apareceram os quatro desaparecem velozmente para o lado da praia dos pescadores. Só o sol e as gaivotas permanecem frente ao espelho luminoso da massa líquida do Oceano em frente ao banco de Marta.


