Uma eleição onde ganharam todos

Incluindo os Republicanos, os quais não saberiam o que fazer com aquele casal de aves raras, o irascível velhinho e a mamã tonta. Porém, há um vencedor que neste momento ainda permanece na sombra. Porque neste momento fazem-se as catarses relativas ao desastre Bush e aos preconceitos de fenótipo. A esquerda convencional tem muitos papelinhos para lançar, e a direita convencional tem muitos suspiros de alívio para esconder. Quando a poeira baixar, ver-se-á como a Internet, e suas redes sociais, foram alimento da democracia e da cidadania. A quantidade disparatada de fontes de informação não gerou o caos, bem ao contrário: facilitou o estabelecimento de critérios, filtrou o ruído, gerou qualidade, estimulou a participação. E para quê? Para que voltássemos às origens, onde os candidatos ao poder democrata se apresentavam aos votantes para serem julgados na sua irredutível e despojada verdade. E foi isso exactamente o que aconteceu a dezenas de milhões de pessoas que votaram, ou que gostariam de votar mesmo não sendo americanos: a funda consciência de se estar perante uma escolha não ideológica – para além da aversão a Bush, para além da antipatia pelo adversário, para além do partido de identificação, para além das propostas, para além da oratória, para além da cor, para além da simpatia, o que se estava a escolher era o ser humano em quem mais se pudesse confiar.

200 mil anos de vida neste planeta não mudaram a essência da vida em grupo, quer seja nas cavernas, na ágora, na Cúria ou num ecrã de televisão, computador, telemóvel: o Homo Sapiens Sapiens continua a seleccionar o carácter.

Vinte Linhas 295

O «pão-por-Deus» num dia de sol na Ericeira

Pois é, Marta. Ainda há terras portuguesas onde a tradição não se perdeu. No meu tempo de criança ia, quase sempre debaixo de chuva, com um saquinho de pano, pedir o «pão-por-Deus» a todas as casas da sede de freguesia entre os dois Paços que são pequenas capelas a marcar o fim da terra. Já nesse tempo toda a regra tinha excepção: do lado de cá íamos longe até à casa da tia Laura que tinha para nós as melhores nozes e do lado de lá íamos sempre à casa do tio Zé Ivo que tinha as melhores batatas-doces assadas.

A minha filha mais velha ainda andou no «pão-por-Deus», na minha terra tinha ela quatro anos. Aqui na Ericeira gostei de ver os miúdos mais pequeninos a entrarem nas lojas e nos cafés a pedirem «pão-por-Deus». Até a Junta de Freguesia colocou um empregado a oferecer bolachas e chocolates aos pequeninos no largo do Jogo da Bola. A mim, no T Zero, apareceram três miúdos tinha eu chegado há minutos e felizmente tinha nozes na mesa da cozinha. Lá me desenrasquei com o «pão-por-Deus». Nem tudo é igual. Aqui na Ericeira os miúdos pedem no dia 1 nas terras à volta e no dia 2 dentro da terra. Foi por serem tantos que o carro da Junta de Freguesia teve que ir buscar «reforços». Nada que uma chamada de telemóvel não resolva. Num mundo tão hostil onde o habitual é virem sacar o nosso dinheiro para pagar os desvarios dos outros, esta oferta de «pão-por-Deus» surge como um oásis de alegria convocada e reunida por uma tradição. Os olhos das crianças não mentem. E eu fiquei comovido pois até me parecia que o meu neto também andava por aqui, neste grupo que acaba de entrar no café Central a pedir «pão-por-Deus» com um saco meio-cheio de nozes, passas, figos secos e bolos com erva-doce.

Às 21.30 o Aspirina B já estará em condições de revelar o resultado da noite em que um preto promete fazer história

Esse preto chama-se Liedson e as sondagens apontam-no como forte candidato a resolver o jogo com o Shakhtar, o qual dará acesso aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões; fase em que nunca entrámos devido à abjecta segregação racial contra os felinos. Mas o tempo é de mudança, apesar de Paulo Bento ter jurado não mudar, nem que tenha de sair. Sábias palavras.

Síndrome do Alasca

A Síndrome do Alasca é patologia antiga, mas só há poucos meses tipificada. Caracteriza-se pela emissão de opiniões que desafiam as evidências, as quais apresentam uma correlação directa entre as respectivas potências: quão maior a evidência, maior o esforço para a contrariar. O fenómeno chamou a atenção dos investigadores aquando da escolha de Sarah Palin para candidata Republicana à vice-presidência. Sendo óbvio que a senhora até para perceber as políticas de Bush teria invencíveis dificuldades, ficava por explicar tão pasmoso convite. Imediatamente, várias universidades e institutos internacionais começaram um ambicioso estudo. Uma das linhas de pesquisa trouxe uma equipa a Portugal, pois aparecerem textos em português (assinados!) (e alguns em blogues de esquerda…) onde se defendia o mérito, e até o brilhantismo, da escolha de Palin. Estes autores recolhiam sondagens favoráveis a McCain, apontavam a injustiça, mesmo hipocrisia trapalhona, das críticas que choviam sobre a coitadinha, denunciavam falhas e ambivalências no lado de Obama, gozavam com desprezo senil dos que não tinham perdido tempo a elencar as evidências, chegaram a vaticinar que Palin iria dar a volta por cima à primeira leva de revelações fatais. Isto durou várias semanas, e a equipa de investigação estava fascinada com a intensidade da Síndrome do Alasca observada nesses indivíduos. Um dos catedráticos presentes, por sinal veterinário, aventou a hipótese de se tratar de um foco particularmente agudo que poderia estar relacionado com a Gripe das Lideranças do PSD, problema endémico que poderá fugir de controlo e tornar-se numa pandemia. Não tiveram tempo para aprofundar essa suspeita, pois depararam-se com o maior desafio das suas carreiras: o Pacheco.

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Vinte Linhas 294

Os «Narcóticos» de Camilo num banco frente ao mar da Ericeira

Leio o volume II dos «Narcóticos» de Camilo Castelo Branco (Bonecos Rebeldes) no banco de Marta (blog laberintodepapel) frente ao mar da Ericeira. O sol de Outono ilumina as páginas: «O leitor não se assuste. Pelo facto de chamar-se Narcóticos o meu livro, abstenha-se V. Exa. da pretensão egoísta de abrir a boca logo que abrir o livro e estirar-se de papo acima numa regalada modorra cheia de roncos assobiados em cromática infernal pelas trompas nasais. Não pretendo ser mais opiado e calmante que outro qualquer livro nacional. Estimo que adormeçam mas devagar, com os espreguiçamentos usuais nas duas Câmaras e etiquetados com frascos na grande farmácia do Diário das Cortes». Camilo comenta os direitos de autor, discorda de Alexandre Herculano e afirma: «A literatura-mercadoria, a literatura-agiotagem tem na verdade progredido espantosamente». Mais à frente, sobre a poesia, proclama: «A poesia não tem presente: ou é esperança ou saudade». As eleições de 1879 originam esta observação: «O Governo progressista de 1879 fez retroceder a liberdade do sufrágio a 1845, com a diferença que antepôs à violência da paulada o suborno das consciências com mais suaves pressões, exceptuando os dorsos que as sentiram duras». A suspensão do «Boletim da Bibliografia Portuguesa» dirigida por Fernandes Tomás merece a Camilo este reparo: «A suspensão deste periódico é um dos sintomas da podridão que nos vai relaxando e acanalhando a um raso de desprezo das letras que não tem semelhante em parte do Mundo, onde, alguma hora, houvesse livros e civilização».

A Anabela trouxe das Caves de Gaia um Ramos Pinto de lei. Com ele, com as castanhas e os sonhos de abóbora da esplanada de Santa Marta poderíamos fazer um pão-por-Deus. Marta, se não sabes o que é um pão-por-Deus eu explico na próxima crónica.

Na melhor inteligência cai a imbecilidade

Fernanda Câncio é uma jornalista de prestígio já estabelecido (o PSD que o diga), e uma personalidade com crescente carisma público. O nascimento do jugular estará ligado, em parte, ao seu cleopátrico nariz propenso a atrair mostarda. E o espirro, dito alérgico, deu origem a um novo blogue muito bem composto. Ora, estas circunstâncias não a protegem contra a imbecilidade, como este seu texto faz questão de lembrar. O caso explica-se em poucas linhas, porque nasce de poucos raciocínios.

O primeiro parágrafo situa-nos na África mais miserável, onde uma jovem foi morta por decisão de autoridades religiosas islâmicas. O segundo parágrafo transforma o caso individual num símbolo de todas as vítimas da violência exercida em nome de certas ideias de Bem. E o terceiro parágrafo faz uma surpreendente e atarantada confusão entre escrituras sagradas e práticas religiosas. Termina referindo o Deuteronómio como prova de culpa dos católicos. Estamos, pois, perante um exercício de escrita expressionista, o qual se qualifica como imbecilidade pela sua completa falta de lógica.

Como foi dito na caixa de comentários, estabelecer uma relação causal directa entre palavras e actos obriga, então, a reconhecer nos actos de bondade, e de sacrifício, a influência da mesma fonte de todas as palavras que uma qualquer religião venere. Esta é a primeira contradição, pois quem ataca os textos das religiões não aceita que eles possam ser validados pela acção dos crentes. Quem age pela fé terá ainda, e sempre, de se conformar ao edifício axiológico dos críticos para não ser atacado. Mas assim que faça algo oposto, ou meramente diferente (abstinência sexual, por exemplo), vai levar com o carimbo da censura e da maledicência. Os ateus não toleram exibições públicas das equipas concorrentes, só um dos credos pode ter direito à cidadania.

A segunda contradição, e a mais grave, é a que resulta de não se ter formação em ciências socias (ou, a ter, ela não ter gasto). Isso permite a deformação inverosímil, repetida pela autora nos comentários, de relacionar passagens do Deuteronómio com a experiência de fé dos católicos. Esta é uma situação que desperta a tentação do achincalhamento, tamanha a estupidez, mas até para efeitos de economia é preferível ficar por uma só palavra: historicidade. Este conceito remete para o concreto do devir histórico, afastando as abstracções reducionistas e ideológicas. No caso do livro convocado, estamos perante um texto que – no mínimo dos mínimos! – é fulcral para se conhecerem dimensões etnográficas, históricas e antropológicas de povos que viveram há 3, 4 e 5 mil anos; e ainda mais longínquos, pois tudo na ciência é correlacionável e cumulativo. Este mesmo texto tem valor sagrado para os católicos, todavia em grau muito inferior ao da sua importância no judaísmo. Mas o que é obrigatório afirmar é a sua ineficácia jurídica e social. As leis, regras e preceitos descritos no Deuteronómio não resistiram ao tempo na sua valência literal. Porém, permaneceram como fonte de inspiração no contexto maior da hermenêutica e exegese bíblicas, as quais alimentam constante e renovadamente a teologia. Se quiséssemos limpar a Bíblia do que nos parece desajustado segundo a moral e compreensão de cada um, e no tempo e local que for o seu, quem decidiria o quê? E que restaria? Isto, como é óbvio, constrange ter de ser explicado.

Fernanda Câncio, afinal, também está Bem-intencionada. É esse o seu inferno.

Moderados radicais

A notícia da execução de Aisho Ibrahim Dhuhulow é ocasião para referir o livro Arguing the Just War in Islam, de John Kelsay. Como aponta o autor, há muçulmanos moderados que se opõem aos métodos terroristas e criminosos dos muçulmanos extremistas, mas que não renegam os mesmos objectivos. Isso explica o seu silêncio e efectiva cumplicidade com a demência. Mas não só, e ainda mais importante: isso explica a sua calada recusa do Ocidente, da democracia, da secularidade e, fatal, dos Direitos Humanos. Porque todas as noções legais e morais que defendemos nas sociedades seculares são antagónicas com o projecto totalitário das religiões, quaisquer. Não é possível aceitar alguma forma de compromisso que venha a limitar a secularidade, terão de ser os religiosos a capitular ou fugir. A grande vantagem histórica do cristianismo na comparação com o islamismo está no facto de já se ter vencido o condicionamento indentitário de cariz religioso no Ocidente. Essa luta levou séculos, e é hoje uma realidade irreversível: damos a César o que é de César, e respeitamos a prática daqueles que querem dar a Deus o que é de Deus.

Na morte da mulher somali violada que foi denunciar os seus violadores, e que acabou os seus dias como alvo de lapidação num estádio de futebol com centenas de pessoas a assistir, o mais importante não está na violência, no escabroso, no grotesco e no aberrante. Para aquelas pessoas envolvidas, tratou-se de um cerimonial e espectáculo que faz parte da sua experiência quotidiana e respectivos códigos de doação de sentido. Conduzir alcoolizado e provocar a morte a terceiros é igualmente escabroso e aberrante. O mais importante, para nós à distância, está no reconhecimento da lógica mais funda do acontecimento – aquela rapariga foi morta para servir de exemplo à comunidade: quem denuncia violadores, morre sem honra. Assim, ou também assim, desvela-se uma sociedade onde as mulheres são violadas e ameaçadas de morte sem disso poder haver denúncia pública, onde as famílias não têm nenhuma autoridade que as proteja. A invocação das leis religiosas é secundária, pois qualquer argumento serve para tentar manter as mulheres em permanente estado de alienação de direitos. Mesmo em tribunais seculares, durante séculos se protegeram os violadores e abusadores masculinos. Neste preciso momento, é provável que um homem em Portugal esteja a agredir verbal ou fisicamente uma qualquer mulher com quem viva, ou de cujo espaço se tenha apropriado, se ela der sinais de o querer abandonar ou se ele despejar nela a sua loucura. Este nosso patrício, que até pode ser muito bem visto pelos vizinhos no café do bairro ou pelos colegas no local de trabalho, não é diferente daqueles que assassinaram a miúda corajosa.

Os muçulmanos têm de se assumir: se estão contra a barbárie que se faz em nome do seu Deus e Profeta, digam-no alto e bom som, repitam-no às suas crianças e jovens, dêem exemplos de respeito pela vida e pela dignidade; se nada querem dizer, então é lícito vê-los como cúmplices. O mesmo para os cidadãos em relação à violência doméstica e aos crimes sexuais: se estamos contra, vamos intervir e fazer o que pudermos para salvar as vítimas; se nos calamos, somos aliados dos cobardes.

No que toca à moderação, há que ser radical.

Vinte Linhas 293

«Mata – um falar peculiar e outras curiosidades» ou uma monografia em 2008

Houve tempos em que as localidades portuguesas aspiravam a ter uma Monografia. José Cardoso Pires fez da Monografia da Gafeira personagem do seu romance «O Delfim». Este livro de Manuel Barata, publicado por Edições Alecrim poderia ser a «Monografia da Mata». Existe na Mata (Castelo Branco) um falar peculiar. Esse é o ponto de partida. Na Mata diz-se acajadar por guardar, apalamado por adoentado, arrezoar por murmurar, assedento por mau-olhado, baldão por desleixado, banquinha por mesa-de-cabeceira ou burra por picota. Seguem-se algumas expressões populares (como sardinha no ar em vez de levar um estalo) e as alcunhas, os ofícios e as profissões do campo. Depois surgem os lagares de azeite, as mercearias, as tabernas, os cafés, as forjas, as oficinas., os sapateiros, os alfaiates, os barbeiros, os talhos, as serrações, os moleiros. Noutro capítulo recorda-se a festa do casamento que incluía o cortejo, os rebuçados, o copo de água e a terrina de sopa para as crianças. Segue-se a memória das casas: «uma porta de entrada e um corredor, no início deste uma porta que dava acesso a uma salinha e esta dava comunicação a dois quartos, um destinado ao casal e o outro aos filhos e/ou às filhas.» Também a memória das festas e procissões, danças e cavalhadas. Por fim os jogos e a culinária, o posto da GNR, a prática religiosa e a difícil sociabilidade dos seus habitantes: «A Mata esteve isolada durante séculos. A construção da actual estrada, que liga a povoação à EN 240 ocorreu já nos anos cinquenta. A anterior ligação era de terra batida. A Castelo Branco ia-se ao médico quando a coisa não passava com os remédios caseiros e rezas ou para tratar de assuntos importantes».