A açoriana de Grândola e os fundamentalistas do Norte

Entre 1979 e 1989 organizei a antologia O Desporto na Poesia Portuguesa, editada pelos Sindicatos Bancários – Norte, Centro, Sul e Ilhas. Um dos poemas antologiados é de Ivone Chinita e está na página 101. Pois no livro História Natural do futebol de Álvaro Magalhães (Assírio & Alvim) aparece nas páginas 228 e 229 a citação parcial desse poema. Sem qualquer indicação de onde foi retirado e com um erro. O autor chama-lhe escritora açoriana, mas Ivone Chinita nasceu em Grândola, onde está sepultada desde 1983. Na página 235 surge uma nova citação do mesmo poema, mas desta vez nem sequer aparece o nome da autora.

Quando se cita um poema deve referir-se sempre qual o livro do qual esse poema foi retirado. O autor enche sete páginas de notas, mas aqui saltou como gato em telhado de zinco quente.

Noutro livro, com o ambicioso título de A paixão do Povo – História do futebol em Portugal, publicado pela Editora Afrontamento e da autoria de João Nuno Coelho e Francisco Pinheiro, acontece algo parecido. O meu nome foi rasurado na bibliografia, pois sou um dos três co-autores do livro Glória e vida de 3 gigantes, editado em 1995 por «A Bola». Mas na página 692 deste volume aparecem só os nomes de António Simões e Homero Serpa.

Sobre o S. L. e Benfica escrevem os autores: «Decidiu bem quem decidiu pela data oficial referindo-se a 1904 por oposição à de 1908 que essa sim é verdadeira. Só há história com documentos, e não há nenhum documento com data de 1904 a referir-se ao S. L. Benfica». Escrevi uma carta, mas não obtive resposta.

Mas nem tudo é mau. O meu exemplar está autografado pelo Toni e pelo Humberto Coelho. Um com amizade, outro com admiração. E isso tem muito valor.

José do Carmo Francisco

As lampreias danificadas

Que pena que o nosso blogue, ou o programa de edição do nosso blogue ou lá o que é, seja versão 3.2.

É que adorava saber como é que estes nos iam “ajudar a minimizar o dano”.

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Imaginei o seguinte e-mail para o bom do Carlos Rodrigues:

“Caro Carlos,

Soube agora do vosso percalço com a cena dos posts perdidos. Sucede que, no período a que aludem, escrevi oito posts sobre a lampreia. Lamentavelmente, escrevi-os directamente no blogue, pelo que não tenho forma de os recuperar. Por isso, como podem imaginar, respirei de alívio quando li o vosso simpático memorando. Assim, e para que me possam reescrever os posts, única forma de o meu dano ser minimizado (a reparação integral implicaria uma sempre intrincada viagem no tempo), envio-vos, com a esperança que vos seja útil, a única coisa que conservei em lembrança: os títulos.

– Lampreia: peixe ou felino?;
– A língua raspadora da lampreia e o artigo 6º do Código Civil;
– Lampreia, quo vadis?;
– Petromyzontida ou Cephalaspidomorphi?;
– A minha lampreia é maior que a tua;
– A importância da lampreia no cinema polaco;
– De olho pineal em ti;
– A câmara branquial das lampreias: feitio ou defeito?;
– Lampreia e o domínio do mundo: do auge do Carbonífero ao declínio do Devoniano;

Antecipadamente grato, aproveito para lhe apresentar os meus cumprimentos que trago a uso (os meus melhores tenho-os guardados para os Domingos de sol, em que depois da missa vou de passeio com a senhora),”

Dizer “Sim!” (com ponto de exclamação)


Fotografia de Rui Coutinho

Paula Rego em entrevista ao Diário de Notícias:

Falava há pouco da abnegação das mulheres e do aborto. Portugal fará em breve outro referendo. O que lhe apetece agora dizer?

Sim! Apetece-me dizer que já não é sem tempo. Parece impossível que ainda exista uma lei assim num país da Europa. Acho inacreditável que ainda se debata uma questão dessas. Com franqueza! Vamos lá ver se vai desta!

Prazeres da língua – 3 (com a devida vénia ao canal, o Odisseia)

Hoje será às 17, repetindo às 22 horas. No sábado, às 11. No santo domingo, já não se toca nele. E depois voltará a ficar escondido. Falamos de um documentário científico acerca do clítoris. Ou do clitóris, como se grafa no livro A História Íntima do Orgasmo, de Jonathan Margolis, em tradução de Fernando Dias Antunes. Constata-se haver aqui uma questão de vulva, perdão, de vulto: onde fazer a acentuação?; onde e como pressionar? Há milénios que as mulheres se queixam do mesmo problema aos homens, sugerindo até uma falta de tónica na sílaba. Felizmente, sempre aparecem uns linguistas mais corajosos ou atrevidos, mais generosos ou requintados, no fundo, mais aplicados, os quais puxam pela língua natural e a levam a percorrer os meandros desses terrenos tão feericamente estruturados.

A história do clítoris é uma fonte inesgotável de prazer (creio que esta asserção é absolutamente incontestável; e se por mais nenhum feito na minha insignificante vida, gostaria de passar a ser conhecido como aquele que elaborou, no campo das ciências humanas, um raciocínio que rivaliza em perfeição com os cálculos matemáticos; mas adiante). Ninguém ignora que Colombo descobriu a América e inventou os índios. E que tal se vos dissesse que Colombo descobriu o clítoris? Diriam que estava a gozar?

O clítoris concorre para o título de entidade mais enigmática no universo conhecido. Biologicamente, aparenta não servir para nada de útil. Então, após 3500 milhões de anos de evolução, que raio está cá a fazer? Também não faço ideia, mas não me queixo. De uma coisinha, assim pequenina na aparência e muito sensível, tenho eu a certeza: quão melhor se conheça o clítoris, melhor se penetra no mistério de tudo.

Professores, explicadores e curiosos, mãos à obra.

José Cid canta JCF

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Café contigo

Misturas no café os teus sabores
A campo, celeiro e a pomares
Na verdade, vás onde fores
Tudo se modifica ao chegares.

Dispensas o açúcar que te dão
E fica abandonado sobre a mesa
Tens doses de doçura em tua mão
E nos olhos a espuma da beleza.

Mas não dispensas a colher pequena
Capaz de equilibrar a mistura
Entre a força africana tão serena
E a luz tão doce da Estremadura.

Misturas no café o teu sorriso
Que trazes na pele do teu dia
Beber café contigo é o paraíso
E estar na capital da alegria.

José do Carmo Francisco

O jornalista e poeta vem reforçar as hostes aspirínicas. Bem-vindo, Zé do Carmo.

King of the Road

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No meu trajecto matinal pela Serra de Sintra afora, já me tinha habituado a um frequente mas penoso encontro: um velhinho sentado num daqueles veículos ronceiros que não exigem carta para serem conduzidos. As maquinetas periclitantes a que uma amiga minha chama “papa-reformas”. Dia sim, dia não, lá apanhava o homem a subir e descer encostas sempre à mesma velocidade. Uns estonteantes 25 Km/h; isto numa estrada em que a maioria das ultrapassagens equivale a tentativas de suicídio mal disfarçadas. Mas pronto; fui-me habituando àquele obstáculo móvel e à visão da nuca enrugada do seu condutor.
Hoje, dei de novo com a aparição. Só que o geronte imparável seguia ao volante de um refulgente Fiat Seicento. Automóvel infinitesimal mas “a sério”; prova de que o homem tinha por fim a preciosa carta de condução. Estava capaz de jurar que a sua nuca sacolejava com uma outra altivez, talvez proclamando uma nova cidadania do asfalto.
Infelizmente, uma coisa não mudou: o homem continua a circular à velocidade de sempre: 25 Km/h. Nem mais.

Prazeres da língua – 2 (com a devida vénia ao Fernando Venâncio)

A conjugação da segunda pessoa do singular do Pretérito Perfeito do Indicativo (2PSPPI) é um caso clássico de agramaticalidade. Ai de quem diga *tu comestes em vez de tu comeste, que leva logo com uma rebocada na cabeça.

No entanto, esse é também um caso típico de um erro que resulta apenas (pasmo) do conhecimento gramatical do sujeito falante. A 2PSPPI é uma excepção na conjugação verbal do Português. Em todos os restantes tempos verbais, a segunda pessoa do singular é sempre marcada com o morfema «s» – comes, comias, comeras, comerás, comerias, comas, etc… Dessa forma, por analogia, é gramaticalmente explicável a tendência dos sujeitos falantes para conjugarem a 2PSPPI como comestes em vez de comeste. Até porque, vejam só a beleza da coisa, o acrescento do morfema de pessoa («s») nem sequer dá origem a uma palavra nova, mas a uma forma verbal idêntica à segunda pessoa do plural do mesmo tempo verbal.

Será que daqui a alguns anos a conjugação *tu comestes será gramaticalmente correcta? Não faço a mínima ideia, mas não excluo a possibilidade. Essa evolução seria apenas uma das inúmeras registadas nas línguas românicas que resultam de fenómenos de regularização do sistema linguístico ou de atracção de paradigma. Há um exemplo clássico no Latim que é o facto de um vocábulo como honos ter evoluído para honor apesar de não reunir as condições (fonema «s» em contexto intervocálico) para se verificar a lei fonética (rotacismo) que permitiu, por exemplo, a evolução honosem > honorem. Saussure explicava o fenómeno analógico de duas formas: por um lado, houve uma atracção do paradigama: após a evolução das outras formas, honos tornou-se irregular (fenómeno de reposição da regularidade); por outro lado, o próprio paradigma da língua latina já admitia a possibilidade de um nominativo em –r (orator, oratorem).

Estão a ver as semelhanças com a nossa 2PSPP? Pois é.

Vira o disco e toca o mesmo

Acabo de ouvir o Rui Castro na TSF, perorando contra a despenalização do aborto. Acreditem ou não, ele saiu-se a páginas tantas com este raciocínio: não vale a pena agora avançar para esta solução radical, quando obra bem mais meritória e eficaz seria investir na educação reprodutiva e sexual.
Ora lembro-me eu muito bem dos senhores que há uns anos se bateram com êxito pela mesma causa a garantirem, com rasgados sorrisos para a TV, que aquela vitória seria o início de um grandioso movimento em prol da… educação reprodutiva e sexual. Deram por isso, nestes 8 anos? Claro que não; de notável, só me vem à ideia uma tal Mariana Cascais, senhora muito bem então com responsabilidades governativas, a garantir que, se dela dependesse, a educação sexual desapareceria dos currículos escolares. E de continuar a ver uns senhores de sotaina a maldizer o preservativo e a pílula.
Bem dizia o Marx que a História tende a repetir-se como farsa.

APELO

Há uma miuda internada, com doença grave, que precisa urgentemente de sangue B- (negativo). Malta, vamos lá ajudar a miuda! Divulguem este pedido pela blogosfera, nacional e internacional.

Contactos: Luis Carvalho 93 108 5403
Pedro Ribeiro 22 204 1893

Prazeres da língua – 1

Aqui em casa, no Aspirina, não há ninguém com o periúdo. Somos um blogue masculino. Exorbitantemente masculino.

Mas não somos mediúcres, julgo eu. Haverá, no máximo, quem nos ache miúpes.

A sério. Se souber de mais retorcimentos vocabulares deste tipo, informe o pessoal. Fazemos colecção. Mais: se achar que a nossa língua é «mesmo assim», diga também. Um gajo já está por tudo. Mesmo rilhando os dentes.

SIM OU NÃO

Há (haveria se isto fosse conversa telefónica directa e não-fiada) várias opções na resposta a uma pergunta que gostaria de fazer aos consumidores de gasosa democrática que por aqui tropeçam. Sempre é melhor que o “sim ou não” – “Deus ou Diabo” que se anda a oferecer às pessoas sobre o problema das terminações artificiais das gravidezes. Mas, estou mesmo a ver, serei eu que no fim terei de ser o respondente, e depois o respondão, porque não posso ficar para sempre à espera que me escrevam ou que a pele se erice a alguem.

Confusos e já a mergulharem no aborrimento? Há cura para isso. Basta olhar para 2006, e pensar que 2007 só pode ser mais um Ano de confirmação, um ano neo-quase-tudo-mau (fascista, negociador, conservador, disfarçador, intriguista, etc., etc), isto é, Ano que será certamente do Lacrau e possivelmente da Osga, ou da Hiena e do Papagaio, com highlights previstos no comércio de dragões em Xangai e deterioração também certa da indústria do hambúrguer humano no Iraque, e muita conversa de bruxas políticas ocidentais à volta de mesas redondas para decidirem o que já está decidido há muito tempo. Enfim, segue o misterioso quesito:

Se merecesse a pena, por onde é que acham que eu deveria começar para dar uma opinião muito pessoal de como vai o mundo – com as boas novas ou as novas pesarosas; com o sal necessário à vida ou com o podre dos cheiros enxofrentos e amoniacais; com o fel ou com o mel; com o anúncio tardio e incrível da salvação cientificamente provada e garantida para todos depois da morte física ou com o veneno persistente e teimoso que ao longo dos séculos tem preterido a verdade e postergado os direitos das maiorias sãs mas combalidas de corpo e espírito?

Pensem nisto os meninos que ainda não capitularam ao poder de aturdimento dos elixires destilados para consumo pelo cidadão maior e vacinado. O resto pode ir pensando na melhor forma de organizar a versão lisboeta da Maratona Masturbatória de Londres, um sinal de indesmentível progresso que, curiosamente, poderá revelar-se como a solução simples para evitar as despesas previstas com o aborto livre e subsidiado, muito embora nada resolva sobre o importante aspecto da falta de respeito, não direi ao feto, mas à alma eterna e voluntária que é forçada a re-planear a partir do ventre doutra mulher.

TT

Por fim descobertos os culpados do fiasco iraquiano

No “Público” de hoje, Rui Ramos explica-nos que a ocupação do Iraque não foi bem como imaginávamos. Afinal, as armas terríveis que povoavam os sonhos da menina Rice com cogumelos atómicos não assustaram ninguém. Afinal, os horrores do regime de Saddam não impressionaram George Bush por aí além. E mesmo aquela ideia de montar no Médio-Oriente um glorioso farol da Democracia e da American Way não era para levar a sério.
Na realidade, como nos revela Ramos, o falcão Rumsfeld era sim adepto de uma mera «expedição punitiva». Só que «houve que contar com a célebre “comunidade internacional”» e esta acabou por empurrar os renitentes EUA para o calvário da ocupação.
Bem me parecia que ainda estava para aparecer uma luminária com a derradeira desculpa: a culpa de tudo isto é dos malvados europeus.

PS. Aqui, pode ler-se uma excelente resposta ao artigo de Rui Ramos que lançou as bases para o disparate de hoje.

Os quê de onde?

«Queres de ti lapidar
as rosas sanguíneas
Os rubis do teu útero
quando o tempo se esquece»

Excerto de um poema de Maria Teresa Horta,“Pastora do Corpo” (a sério), integrado na “colectânea de escritos pela despenalização” a lançar hoje pelo Movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim. Confirma-se que nem os bons escritores se dão bem com os panfletos. E tremo só de imaginar o resto da obra. Entre isto e as declarações do ministro da Saúde, não sei bem qual será o melhor candidato a um pequeno exercício de censura profilática a bem da causa.