Prazeres da língua – 2 (com a devida vénia ao Fernando Venâncio)

A conjugação da segunda pessoa do singular do Pretérito Perfeito do Indicativo (2PSPPI) é um caso clássico de agramaticalidade. Ai de quem diga *tu comestes em vez de tu comeste, que leva logo com uma rebocada na cabeça.

No entanto, esse é também um caso típico de um erro que resulta apenas (pasmo) do conhecimento gramatical do sujeito falante. A 2PSPPI é uma excepção na conjugação verbal do Português. Em todos os restantes tempos verbais, a segunda pessoa do singular é sempre marcada com o morfema «s» – comes, comias, comeras, comerás, comerias, comas, etc… Dessa forma, por analogia, é gramaticalmente explicável a tendência dos sujeitos falantes para conjugarem a 2PSPPI como comestes em vez de comeste. Até porque, vejam só a beleza da coisa, o acrescento do morfema de pessoa («s») nem sequer dá origem a uma palavra nova, mas a uma forma verbal idêntica à segunda pessoa do plural do mesmo tempo verbal.

Será que daqui a alguns anos a conjugação *tu comestes será gramaticalmente correcta? Não faço a mínima ideia, mas não excluo a possibilidade. Essa evolução seria apenas uma das inúmeras registadas nas línguas românicas que resultam de fenómenos de regularização do sistema linguístico ou de atracção de paradigma. Há um exemplo clássico no Latim que é o facto de um vocábulo como honos ter evoluído para honor apesar de não reunir as condições (fonema «s» em contexto intervocálico) para se verificar a lei fonética (rotacismo) que permitiu, por exemplo, a evolução honosem > honorem. Saussure explicava o fenómeno analógico de duas formas: por um lado, houve uma atracção do paradigama: após a evolução das outras formas, honos tornou-se irregular (fenómeno de reposição da regularidade); por outro lado, o próprio paradigma da língua latina já admitia a possibilidade de um nominativo em –r (orator, oratorem).

Estão a ver as semelhanças com a nossa 2PSPP? Pois é.

20 thoughts on “Prazeres da língua – 2 (com a devida vénia ao Fernando Venâncio)”

  1. João Pedro,

    Excelente, exemplar exposição.

    Não me custa admitir (como linguista, porque aqui o cidadão fica assustado) que um dia será norma vigente «tu falastes», «tu comestes», «tu abristes». Não só porque (como bem mostras) a forma-tu se associa a um -s final, como também estão ficando vagas as casas «vós falastes», «vós comestes», «vós abristes» do verbo português. (Imagino qu não cooperes…).

    A pretexto disto, duas gracinhas.

    1. Uma publicidade de página inteira, que vi no Público há uns anos, continha descaradamente (e, presumo, inocentemente) o desvio exemplificado em «tu falastes». Foi corrigida após umas semanas.

    2. Uma passagem das «Farpas» de Eça, recompiladas em 1890, em «Uma Campanha Alegre», usa uma forma de que não estou recordado (tenho a coisa anotada algures na desordem das minhas gavetas), que corresponde a «vós falásteis» – que é, como sabes, uma hipercorrecção. Bela, de resto, como só elas: puras reprogramações.

  2. O facto da segunda pessoa do plural do PPI estar em desuso é, de facto, mais um factor (fulcral) para essa evolução. Muito bem visto, Fernando. De resto, sabias que a maioria dos manuais de Português para Estrangeiros já excluem a segunda pessoa do plural? Sintomático.

  3. JP (e Luis):

    Exactamente: sou autor duma gramática de Português para holandeses e flamengos (com seis edições), e também ela exclui a forma verbal de «vós». Os meus colegas de Espanhol vêem-no com inquietação e desconfiança…

  4. Uma pedrinha nesta “engrenagem” bem vista pelo Fernando.
    A segunda pessoa do plural continua a ser usada no norte do país mas, abaixo de Coimbra já poucos usam. Foi substituida por ” a gente”com o verbo no singular.
    Não sei
    de onde vem este uso, limito-me a registar.

  5. João Norte,

    Eu sei. Aos dez anos, saindo de Lisboa e fixando-me em Braga, levei com uma enxurrada de gramática. Eles falavam clássico…

    Mas – e houve decerto um salto mental na sua mente – o que vale a Sul de Coimbra é «vocês». A forma «a gente», com o verbo no singular, é variante para «nós».

    Com belos híbridos do tipo «A gente vamos».

  6. Eu cá vou rejeitando a subjugação à diacronia. Ou o subjugo. Porque, digo eu, subjungir é sempre desagradável, ainda mais quando é à diacronia, essa sacana. :D

    (obrigada priberam!!)

  7. … eu então gosto é da salsa da lusofonia por esse mundo afora.

    Mas por cá, quando estive na Flor da Rosa fiquei a saber que dantes, na lenda, se dizia frol.

  8. Py,

    «Frol» é de facto mais ‘natural’ em português do que «flor». A sequência «fr» é mais ‘natural’ do que «fl» (ou «cl» ou «pl»). Quase todos os «fl» (e «cl» e «pl») iniciais latinos desapareceram, tornando-se «ch» (flama deu chama, clamare deu chamar, plicare deu chegar, etc.). As palavras hoje começadas por fl-, cl- ou pl- são quase todas cultas, de reintrodução tardia. «Flor» é, na realidade, uma forma culta… de «frol» (que nunca se tornou norma).

    Quanto à «salsa da lusofonia». Tens gostos variados, exóticos, eu sei. O outro lado da medalha é que, depois, vais relativizar tudo. Ainda assim, como achado, a «salsa da lusofonia» vai-me fazer rir ainda uns tempos. Eu gosto mais do próprio, do nosso. É exotismo que chegue.

    E, depois, isso da «lusofonia» não me encanta. Gosto mais do brasileiro ‘brasileiro’ do que do brasileiro ‘português’. O mesmo vale para o galego. Prefiro valorizar o próprio.

  9. Fernando, acho muito bem que haja uns cultores da língua como tu, que nos ensinam sobre o próprio. A salsa da lusofonia só tem graça quando comparada com a norma, como uma multiplicidade de desvios que às tantas veículam um arco-íris de sentido, ou coisa assim. Obrigado pelas dicas acima, gosto sempre de aprender.

  10. Caro Fernando, ainda ontem estava eu a meditar num dos textos de «Objectos Achados»,o sobre a vernaculidade e,tomando como referência a minha própria poesia,pensava no uso quase compulsivo que faço dalgum arcaísmo como frol,cuja sobrevivência (nível basilectal)na língua caboverdiana nada mais é,penso, que uma latência do medievo na fala das ilhas,mas que os meus leitores tomam por criolismo.Aliás, só uma comunidade, mais de escrita do que de falantes,como é o caso de Cabo verde,para usar um português tão atreito à norma,estranho até aos lusitanos ouvidos

  11. Caro Zé Luís,

    Aposto que há mais surpresas dessas no caboverdiano. Ele denuncia, aqui e ali, factos de língua do Português falado em (digamos) 1500, de que ficou um só registo: escondido nesse fascinante crioulo teu.

  12. O “on” francês, 3a pessoa do singular, substitui o “nós” 3a pessoa do plural e é subentendido na tradução para Português. Por exemplo: “on parle français” deve traduzir-se por “falamos Francês” e nunca por “a gente fala Francês”. É um erro comum nos professores de Francês de origem portuguesa.
    “Gente”, muito bem, mas “a gente” ? só se for da polícia…

  13. Essa do “tu comeste_s” não me convence. Simplificar a Língua é uma coisa, assassiná-la validando termos deformados pela via popular é outra.

  14. Olá!

    Apenas uma simples questão a quem visitou Flor da Rosa… pq razão diz q esteve “na” em vez de “em” Flor da Rosa?

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