King of the Road

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No meu trajecto matinal pela Serra de Sintra afora, já me tinha habituado a um frequente mas penoso encontro: um velhinho sentado num daqueles veículos ronceiros que não exigem carta para serem conduzidos. As maquinetas periclitantes a que uma amiga minha chama “papa-reformas”. Dia sim, dia não, lá apanhava o homem a subir e descer encostas sempre à mesma velocidade. Uns estonteantes 25 Km/h; isto numa estrada em que a maioria das ultrapassagens equivale a tentativas de suicídio mal disfarçadas. Mas pronto; fui-me habituando àquele obstáculo móvel e à visão da nuca enrugada do seu condutor.
Hoje, dei de novo com a aparição. Só que o geronte imparável seguia ao volante de um refulgente Fiat Seicento. Automóvel infinitesimal mas “a sério”; prova de que o homem tinha por fim a preciosa carta de condução. Estava capaz de jurar que a sua nuca sacolejava com uma outra altivez, talvez proclamando uma nova cidadania do asfalto.
Infelizmente, uma coisa não mudou: o homem continua a circular à velocidade de sempre: 25 Km/h. Nem mais.

5 thoughts on “King of the Road

  1. Suponho que quem guia assim só o pode fazer no pressuposto de que mais ninguém usa a estrada… Senão, pobre homem; passaria mais tempo na berma do que no alcatrão.

  2. hoje encontrei um outro que seguia com um pé à frente do outro, apoiado a uma canadiana, pela estrada, com o passeio livre. levava o sobrolho carregado, concentrado na caminhada. não tive coragem de apitar e acabou por se formar uma fila de carros atrás de mim. :)

  3. Li com espanto este post. Os tais carros com motor a 2 tempos e conduziveis sem necesidade de carta são, para além de legais, uma alternativa razoável para quem não tem hipótese de ter um automóvel “normal”. Pessoas idosas das áreas rurais (que já não podem andar de motorizada, que era o seu veículo mais habitual), em muitos casos sem a “4ª classe” que os impedia na prática de obter a carta de condução (talvez o caro bloguista se recorde que para a actual população rural com 65-70 anos o ensino era nos seus tempos um pouco indisponivel em Portugal).
    Estes carros circulam à velocidade que lhes é própria em estradas onde podem circular e os outros condutores têm que contar com a sua existência e comportar-se em conformidade.
    Claro que andam devagar e portanto é necessário cuidado redobrado para os ultrapassar. Serão em muitos pessoas ditas “de idade” e portanto merecem o nosso cuidado (para não ir para a conversa do “nosso respeito”, que, se calhar até viria a propósito).
    E ainda bem que o homem (será o mesmo?, o caro bloquista só lhe descreve a nuca, o que é curto para identificação)tem agora uma viatura malhor, mais segura. Óptimo.
    Anda a 25 Km/h?. Se calhar com o tipo de viatura que conduz e com as estradas que usa (e que o caro bloquista descreve como de encostas íngremes)é bem mais sensato que os que aparentemente se sentem obrigados às tais ultrapassagens suicidas,cavalheiros esses que provavelmente deviam ser impedidos de conduzir devido a esse distúrbio de comportamento.
    Ó bloquita (como dizia, e espero que ainda diga, um amigo meu), ó bloquista vá gozar c’o Camões.

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