Vira o disco e toca o mesmo

Acabo de ouvir o Rui Castro na TSF, perorando contra a despenalização do aborto. Acreditem ou não, ele saiu-se a páginas tantas com este raciocínio: não vale a pena agora avançar para esta solução radical, quando obra bem mais meritória e eficaz seria investir na educação reprodutiva e sexual.
Ora lembro-me eu muito bem dos senhores que há uns anos se bateram com êxito pela mesma causa a garantirem, com rasgados sorrisos para a TV, que aquela vitória seria o início de um grandioso movimento em prol da… educação reprodutiva e sexual. Deram por isso, nestes 8 anos? Claro que não; de notável, só me vem à ideia uma tal Mariana Cascais, senhora muito bem então com responsabilidades governativas, a garantir que, se dela dependesse, a educação sexual desapareceria dos currículos escolares. E de continuar a ver uns senhores de sotaina a maldizer o preservativo e a pílula.
Bem dizia o Marx que a História tende a repetir-se como farsa.

5 thoughts on “Vira o disco e toca o mesmo”

  1. Antes de enveredarmos por argumentos éticos, científicos ou políticos, há um aspecto que me parece central em todo o debate. A interrupção voluntária da gravidez, faz-se com toda a segurança e legalidade na grande maioria dos países da União. Para mim, isto quer dizer uma coisa muito simples: penalizar a I.V.G. em Portugal, quando basta ir à fronteira para o fazer, só vem causar discriminações: as mulheres que o quiserem fazer irão a Espanha. Só serão penalizadas as que, por falta de recursos, falta de informação, medo do escândalo ou da família, se arriscarem ao aborto clandestino em Portugal. Portanto, estaremos a discriminar as mulheres mais pobres, mais jovens e dependentes que se arriscam a passar pelas maiores humilhações e a praticar abortos sem segurança, nem dignidade. Proibir a I.V.G. num país, quando se pode fazer ao lado, não é uma decisão moral: é uma decisão discriminatória que só vem agravar as injustiças sociais e a desigualdade e menosprezo pelas mulheres dos sectores mais frágeis. Quem tanto fala em favor da dignidade humana, deverá começar por pensar na dignidade das mulheres. Se estamos todos na Europa, é da mais elementar justiça que as decisões que dão maior liberdade em alguns estados membros sejam aplicáveis a todos os cidadãos, a não ser que todos os cidadãos europeus as considerem erradas.

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