Fosse pelo que fosse, a verdade é que nesta passagem do ano lembrei-me muito do jornal O Século. Quando se é novo, um ano representa muito pouco na percentagem do vivido. Um miúdo com dez anos, se pensa num ano, esse ano representa um décimo da sua idade. Mas o mesmo miúdo quando chega aos cinquenta já percebe que um ano é apenas um cinquenta avos da sua existência e tudo é mais veloz e fraccionado.
É um facto que a minha casa é muito perto da Rua de O Século, mas se não fosse essa aproximação eu lembrava-me na mesma. Porque quando eu era jovem pensava que o majestoso parque gráfico do jornal O Século nunca iria parar nem, muito menos, morrer. É que, além do jornal propriamente dito, havia as revistas O Século Ilustrado, Vida Mundial e Modas e Bordados – esta, uma revista para senhoras que muitos homens não dispensavam, pois nela escreviam escritoras importantes como Maria Lamas, Maria Ondina Braga ou Maria Judite de Carvalho. E como era assim, eu pensava que tudo aquilo nunca ia acabar. O Século era um mundo que fazia parte da minha vida, mas um dia, de um dia para o outro, deixou de fazer.
Esta fragilidade das coisas fortes, esta inesperada morte de um império de palavras, tudo isto me veio à memória no momento em que um ano mais se despede e um ano novo se apresenta na nossa vida. Agora só existe uma maneira de recuperar essas palavras perdidas. É nas prateleiras da Hemeroteca de Lisboa que as palavras do jornal O Século não morrem e vivem de novo sempre que alguém as recupera do sono do esquecimento. E projectam um pouco de vida e de alegria num lugar onde só a morte e a tristeza dominam as enormes e silenciosas salas da memória.
José do Carmo Francisco