Passeio bloguítico às tascas da má-língua

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Eu acho delicioso. E instrutivo. E dá-me sempre novos motivos para ser modesto. Nos meus tempos de maldizente, eu era – sei agora – um menino de coro. Hoje, nos blogues, a cena literária é pretexto para muita, mas muita mais ferocidade do que algum vez cá o Degas produziu em folha de papel. Dois exemplos fresquíssimos.

O juvenil «Não Li Nem Quero Ler» – juvenil no tempo de vida e no ainda difícil acerto dos autores com a gramática portuguesa – prossegue a sua abnegada missão.

Também o nunca esquecido Fernando Esteves Pinto, no seu «Escrita Ibérica», não consegue vislumbrar, na mesma e colorida cena, um luzinha que nos encante a existência.

E anda uma pessoa, como eu no DN deste domingo, a produzir 1499 caracteres de bondade sobre José Saramago. Isso depois de ter enfrentado, anos a fio, o mais monótono dos coros portugueses, onde nunca entrei, nem como menino, o dos «saramaguianos».

«Não é fácil dizer bem», ó George? Foi tu abrires a tampa, e o espírito soltar-se. Feliz. Reinadio. Imparável.

A tempo e horas

Ainda no «Esplanar», Carlos Leone – a propósito duma alusão minha aqui – lembra a distância que vai entre a produção dos «redactores» do «Não Li» e o trabalho de José Pedro George no blogue que Leone hoje gere. A distância é patente. É-o cada vez mais. Se desmereci a intervenção de JPG, retracto-me. Com gosto, de resto.

Para os não espeleólogos

O nosso amigo e colega que assinou aqui «afixe» escreveu um post encastoado num comentário a outro post. Não me perguntem como isso se faz – hoje é domingo, e não vou partir a cabeça. Sobretudo, isso não é o mais importante. Pensando bem, não é importante sequer.

Está tudo num comentário de Luís Oliveira ao meu post «Lixo atrai lixo». Que não tinha culpa. O post. Nem o Luís Oliveira provavelmente.

Caro «afixe» (permita-se esta interpelação encastoada num post…): se a qualidade dos comentadores é assim tão determinante (é este, parece-me, o teor do teu último contributo), andarei eu muito perdido ao ter o «Abrupto», o «Da Literatura», o «Esplanar» e «A Origem das Espécies» entre os meus blogues diários, que não permitem, todos quatro, o comentário, ou pelo menos o comentário não filtrado? Blogues onde não se comenta não são «blogues»? Terei eu lido mal?

A senha antiportista

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Não é por nada. Eu até acho o homem um grande escritor, e tenho-o dito amiúde. Mas, havendo aqui assinalado em outra celebridade literária um uso de «lenho» onde devia estar «lanho», eis que dou, em crónica de Miguel Sousa Tavares, n’«A Bola», com um também peregrino uso de «senha». O texto é já velhinho, mas actualíssimo. Ainda hoje o Porto não é amado por Lisboa e seu termo. Pois bem, lia-se na crónica de MST, e eu sublinho:

«…ou ainda um telefonema a Pinto de Sousa em que o presidente do FC Porto terá intercedido a favor de Deco e Mourinho, para que a Comissão Disciplinar da Liga suavizasse momentaneamente a sua tradicional e famosa senha antiportista — tudo isso, todos esses gravíssimos supostos indícios que…». O texto inteiro está aqui.

Caganitas? Nem mais. Só um linguista repara nelas. Mas é a verificação, bem-sucedida, duma hipótese. Um dia, prometi eu, alguém – que foi afinal um cronista célebre (e seus revisores, que «A Bola» terá) – haveria de confundir «sanha» com «senha».

A linguística, será ela afinal uma ciência muito séria?

A tempo e horas

Nova hipótese. Não há-de demorar que alguém, em vez de «ela viu-se ao espelho», grafe «ela viu-se ao espalho» (a ler como «espâlho»). Aposto uma cerveja. Eu pago-ma.

Lixo atrai lixo

No «Expresso» de hoje, um texto do crítico António Guerreiro ajuda a chamar as coisas pelos nomes. Não podemos dar o link, que é a pagar. Os negros são nossos.

«Na semana passada ficámos a saber, através de um comunicado da empresa, que João Paixão tinha sido substituído, no cargo de administrador das Publicações Dom Quixote, por Juan Mera. Por mais que o comunicado tente integrar esta substituição na vida normal da editora – pertencente ao Grupo Planeta, o maior grupo editorial de língua espanhola – há alguns indícios de que as coisas são muito menos serenas, como já tínhamos percebido com a saída, há pouco mais de dois meses, do director editorial João Rodrigues.

«O discurso das empresas, como o de cada indivíduo, tem um conteúdo latente que se manifesta como sintoma. Quando lemos, no mesmo comunicado, que o novo administrador irá prosseguir uma «programação editorial equilibrada, reconciliando as tendências do mercado com a identidade da editora, a qual tem por base autores portugueses e literatura em língua portuguesa», percebemos que uma tal afirmação é, no contexto, deslocada, e que ela só ocorre por insistência de um nó problemático: a conciliação dos interesses comerciais com a edição de livros de «literatura em língua portuguesa». E quando se diz «literatura em língua portuguesa», dever-se-ia dizer, simplesmente, «literatura», pois é toda a literatura que é banida pelos critérios comerciais, como podemos perceber pelo vasto lixo editorial que a Dom Quixote e as grandes e médias editoras produzem hoje. Para percebermos como as coisas mudaram nos últimos anos, devemos recordar que os autores portugueses que a Dom Quixote assume hoje como um fardo são os mesmos que há uns anos garantiam o sucesso comercial da editora. E, em boa verdade, já antes de a Dom Quixote ter sido comprada pelo Grupo Planeta, raros eram os autores portugueses que menos vendem (por maior que seja o seu prestígio) a entrar no catálogo da editora. Só que nessa altura as derivas comerciais ainda estavam no início, não era ainda necessário produzir tanto lixo e entrar na corrida selvagem onde só se salvam os livros que ocupam mais espaço nas livrarias, têm capas mais coloridas e cumprem a tarefa nauseabunda da mercadoria inútil, repetitiva, degradada.

«A lógica editorial, percebemos hoje perfeitamente, não é diferente da que governa a televisão e os jornais: o lixo atrai lixo e a partir de certa altura todo o circuito (edição, distribuição, comercialização) não consegue alimentar-se de outra coisa, não tem tempo nem espaço para funcionar de outra maneira. Lido nas suas manifestações sintomáticas, o comunicado da Dom Quixote diz-nos que o estado da edição em Portugal é uma calamidade, mas que a editora irá continuar, como muitas outras, a contribuir para ela. Quixotesco seria fazer o contrário; colectivamente suicida é persistir na mesma via.»

P.S. Creio que A.G. só não vê bem quando afirma «já antes de a Dom Quixote ter sido comprada pelo Grupo Planeta, raros eram os autores portugueses que menos vendem (por maior que seja o seu prestígio) a entrar no catálogo da editora». Houve, antes e depois da transacção espanhola, vários principiantes editados. O que terá faltado é o acompanhamento. O incentivo. E a convicção. Pelas razões que ele aduz, claro.

fv

Adrenalina

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Ao longe, São Jorge reverberava, não era dizer de mais, a um sol raso, macio, preparando um sumiço em glória.

A tarde vogava lenta sobre a cidade. Preso na largura das avenidas, o trânsito arrastava-se de volta a casa. Nada de especial, portanto, e estas são as piores premonições.

Ele subira os andares todos do Sheraton. Lá de cima veria, finalmente, a cidade tal como sempre a quis: rendida a seus pés e aos dum castelo que se apresentaria, como jamais, soberbo.

Assim era. Ao longe, São Jorge reverberava, não era dizer de mais, a um sol raso, macio, preparando um sumiço em glória. Como se tudo tivesse sido planeado. Porque era exactamente dessas tonalidades que ele estava precisado para a reportagem de uma Lisboa radiosa e um pouco, um pouco só, nostálgica. A máquina fotográfica ao peito acabara por ser, lá em baixo na recepção, comprovadora dos melhores propósitos. Não precisara ele de entrar em complicadas razões. A sua face, contra tudo o que imaginava, devia conter aquilo que define, aos recepcionistas deste mundo, um jornalista. O quê? Precisamente isso.

No alto, o elevador levara a um lounge fofo, concorrido, fazendo tempo para o jantar. Ninguém deu pela sua entrada, e ele achava-se no direito de ser olhado, perguntado pelos barmen ao que vinha. Por força que o rosto lhe apresentava, agora, traços cosmopolitas. Dali, do lounge, passava-se a um terraço exterior, aonde se prolongavam as mesas, as bebidas, a arte de sobreviver a um fim de tarde numa cidade atlântica.

Tejo, Lisboa e o resto espraiavam-se como nunca seus olhos haviam visto. Fora necessário erguer-se este monstro sobre o lombo da cidade para dela se obter tão alargada visão. O sol baixava, está dito. Dito está também que era disso que se precisava. As primeiras fotografias foram feitas dali: de entre os convivas e seu perfume exótico.

Descobriu, depois, que teria mais largueza num extremo do mirante, em que as mesas estavam desocupadas, parecia que abandonadas, ao longo do parapeito. Fincaria os cotos nos tampos sem toalha, e isso haveria de aumentar as forças ao longo alcance das objectivas.

Olhou, aí, desta vez na vertical, a cidade que, setenta metros abaixo, se atarefava. Minutos depois, as lentes varavam as fachadas, percorriam as janelas, devassavam alguma, pouquíssima, intimidade, fixavam aqui ou além um ponto, o zoom enquadrava, a foto fazia-se. Mas não era para isso que ali viera, e sim para fixar o longínquo, o impreciso, o quase improvável, como sustentam os poetas, e também os grandes ares, as distâncias que se esfumam, as antevisões da infinitude. E tudo isso ali estava, assim houvesse quem lhe parasse o sol.

Quem tão alto subiu, subirá ainda a uma daquelas mesas. Com isso se fará, lá ao longe, um acréscimo menosprezável. Mas é a altura do coração que para o fotógrafo conta. A cidade e o mundo em derredor dão-se ainda mais rendidos a essa lente que os palmilha… E é então, sim é então que a mesa cede para diante. Coisa de milímetros, o pé nem o sente. Mas ela já se inclinou, já descontou no palmo que a separa do parapeito, e Newton diria que o abismo se aproximou. Lisboa continua a entregar-se, há um júbilo naqueles ocres, naqueles tons laranja, num cada vez mais perceptível violeta. E a mesa vai caindo, vai convidando a coluna de ar que terá de percorrer-se, o passeio que haverá de enfrentar-se, a morte estúpida como se lhe chamará. «Ao peito, mantinha-se, miraculosamente intacto, o aparelho fotográfico. Verdadeiramente espectaculares, as fotografias virão inseridas na nossa próxima edição.»

A morte, mesmo uma assim – dizem – não é dolorosa. Dando por inevitável o embate, o cérebro lança ao organismo, em décimos de segundo, um banho de adrenalina que nos precipita em indescritível euforia. (Dizem! Não corra a experimentar. Tenha juízo). Grande e sábia natureza é esta nossa, ainda mesmo ali, quando vai findar-se às portas de um hotel mundano.

Não se chegou a tanto desta vez. Nem sempre os sádicos têm sorte. Uma finíssima unha, que afiançam negra, interpôs-se entre a inclinação que na mesa vinha a descrever-se e o ponto donde não teria havido já regresso. Sentido de equilíbrio, instinto de preservação, algo foi que atalhou o avanço à morte. O pé da mesa descansava já, de novo indiferente, no ladrilho.

Dum salto, viu-se no chão. O susto, o tremor, a sensação do transitório de tudo tomaram-no por instantes. Estivera a um passo de saber como era morrer, e sem uma razão forte. A escassos metros dele, pelas mesas ocupadas, prolongava-se o saboreio do exotismo peninsular. Ninguém olhou, ninguém dera por nada. E se alguma coisa o revoltou foi isso: a certeza de que, momentos antes, ele teria desaparecido no precipício sem um oh de ninguém.

As fotografias eram espectaculares.

Este texto foi inicialmente publicado no «JL», há uns bons anos. A história é, em cada pormenor, verídica. A foto não pertence ao caso, nem é tomada sequer do Sheraton. Mas dá uma ideia.

Você também googla?

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Hoje, no DN, uma interessante coluna de Diogo Pires Aurélio sobre presente e futuro do Google e as vantagens que traz ao investigador. Que tenha sido o publicista Pires Aurélio a expor-no-lo, aí está o que faz grande bem a um simples mortal.

E você? Ainda se envergonha de reconhecer que googla?

Há uns anos, uns bons anos, uma fotografia de Vasco Pulido Valente (julgo, já não sei, que acompanhando um texto meu a seu respeito) mostrava-lhe, em cima da mesa de trabalho, o Dicionário de Sinónimos da Porto Editora. Nada de especial? Nada, pois claro. O melhor estilista entre os portugueses vivos serve-se de instrumentos à mão de todos.

Não é pelos instrumentos, e sim pela inventividade, e pelo tino, que se distingue o artista.

Passeio bloguítico

Não sei se este «Perguntar não ofende» é o mesmo blogue que procurei durante tempos, e que suponho era (será ainda?) brasileiro. Mas este é português e é de partir o coco. Veja-se isto.

Mais selecto, mas igualmente fino, é um blogue que (julgo) acaba de surgir, «Não li nem quero ler», e que lembra o JPG (Recordam-se? O Leone dá boa conta da loja, mas que é feito, George?), conseguindo ser ainda mais feroz. Por exemplo, este apontamento, que não aumenta a glória de José Luís Peixoto – o autor, de resto, de algumas (outras, não li essa) rutilantes crónicas no JL.

Coisa já mais antiga, de Abril, mas com que só hoje dei, esta deliciosa história no blogue «Destaques a Amarelo». E não é, o blogue ele mesmo, uma festa para os olhos? Perguntar não ofende.

A tempo e horas:

Descubro que o autor de «Destaques a Amarelo» é o Sérgio (Aires) a quem Francisco José Viegas deve (e agradece) a «ordem» conseguida no seu blogue de textos. Ainda por cima, um tipo ordenado.

Vâjam lá!

Existem pronúncias feias? Os linguistas, gente pragmática, precatada, afirmam que não. Que – isto pelo menos – ‘feio’ não é uma categoria linguística. Mas o cidadão em mim vive num desconforto. Veja-se, por exemplo… Isso, não vamos mais longe. «Veja-se» serve bem. E para simplificar, «veja».

No Alentejo, pronunciamos «vêja». Coisa normal, já que reduzimos o ditongo para «ê». Ditongo? Qual ditongo? Pois, o de «vejo», que o padrão português pronuncia «veijo», e que se opõe a «beijo» só pela consoante inicial. Coerentemente, no Minho, ou mais alargadamente em Entre-Douro-e-Minho, o som da forma verbal «vejo» e o do substantivo «beijo» são indistinguíveis.

Mas a classe média-alta de Lisboa e Coimbra passou (possivelmente já no século XIX) a pronunciar «vâijo», tal como «cadâira». E as modificações não pararam aí, estando a citada classe na fase do «vâja». E, se bem ouço, também da «cadâra» (portanto, da «câdârâ»). Trata-se, importa lembrá-lo, de uma pronúncia originada, um dia, em bairros populares lisboetas, e que – o fenómeno é conhecido – as classes superiores recuperaram.

É feia, essa pronúncia? Tenho de confessar que não a consigo achar maviosa. Eu sei, daqui a cem anos (olá, futuro!), estamos todos a falar assim, e feias serão já outras coisas. Mas, de momento, isso cria alguns novos homófonos. E é bizarro lermos António Lobo Antunes (e os seus revisores…) a mostrar, no dedo de um fulano, um «lenho», quando, vendo bem, aí não se consegue mais que um «lanho».

Sendo assim, não é improvável que, numa repartição pública, alguém acabe por escrever (se é que não sucedeu já) «LEVANTE AQUI A SANHA». Mas, se o vir, não se assanhe você, por tão pouco.

Actualizado graças ao comentário de «sdm», que se agradece.

Aquém e além do Minho

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A Foz do Minho, vista da Galiza. Ao fundo, as praias do nosso Norte, a costa de Portugal, o Mundo.

O blogue galego O Levantador de Minas, que regularmente se vem ocupando das relações culturais entre a Galiza e Portugal, faz larga referência ao nosso post sobre «Floribella», a actual novela da Sic, e as pronúncias portuguesas de «ei» e de «ou».

No fórum do Portal Galego da Língua, onde o nosso amigo Luís Magarinhos colocou o aludido post, trava-se um debate, mais ou menos esclarecido, entre galegos, brasileiros e portugueses a pretexto dele.

A sul do Minho, directa ao assunto, a Geração Rasca transcreve o post, e submete-o a comentários.

Nem de propósito: a meados de Outubro, haverá na Universidade do Porto um Encontro Luso-Galaico de Weblogs. Toda a informação aqui.

Voltaremos ao tema. Entretanto, se ficou curioso com o que diz O Levantador sobre a entrevista dada por um blogueiro do Aspirina a «La Voz de Galicia», encontra a conversa aqui em PDF.

Quem as não tem?

“Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.”

F.P. (A.C.)

Sobre o tema, e para além de poder asseverar que tem razão o heterónimo, cujo criador, de resto, era perito no magnífico rídiculo das ditas (pobre Ophelinha, “Meu amorzinho, meu Bébé querido”), dei hoje por mim a tresler o D’este viver aqui neste papel descripto.

Entre as já usuais “minha gazelinha adorada, meu diamante querido, minha pérola e minha estrela”, dei com esta, à laia de despedida.

“Coloco o meu pénis na forquilha do teu corpo.
António”

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(Todas as cartas de amor são
Ridículas)

Esta malta (que escreve de escrever) também fode.

“Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.”

F.P. (A.C.)

PS – Por falar em cartas de amor, recebi esta agora mesmo.

Sapo reloaded

Aos 44 anos, o João era já um homem.
(pelo menos, ao sentido da visão assim se demonstrava)
E, como todos os homens, tinha uma ideia para a vida – não ter nenhuma ideia basta.
Dizia-se um panteísta puro.
(Sou daqueles, dizia, que empurra para a terra as folhas caídas no passeio de cimento – não vá perder-se a unidade e a substância)
O João acreditava (também) que a morte é um princípio e, no caso de algumas pessoas, um bom princípio.
Passa agora a Adão, o João.
(é cá comigo)
Avançava Adão pela rua (ainda não o tinha dito), pode ser a da Saudade, quando tropeçou num sapo (macho) que lhe interpelou o andar e o pensar.
(nesta história, os sapos falam, e com sotaque de quem a língua mãe deve ser o espanhol platense)

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(cloroplasto gentilmente “googlado” por py)

Puta que pariu, que me magoaste. Porque vais tão desatento?
Porque me apetece!
Se vais sem motivo, sabeis ao menos porque não tens motivo?
Ó criatura de circo, por que me incomodas? De resto, sapos a falar já vi muitos, mas que merda de sotaque é esse? E não me venhas com a conversa de que és um príncipe, que não levas beijo. Pernas de rã são boas, que tal serão as de sapo?
Tantas perguntas. É próprio de ti, Adão.
Conheces-me, espécie de lagarto anafado?
Se te conheço?
Foi isso que perguntei, se me conheces!
(retorcer de olhos, como quem indica o óbvio)
Conta-me lá então a tua história, mas entremos neste centro comercial (vamos àquele café), que de doido já vou tendo fama e seriam penosas as consequências de me verem a falar, em plena rua, com um sapo.
(dois cafés, um é pingado)
É curta e simples, a fábula que te cabe, Adão. Não nasci girino. Outrora, fui homem como tu. E apaixonado por uma mulher. Apostei com uma bruxa, por cujos encantos me devo ter perdido (vejo-o agora com clareza), que jamais amaria uma mulher que não fosse a minha. E que, pela bruxa e outras mulheres, não nutriria mais do que desejos de ocasião.
E então?
A bruxa picou-me o dedo no fuso, rectius (estou a brincar), disse-me que em sapo me transformaria se por ela viesse a sofrer de amores.
Em sapo te transformaria ou transformar-te-ia em sapo?
(semicerrar de olhos)
E aqui estou eu: obeso anuro, sem nunca ter sido girino!
E que porra tenho eu a ver com isso?
Pensei que, como caminhavas, tão desatento, pela Rua da Saudade (sabias ao menos o nome da rua?), tivesses visto o raio da bruxa. Daí querer saber porque seguias assim, aos pontapés aos sapos!
Deixa-me, então, que te conte a minha história. Nasci girino, um dia perdi-me de encantos por um sapo (fêmea, que não sou maricas), mas apostei que jamais a amaria. Que, se assim não fosse, disse ela, desinchava-me e punha-me em homem. Eis porque, nascendo girino, sou hoje filho de Eva.
Isso é mesmo verdade?
O quê? Eva? Darwin diz que não. Não, sapo filho da puta, `tou só a gozar contigo! Não acredito em sapos!

Era assim o Adão, um tipo sem pitada de magia. E olhem que nem todos merecemos que um sapo nos dirija a palavra. É coisa de predestinados. Não acontece todos os dias.
Sem apelo nem agravo, não deixou lembrança, o João (afinal, vai ser João).
De actos valorosos, o único que deixou marca (sem chegar para o libertar da morte) foi ter caído de um 4º andar, com a cornadura no cimento do passeio (faltaram-lhe folhas que lhe amparassem a queda) e não ter morrido (pelo menos no mesmo dia).
Disse mais tarde, à senhora da limpeza (enquanto esta se esforçava por apagar a marca – de sangue no passeio), que ripostava a um pombo quando perdeu o equilíbrio.
Morreu de velho, com um cancro de fumador passivo. Solitário, entrevado (da queda desfolhada), sem mulher, nem primos afastados.
Eis, pois, a história do João que foi girino.
Baseia-se em factos reais, mas os nomes foram alterados.
Não tem moral, esta que vos conto.
E este é o meu receio.

Floribella estraga-se

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Quando me apercebi de que «Floribella» era uma série de sucesso, o linguista em mim entrou em êxtase. Portugal inteiro poderia transformar-se num grande laboratório linguístico. Muito concretamente, podia dar-se o caso de a pronúncia nortenha de Flor levar a desacelerar processos activos na nossa fala. Quem sabe se, mesmo, inverter um ou outro.

Luciana Abreu dizia «primêiro», não «primâiro». Dizia «dôu», não «dô». Isso era um novidade em ficção televisiva nacional, decerto em personagem de relevo. Os dois ditongos «êi» e «ôu» vêm da Alta Idade Média, tendo-se formado no Noroeste peninsular acima do Douro (do «Dôuro», claro). Para sermos mais exactos: são invenções galegas puro-sangue. Foram, mais tarde, levados assim para o Brasil, onde se mantêm.

Em Portugal, os dois ditongos sofreram, em séculos recentes, transformações no Sul. Assim, «ôu» deixou de ser ditongo para passar a simples vogal, «ô». (Uma interessante hipercorrecção a Sul – as hipercorrecções são sempre reveladoras – é grafar-se «poude» para reproduzir a pronúncia «pôde»). O ditongo é ainda hoje audível acima do Mondego, mas isso cada vez menos, e aceleradamente.

O caso de «êi» foi diferente. Poderia ter-se vocalizado em «ê» (e, na realidade, nós, os alentejanos, fizemo-lo), mas o eixo Coimbra-Lisboa resolveu a coisa diferentemente, modificando o ditongo para «âi». E o processo continua, aproximando-se da pronúncia «ái». Por vezes, numa série portuguesa, não percebemos se a personagem diz «Sei», ou «Sai!». E em alguns locutores é difícil saber se os trabalhadores apresentaram «queixas», ou «caixas».

Ora, que aconteceu a Floribella, a linda mocinha de Gaia? O «êi» mantém-se-lhe. Veremos por quanto tempo ainda. (Tempo, decerto, haverá, já que os autores do script vêem jeito de, a cada episódio, evitarem cinco vezes, in extremis, o final da série. Isso diverte imenso a pequenada, que adora quiproquós, e que lhe contem, cem vezes que seja, as mesmas histórias). Mas o «ôu» de Luciana, ao fim de uns meses de ambiente meridional, já se perdeu na maioria dos casos.

É isso. Do empolgante laboratório nacional, resta o deprimente condicionamento de Luciana Abreu. A norma de Lisboa soma vitórias, e uma delas está em ecrã todas as noites.

Restam-nos os miminhos. Esses, vá lá, parecem garantidos.

Aos do alecrim e da manjerona – um remake feito recado

Para os do normal-em-blogue-que-se-quer-político, os da sintonia recorrente na modorra e na chatice.

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Continuem, pois, a discutir a que banda pertencem, a dizer que Abel é que matou Caim, a inventar demais frases bombásticas, sonoras mas sem sentido, para alimentar os vossos saracoteios, continuem a reagir não em face da substância das acções, mas dos sujeitos das mesmas, e, quando menos esperarem, a serem sinceros com o vosso reflexo, hão-de verificar que a serpente da vossa tão amada (e gasta) dialéctica esquerda-direita vos está a morder o rabo.

De resto, sensíveis como parecem ser, já o hão-de ter sentido amiúde.

A cartilha por onde aprenderam a pensar, leva-vos, de uma forma geral, a discernir (apenas) o despiciendo, na vã esperança de que a brasa feita cinza se chegue mais rapidamente à vossa sempre crua sardinha.

Para além de, dessa forma, o mundo não pular, deve ser triste e cansativo viver assim.

“Sempre de bibe amarelo”.

Facturas por pagar

Os direitistas andam preocupados, não encontram a direita. Não entendem o que lhe aconteceu.
A direita, que nos dirigiu durante séculos, fez um país inviável. E um dia desapareceu do mapa. Morreu da morte dos mitos que a serviram, dos espantalhos com que nos adormeceu. Morreu de caducidade e de vergonha.
A direita que ficou é um produto de refugo. Vai fazendo pela vida, em casos junta fortuna. O país da vassalagem que aprendeu a governar já não existe. E um país modernizado, capaz de matar a fome aos filhos, não se improvisa numa geração nem lhe cabe na cabeça. Ela só recebeu como herança o horror da populaça.
A esquerda não sabe o que fazer, tantas são as facturas por pagar.

Jorge Carvalheira

lapso de linguagem

Não há jogador de futebol que não dê o seu melhor. Invariavelmente. É já uma bandeira da classe.
Mas há casos em suspeita de lapso de linguagem, sob um tão elevado pensamento.
Ao que se ouve dizer, o seu melhor é o salário que recebem. E o que dão é pontapés na bola, nem sempre muito certeiros.

Jorge Carvalheira