Vâjam lá!

Existem pronúncias feias? Os linguistas, gente pragmática, precatada, afirmam que não. Que – isto pelo menos – ‘feio’ não é uma categoria linguística. Mas o cidadão em mim vive num desconforto. Veja-se, por exemplo… Isso, não vamos mais longe. «Veja-se» serve bem. E para simplificar, «veja».

No Alentejo, pronunciamos «vêja». Coisa normal, já que reduzimos o ditongo para «ê». Ditongo? Qual ditongo? Pois, o de «vejo», que o padrão português pronuncia «veijo», e que se opõe a «beijo» só pela consoante inicial. Coerentemente, no Minho, ou mais alargadamente em Entre-Douro-e-Minho, o som da forma verbal «vejo» e o do substantivo «beijo» são indistinguíveis.

Mas a classe média-alta de Lisboa e Coimbra passou (possivelmente já no século XIX) a pronunciar «vâijo», tal como «cadâira». E as modificações não pararam aí, estando a citada classe na fase do «vâja». E, se bem ouço, também da «cadâra» (portanto, da «câdârâ»). Trata-se, importa lembrá-lo, de uma pronúncia originada, um dia, em bairros populares lisboetas, e que – o fenómeno é conhecido – as classes superiores recuperaram.

É feia, essa pronúncia? Tenho de confessar que não a consigo achar maviosa. Eu sei, daqui a cem anos (olá, futuro!), estamos todos a falar assim, e feias serão já outras coisas. Mas, de momento, isso cria alguns novos homófonos. E é bizarro lermos António Lobo Antunes (e os seus revisores…) a mostrar, no dedo de um fulano, um «lenho», quando, vendo bem, aí não se consegue mais que um «lanho».

Sendo assim, não é improvável que, numa repartição pública, alguém acabe por escrever (se é que não sucedeu já) «LEVANTE AQUI A SANHA». Mas, se o vir, não se assanhe você, por tão pouco.

Actualizado graças ao comentário de «sdm», que se agradece.

23 thoughts on “Vâjam lá!”

  1. ehehe

    estes postes são uma delícia.

    Há um factor que nunca entendi. Qual será a explicação para o facto de nós (os de Lisboa ou menos sujeitos a sotaque) conseguirmos pronunciar de todas as formas e eles (os de forte sotaque) não conseguirem dizer de outra forma?

    E não conseguem mesmo. Não é apenas do hábito. Lembra-se da “conciência” do Salazar? os beirões ou dizem “conciência” ou foge-lhes para o x da “conxiênxia”

    “;O)

  2. Excelente análise… e com sentido de humor. Eu digo: “vâja”,”cadâira”,”coâlho”… mas só agora reparei. Talvez porque ainda escreva: veja, cadeira e coelho. Acredito que os nossos descendentes um dia tenham dúvidas.

  3. “Mas a classe média-alta de Lisboa e Coimbra passou (possivelmente já no século XIX) a pronunciar «vâijo», tal como «cadâira». E as modificações não pararam aí, estando a citada classe na fase do «vâja».”

    Isto é uma pepita!

    Tem piada que os Ingleses ainda hoje (em pleno século XXI) vivem atormentados com os rigores do seu antigo sistema de classes, que existia na mais antiga democracia europeia. O facto de eles andarem sempre a falar no “dawn fall” do “ancient Class System” sempre me deixou céptico.

    Foi até ao dia em que colocaram andaimes no local onde eu vivia junto às janelas do meu quarto.

    Nunca eu ouvi aqueles sotaques no jacobiníssimo local onde eu estudava.

  4. Com a dúvida espetada no dedo, folheei o portiditorazinho do costume:

    lanho, s.m. golpe de instrumento cortante; […]. (Deriv. regr. de ‘lanhar’.”;

    lenho, s.m. pernada ou ramo cortado; […] tronco; madeira; […] (Do lat., ‘lignu-‘, «madeira»)”.

    E pensei, cá para comigo, que, felizmente, o que o “fulano” de que fala António Lobo Antunes espetou no dedo foi um pequeno fragmento de madeira, pois sentiria grandes dificuldades de “pronúncia” se tivesse de entender que aí tinha espetado um golpe

  5. O LObo Antunes
    -leio as crónicas;
    retira lenhos de onde menos se espera.
    -e eu espero sempre;
    Quando escreve sobre a ausência
    -de amor ou de atenção;
    abre lanhos de imaginação quase onomatopaica;
    – e parece único nessa arte.
    De tanto abusar da habilidade de escarafunchar lenhos, vai um dia destes abrir um lanho no estilo
    – e passar a identificar-se como cirurgião de emoções
    -espinhosas

  6. E não será antes uma seinhã?
    Sempre me interessei muito por sotaques. Claro que alguns dom vontade de rir, não para ridicularizar, mas pela normal estranhêza que causam no ouvido. O sotaque Lisboeta, p.ex, fica estranho nos homens (ficam femininos) e soa-nos ao longe como Vzvzvzvzvz. O açoriano, o madeirense, o transmontano e o alentejano são, a meu ver, os mais musicais (a beleza que fala talvez passe pela musicalidade e como tal é tão subjectiva como os gostos). Eu sou de Gáia e cá abrimos os ás até ao limite do possível, pelo que conseguimos sabêre quemnhé da margem de cá (nom dizemos margem sul) e quem é do lado de lá (Porto). A miscelânia de sotaques é tal em Gaia, que muda de freguesia para freguesia e por vezes dentro das freguesias (divididas em lugares). Crescemos, por isso, treinádos a percebêre pequenas subtilezas entre sotaques, o que, como exercício, académico é muinto interessante. Um exemplo é a palavra pão. Eu digo páãonh, páinhes, a minha mãe,de uma freguesia vizinha diz põenhi, no Porto dizem pounhe (mas depende também da zona). Mas palavras como esta “tênhem” muitas outras versões. Só ouvindo. É um convite que faço.
    (P.S: «os de Lisboa ou menos sujeitos a sotaque» esta frase tem graça…)

  7. Fernando – Concordando com o essencial da sua crítica não posso deixar de discordar da colocação de Coimbra a par com Lisboa em termos de “deturpação” de formas anteriores do português.
    Sendo Algarvio, e consciente das características da minha pronúncia (dos mais notáveis a substituição dos “em” por algo entre um “é” e um “á”), vejo que em Lisboa há uma crassa difrença daquilo que se considera “falar sem pronúncia”. Não vejo isso em Coimbra.
    Um exemplo: quando um apresentador de televisão portuense aparece na TV, tem normalmente o cuidado para esconder as incorrecções na sua pronúncia, como o trocar os V’s pelos B’s. O mesmo não acontece com os Lisboetas, que não fazem esforço para dizer, por exemplo “Telefone” em vez de “Tufone” ou “Está” em vez de “Tsá”. Não noto normalmente pronúncia nas pessoas de Coimbra, mas nas de Lisboa, nota-se, e não é pouca.
    Acho que as pessoas de Coimbra pronunciam “ou” – ow , e “ei” – “êi” (ou algo entre o âi e êi , ainda assim bem diferente do lisboeta “â” ou “ái” )

  8. Zazie,

    Lembro-me da «conciência» do Salazar. Trata-se duma pronúncia que abarca grande parte da metade norte do país. Mas a pronúncia «conxiência» é exactamente lisboeta.

    Nanda,

    As dúvidas já hoje existem. Veja o «lenho», por «lanho», numa página de Lobo Antunes. Os nossos descendentes… já estão por cá.

    Luís Oliveira,

    Não sou eu que digo que Portugal conhece uma sociedade de classes. É observação sistemática de estrangeiros residentes entre nós.

    José,

    O Lobo Antunes é daqueles escritores (poucos, felizmente) que eu não sei se devo adorar se detestar. Isto é, se devemos estar-lhe grato por existir e fazer as avarias que faz, ou antes tentar travar um louco manso. Talvez um dia se faça luz.

  9. Luís Oliveira: a “down fall” do antigo sistema de classes (se calhar aconteceu de madrugada, but nevertheless…)

  10. Gisela,

    O micaelense (julgo que se lhe refere quando fala em «açoriano») é, de facto, música dos anjos.

    Manule Maria,

    Galaico arcaico? Havia de ouvir a minha amiga Maria do Carmo, uma jovem senhora, professora em Burela, na Marinha Luguesa. É de a gente sonhar ter nascido galego.

    Filipe,

    Acho que concordaremos em que o «lisboeta» soa, por vezes, arrepiante, o pobre. Eu vivi toda a minha meninice no meio deles, num bairro popular. Não me traz recordações musicais.

    Pataphysico Azul,

    «Móss, pa Stói, déb!» Traduza. Para já, parece-me fascinante.

  11. Unreconstructed:

    Olhe que não! Olhe que não!

    Há um disco dos beatles que tem uma capa fascinante com uma fotografia a preto e branco.

    Na fotografia vê-se a porta de uma residência universitária onde se lê em letras garrafais “All visitants should report to the warden”, o que se vê também é uma parafernália de grafitis a gozar o pagode. Tenho uma cópia original em vínil que comprei em Baker Street numa loja onde vendem tralha dessa ao quilo. Obviamente, sendo português em Portugal, não tenho é um gira discos: uma falha imperdoável segondo os meus amigos ingleses.

  12. Nunca ouvi ninguém em Coimbra a falar assim…esse vajo, quaijo, lanho…é tudo tipicamente lisboeta!
    Senão como explica o facto de todos do centro dizerem “aparêlho” e o resto do país dizer “aparalho”, “coalho”(coelho), “espalho” (espelho).

  13. O resto do país, uma ova!

    No minúsculo Entre-o-Douro-e-Minho, onde vive mais de um quarto de toda a população portuguesa, diz-se «apareilho», «coeilho» e «espeilho».

    Acho espantosas as suposições do caro Fernando Venâncio. Como se a grafía padrão alguma vez tivesse influênciado as pronúncias locais, ou fosse impedimento para a utilização dos léxicos regionais. NINGUÉM ESCREVE COMO FALA.

    Mesmo com os meios uniformizadores, como é o caso da televisão, as nossas crianças continuam a dizer «manhe» (mãe), «aue», (au, quando se magoam), etc, etc.

    Ou seja, a nossa pronúncia está viva e recomenda-se, assim como o nosso léxico: como é o caso do «molete», do grandioso «cimbalino», do refrescante «fino», do adjectivo «bacoco», etc, etc.

  14. Adaufe,

    Não atribua à pessoas o que elas não disseram. Se leu bem o post (mas começo a duvidar…), verá que em sítio nenhum eu afirmo (mesmo implicitamente) que a grafia influenciou a escrita. Há casos, mas não estes. Não seria melhor que reparasse no que efectivamente digo?

  15. Sim, eu sei que parte do meu comentário está descontextualizado. Escrevi-o no seguimento da «conversa» que tivemos mais abaixo, com o «Luís (Galego)».

  16. Alfacinhas e a estética sonora da linguagem…não as classes superiores não recuperam,submetem-se pois o povinho é quem mais ordena.Quanta afectação de uma minoria tão pouca auténtica…SIM, quando ouço os emigrantes distancio-me dessa realidade…NÃO, Lisboa não é Portugal.

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