Sapo reloaded

Aos 44 anos, o João era já um homem.
(pelo menos, ao sentido da visão assim se demonstrava)
E, como todos os homens, tinha uma ideia para a vida – não ter nenhuma ideia basta.
Dizia-se um panteísta puro.
(Sou daqueles, dizia, que empurra para a terra as folhas caídas no passeio de cimento – não vá perder-se a unidade e a substância)
O João acreditava (também) que a morte é um princípio e, no caso de algumas pessoas, um bom princípio.
Passa agora a Adão, o João.
(é cá comigo)
Avançava Adão pela rua (ainda não o tinha dito), pode ser a da Saudade, quando tropeçou num sapo (macho) que lhe interpelou o andar e o pensar.
(nesta história, os sapos falam, e com sotaque de quem a língua mãe deve ser o espanhol platense)

CHLOROPLASTS TEM.jpg
(cloroplasto gentilmente “googlado” por py)

Puta que pariu, que me magoaste. Porque vais tão desatento?
Porque me apetece!
Se vais sem motivo, sabeis ao menos porque não tens motivo?
Ó criatura de circo, por que me incomodas? De resto, sapos a falar já vi muitos, mas que merda de sotaque é esse? E não me venhas com a conversa de que és um príncipe, que não levas beijo. Pernas de rã são boas, que tal serão as de sapo?
Tantas perguntas. É próprio de ti, Adão.
Conheces-me, espécie de lagarto anafado?
Se te conheço?
Foi isso que perguntei, se me conheces!
(retorcer de olhos, como quem indica o óbvio)
Conta-me lá então a tua história, mas entremos neste centro comercial (vamos àquele café), que de doido já vou tendo fama e seriam penosas as consequências de me verem a falar, em plena rua, com um sapo.
(dois cafés, um é pingado)
É curta e simples, a fábula que te cabe, Adão. Não nasci girino. Outrora, fui homem como tu. E apaixonado por uma mulher. Apostei com uma bruxa, por cujos encantos me devo ter perdido (vejo-o agora com clareza), que jamais amaria uma mulher que não fosse a minha. E que, pela bruxa e outras mulheres, não nutriria mais do que desejos de ocasião.
E então?
A bruxa picou-me o dedo no fuso, rectius (estou a brincar), disse-me que em sapo me transformaria se por ela viesse a sofrer de amores.
Em sapo te transformaria ou transformar-te-ia em sapo?
(semicerrar de olhos)
E aqui estou eu: obeso anuro, sem nunca ter sido girino!
E que porra tenho eu a ver com isso?
Pensei que, como caminhavas, tão desatento, pela Rua da Saudade (sabias ao menos o nome da rua?), tivesses visto o raio da bruxa. Daí querer saber porque seguias assim, aos pontapés aos sapos!
Deixa-me, então, que te conte a minha história. Nasci girino, um dia perdi-me de encantos por um sapo (fêmea, que não sou maricas), mas apostei que jamais a amaria. Que, se assim não fosse, disse ela, desinchava-me e punha-me em homem. Eis porque, nascendo girino, sou hoje filho de Eva.
Isso é mesmo verdade?
O quê? Eva? Darwin diz que não. Não, sapo filho da puta, `tou só a gozar contigo! Não acredito em sapos!

Era assim o Adão, um tipo sem pitada de magia. E olhem que nem todos merecemos que um sapo nos dirija a palavra. É coisa de predestinados. Não acontece todos os dias.
Sem apelo nem agravo, não deixou lembrança, o João (afinal, vai ser João).
De actos valorosos, o único que deixou marca (sem chegar para o libertar da morte) foi ter caído de um 4º andar, com a cornadura no cimento do passeio (faltaram-lhe folhas que lhe amparassem a queda) e não ter morrido (pelo menos no mesmo dia).
Disse mais tarde, à senhora da limpeza (enquanto esta se esforçava por apagar a marca – de sangue no passeio), que ripostava a um pombo quando perdeu o equilíbrio.
Morreu de velho, com um cancro de fumador passivo. Solitário, entrevado (da queda desfolhada), sem mulher, nem primos afastados.
Eis, pois, a história do João que foi girino.
Baseia-se em factos reais, mas os nomes foram alterados.
Não tem moral, esta que vos conto.
E este é o meu receio.

14 thoughts on “Sapo reloaded

  1. A fábula está muito jeitosa, não só porque bem escrita mas tambem porque aproveitou as deixas do PY, e o gostoso artigo do Fernando sobre a evolução da pronúnica na nossa lingua. E era só sobre um batráquio e sua conversa com o João de cair das alturas.. Para a próxima aposto que teremos desenvolvimento e deslocação para a classe dos répteis, aproveitando a acusação, há alguns anos, do bastonário dos rábulas americanos à equipa de Republicanos do Congresso, de que esta não passava de uma corja de gente reptilária. Fica aqui a sugestão, especialmente para o Jorge, que é excelente nestas coisas, mas não sugiro que façam do Presidente o protagonista da história. Moral da história: a realidade é mais estranha que a ficção.

    TT

  2. (quanto a sapos, eu gosto de sapos: comem moscas e outras coisas; uma vez parei o carro para ver um sapão que estava no meio da estrada, tinha a pela tão coriácia que parecia ter mil anos, fez-me um cloak simpático e felizmente começou a dirigir-se muito paulatinamente para a berma, era uma estrada muito secundária, não passou nenhum carro entretanto – e lá foi…, e depois nunka se sabe se não está um príncipe dentro do sapo ;)

  3. Caramba, py, e eu que pensava que eram os olhos do sapo em mutação.

    TT: Este texto é apenas uma profunda alteração de algo escrito há algum tempo. Sucede que a imgame do py, salvo seja, me fez lembrar um sapo a transformar-se. Vai daí… E aquela do sotaque foi só um floreado. Quanto à tua proposta, nota bem que nesta já se fala de lagartos anafados. Mutatis mutandis, eis a fábula que pedes.

  4. pensa-se que o cloroplasto era uma antiga bactéria autotrófica ma non troppo, que se acomodou muito bem dentro da célula vegetal e vai daí ficaram juntos para sempre… dentro do clorolasto faz-se a fotossíntese, entra CO2 e sai feita glucose no estroma, que é armazenada em amido (que é glucose pura concatenada) e depois é fornecido à célula à medida das…

    o amido é branquinho, agora com a coloração das preparações sai preto

    (não me ponhas com responsabilidades indevidas, que eu gosto mais de bandoleiro)

    agora: basar

  5. Olá, Py!
    É proibido alimentar pombos em Lisboa, não é? Mas há quem o faça com trigo roxo… É que de repente aquelas aves desapareceram da minha varanda.
    Quanto aos sapos, eles fazem-me lembrar a chuva, e esta faz-me lembrar o norte e o meu nenúfer. Oh! Que saudades eu tenho do meu charco!…

  6. olá Sílvia, só vim cá por as compras e ainda vou ver o por do Sol às rochas…

    Quanto aos pombos do que eu aprendi quando li as leis sobre isso (ou melhor pedi a alguém que lesse e me contasse) foi que quem alimenta os animais na rua torna-se responsável por eles, e por todas as acções cometidas, danos e etc. Não sei se isto serve para alguma coisa, mas uma vez há poucos meses entrei e tinha um pombo no meu quarto em cima da minha almofada!, e lá consegui pô-lo fora com jeitinho e,…, tudo a lavar.

  7. :), mas deixo uma cogitação se alguém quiser pegar:

    hoje na Xis estavam lá uns textos sobre o ócio, tinha aquela história engraçada que o empreendedor conta ao outro, para o tentar convencer: e depois fazes-te rico e podes descansar…

    Mas também tinha um ditado de Hipócrates, qualquer coisa como: o ócio puxa o demónio…

    Ora, aqui é que haverá psico-linguistas mais habilitados do que eu…

    Creio que “demónio” vem do daimon grego, não? Mas aí era a consciência animada por um espírito, porventura com uma evidência física.

    Lembro-me de ler que Olímpia, a mãe de Alexandre, foi dar com ele com meses de idade, a dormir enroscado numa cobra e concluiu que a serpente era o daimon de Alexandre, que o acompanharia para sempre.

  8. “Será que o Maomé mijava de pé contra as rochas ou agachado como as meninas? A mim nada disso me interessa, pois sonho com o seu pénis erecto em minha bigorna” – Brigada Bigornas Gay, revista “Espírito”, nº 23, 2006.

  9. Py,

    estes pombos públicos de Lisboa são mesmo muito atrevidos e parece que é mesmo proibido alimentá-los, sob pena de multa. Quanto aos pombos privados sei que estes são mais disciplinados…talvez por viverem em condomínio fechado, não achas?
    Quanto ao processo de paz do Médio Oriente, acho que o ódio está mais acirrado que nunca e não vislumbro grandes progressos enquanto não for criado um Estado Palestiniano de facto.

  10. olá Sílvia, registo o teu comentário sobre o MO. Ando a ler uma biografia de Maomé e vou lá ao teu blogue contar umas coisas e ouvir-te, se quiseres.

    Meteste lá um Torga avassalador!

    Aqui os pombos são ubíquos, uns alimentam-nos sem veneno, outros com veneno, eu não faço nada a não ser que agora deixo o estore (?) a meia haste…

    De vez em quando juntam-se com gaivotas

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