PROCESSO ARQUIVADO POR FALTA DE PROVAS

Não são um ou dois comentários tansos ao post do Afixe sobre férias judiciais que me impedem de registar aqui o meu louvor à maneira profissional como ele expôs o problema que já o incomoda, tudo indica, há algum tempo. Escrita limpa, diria até que de juiz militante, em prol da sua classe. Mais difícil é saber se a Quitéria Barbuda, mesmo com um sobrinho agravista na comarca de Paço d’Arcos, gostou tanto como eu. Mas sei da pergunta que inevitavelmente assomou aos lábios daqueles que já sabem o que a casa do tra-lá-lá gasta. Se a bagunça do não-te-rales é geral de norte a sul em todos os departamentos do trabalhador público disfuncional de passar atestados, diplomas e receitas, por que não, já agora, nos serviços que em princípio deveriam zelar pelo bom funcionamento de tribunais mesmo quando a maior parte dos juízes anda a beber pinas coladas e bloody marys pelos estaminés de Albufeira?

Confesso que nunca me passou pela cabeça haver necessidade de rotatividades nesse sector para harmonizar escalas de férias que não entupam o sistema. Caramba, gente tão acima do resto do pobre vulgo! Isto deve ser um belo exemplo de democracia ao vivo e em acelerado ou a toque da corneta bruxelloise! E eu que andava a pensar que férias judiciais eram só os fins-de-semana de acampar há muitos anos com os meus amigos na praia do Júdice, perto das Alforrencas — mas só quando encontrava algum magala que fizesse por mim o serviço de faxina à padaria do quartel, a troco de vinte paus.

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FOOD FOR BODY AND MIND (Part one)

Ask any conspiracy theorist worried about nutrition and he will tell you (with more conviction than is needed to write this) that the surest way of keeping the mind strong, healthy and under control is giving our bodies some well measured, preferably uncontaminated food – the food that allows that mind to function to perfection and in freedom. And he will probably let you know, just for the record, that keeping our mucosae in daily contact with all important micro-nutrients is part of the secret which helps us to see the world in a way far beyond the reach of those who fill their supermarket trolleys with two-litre bottles of coke and three-for-two giant pizzas not baked by our grandmothers in Italy. If in good mood, our conspiracy theorist will also tell you about mineral transmutations inside plants and animals in complete disagreement with official scientific beliefs.

Let’s just say our nutrition-fixed conspiracy theorist friend is making a very important point. However, we have the right to wonder how much this nutrition-for-perfect-health culture is already showing signs of incautiousness and ineffectualness. Or perhaps showing something even more serious: that the whole thing is becoming a tool in the hands of the very same masters of those governmental bodies and agencies all the time feigning to be, in the name of science and common sense, very concerned about our “ridiculous” fad of ingesting a plethora of lab manufactured nutrients. From a pessimist’s point of view, a future for US is being planned by THEM, using our own hurriedly chosen weapons from THEIR carefully elaborated catalogues. Visions of well organized vitamin C and B-complex mafias, with all the usual government/police connections, or of alpha-lipoic acid pushers at work in the dark corners of the big cities, are not farfetched. Be sceptical and look inside your tablet, while you have time.

If we are learning anything from those bits of historical truth and maverick science reaching us every day, apparently without the consent of the powers which have been ruling the world for many centuries, we can bet without much fear of losing, that every major social fad (from nutrition awareness to regenerated/modernized beliefs in the “democratic” process, or God, Pop Music or Sport, all requiring some sort of widespread robotic dedication and involvement) is bound, sooner or later, to become another clever political toy in the hands of extremely intelligent bully boys.

With historical persistence and cunning and power for observation and plan, the master-manipulators will do their best to reform, redirect, reshape or reconstruct our fervours and love for new ideas and products. THEY will always be prepared to provide us with the required chemistry, the salt and pepper standing next to every pre-written menu, and nothing will be left to chance when it comes to matters of feeding our illusions or stomachs. The cooks of history will always keep an eye on our preferences and changes of taste. They will, if they have not already been waiting for it, carefully observe our growing passions or diminished interest for anything that pops up naturally. Fancy some Viagra or olive oil? No problem, sir. They will keep your fake orgasmic juices flowing with one “manusaturated” hand while the other grabs all the virgin olive groves in the world.

Those among us who know that there are large chunks of information unashamedly and criminally kept away from shelves in public libraries and food stores (call it “organic” or uncontaminated History if you like) will have no problem with telling who in fact has been gaining most and more regularly from social salads with a pinch of intrigue; from coups d’état, popular revolutions, patriotic orgasms, local wars, general strikes, international wars and wars of independence, all masked as desirable, necessary and inevitable social upheavals for the benefit of variable portions of the human race; they will have no problem with pointing almost exactly who has truly gained most from working-class chanting and flag-waving masked as effective and genuine trade-unionism; who has profited most from perversion of our minds and feelings dressed as epoch-making artistic and literary movements; from medical wizardry and technological feats with the intent of concealing and distracting us from the real discoveries.

Political master-manipulators may not have been many at any time in History. Nonetheless, in spite of their small numbers, they have always been able, from the heights of their positions of direct or indirect power, to be one step ahead of everybody else, particularly ahead of hard-working, honest people on this planet, using religious and political cunning, selling, buying, renting ideas or perverting them, falsifying History, patronising the sort of philosophical outburst which better served their plans – all made possible by loads of corrupting and corruptive gold to fulfil the selfish dreams and expectations of many and concurrently and designedly providing Humanity with the hard-to-die belief that every single important event in History was and is the unplanned result of chaotic forces in society. A load of “academic” bull, and they know that.

Uma Aspirina para os pobres refugiados

Dos destroços do De Vagares, acabámos de resgatar duas pobres criaturas, oferecendo-lhes pernoita, uma sopita quente e exemplares do último disco da Marina Mota.
Fica assim explicada a ruidosa presença deste senhor por aqui. E ainda aguardamos que o outro refugiado se manifeste, assim lhe passe o trauma do naufrágio.
Peço desculpa por não ter anunciado a coisa com as trombetas exigidas pelo protocolo deste blogue (que, segundo um comentador, “ainda cheira a Daniel Oliveira” e de acordo com outro goza da supina glória de ser um dos “blogues emblemáticos de Daniel Oliveira”) mas estava em reunião com o camarada Guterres a negociar as contrapartidas.
Novos amiguinhos de folguedos: portem-se bem, não exibam as partes pudendas em público e não atirem cocó aos visitantes. De resto, estejam à vontade.

Mestre Yoda encontra Mr. Spock

Não percam, pelas alminhas, a crónica de hoje do inultrapassável João César das Neves. Ali, o nosso profeta preferido entretém-se a perorar sobre as obsessões dos fãs da série Star Trek. Tudo para nos explicar, bem devagarinho, como é triste entregarmos as nossas vidas, os nossos anseios e desideratos a ficções patentemente mal amanhadas. Ideia com que concordo, aliás.
O problema é que ele escreve coisas como “erigir um mundo de ficção como orientação para a vida, que muitos consideram alienação ou manipulação de massas, está longe de ser exclusivo do Star Trek” e “em vez de entregarem a vida a um princípio abstracto ou um propósito pragmático, dedicam-se ao que sabem ser mentira, um mundo de ficção em que realmente não acreditam”, sem reparar na acuradíssima descrição que está a fazer da religião em geral e da sua em particular.
Só por exemplo, se tivesse de escolher entre o Império Klingon e Fátima, elegendo a trama mais bem urdida e a ficção mais convincente, não hesitaria em optar pelos domínios do Chanceler Martok. E entre o corrente Papa e Mr. Spock, como fonte de sabedoria e bom senso, ficaria na dúvida.
Mas tudo bem; live long and prosper, como dizem os meus amigos vulcanos, entre outros. A cada um a sua ficção preferida. Mesmo que inclua disparates patentemente absurdos como “liberdade, justiça, humanidade, raça, classe, ciência, progresso, natureza, prazer”, algumas das “propostas de filosofias, partidos e movimentos para substituir as religiões”, segundo o visionário colunista do DN.
Pelo caminho, César das Neves ainda refere um divertido e famoso sketch com William Shatner, embora não fique claro se percebeu que se trata de uma ficção humorística. Nada de surpreendente, afinal.

das falácias e seus desmandos

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Em Maio do ano passado, tive oportunidade de me pronunciar, algures por aqui, e mais ou menos nos termos que se seguem, sobre a questão da redução das férias judiciais.

“A redução das férias judiciais de 2 meses para 1 mês não passa de um projecto puramente demagógico, com o óbvio desiderato de levar a pouco esclarecida plebe (a que nem está para se esclarecer, nem convém que se esclareça) a “pensar” que os tais dois meses de férias se traduzem num ataque à produtividade, sustentado por um qualquer estatuto especial garante da improficuidade dos funcionários públicos judiciais (juízes, procuradores e oficiais de justiça), isto, quando os demais funcionários públicos têm direito a apenas 22 dias úteis (mais coisa menos coisa) de férias.
Nada mais errado!
As férias judicias são, basicamente, férias dos prazos judiciais, em que estes estão parados, sendo que, nem os tribunais encerram portas, nem, ó ceus, os magistrados têm dois meses de férias do serviço.
Em qualquer serviço público, os funcionários têm um período bastante alargado, e de todas as formas superior a dois meses, dentro do qual podem “escolher” o período de férias de 22 dias úteis a que têm direito.
Nesses serviços, não há uma necessidade de todos os funcionários estarem ao serviço na mesma altura.
Não é assim no caso dos tribunais, em que tem que se contar, para que um tribunal funcione na plenitude, com a total disponibilidade para o serviço, e ao mesmo tempo, de Juízes, Procuradores e Oficiais de Justiça.
A implementação da anunciada medida de um mês de férias judiciais, sem mais, obrigaria ao impossível, ou seja, a que toda a gente tirasse férias ao mesmo tempo, o que, a concretizar-se, para além de se traduzir numa diminuição de garantias dos funcionários judiciais em relação aos demais funcionários públicos, equivaleria a que o Tribunal, naquele período, vamos supor que no mês de Agosto, pura e simplesmente não funcionasse, nem sequer para processos urgentes, porque nunca haveria juízes ou procuradores de turno, nem funcionários para os assistir, uma vez que todos estariam a gozar as férias a que têm direito, sem possibilidade de o fazerem noutra altura (com os prazos judiciais a correr).
Os 2 meses de férias judiciais não caíram do céu aos trambolhões e sem qualquer razão de ser.
O motivo tem exactamente a ver com a coordenação das férias dos diversos operadores judiciais, entre si e, mais que tudo, com a restante sociedade (imagino a quantidade de testemunhas que, em férias será, doravante, chamada a depor), por forma a, desde logo, garantir que, para processos urgentes, o tribunal nunca esteja fechado, o que passa pela garantia de haver sempre juízes, procuradores e oficiais de justiça ao serviço.
Num único mês, como é bom dever, não é possível proporcionar a necessária rotatividade, sendo que um juiz que esteja de turno numa semana de Agosto, terá que ter direito a essa semana mais tarde, o que acabaria por significar que toda uma secção ou juízo acabaria por estar parada nessoutro período (e nem me falem da bolsa de juízes substitutos porque é absolutamente impraticável destacar, de forma eficaz e profícua, um juiz para, durante uma semana ou quinze dias, substituir um colega que está de férias).
Há pois que reflectir e atacar os verdadeiros problemas da Justiça que não passam, isso é certo, pelos dois meses de férias judiciais, ns quais, de resto e verdadeiramente, a disponibilidade judicial, e esta é a pedra de toque, nunca se reduz a zero.
Neste sentido, uma boa ideia seria lançar meios eficazes de verificação da efectiva produtividade e assiduidade dos diversos operadores judiciais, designadamente juízes e procuradores, durante o período de férias judiciais em que não se encontram de férias.”

Passado um ano, eis o maldito boomerang da razão a bater-me, com força, nas trombas:

“O novo ano judicial arrancou hoje sem juízes no tribunal de Castelo Branco. Os magistrados foram colocados noutros tribunais, dentro da normal rotatividade de lugares. Permaneceram apenas o Juiz Presidente e o juiz do Tribunal de Trabalho. Contudo, nenhum dos juízes que foram colocados em Castelo Branco se apresentou ao serviço. De qualquer forma, se se tivessem apresentado não havia ninguém para lhes dar posse, dado que o Juiz Presidente e o juiz do Tribunal de Trabalho ainda estão de… férias! Assim, ficaram parados os processos urgentes no tribunal da capital de distrito. Perante a gravidade da situação, o Tribunal da Relação de Coimbra nomeou uma juíza que estava a prestar serviço no fundão para ir de urgência para Castelo Branco. Acontece que no Fundão existiam apenas duas magistradas. Uma delas já tinha ido para o Sabugal a assegurar os serviços do juiz que estava em férias. Com a saída de mais uma magistrada para Castelo Branco, o Tribunal do Fundão ficou sem juízes. Ou seja, no distrito, a justiça destapou os pés para tapar a cabeça. Aguardam-se as reacções. [Kaminhos]

téleios afixe (#1)

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Estou farto disto.
(não te armes em vítima)
Afinal, apenas lhe arranquei a vida do corpo.
Desembainhei a faca de cozinha (foi a minha sogra que a fez, a bainha) e dei-lhe com o cabo na tola.
Era um gajo insuportável.
Seguia-me por todo o lado.
E espirrava!
Às segundas-feiras, espirrava.
Dava-me para ali.
Sôtor? Atchim!
Atchim a porra, meu grande cabrão.
E às terças era comichão!
Ora no cotovelo, ora no calcanhar.
Na semana passada, os espirros passaram para sábado.
E a sarna chega-lhe(me) agora à falangeta do dedo do pé grande (um dos pés era visivelmente maior que o outro).
Cada um é como é, como dizia o outro.
“O outro”, como é consabido, costuma ser ser diáfano.
Mas este acorda de manha – e não, não falta a vogal nasalada.
Feito para dormir, acordava por saber que não era para acordar, o finório.
De longe em longe, despertava.
Mune-se do revólver e avança pela calada, a da noite (que a outra não é literária).
Dá cabo da cabeça ao irmão gémeo, em cujo corpo teve a natura de vir à luz.
Retirado (ainda petiz) do cérebro do mano (era um cancro), avançou intacto pela vida.
Escapuliu-se(-lhe), sub bisturi, para os pulmões e passou a viver dos cigarros que o seu saco vitelino (assim o via) queimava.
E a seguir a cada cigarro, voltava às suas origens (o cérebro).
E faz(ia) dele o que quer(ia).
Come do que o outro come, bebe o que o outro bebe, fode quem o outro fode.
E assim satisfazia as necessidades básicas (no fraterno hospedeiro).
Por saco ou sem ele, o que lhe interessava mesmo era a rotina semanal.
Tudo o que acontecia durante a semana, e não estava agendado, era motivo de preocupação.
Num destes dias, cerca das 11h43, constatou que um dos olhos estava mais acima que o outro, e que o que estava menos abaixo lacrimejava 3 vezes (mais coisa menos coisa) mais que outro.
Olhou-se num espelho normal (e a seguir num que aumentava 10 vezes).
Apontou uma lanterna para ver como reagia a íris.
E até chegou a tirar uma foto (com flash).
Mas não pôde vislumbrar resposta para o diferenciado volume lacrimal.
E assim, às 11h50, enquanto bebia café, (ZÁS!), o cão saltou-lhe em cima, como a síndroma de Estocolmo num raptado (nem gemeste, que a bainha da sogra era azada e facilitava o uso).
E fecharam-me (fechei-o).
Deram-lhe aquela cadeira com mesa (a primeira vem primeiro, que é onde o cu se senta), aquela loira desbotada (espécie de menino das lágrimas do fado caseiro nacional), um lápis e uma manta de retalhos unidos por pontes de hidrogénio.
Três vasos (que há um lá atrás).
E daqui vos escreverei.
Desta história!
Atrás destas grades.
Publicarei apenas o que não se perceba.
Porque estou farto!
(o meu fim aparente)

Monsieur Sambá

Há fendas no quotidiano que são vertigens puras. É raro acontecerem, por benesse dos deuses. Descobrem-se adiante, e nós caímos nelas desamparadamente. Como num precipício.
Monsieur Sambá desce o dorso da duna. Caminha pela areia apoiado nas muletas, aos poucos entra na água até chegar ao joelho. A perna vazia das calças fica-lhe a boiar ao rés da espuma, agitada na brisa. E já ele retrocede, a oferecer a quem está as suas quinquilharias. Colares de búzios, pulseiras de sementes, anilhas de missangas. A carapinha branca adorna-lhe a figura, mas envelheceu-o. Pouco passará dos cinquenta. Fala um francês corrente.
– Et la jambe?! Les béquilles?!
Monsieur Sambá abre a porta ao abismo. Foi um acidente há muitos anos, em Cumbamori, ia ele a passar na picada. Veio a tropa portuguesa, um estilhaço entrou-lhe no joelho, o médico era cubano e foi morto no assalto. A perna acabou por gangrenar, foi preciso amputá-la.
– Soixante treize?!
– Soixante treize.
O cerco de Guidaje, colado à fronteira do Casamansa. Há semanas que a tropa não respirava, com tanto fogo em cima. Mandaram forças de Bissau invadir o Senegal, a ver se calavam a base de Cumbamori, ali a um par de quilómetros. E tudo se resolveu. Os assaltantes trouxeram 10 mortos e 22 feridos, mais três que desapareceram e ficaram por lá. Aos assaltados contaram-se, por estima, 67 mortos.
Monsieur Sambá não vem nas estatísticas, ia só a passar na picada. Livrou-se da gangrena e dá-se por satisfeito.

Jorge Carvalheira

«O código perdido»

1 de Setembro de 2006. Enquanto aguardo o comboio, ando pelas mesas duma livraria no hall da estação. E ali está ele, ainda, De Broncode (O código-fonte), saído em 2004, já em oitava edição. Lembro-me do meu artigo na «Única» do Expresso de 27 de Novembro daquele ano. Era – é ainda – uma história apaixonante. Aqui vai ela, novamente. Os informados informáticos que nos digam das possibilidades do invento. Nós, os leigos, continuamos subjugados.

O CÓDIGO PERDIDO

Um holandês morreu (foi assassinado?) antes de patentear a sua invenção capaz de revolucionar o mundo digital. Agora, um livro relata, em detalhe, esse misterioso invento

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Sede da Philips, em Amesterdão. Foi aí que Jan Sloot demonstrou pela primeira vez as virtudes do seu invento

Tinha todos os ingredientes de um «thriller», mas foi um caso real. Havia uma invenção digital misteriosa, quase mágica, que iria reduzir multinacionais gigantescas a escombros, fazendo incalculavelmente ricos meia-dúzia de investidores, entre eles o «número dois» da Philips. A morte, talvez o assassinato, do inventor veio em socorro da ordem mundial.

O mundo seria hoje diferente, muito diferente, se, no Verão de 1999, o holandês Jan Sloot, pacato reparador de televisões, não tivesse inesperadamente morrido. Preparava-se para depositar num notário o código-fonte de um programa fora do comum: permitia comprimir dois milhões de vezes qualquer ficheiro digital. Graças a isso, dez, mesmo vinte, filmes caberiam, inteiros, nos 126 «kapas» do «chip» dum cartão multibanco, reproduzíveis sem a mínima perda de qualidade. Assim se exprimiria a publicidade. Mas não era tamanha compressão uma impossiblidade matemática? Claro. Só que não era uma «compressão».

Sloot perdia a cabeça quando assim se falava do seu invento. Não era comprimir o que ele fazia, era codificar. Ao longo de vinte anos, sozinho no sótão, desenvolvera um sistema de cinco algoritmos (instruções para a solução de um dado problema) que funcionavam articuladamente. Num acervo de dados básicos (comparáveis a «samples» musicais numa placa de som), esses algoritmos, guiados por um código-chave, reconstituíam qualquer livro, qualquer sinfonia, qualquer filme (uma explanação técnica encontra-se em www.endlesscompression.com). Eram esses códigos-chave, de pouco mais que um kilobite cada um, que o utente descarregaria para um simples cartão. No aparelho reprodutor, uma memória de 270 «megas» (um terço de um CD virgem) mantinha em armazém tudo com que refazer, impecavelmente, O Crime do Padre Amaro, o Clair de Lune de Debussy ou o genial papel de Tom Cruise em Magnólia. Exemplos, evidentemente.

A história da invenção é relatada, com impressionante detalhe, num livro aparecido em Setembro passado, De Broncode (O Código-fonte), do jornalista holandês Eric Smit, director-adjunto da «Quote», revista mensal de negócios. O essencial era já conhecido de dois artigos seus de 2001, que haviam inspirado uma reconstituição radiofónica. O livro mereceu dezenas de recensões (cépticas, bastantes delas) na imprensa tradicional e electrónica e exaltou os ânimos em «blogues» e «sites» de discussão. Na televisão pública, dois documentários foram dedicados ao assunto (no fundo musical, alguns instrumentais dos Madredeus, banda de culto na Holanda).

A misteriosa invenção foi revelada, em 1998, a quatro ou cinco investidores. Tinham muito dinheiro, muita fé no futuro e poucos conhecimentos de computação. Eram, para Jan Sloot, os interlocutores ideais. Ele acreditava, como toda a gente, que as patentes do automóvel a água acabavam sempre na gaveta das companhias petrolíferas. Mas até a proximidade de um informático ele temia. Os princípios básicos do seu produto, asseverava, eram tão «simples» que já uma amostragem superficial constituía risco.

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Pieper assina, em 20 de Maio de 1999, no Hotel Okura, na capital holandesa, o contrato para a empresa Fifth Force, que vai impor a tecnologia de Sloot ao mundo

Dois problemas de monta tinham, ainda assim, de ser resolvidos. A invenção necessitava de uma patente. Ora, por mais que se esforçasse, Sloot, que nem terminara a escola técnica, reconhecia-se incapaz da tarefa. Qualquer ajuda alheia estava, todavia, fora de questão, e assim se arrastavam os meses. Depois, e por analfabetos que fossem em informática, os amigos investidores sabiam que só uma empresa de grande porte podia comercializar tão avançada tecnologia. E aqui, sim, impunha-se enfrentar riscos.

O único contacto sério de que dispunham era logo, também, o melhor de todos. Tratava-se de ninguém menos do que Roel Pieper, que a Philips acabara de ir buscar aos Estados Unidos, tencionando fazer dele, em breve, seu patrão máximo. Com 40 anos de idade, o «wonderboy» da electrónica fizera furor na América, ao vender uma firma, a Tandem, por três mil milhões de dólares à Compaq.

Uma primeira demonstração, feita em Amesterdão, na nova sede da Philips (cujo topo abandonou, nos anos 90, Eindhoven), deixou Roel Pieper boquiaberto. Dezasseis filmes, numa definição perfeita, revezavam-se de um instante ao outro num monitor, passando instantaneamente do meio para o princípio ou o fim. Tudo isso comandado duma pequena caixa sem partes móveis, sobretudo sem disco rígido. Pieper declarara-se imediatamente interessado e uma demonstração nos laboratórios de Eindhoven ficava aprazada.

O exacto papel de Roel Pieper no caso nunca será, talvez, totalmente esclarecido. O desinteresse dos técnicos de Eindhoven pelo invento, diz-se, foi manobra sua. O americanizado Pieper estava desiludido com a cultura burocrática da Philips, e ia em breve despedir-se. Nesse preciso momento, o destino lança-lhe no regaço a invenção do século. Dias depois de deixar a multinacional, Pieper já é patrão da Fifth Force, a empresa que vai impor a tecnologia SDCS (Sloot Digital Coding System) ao mundo inteiro. Dentro de um ano, à entrada na Bolsa, serão feitos cem milhões de dólares (78 milhões de euros). Em 2004, a empresa irá valer trezentos mil milhões. Não demora, e Bill Gates há-de felicitar-se por tratá-lo, a ele, por «Roel». De caminho, a californiana Silicon Valley ficará às moscas.

Com tal perspectiva, a desconfiança de Jan Sloot, a sua quase paranóia, conhece um apaziguamento. Pieper sabe avaliar, como nenhum outro, o génio do reparador de televisões. E só ele, Pieper, garante ao modesto inventor o que merece: tornar-se, com 50% das acções da companhia, o homem mais rico do planeta.

Sloot, Pieper e dois outros accionistas percorrem, em inícios de 1999, os Estados Unidos, deixando, de costa a costa, os gurus da Nova Economia embasbacados diante dum monitor onde se passa o impossível. E são eles, os grandes investidores, a darem cartões, a fazerem-se lembrados. Faltam ainda os bancos. Mas também os bancos irão telefonar, asseverando que alinham. Agora, e cada vez mais, Pieper pressiona Sloot. A patente tem de ser pedida rapidamente. A entrada na Bolsa está marcada. Dia e noite, Jan trabalha na patente. No momento em que a entregar no notário, mesmo em envelope fechado, receberá do banco ABN-Amro os primeiros milhões.

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Em finais de 1999, Roel Pieper (o mais alto, à esquerda) torna-se membro-consultor dos investimentos Gilde

Faltam dois dias para a ida ao notariado, quando tudo se desmorona. Na manhã de domingo, 11 de Julho de 1999, Jan Sloot é encontrado sem vida no quintal traseiro da casa. Alarmados, os amigos acharão arrumado um sótão onde sempre reinara a desordem. Da milagrosa caixa nem sombra. Os apontamentos e as disquetes nada contêm de importante. E, sobretudo, não há rasto do código-fonte. Durante semanas, as melhores agências especializadas passam tudo a pente fino. Interrogam pessoas, investigam cofres em bancos, escavam o quintal, desmantelam o carro. Mas nada encontram. Alguém terá chegado, julgam, a tempo de apoderar-se do código.

Depois, aquela morte é demasiado oportuna para os que com ela lucram, e que não serão poucos. Custa a crer que fosse natural. Mas já é tarde quando alguém se lembra de pedir uma autópsia.

Amargurados, os accionistas, com Pieper à cabeça, põem a empresa em «hibernação», aguardando que o código-fonte, que consideram propriedade do colectivo, acabe por aparecer. Roel Pieper, que não quis colaborar no livro de Eric Smit, aceita um lugar de catedrático, continuando administrador de meia-dúzia de grandes firmas. Dos outros, tentando esquecer os biliões, foi cada um à sua vida, que é, em todo o caso, folgada.

E o mundo… O mundo tem, a cada ano que passa, capacidades de armazenamento digital mais vertiginosas. E, se for verdade (como parece que é) que as grandes invenções são feitas em simultâneo por mais de um indivíduo, haveremos, mais ano menos ano, de armazenar música e filmes à escala que Sloot prometeu. É disso que andamos mesmo precisados? Talvez não. Mas, quando isso chegar, diremos como sempre: «O que eles inventam!» E corremos às lojas a comprar.

Texto de Fernando Venâncio

O país sem sossego

Três quartos de Portugal não existem há muito. Criaram-se à lei da natureza, serviram de lastro às caravelas, formigaram como bichos na paisagem, e fugiram a salto para a Europa a ver se matavam a fome.
Agora deram-lhes carta de alforria, como se a vida se fizesse por milagre. O orçamento é curto, a justiça ressona atrás das togas, a educação multiplica iletrados, e a saúde nacional não faz fortunas.
Um Portugal assim não tem sossego. Ou volta ao nada que já foi, durante cinco séculos, ou encontra o portão do 5º Império, que uns visionários lhe dão por garantido.

Jorge Carvalheira

Gessos e bolandas

O viajante vai a subir as escadas dum alpendre belíssimo, numa casa velha de telhado a cair, quando os acordes vibrantes dum carrilhão electrónico se põem a gritar o meio-dia na capela de S. Sebastião, que está escondida ali ao lado. Indústrias de Braga, pensa o viajante, que decide afastar-se a ver se salva os tímpanos. A esta hora o sol é já duríssimo, e rua está deserta. Mas o viajante sente o peso duns olhos que o espiam, se não forem enganos dum instinto antigo que lhe parece conservar. Há um portão de folha que se entreabriu, e dele sai um homem abrigado num chapéu de palha. Apesar da barulheira do carrilhão, a retumbar nos ares um avé de Fátima que ameaça não ter fim, o encontro é inevitável.
Os modos do homem do chapéu de palha são os de quem sofreu uma invasão. Quer saber de que é que o viajante anda à procura.
– Procurar, procurar, não procuro! Ando a ver! As pessoas, as casas, o mundo…
Ao homem parece que agradou a resposta vaga de filósofo barato, porque se abriu num sorriso. Quanto ao viajante, depressa se deu conta da sorte que teve neste encontro, porque o senhor Albino não é uma personagem vulgar. O senhor Albino é uma figura que saiu agora mesmo dum quadro campestre de há um século atrás, para vir encontrar-se aqui com o viajante. Usa o mesmo vestuário, conserva os modos antigos do falar, espalha em volta o cheiro dum suor que há muito tempo se vai lavando a si mesmo, e cobre a cabeça com um chapéu de palha que já não existe. O viajante não vinha à procura do Portugal antigo, que o guarda na memória com grande utilidade, mas fica satisfeito por encontrá-lo aqui. Melhor pode cotejá-lo com o Portugal moderno, se não é isto forçar as palavras, e tirar a prova aos dois.
O viajante observa melhor o seu interlocutor, de aspecto já um tanto alquebrado.
– Vida dura, amigo!
O homem ufana-se de ter já tantos anos como sessenta e sete, e de manter a sua actividade, mas lamenta a dureza dos seus ingratos trabalhos. E muitas vezes vãos, o que é pior. Ao contrário de muita gente, teve sempre terras suas onde trabalhar, e foi por isso que não emigrou, no tempo certo. Tem filhos ainda novos, que andam a estudar, e à surpresa do viajante confidencia que se casou tarde.
– Pois antes tarde e bem que cedo e mal, como às vezes se vê!
A escolha do senhor Albino foi tardia mas boa, como o viajante há-de confirmar. E trouxe-lhe cinco filhos, entre eles um varão. Mas o viajante não sabe distinguir se isto é causa de alegria ou de contrariedade, porque todos lhe deram consumições e sobressaltos cabondes. Uma teve problemas de nervos, parece que era fraca do cérebro, foi uma trabalheira. A outra a seguir teve aquele grande susto com uma tia, por causa duns piolhos. A boa mulher aplicou-lhe na cabeça o insecticida que usava no campo. E a doente, se ia resistindo à moléstia, por muito pouco se não finou da cura. Depois veio a do meio, e logo lhe havia de cair uma panela de água quente num pé, foi um mês inteiro a correr para os tratamentos. O varão, ainda criança de escola, partiu um dia um braço. Lá andaram com ele em gessos e bolandas, mas ainda hoje não está bem, que ficou com defeito. À mais novata apareceu-lhe uma coisa ruim no ventre, até parece impossível, de tão nova. Agora já está bem, graças a Deus, só tem que ir aos hospitais de Coimbra uma vez por ano.
O viajante escuta com toda a atenção o rosário das queixas do senhor Albino, há muito que sabe que todos os milagres nascem apenas duma boa palavra. E bem gostava de a conhecer agora, para a poder usar, porque o rol das desditas do seu amigo ainda não terminou. Quando começou a trabalhar no comércio, a sua mais velha precisava dum carro, para se movimentar. O senhor Albino aceitou que não há modos de se viver sem ele, e lá lhe deu mil contos por um. Até ao dia em que sucedeu não sei o quê num cruzamento, e o carro acabou na sucata. O pobre homem teve que comprar outro, e agora não sabe bem o que fazer quando os outros filhos começarem todos a trabalhar, e precisarem também dum carro, para se movimentarem.
O viajante já sabe, por experiência pessoal, que filhos e cadilhos são uma e a mesma coisa, embora nuns casos mais que noutros. Começa a pensar que não lhe bastaria conhecer aqui a senha deste milagre, indispensável e urgente era que fosse um santo milagreiro, dono das senhas todas. Como nem uma conhece, desvia a conversa para o rumo que mais lhe interessa.
– Vai votar, no domingo?

Jorge Carvalheira