téleios afixe (#1)

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Estou farto disto.
(não te armes em vítima)
Afinal, apenas lhe arranquei a vida do corpo.
Desembainhei a faca de cozinha (foi a minha sogra que a fez, a bainha) e dei-lhe com o cabo na tola.
Era um gajo insuportável.
Seguia-me por todo o lado.
E espirrava!
Às segundas-feiras, espirrava.
Dava-me para ali.
Sôtor? Atchim!
Atchim a porra, meu grande cabrão.
E às terças era comichão!
Ora no cotovelo, ora no calcanhar.
Na semana passada, os espirros passaram para sábado.
E a sarna chega-lhe(me) agora à falangeta do dedo do pé grande (um dos pés era visivelmente maior que o outro).
Cada um é como é, como dizia o outro.
“O outro”, como é consabido, costuma ser ser diáfano.
Mas este acorda de manha – e não, não falta a vogal nasalada.
Feito para dormir, acordava por saber que não era para acordar, o finório.
De longe em longe, despertava.
Mune-se do revólver e avança pela calada, a da noite (que a outra não é literária).
Dá cabo da cabeça ao irmão gémeo, em cujo corpo teve a natura de vir à luz.
Retirado (ainda petiz) do cérebro do mano (era um cancro), avançou intacto pela vida.
Escapuliu-se(-lhe), sub bisturi, para os pulmões e passou a viver dos cigarros que o seu saco vitelino (assim o via) queimava.
E a seguir a cada cigarro, voltava às suas origens (o cérebro).
E faz(ia) dele o que quer(ia).
Come do que o outro come, bebe o que o outro bebe, fode quem o outro fode.
E assim satisfazia as necessidades básicas (no fraterno hospedeiro).
Por saco ou sem ele, o que lhe interessava mesmo era a rotina semanal.
Tudo o que acontecia durante a semana, e não estava agendado, era motivo de preocupação.
Num destes dias, cerca das 11h43, constatou que um dos olhos estava mais acima que o outro, e que o que estava menos abaixo lacrimejava 3 vezes (mais coisa menos coisa) mais que outro.
Olhou-se num espelho normal (e a seguir num que aumentava 10 vezes).
Apontou uma lanterna para ver como reagia a íris.
E até chegou a tirar uma foto (com flash).
Mas não pôde vislumbrar resposta para o diferenciado volume lacrimal.
E assim, às 11h50, enquanto bebia café, (ZÁS!), o cão saltou-lhe em cima, como a síndroma de Estocolmo num raptado (nem gemeste, que a bainha da sogra era azada e facilitava o uso).
E fecharam-me (fechei-o).
Deram-lhe aquela cadeira com mesa (a primeira vem primeiro, que é onde o cu se senta), aquela loira desbotada (espécie de menino das lágrimas do fado caseiro nacional), um lápis e uma manta de retalhos unidos por pontes de hidrogénio.
Três vasos (que há um lá atrás).
E daqui vos escreverei.
Desta história!
Atrás destas grades.
Publicarei apenas o que não se perceba.
Porque estou farto!
(o meu fim aparente)

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