Monsieur Sambá

Há fendas no quotidiano que são vertigens puras. É raro acontecerem, por benesse dos deuses. Descobrem-se adiante, e nós caímos nelas desamparadamente. Como num precipício.
Monsieur Sambá desce o dorso da duna. Caminha pela areia apoiado nas muletas, aos poucos entra na água até chegar ao joelho. A perna vazia das calças fica-lhe a boiar ao rés da espuma, agitada na brisa. E já ele retrocede, a oferecer a quem está as suas quinquilharias. Colares de búzios, pulseiras de sementes, anilhas de missangas. A carapinha branca adorna-lhe a figura, mas envelheceu-o. Pouco passará dos cinquenta. Fala um francês corrente.
– Et la jambe?! Les béquilles?!
Monsieur Sambá abre a porta ao abismo. Foi um acidente há muitos anos, em Cumbamori, ia ele a passar na picada. Veio a tropa portuguesa, um estilhaço entrou-lhe no joelho, o médico era cubano e foi morto no assalto. A perna acabou por gangrenar, foi preciso amputá-la.
– Soixante treize?!
– Soixante treize.
O cerco de Guidaje, colado à fronteira do Casamansa. Há semanas que a tropa não respirava, com tanto fogo em cima. Mandaram forças de Bissau invadir o Senegal, a ver se calavam a base de Cumbamori, ali a um par de quilómetros. E tudo se resolveu. Os assaltantes trouxeram 10 mortos e 22 feridos, mais três que desapareceram e ficaram por lá. Aos assaltados contaram-se, por estima, 67 mortos.
Monsieur Sambá não vem nas estatísticas, ia só a passar na picada. Livrou-se da gangrena e dá-se por satisfeito.

Jorge Carvalheira

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