Lixo atrai lixo

No «Expresso» de hoje, um texto do crítico António Guerreiro ajuda a chamar as coisas pelos nomes. Não podemos dar o link, que é a pagar. Os negros são nossos.

«Na semana passada ficámos a saber, através de um comunicado da empresa, que João Paixão tinha sido substituído, no cargo de administrador das Publicações Dom Quixote, por Juan Mera. Por mais que o comunicado tente integrar esta substituição na vida normal da editora – pertencente ao Grupo Planeta, o maior grupo editorial de língua espanhola – há alguns indícios de que as coisas são muito menos serenas, como já tínhamos percebido com a saída, há pouco mais de dois meses, do director editorial João Rodrigues.

«O discurso das empresas, como o de cada indivíduo, tem um conteúdo latente que se manifesta como sintoma. Quando lemos, no mesmo comunicado, que o novo administrador irá prosseguir uma «programação editorial equilibrada, reconciliando as tendências do mercado com a identidade da editora, a qual tem por base autores portugueses e literatura em língua portuguesa», percebemos que uma tal afirmação é, no contexto, deslocada, e que ela só ocorre por insistência de um nó problemático: a conciliação dos interesses comerciais com a edição de livros de «literatura em língua portuguesa». E quando se diz «literatura em língua portuguesa», dever-se-ia dizer, simplesmente, «literatura», pois é toda a literatura que é banida pelos critérios comerciais, como podemos perceber pelo vasto lixo editorial que a Dom Quixote e as grandes e médias editoras produzem hoje. Para percebermos como as coisas mudaram nos últimos anos, devemos recordar que os autores portugueses que a Dom Quixote assume hoje como um fardo são os mesmos que há uns anos garantiam o sucesso comercial da editora. E, em boa verdade, já antes de a Dom Quixote ter sido comprada pelo Grupo Planeta, raros eram os autores portugueses que menos vendem (por maior que seja o seu prestígio) a entrar no catálogo da editora. Só que nessa altura as derivas comerciais ainda estavam no início, não era ainda necessário produzir tanto lixo e entrar na corrida selvagem onde só se salvam os livros que ocupam mais espaço nas livrarias, têm capas mais coloridas e cumprem a tarefa nauseabunda da mercadoria inútil, repetitiva, degradada.

«A lógica editorial, percebemos hoje perfeitamente, não é diferente da que governa a televisão e os jornais: o lixo atrai lixo e a partir de certa altura todo o circuito (edição, distribuição, comercialização) não consegue alimentar-se de outra coisa, não tem tempo nem espaço para funcionar de outra maneira. Lido nas suas manifestações sintomáticas, o comunicado da Dom Quixote diz-nos que o estado da edição em Portugal é uma calamidade, mas que a editora irá continuar, como muitas outras, a contribuir para ela. Quixotesco seria fazer o contrário; colectivamente suicida é persistir na mesma via.»

P.S. Creio que A.G. só não vê bem quando afirma «já antes de a Dom Quixote ter sido comprada pelo Grupo Planeta, raros eram os autores portugueses que menos vendem (por maior que seja o seu prestígio) a entrar no catálogo da editora». Houve, antes e depois da transacção espanhola, vários principiantes editados. O que terá faltado é o acompanhamento. O incentivo. E a convicção. Pelas razões que ele aduz, claro.

fv

9 thoughts on “Lixo atrai lixo”

  1. Preciso de descansar, pensou a mulher. Depois, deixou-se cair. Não pensou em nada. Não pensou em ninguém. Porventura, naquele exacto momento, ninguém estaria a pensar nela. Havia assim uma justa reciprocidade na ausência de lembrança. O corpo desenhou uma espiral ao cair. Como se fosse uma pena ou uma folha. Não caiu a pique. Nem com a rapidez própria dos corpos que têm determinado peso. A mulher era velha, de estatura pequena, muito leve. Leve como uma pena. Demorou exactamente cinco segundos a chegar cá baixo. É muito tempo para um corpo. Caiu em cima de um carro estacionado à porta de uma pastelaria. Um carro refulgente de modernidade, preto, descapotável.

  2. Bem haja, pequeno Luis, mas o post ainda não estava pronto para publicar. Por isso, só esteve 10 segundos no ar, e por engano.

    Ao trabalho que esta gente se dá. E uma vidazita, já se arranjava, não?

  3. Afixe:

    Deixas-me sem saber o que dizer. Isso de publicar posts por minutos também já me aconteceu.

    Eu leio isto usando o rss feed e a coisa fica lá pendurada. Quando escrevi o comentário estava online.

    Desculpa-me a minha impulsividade …

  4. Luís, Luís…
    A ter sido assim, só não percebo porque raio fizeste o comentário neste post e não no outro.

    E desculpo-te tudo, claro. Em verdade não é bem isso, é-me completamente indiferente. Fizeste está feito. Siga a marinha.

  5. Bom, eu até gosto bastante dos textos do António Guerreiro, mas a visão dele é bastante parcial.
    Se António Guerreiro tem por vício olhar para onde todos olham, deverá também ver que, se calhar, é nesse lugar que as coisas que toda a gente quer, estão.
    Nos espaços de alta rotatividade, ou nos hipermercados, é habitual encontrarmos todo o tipo de produtos, em particular aqueles que ajudam a pagar as elevadas rendas desses espaços. Não é possível uma outra óptica.
    No entanto, nem todos os editores, nem todos os difusores – mormente aqueles que podem ser chamados de livreiros – podem ser englobados nesse discurso repetitivo.

    Nessa mesma óptica, errada, poderiam os editores dizer que os críticos só sabem falar dos livros dos amigos ou dos livros das editores onde querem publicar.
    Não concordo, nem considero que todos os prescritores o façam, em especial quando falo directamente para um que o não faz, como o Venâncio.

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