A senha antiportista

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Não é por nada. Eu até acho o homem um grande escritor, e tenho-o dito amiúde. Mas, havendo aqui assinalado em outra celebridade literária um uso de «lenho» onde devia estar «lanho», eis que dou, em crónica de Miguel Sousa Tavares, n’«A Bola», com um também peregrino uso de «senha». O texto é já velhinho, mas actualíssimo. Ainda hoje o Porto não é amado por Lisboa e seu termo. Pois bem, lia-se na crónica de MST, e eu sublinho:

«…ou ainda um telefonema a Pinto de Sousa em que o presidente do FC Porto terá intercedido a favor de Deco e Mourinho, para que a Comissão Disciplinar da Liga suavizasse momentaneamente a sua tradicional e famosa senha antiportista — tudo isso, todos esses gravíssimos supostos indícios que…». O texto inteiro está aqui.

Caganitas? Nem mais. Só um linguista repara nelas. Mas é a verificação, bem-sucedida, duma hipótese. Um dia, prometi eu, alguém – que foi afinal um cronista célebre (e seus revisores, que «A Bola» terá) – haveria de confundir «sanha» com «senha».

A linguística, será ela afinal uma ciência muito séria?

A tempo e horas

Nova hipótese. Não há-de demorar que alguém, em vez de «ela viu-se ao espelho», grafe «ela viu-se ao espalho» (a ler como «espâlho»). Aposto uma cerveja. Eu pago-ma.

12 thoughts on “A senha antiportista”

  1. Fernando:

    Permita-me uma momentânea maldade. De resto admito, que dos que aqui comentam, eu sou o que menos autoridade tem para cometer tal maldade.

    Se assumirmos (por absurdo) que a linguística não é uma ciência séria, que ciência havemos de propôr para a substituir no altar das ciências sérias? Que ciência pode, imaculada, gabar-se de ser séria?

  2. Luís Oliveira,

    Chamei «ciência séria» àquela que formula hipóteses que se revelam procedentes, fundamentadas. Muitas ciências o são. Lembro a astrofísica, a matemática, para citar as que mais me fascinam. Se elas não são «sérias», quais o seriam?

    MPS,

    Thanks. Sente-se uma pessoa mais acompanhada.

  3. Só um cão vadio que por ali andava se apercebeu daquele corpo pequeno vindo das alturas. E isso era estranho. Até para um cão que não conhece as subtilezas da vida e da morte. No ar voam pássaros, insectos, sacos de plástico, papéis velhos. Não senhoras velhas e pequenas. Ladrou o cão. Ladrou muito. Como nunca ladrara. Um ladrar furioso. Ao mesmo tempo assustado. Chamadas por aquele ladrar as pessoas começaram a sair das lojas e dos cafés. Também os transeuntes que regressavam a casa, os apressados e os muito apressados, pararam, levemente irritados com a interrupção que, por força daquele ladrar, se atravessava na sua rotina. Pouco tempo depois estava formada uma multidão pequenina perto daquele cão que perto daquele carro ladrava sem parar. Ninguém percebia a razão pela qual o bicho não se calava. Até que um homem furou a multidão. Era um homem jovem. Vestia um fato escuro e uma gravata clássica. Tinha ar de director de qualquer coisa. Devia trabalhar num dos edifícios de escritório que ficavam nas proximidades. Olhou para o cão. Apagou com a biqueira do sapato um cigarro que atirou para o chão. “O que é que esta senhora está a fazer sentada no meu carro?”. As pessoas entreolharam-se, depois olharam para o carro. Só agora davam conta de que naquele carro estava sentada uma mulher velha. Parecia dormir. O cão calou-se. Tinha cumprido a sua missão. Furou a multidão e continuou a andar pelo passeio.

  4. A última noite sem Sol

    Hoje é uma longa noite de vigília. Amanhã, quando voltarmos a despertar, já haverá dois sóis no horizonte. Um traz a Vida, o outro, a Farsa.

    Nós atravessamos um tempo de trevas, e, por detrás do seu alegórico oxímoro, este “Sol” nada mais trará do que mais noite.

    Nada, nele, ou em tudo o que o envolve, é novidade ou surpresa. No final do passado 2005, num mesmo dia de dor, espanto e sobressalto, também compreendemos, que, subitamente, num momento crítico de viragem, Portugal tinha decidido enrolar-se, como um feto, em redor do seu próprio umbigo: aquela miraculosa geração intermédia, dos 30, 40 e 50 anos, que deveria ter-se então manifestado, na criação da figura de um Presidente da República para um Novo Milénio, pura e simplesmente, não existia, ou tinha sido estrangulada. Em troca da renovação, apresentavam-nos um prato reputado intragável, Cavaco Silva, e o resto da história já vocês conhecem: o ancião Soares que se presta a fazer-lhe frente, o ressentido Alegre que aparece, para fazer frente à frente da frente, e dois candidatos laterais, que ali foram, medir forças, e acertar décimas, nas contagens de eleitorado.

    Nunca o disse, e vou dizê-lo aqui: Cavaco, Soares e Alegre não passavam de três cangalhos, obsoletos, e representantes de um Passado que a minha geração, entre outras, tinha tacitamente considerado como fazendo parte da História, não de qualquer futuro.
    Nós, jovens de Portugal, fomos escandalosamente burlados, por uma fatia geracional, responsável por muito do atraso e dos abusos que diariamente presenciamos, e que, afrontosamente, mostrava, preto no branco, que não estava disposta a abandonar os postos de vigia e conservação do Estado de Coisas: o Sistema “renovava-se”, voltando, descaradamente, a chamar ao palco os velhos actores empalhados.

    A Intoxicação Social, que, grave, e quotidianamente, detectamos estar ao serviço desse mesmo miserável Poder Político, também necessitava agora da sua “renovação”. E também a vai ter: chama-se “Sol” e é a Sombra Enorme da miríade de coisas mórbidas que, durante décadas, enformaram esta coisa a que nos confinámos: a estrangulada Cauda da Europa.

    O “Sol” nada traz de inovador. Se quiserem uma simples imagem, que possam transmitir aos vossos amigos, ele é uma farta operação de cosmética, que, através do colorido de lápis de cor virtuais, tenta apresentar, como uma banda desenhada renovada, a intragável história parda a que nos reduziram o nosso dia-a-dia nacional.

    Há outra coisa que é fundamental que aqui se diga: o Arquitecto Saraiva é um medíocre; mais, ele é o medíocre típico português, o manga-de-alpaca das meias ideias, das palavras fracotas e das iniciativas de curto alcance. É capaz de tudo, e está, novamente, numa posição para ser regiamente pago para poder ser, em plena luz do dia, capaz de tudo.

    O Sonho Português sempre passou por castrar os seus melhores talentos, e entregar os lugares de topo a indivíduo dos quais a História não reterá… nada. Como corolário, a pirâmide do medíocre é um lugar volumétrico, cujo vértice é o Medíocre, por antonomásia, e que se vai alargando, na direcção da base, mediante o acrescentar de medíocres ainda mais medíocres, ou de indivíduos cuja desfaçatez e falta de verticalidade permitem servir sob as ordens de alguém que sabem ser profunda, e irremediavelmente… medíocre.

    Nós, cidadãos que vivemos outros mundos e outros horizontes, contamos com mais um inimigo no nosso campo. Já desligávamos os noticiários, pelos insuportáveis e manipulados vinte minutos de vómito futebolístico, que, simultaneamente, tentavam apresentar, como empolgante, uma vertente pretensamente desportiva, que toda a gente sabe ser um dos rostos da Actividade Criminosa, em Portugal. Comam-na durante meia hora, mastrubem-se com os “ídolos” por ela criados, esqueçam-se de que, lá para o fim, ou em bandas rotativas de rodapé, estão a desfilar, vertiginosamente, as notícias que vos vão amolgar profundamente o Quotidiano, o Futuro, e, mesmo, a visão de sonhos passados. Esqueçam os jornais: há quem tenha poderes — sempre os mesmos — para comprar capas e cadernos inteiros de revistas, reportagens forjadas, branqueamento de personagens e processos, douramento de pílulas inexistentes, venenosas e omnipresentes.

    No seu arrancar, a Blogosfera Portuguesa deverá, um dia, ter sonhado com tornar-se o nosso pequeno contributo para a maré informativa do cidadão comum da Aldeia Global: troca imediata de informações, comentários lúcidos, trabalho gratuito, para oferecer a amigos e leitores desconhecidos, um pouco do nosso melhor talento. O que seria o “Braganza Mothers”, se pudesse ter, por detrás, todos os dinheiros turvos da Opus Dei…

    Felizmente não os temos, e, felizmente, ainda estamos a conseguir escapar a outra maré ainda mais preocupante, a desta roda livre de palavras e murmúrios se estar toda a alinhar, e a importar, para o seu lugar de “graffiti” virtual, a massa inteira dos vícios de forma e relação da nossa Realidade Enferma.

    Como conclusão, hoje, curiosamente, Benedito XVI, pessoa sobre a qual todos sabem o que penso, terá citado — contaram-me — a figura de alguém que faz parte dos meus heróis, Constantino XI, Paleólogo, o derradeiro lutador pela independência das muralhas de Constantinopla contra os avanços do Infiel Turco. Deverá ter sido a única vez em que Ratzinger e eu teremos abordado o mesmo tema da mesma forma, o que não deixou de me surpreender. Com a morte de João VIII, Paleólogo, o último Constantino ter-se-á ajoelhado, numa célebre pedra de Mistras, e recebido, no Despotado da Acaia, a herança imperial, com a qual se apresentou, duas semanas depois, em 13 de Novembro de 1448, às portas de Constantinopla. O seu reinado foi curto, e durou, como se sabe, até à célebre noite de 30 de Maio de 1453. Com a Queda da Cidade, quase deserta e empobrecida, celebravam-se as exéquias de mais de dois milénios de Luz e Civilização Romanas.

    Esta noite, a última noite sem “Sol”, é como essa Noite de Mistras. Em conjunto, mais uma vez, vamos ter de partir, para a defesa das últimas muralhas da Luz, e é para essa terrível viagem, como para tantas outras, eventualmente menores, e passadas, que, mais uma vez, vos convido.

    Apenas vos menti numa coisa: esta é a última noite, mas já é uma noite com “Sol”. Ele está aqui (www.sol.pt). Pedir-vos que resistissem a visitá-lo era um pedido equivalente ao de Eva, feito pelo Criador. Eu sei que são humanos, e transgredirão, porque eu também sou, e também já lá fui.

    Coragem.

    (Nota, o Basileus citado por Ratzinger é Manuel II, Paleólogo. A incorrecção em nada subverte o sentido do texto)

  5. Pois é, fv, nem só os linguistas repararam no «lenho» e na «senha», meu caro. Atente, porém, que em matéria de lapsos desses, e maiores, que jornal é que se poderá considerar de referência?! Não me diz! Será o inefável Expresso que todas as semanas traz os maiores dislates (ainda na semana passada…). Além de que A Bola, tendo-se infelizmente abastardado e rendido ao padrão geral, já foi, em tempos idos, um jornal muitíssimo bem escrito…

  6. Politikos,

    Primeira observação: para mim, os «lenho» e «senha» dos exemplos não são «lapsos», menos ainda gralhas, mas a prova, quase laboratorial, de modificações na nossa pronúncia, que se revelam na escrita.

    Segunda observação: os «dislates» do Expresso, sobretudo esses «ainda na semana passada…», são alusão magra de mais num contexto como este.

    Terceira observação (e resposta à sua pergunta): a «Visão» permite poucas observações desse tipo a um linguista, já que os textos acabam varados pelo olhar exigentíssimo do director executivo (a designação lê-se no cólofon) Daniel Ricardo. Aí tem um periódico «de referência». Parece óbvio: para o linguista não tem piada nenhuma.

  7. Fv
    Sem querer propriamente polemizar a questão. Até porque estaria à partida em grande desvantagem em relação a si. Não sou linguista, nem sequer aparentado, e alguma formação em área afim não chega, nem de perto nem de longe, para argumentar consigo. Digamos que nesta matéria sou, quando muito, um músico que toca de ouvido, não sabendo sequer distinguir as notas e menos ainda ler uma partitura. E, para que conste, farto-me de dar erros…
    Primeira Observação – Os exemplos citados, podendo resultar de modificações de pronúncia, não justificam o erro. Essas modificações sempre existiram: vejam-se os regionalismos. E não é por alguém dizer o «binho» que o vai escrever assim;
    Segunda Observação – O exemplo de «O Expresso» surge apenas como exemplo de um jornal dito «de referência» que, pelo menos no que concerne à Língua, manifestamente não o é e vale num contexto em que é citada «A Bola» e noutro poste (ou «post» ou postal, como quiser) recente o «24 Horas» como maus exemplos: nenhum deles é pior escrito do que «O Expresso»;
    3.ª Observação – Leio sempre a Visão e, de facto, não lhe encontro tantos defeitos como em «O Expresso», mas estarei mais atento nos próximos tempos (boa rima!).
    Se quiser uma aposta, acho que ainda beberei umas cervejas à conta… :-)
    P.S. – E não é «ainda na semana passada» mas «ainda neste seu comentário», duas «caganitas» que só alguns espíritos «picuinhas» como o meu apanhariam: gostei da sua – digamos assim – «liberdade estilística» em chamar cólofon à ficha técnica da «Visão»; e já agora, o Daniel Ricardo é «editor executivo» e não «director executivo»…

  8. Politikos,

    «Ficha técnica», pois claro. Quem me manda dar-me ares? E «editor», tal e qual. Quem me manda promover o mérito? Quanto às cervejolas: mande a continha.

  9. Mais grave do que trocar sanha por senha é ter escrito em Junho que «ANGOLA nunca deu ao Mundo nenhum jogador de grande nível com o Moçambique» esquecendo Peyroteo, José Águas, Rui Jordão e Jacinto João po rexemplo. E quando já o Figo estava em madrid há oito meses aind ao dava e Barcelona. Ele herdou os defitos do pai e todos os defeitos da mãe. Esse o problema.

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