É cada vez mais frequente encontrar notícias como esta na imprensa internacional. Impensável até há poucos anos.
Arquivo mensal: Novembro 2008
O pudor dos amigos pessoais
Mário Bettencourt Resendes é mais um daqueles casos misteriosos em que o público não percebe por que raio lhe pedem opinião sobre política. Mas pedem, com regularidade. E com regularidade ele provoca crises de amnésia: depois de o ouvirmos, não conseguimos fixar nada de nadinha que tenha dito. Há uma explicação corrente para o desconcertante efeito, a qual defende a tese de que nada chegou a ser dito, daí nada poder ser lembrado. Contudo, aparelhos de gravação de som, e dos mais baratinhos, registam sinais sonoros cuja fonte só pode ser o próprio Mário. Pois bem, na última edição do Expresso da Meia-Noite, Bettencourt introduziu uma radical inovação no seu desempenho e disse algo que ainda não consegui esquecer. Primeiro, anunciou ser amigo pessoal de Dias Loureiro, seguiu para o ataque aos que o condenavam na opinião pública sem esperar pelas provas e depois referiu não ter visto a sua entrevista, dada 170 horas antes. Vamos recapitular: um marmanjão que é jornalista, comentador político e amigo pessoal de Dias Loureiro, vai para um programa de informação onde se discute a crise do BPN dizer que não teve tempo para encontrar um computador com ligação à Internet para ver a entrevista mais importante dos últimos 30 anos. Eis uma daquelas cenas em que mesmo a lobotomia não seria capaz de apagar a recordação de tão espantoso fenómeno ocorrido com o senhor jornalista convidado a falar da actualidade.
Em quê? Em quem?
O nosso amigo teofilo m. ofereceu-nos uma saborosa reflexão encaixotada. E agora, quem sabe, até pode ser que as suas questões obtenham alguma resposta.
Mas porque é que nós havíamos de confiar no próximo, quando este nos lixa a vida assim que pode?
Confiámos na 1ª República e foi o que se viu, golpes e contra-golpes até à exaustão; veio o Gomes da Costa acabar com a República e os que o chamaram despacharam-no para os Açores, exilado; logo a seguir chega o Carmona – depois de um pequeno interregno do Cabeçadas – que nos oferece o ‘botas’ que tivemos de gramar durante quarenta anos de bico fechado e alegres manifestações espontâneas; veio o Marcelo com as ‘conversas em família’ e lá nos embalou para mais seis anos do mesmo embrulhado em papel de Natal.
Chega o 25 e o Zé Povo entusiasma-se e confia um poucochinho e desata a pensar que a democracia se fazia num dia, pelo menos era o que lhe prometiam, e o que é que se viu?
Ficámos perto do Sol do mundo, e quando a pele começou a avermelhar, veio alguém que meteu o socialismo na gaveta e que nos prometeu a Europa dos ricos, e todos pensaram que agora é que era, que seríamos todos proprietários e patrões, passaríamos a ter todos um canudo, a ser doutores e engenheiros e a ter o respectivo tratamento, que as cantigas que passavam na rádio eram oráculos da astróloga Maya ou da reikiana Florbela, e pimba! lá fomos para o pardieiro outra vez.
Porra! então toda a gente nos lixa e ainda havíamos de ser confiantes? Em quê? Em quem?
Bute lá avaliar a Ministra

Na imagem, vemos uma professora encantada com a bandeira sindical que agita. De notar o facto de estar aos ombros de um colega, assim revelando a coesão da classe. Esta manifestação reuniu 250 mil professores em Lisboa, no dia 8 de Novembro, mas a contagem ainda não está concluída, podendo facilmente chegar aos 500 mil nos próximos meses.
Maria de Lurdes Rodrigues é a responsável ministerial pela tentativa de instituir um modelo de avaliação docente na escola pública. A classe profissional com que tem de lidar corresponde a um tipo único de empregados do Estado: funcionários públicos liberais. Cada professor tem-se comportado até agora com uma oligárquica autonomia profissional, posto que se limita a esperar que o tempo o recompense. Faça o que fizer e como ficar feito, basta-lhe não ser denunciado por alguma ilegalidade para se descobrir promovido e premiado pelo Estado. Milhões de portugueses passaram pela escola pública achando normal que os professores não fossem avaliados, apenas que fossem avaliadores. Como poderia um avaliador ser avaliado, questionava-se o português, sem com isso mergulharmos num abismo sem fundo? Era o clássico argumento da causalidade, de tão boa memória tomista, a exigir mais uma avaliação para cada novo avaliador do avaliador anterior. Série infinita, inútil despesa mental para um descrente que até agradece a simplificação absoluta do processo: deixem lá os professores em paz e nem pensem em avaliá-los ou, em exacta alternativa, ofereçam-lhes a fabulosa auto-avaliação e não se fala mais nisso.
Isto anda tudo ligado
O estudo que revela serem os portugueses mais desconfiados do que quase todos os outros europeus não tem qualquer utilidade. Porquê? Por causa dos polacos. Esses amigos vivem numa economia em explosão, têm níveis educativos excelentes, um amor à pátria que não será menor do que o nosso, são católicos e também não confiam no vizinho. ‘Pera aí, será do catolicismo?… Hum…
Em Portugal não faltam princípios e leis, direitos e garantias, instituições e oportunidades para exercer a cidadania. Mas não somos educados para ela, nem em casa, nem na escola, nem na rua. Vivemos em colectiva depressão desde Alcácer Quibir, ainda banzos com a estupidez daquele puto-Rei. Por pouco não fez desaparecer a Pátria debaixo da pata castelhana, desejo que tem ganho popularidade nos últimos anos. Em consequência sebastianista, um português só se consegue alegrar na sua portugalidade quando está no estrangeiro. Aí, é tomado por uma exaltação sentimental que não tem parecença no Mundo. Eis a costela judaica, oferecendo à diáspora a visão de uma terrinha-prometida. Quando se volta ao rectângulo, chora-se, bebe-se e diz-se mal desta merda que está sempre na mesma, mesmo que já pouco se reconheça da paisagem. Parte-se com alívio escondido ou exagerado. Afinal, continuamos sem Rei.
Não confiamos nos outros porque não confiamos em nós, estamos desvitalizados e órfãos. Somos um país de cobardes, fugimos das responsabilidades, odiamos os que são melhores. Que fazer? Fazer política. Mas não a política dos actuais partidos, essas agremiações que são escolas de corrupção legal, servindo apenas para afastar os cidadãos do poder. O tempo está maduro para novos partidos, livres da cultura tribal que promove conflitos estéreis. Temos de saltar do século XIX para o XXI, recorrendo à inteligência como único valor ideológico. A política pode voltar a ser uma actividade integral e integradora. Começa em casa, no prédio, no emprego, em qualquer lado onde somos comunidade. É uma via de realização, convocando a nossa coragem como virtude fundamental. Porque só aquele que for corajoso consegue confiar. E só aquele que confia consegue amar – e essa é a mais completa realização política para mim e para ti.
Ai, se não fosse o Magalhães…
Se não fosse o maldito, ruinoso e vexante projecto Magalhães – recordemos: um computador portátil produzido em Portugal, com ligação à Internet, de alta qualidade e muito baixo preço, a ser distribuído nas escolas portuguesas para alunos do 1º Ciclo, gratuitamente para os alunos inscritos no primeiro nível da Acção Social Escolar, e tendo ainda elevado potencial de exportação – Pacheco Pereira seria agora capaz de botar faladura sobre o contributo do seu PSD para a democracia na Madeira, a legalidade na banca, a reforma na educação, o bom-senso na Presidência e a competência na chefia do partido. Infelizmente, as suas energias estão exauridas depois de feroz combate contra a invasão desse diabólico instrumento de conhecimento e comunicação chamado Magalhães. E terá valido a pena? Claro, isso nem se pergunta. Vale tudo menos ter de enfrentar a realidade.
Coimbra é uma lição
Luís Filipe Menezes afirmou que foi afastado da presidência do PSD por ter sugerido um inquérito à supervisão bancária. Luís Filipe Menezes é médico e actual Presidente da Câmara de Gaia. Marco António Costa afirmou que Menezes foi afastado da presidência do PSD por ter pedido uma investigação ao BPN. Marco António Costa é Vice-Presidente da Câmara de Gaia e Presidente da Distrital do PSD/Porto. Joaquim Coimbra foi identificado como o elemento da Comissão Política de Menezes que se demitiu em consequência da proposta de inquérito à supervisão bancária. Joaquim Coimbra é empresário em diversos sectores de actividade, grande accionista do BCP e BPN, com papel preponderante tanto no BPN como na SLN. Foi director distrital de campanha de Marques Mendes nas eleições contra Menezes, elemento da Comissão Política de Menezes, mandatário distrital de Manuela Ferreira Leite nas eleições internas e é membro do Conselho Nacional do PSD.
Pele de Marta
Vítor Constâncio negou ter conhecimento da enigmática reunião entre António Marta e Dias Loureiro. E, aqui entre nós que ninguém nos lê, das duas uma: ou Constâncio mente ou o Governador do Banco de Portugal mente. Em qualquer das versões publicadas, é inevitável que o Vice-Governador desse conta da ocorrência: fosse para relatar uma tentativa de pressão contra a supervisão ao BPN, fosse para relatar uma suspeita de eventuais irregularidades no BPN. Vejamos: é impossível a Marta justificar o cenário em que a conversa com Dias Loureiro, e logo naquele contexto ao tempo, tivesse sido mantida em segredo. Isso faria de Marta um profissional que teria falhado grosseiramente em matéria de deontologia, ética e lealdade. Pelo menos. Será o caso? Segundo Vítor Constâncio, e em total contradição com o que disse do seu ex-Vice-Governador, tem de ser.
A tentativa de anular a questão da reunião só pode vir do desespero. Dizer que ela não se relaciona com os problemas detectados é estar a gozar com quem lhe paga o salário: nós. Os problemas detectados, para o Banco de Portugal, são técnicos, pois sim. Mas os problemas detectados, para os cidadãos, são políticos. Talvez Constâncio esteja há tempo demasiado a lidar com banqueiros em salas faustosas e daí se ter esquecido de que a sua função também é política para além de ser técnica. E sendo política pode, e deve, ser discutida pelo povo. O povo é o teu supervisor, ó pá.
Se Dias Loureiro foi ter com António Marta para o convencer a deixar em paz a sua boa gente, naquela que aparece como a versão mais verosímil, até lógica, isso compromete todas as suas outras declarações. E, a partir do dia 25 de Novembro de 2008, compromete o Presidente da República. E compromete o PSD, o qual tem em Dias Loureiro um dos seus barões, um dos mais poderosos no partido.
Constâncio abandonou Marta à sua pele, e esta vale um regime.
O BPN e os divórcios
Oliveira e Costa divorciou-se após ter saído do BPN. Creio que nem os entusiastas de Sarah Palin têm dúvidas quanto aos motivos da desavença conjugal. Dias Loureiro e António Marta estão em processo de divórcio por causa de putativa infidelidade ocorrida numa tarde de Abril de 2001, às 16 horas. Consta que um dos dois saltou para a cueca do outro durante esse encontro, mas vai ser difícil identificar o traidor. O PSD está cada vez mais divorciado da Manela, esta do eleitorado. Podia aproveitar o caso do BPN para inverter a tendência, mas ela já nos habituou a não falar do que sabe, e a não saber do que fala. Agora, vem Cavaco anunciar que meteu os papéis para outro divórcio ligado ao BPN: não quer mais estar casado com Portugal, optando por se amancebar com a palavra de Dias Loureiro.
Eis o berbicacho: ninguém, nem a própria Sarah Palin, acredita em Dias Loureiro. Ele até pode ser o inacreditável incompetente que assumiu ser, mas, por enquanto, a história por si contada é apenas uma mentira patética. Ter o Presidente da República a sancionar a sua palavra obriga a pôr em causa o discernimento da Presidência – e isto é apenas o mínimo, e apenas o começo de um processo que acaba de ganhar nova gravidade com a intervenção presidencial. Marcelo Rebelo de Sousa, no domingo passado, já veio dizer o óbvio: a ausência de reuniões na administração da SLN não é apenas uma peculiaridade do estilo mafioso, é uma ilegalidade de facto. Os administradores que alinharam são cúmplices activos, mesmo que em díspar grau, dos procedimentos que levaram Oliveira e Costa à prisão preventiva, posto que é aos administradores que primeiro compete o exercício da responsabilidade fiscalizadora. É por isso, pois, que se pagam balúrdios a esses passarões, pois é suposto que validem os processos e as contas das entidades que administram. Tudo aquilo que Dias Loureiro disse não ter feito, não ter de fazer, e até não fazer a menor ideia de como se faz. O mesmo Dias Loureiro que invoca uma duvidosa denúncia ao Banco de Portugal por sua iniciativa, mas que fica no SLN mais 4 anos – com acesso a toda a informação, meios e ocasiões para verificar a legalidade das situações que o envolviam – e chega a assinar fraudes. É esta, para já, a palavra protegida com selo presidencial.
Não está em causa o apuramento das responsabilidades legais de Dias Loureiro no caso, se as houver, assunto para o qual cada cidadão tem de confiar nas autoridades, sendo intocável a presunção de inocência. O que está em causa é a chocante inabilidade política de Cavaco. Os pés de barro do cavaquismo não resistem à brisa da actualidade.
Balada da Terra da Luz
No Estado do Paraná
Onde riqueza prospera
Alguém deu o alvará
A uma editora severa
Erro crasso cometido
Numa escolar edição
O Piauí foi escondido
No mapa do Maranhão
Todo Nordeste ofendido
Em estranha provocação
Piauí foi desaparecido
No mapa do Maranhão
Desprezo pelo direito
Da natural afirmação
O Piauí foi desfeito
No lugar do Maranhão
Numa falta de respeito
Desastrada construção
O mapa estava mal feito
Tudo era do Maranhão
Por isso esta Bienal
É tão forte afirmação
Duma gente sem igual
Que reclama sua razão
Em corredores povoados
De alegria e de esperança
Nos olhos esbugalhados
De tanta e tanta criança
Poetas, cronistas, editores
E ensaístas mais diversos
Enchiam seus corredores
Com os sonhos dispersos
Bienal do Livro, Ceará
Ponto de encontro, paixão
Sinto que já sou de cá
Do lado do meu coração
Já sinto uma saudade
E tenho uma certeza
Meu coração em metade
Vai ficar em Fortaleza
Muito obrigado, Isabel
inConstâncio
Esteve bem quando se zangou contra quem acusa a supervisão do Banco de Portugal de ter falhado. A sua razão nem carece de demonstração, basta conhecer a superficialidade e irresponsabilidade das acusações.
Esteve péssimo, segundo o critério do interesse público e valores correlativos, ao deixar António Marta só contra Dias Loureiro. É claro que a versão de Dias Loureiro não tem ponta por onde se lhe pegue, mas a falta de coragem é sempre nefanda. Pura e simplesmente, não se acredita que o encontro com Dias Loureiro não tivesse sido relatado ao pormenor a Vítor Constâncio. O Governador está a fazer diplomacia, sacrificando a credibilidade.
Um livro por semana 92
«Quarteto para as próximas chuvas» de João Rui de Sousa
João Rui de Sousa, um dos mais importantes poetas portugueses, publica regularmente desde 1960. Este «Quarteto» é o seu 17º título de poesia editado.
Os poemas deste livro partem do lugar do Poeta: «O rosto. A escrita. A escrita / do rosto. O rosto da escrita. / Para além de tudo isso / sou um animal desaquietado / pela fragilidade dos cômoros / pela inclemência das chuvas / pelo fugidio dos pássaros / pelo inacessível das penedias / pelo íngreme e sinuosos dos caminhos / e, sobretudo, pelo sabor sempre inebriante / e sempre inesperado / da escrita e do rosto.»
Mas não deixam de chegar ao lugar do Mundo: «Os poetas são pontes / para numerosos recados. / Em certos momentos eles poderão crescer / bem por dentro das sua próprias prateleiras / e armários, no porão mais obscuro de um navio / muito íntimo; noutros instantes, todavia, / eles podem com palavras de alvor / e de resistência, ajudar a erguer as traves / de uma cidade aberta, de uma pátria livre.»
Entre o Poeta e o Mundo, a ameaça da Morte só pode ter resposta no Amor: «É bom que sejas tu e não a morte / o sumo do calor destas viagens: / as dos lábios mais rentes na cintura / as dos beijos que ardem nas espáduas. / É bom que sejas tu e não o vil ensejo / de alguém a destruir as nossas bodas: / colados bem na pele seremos deuses / e os anjos sorrirão porque não sabem».
Nega-se a Morte no acto de Nascer («Nascer é já galgar (ou destroçar) / esses muros que exortam à vitória da inércia / à rasoura da morte, à aridez do nada»), nega-se a Morte ma força da palavra: «Estreitos são, afinal, todos os caminhos. / Por eles terá de viajar a carne dos poemas. / Quase sempre as palavras serão sombras / de puras circunstâncias, acidentes fortuitos / pedaços de papel caídos na berma dos passeios… / Mas é por elas que se recortará o rosto do real.»
(Editora: Publicações Dom Quixote)
Encavanço
Dias Loureiro resolveu fazer bluff e apostou tudo contra o Banco de Portugal e a Presidência da República – numa espectacular fuga para a frente. Isto faz dele um imbecil de grau 10 na escala Loureiro (a qual só tinha 5 graus até à passada sexta-feira).
Pensar que poderia pôr em causa Vítor Constâncio, acabando com ele de vez, vai revelar-se um tiro saído pela culatra aquando da ida do Governador, hoje, à RTP. Para as crianças no auditório, o terceiro homem na reunião de apenas dois em 19 de Abril de 2001 às quatro da tarde* é o Vítor, o tal que já disse não ter recebido de António Marta nenhuma informação relativa a problemas no BPN. Falta só a Constâncio manter a constância e assinar a certidão de óbito: confirmar que Dias Loureiro foi ao Banco de Portugal, em 2001, protestar contra os apertões do supervisor. Para tal, basta assumir que Marta lhe contou o teor do encontro, como é altamente previsível que o tenha feito.
Todavia, é no ataque à Presidência que Dias Loureiro se revela uma figura a merecer grande romance, filme grande e série de televisão grandalhona. Na entrevista, o nome do Presidente da República foi apresentado como caução da sua inocência. 23 anos de amizade com Cavaco eram o trunfo com que pretendia cortar a vasa da suspeita. Como poderia ele ter prevaricado se o próprio Presidente conhecia os seus padrões morais e éticos? Esta soberba afirmação não oferece sombra de dúvida: Cavaco entrou de cabeça no caso BPN. É uma daquelas situações em que se sabe como se entra, mas não se faz a menor ideia como se vai sair.
Um dos cenários possíveis será o de uma inédita derrota na eleição ao 2º mandato. Eanes, Soares e Sampaio fizeram o pleno dos 10 anos na presidência, e todos auguram o mesmo para o presente inquilino do Palácio de Belém. Todos? Não, há um ex-ministro de Cavaco, eminência parda do PSD e actual Conselheiro de Estado, apostado em criar uma originalidade na História da democracia, pois não é possível ao Presidente manter o apoio a Dias Loureiro sem com isso perder a confiança do País. Contudo, como este figurão já saltou para as costas de Aníbal e anunciou que não vai largar, fazê-lo cair vai partir muita loiça. O seu bluff é de tal ordem – atente-se: consegue chantagear Cavaco na TV, que não fará aos outros? – que a própria continuidade de um partido chamado PSD está agora mais em causa do que nunca. Este não é tempo para loucos como Filipe Menezes, incapazes como Ferreira Leite, deprimidos como Pacheco Pereira, decadentes como Pulido Valente ou malabaristas como Rebelo de Sousa. Este é o tempo para sociais-democratas com eles no sítio, capazes de aproveitar a queda de um império para levantar uma civilização.
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* Dias Loureiro, na entrevista e declarações pós-desmentido de António Marta, repetia a oração 19 de Abril de 2001 às quatro da tarde como um mantra. É um dos vários sinais de ser muito provável estar a mentir, procurando realçar uma parte indiscutível, mas irrelevante, da ocorrência como prova de certeza em relação ao todo. O mesmo para o raciocínio primário com que reagiu ao desmentido: [...] peço às pessoas que pensem um bocadinho e ponderem se agora, no momento em que o BPN e a SLN estão a ser alvo das maiores suspeitas, alguém de bom senso acha que eu iria invocar uma conversa com o Dr. António Marta se ela tivesse sido aquela que ele disse que foi? Bom, estamos perante um clássico da argumentação falaciosa, pois são precisamente as maiores suspeitas que justificariam esse acto desesperado. A cultura de impunidade e cumplicidades com os poderes político e económico toldaram-lhe o discernimento e levaram-no para um modus faciendi a que eventualmente estará acostumado, só que agora servindo a ameaça de arrastar tudo e todos na queda. Tal é a profundidade do encavanço.
Afinal, que faz na vida Marcelo Rebelo de Sousa?
De Marcelo não devemos esperar uma análise crítica da política, nem juízo moral da sociedade. Para o primeiro exercício, falta-lhe independência. Para o segundo, sobra-lhe mundanidade. O que ele faz é outra coisa: relações públicas. Os seus clientes são escolhidos por critérios que escapam ao escrutínio público, sendo essa a regra do jogo. Se soubéssemos quem eram os clientes, não suportaríamos a sua defesa. Talvez os clientes sejam escolhidos apenas pelo capricho de um inveterado inventor de factos políticos, ou resultem de uma qualquer estratégia que lhe organiza todo o discurso, até os livros que despacha capados. Seja como for, é superficial; portanto, irresponsável. Por isso é complacente com Manuela Ferreira Leite, Cavaco e Dias Loureiro.
Fica uma questão: se Marcelo conseguisse despir a camisola dos seus amigos e vestir a da comunidade, como seria a política em Portugal?
Estamos em risco de perder um comentador político
Imagino uma escola em que uma professora de meia idade entra na aula e olha para trinta bárbaros vestidos de igual, dizendo grosserias e obscenidades, entre telemóveis ainda vivos e fios dos MP3, entre roupa “de marca” comprada na feira do Relógio e cabelos em bico com gel, os rapazes a pensarem no wrestling e no skate e as raparigas vestidas para matar a pensarem nas fotos que vão colocar em trajes menores no Hi5. Que olhar pode ter a professora, já com várias aulas em cima, para uma audiência desatenta que a última coisa que quer saber é o que é uma raiz quadrada ou um soneto, numa sala húmida e pouco iluminada, perdida num subúrbio policiado?
Pacheco Pereira tem cada vez menos contacto com a realidade e, ainda por cima ou em consequência, anda deprimido. O seu estado leva-o a esta surpreendente vocação para a comédia, exibida supra. Mas também poderá ser tentativa de suscitar convite para entrar na equipa de argumentistas dos Morangos Com Açúcar.
No país dos loureiros – X
O caso BPN, independentemente dos resultados que as autoridades venham a apurar, e das respectivas consequências, permite retirar já duas lições da maior utilidade para qualquer português:
1ª – Caso te vejas à frente de Grupo detentor dum banco e com negócios nos sectores da agro-indústria, tecnologias de informação, cerâmica, cimentos, seguros e saúde, não faças reuniões com mais de duas pessoas. Estás a perceber? Mais de duas pessoas, por exemplo 9 ou 3, é demais. Evita. Reuniões com duas pessoas são aquelas que implicam a presença de outra pessoa para além de ti, mas é só. Estás a perceber? Se percebes isto, estás pronto para contratar ex-ministros do PSD.
2ª – Caso sejas ex-ministro do PSD, e tenhas de tratar de algum assunto no Banco de Portugal, não digas nada no local de trabalho, pede ajuda a um outro ex-ministro do PSD, e vai lá sozinho. Depois, pede para falar com o vice-governador a sós. Se for preciso, conta o episódio 7 anos mais tarde. Mas só se for mesmo preciso, não há qualquer necessidade de andar a chatear as pessoas com este tipo de assuntos.
No país dos loureiros – IX
No país dos loureiros – VIII
No país dos loureiros – VII
Mas tem que estar nas contas o prejuízo! E ele diz “E está”. “Você não sabe contabilidade”. ‘Távamos os dois. “Venha cá daqui a duas horas que eu explico-lhe tudo, tenho que ir procurar aqui nas contas onde é que isso ’tá” e tal… E mostrou-me 10 itens, para aí, onde ele diz “Onde eu reflecti o prejuízo de tudo isto. Está aqui reflectido. Se reparar, agora as contas estão auditadas. Vá ver as reservas que há, se há reservas, se não há. Portanto, neste ponto, do ponto de vista legal, ’tá tudo bem e pode assinar as contas”. Portanto, para mim, acabou aí o negócio de Porto Rico. Foi, toda a minha conduta foi esta e nada mais do que esta.
