Entre Cila e Caríbdis, sofrem os do costume

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Pacheco Pereira, logo ecoado pela coorte habitual, vem explicar-nos que o uso da palavra “massacre”, a propósito do ataque a Qana, é propagandístico. Por estes dias, também ficámos a saber que mostrar cadáveres de crianças é crime, quiçá até pior do que causá-los.
A reboque, marcha um pelotão variado: dos irrelevantes crónicos aos mais articulados. Estes últimos explicam-nos que “ao contrário do Hezbollah, Israel não faz qualquer ataque deliberado a civis libaneses”. Deliberado. De propósito, portanto. Já tínhamos lido coisas do mesmo jaez a propósito da morte dos observadores da Unifil, apesar dos 10 contactos que estes tiveram com as forças armadas israelitas a queixar-se da proximidade do bombardeamento — para nada. É que Israel não procura a morte de civis; apenas faz pouco para as evitar. (Imagino que a sua grande e única preocupação seja mesmo nunca bombardear nada com cidadãos americanos nas redondezas. Se um dos capacetes azuis “massacrados” fosse yankee, presume-se que a presente ofensiva já teria sido interrompida.)
E este é o ponto-chave desta guerra. Não estamos a testemunhar um conflito civilização-barbárie. É certo que de um lado temos o Islão mais extremista, fonte de obscurantismo, promotor de infindas violações dos direitos humanos, princípio motor de alguns dos movimentos e governos mais pavorosos deste mundo. Mas do outro lado não encontramos a linda e angelical democracia que muitos lobrigam em Israel. Trata-se de um país muito mais próximo de Esparta do que de Atenas; um estado que já se rege por algumas leis abertamente racistas; uma nação convicta da sua superioridade e até da sua comunhão directa com o Altíssimo; eleitores que procuram escolher os governantes mais radicais e belicosos. Só um país paralisado pelo medo e aguilhoado pela arrogância é que poderia desculpar as últimas acções das suas Forças Armadas. Claro que chegará o dia em que o arrependimento será chorado pelas ruas de Tel Aviv; mas sempre tarde demais.
Hoje, para quem defende Israel a outrance, todos os argumentos são válidos. Só haverá “massacre” quando se provar que houve intenção de massacrar, não apenas negligência criminosa; a “proporcionalidade” é uma invenção de cúmplices da Al Qaeda (como se durante anos Israel não tivesse lidado com os lançadores de foguetes a contento, com operações de tropas de elite e bombardeamentos de precisão); o ataque a edifícios cheios de civis é desculpado pelo lançamento prévio de folhetos a exortar os seus habitantes a ir viver para a estrada, a caminho de um campo de refugiados que os possa receber.
Hoje, há quem escolha criteriosamente a versão da história recente em que quer acreditar, elegendo como certa a única timeline que faz preceder o rapto de soldados do Tsahal pelo Hezbollah de um bombardeamento com foguetes a cidades israelitas; tudo para que a resposta posterior pareça mais equilibrada, suponho (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7… é fácil encontrar pistas de que não foi assim, até em dados do min. dos Negócios Estrangeiros de Israel. Não que faça grande diferença). Mas nada há de surpreendente nisto: também andam por aí a querer convencer-nos de que esta maré de violência tem como origem a independência de Israel, em 1948, fazendo de conta que não existia já então uma tremenda bagagem de ódio, terrorismo e massacres (sem aspas) a envenenar tudo e todos por ali.
Se alguém quiser continuar a crer que se trata de um conflito entre inocentes árabes e cruéis israelitas, tudo bem. Se preferirem achar que as bombas com a estrela de David são redentoras e os foguetes são armas de terroristas sem humanidade, idem. Mas creio que já está na hora de abrirmos os olhos para os monstros que se digladiam hoje no Médio Oriente. E vermos que a único partido que urge tomar é o dos inocentes apanhados de permeio.

Tudo isto são nervos!

O viajante já está de partida quando chega Felisberto, a cavalo numa espécie de lambreta, barulhenta e minúscula.
– Há-de-me ver isto, Fernando! Vejo-me grego para a pôr a trabalhar, passa a vida a tossir!
O nome de Felisberto não lhe condiz com a fachada. É um homem seco, nervoso, com um ar atormentado, e a cortesia dos gestos não disfarça o sobressalto íntimo em que parece tropeçar. Mestre Fernando promete que ainda hoje tira a tosse à lambreta. E o viajante, é ao que anda, vai conversar com Felisberto para a sombra do castanheiro.
O homem não esconde a vontade de falar das suas vidas, pouco terá ocasião de o fazer. Ora o viajante, médico não sendo, sabe da própria experiência o poder milagroso das palavras, mormente se outro remédio não houver. Há anos está Felisberto reformado da polícia, e agora vive aqui na aldeia. Sempre é ambiente mais favorável ao seu génio sobressaltado.
– Tudo isto são nervos! – resume Felisberto, que pouco mais sabe explanar dos seus padecimentos. Embora saiba muito bem que tudo ficou assim desde as guerras de Angola. Um dia, em 70, acabado de chegar a Luanda, meteram-no com mais dois colegas num avião que os deixou em Serpa Pinto. De lá seguiu numa coluna militar para o Longa, e depois para o Cuíto, atravessaram o Kuando-Kubango e ao cabo de dois dias chegaram a Mavinga. Luanda ficara a dois mil quilómetros, e isso pouco era, comparado com a distância a que deixara a mulher e um filho, em Alcabideche, do outro lado do mar via-se a Trafaria. Mas o guarda Felisberto não se quedou por aqui, o seu destino final era mais longe. E ainda faltava outro tanto de viagem, até ao posto policial e fiscal do Rivungo, na fronteira da Zâmbia. Era lá que o império precisava dele, para enquadrar as milícias dos quimbos, e para controlar as populações de que o império era feito.
O viajante não entende muito bem o que isto quer dizer, não sabe como se enquadram milícias, nem imagina como é que estes três homens vão controlar as populações dum império. As palavras são de Felisberto, o viajante limitou-se a ouvi-las e a guardá-las na memória. Ali viviam os três guardas num barracão de adobe e telhado de zinco, perdidos num mar de capim, quando iam ao rio espreitar os jacarés levavam em bandoleira a Mauser de repetição, que era tudo o que tinham por companhia. De horas em quando vinha uma coluna e deixava latas de salsichas, uns fardos de arroz e sacos de farinha, de que eles faziam pão numa fornalha de barro.
Felisberto não era nada feliz naquele mar de areias verdes onde a vista se perdia, mas aguentou sete meses. Até que o apanhou um ataque fatal de paludismo, mesmo ruim, e uma paralisia facial que o deixou de cara à banda. O viajante não compreende como é que o paludismo e a paralisia se juntaram assim, mas Felisberto também não sabe explicar. Lá foi um dia evacuado para Serpa Pinto, numa passarola de quatro asas que aterrou na picada. Daí apanhou uma camioneta para Nova Lisboa, e depois outra para Luanda, onde acabou por chegar ao fim duma eternidade e com menos de cinquenta quilos de peso. Ficou assim mais perto do filho e da mulher, mas ainda havia de tardar a vê-los, que lhe faltava um ano e tal de comissão, na 7ª esquadra de Luanda. Gastou-o ele entre idas ao médico e transportes de presos para a Damba, um presídio de pretos lá nos confins do Norte. E foi assim que Felisberto conheceu meio mundo, e viu coisas com que nunca sonhou, e se fartou de viajar à custa do império. Quando voltou foi parar à Quinta do Pisão, a um centro de apoio social da Misericórdia de Cascais. Ficou por lá uns anos, em serviços de enfermaria, e só não aguentou mais porque já nada era igual. Nem a vida com a mulher e o filho voltaram a ser a mesma coisa.
Ao viajante, que se limita a observar enquanto vai ouvindo, Felisberto faz lembrar um barco que perdeu o lastro. Sendo dum país de marinheiros, cabia-lhe andar por mares e sertões, isso o viajante não discute. Mas a um marujo assim não convirá expor-se a virações, nem aventurar-se em águas fundas. Bem a propósito, o viajante quer saber o que pensa ele da barragem que ali fizeram em frente.
– São uns ladrões que só pensam no dia de hoje! E o futuro ninguém o sabe! Se um dia o povo precisar de matar a fome outra vez, o melhor é afogar-se!
Nalgum lugar encontrou Felisberto esta sabedoria. O viajante não está seguro de que tenha sido nos caminhos do império, onde deixou ficar o lastro.

Jorge Carvalheira

Amigos amigos

Leia-se «A fraqueza de Israel», do Rui Tavares, hoje no «Público». Obrigatório.

Abrindo já apetites:

«E que péssimos amigos tem Israel! Em primeiro lugar, são autoproclamados, coisa bizarra. Em segundo lugar, sentem-se no direito de decretar quem mais pode ou não ser “amigo de Israel”. E, principalmente, acham que a amizade implica justificar todas as acções, incitar todas as reacções, arremeter contra todas as críticas.»

E referem-se Helena Matos, Pacheco Pereira, VGM.

Uma morte, duas vidas

Ontem, ao ler de relance a capa do “24 Horas”, descobri que morrera, vitimada por um “cancro galopante”, uma “estrela dos Malucos do Riso”. Horas depois, no “Público”, descubro que falecera uma grande actriz e fundadora da Cornucópia, Raquel Maria. “Azar dos diabos”, reflecti, “perdemos duas actrizes num só dia”.
Só ao cair da noite é que percebi que se tratava, afinal, da mesmíssima pessoa.
Quantas biografias caberão no espaço de uma vida? Muitas, de prestarmos atenção aos dias de Lorenzo da Ponte; eu, para mim, já me contentava com uma. Mas está difícil.

Postais ilustrados

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Na biblioteca da terra vou à procura de sossego. Dum acesso à internet para falar com o mundo. Duma trégua da canícula.
Lombadas indolentes ressonam nas estantes. Adolescentes amotinam-se em guerras virtuais. Três funcionárias põem a vida em dia, à volta do balcão das entradas. Chegam mais duas a trazer novidades, picando o salto agulha no parquet flutuante. Um bebé rasteja no soalho, a perseguir uma bola. E num ecrã de parede o Roberto Leal lacrimeja paixões.
Eu chego a ensaiar um contra-ataque, mas acabo a bater em retirada. Antes a velha canícula. Antes mandar ao mundo uns postais ilustrados.

Jorge Carvalheira

Como seria se Vasco Graça Moura tivesse um gémeo de esquerda?

«Os direitistas são todos umas bestas que salivam ante a perspectiva de verem mais uma família palestiniana em pedaços. Apoiam Israel só porque o seu mestre, Bush II, assim comanda. Para eles, se um palestiniano reclama pelas horas que passa todos os dias em check-points israelitas, é por certo um terrorista em potência, candidato a evisceração imediata e sem piedade.
O pessoal de direita finge ignorar que o estado israelita foi fundado em massacres como o de Deir Yassin e numa limpeza étnica que ainda hoje mantém centenas de milhares longe das suas terras. Essa malta nojenta vira a cara para não ter de encarar as criminosas acções dos sionistas e dos seus lacaios ao longo dos tempos. Para eles, tudo o que vem de Israel é bom, pelo simples facto de se tratar de uma democracia, mesmo que a sua organização faça lembrar bastante mais Esparta do que Atenas. Ou talvez seja apenas porque é assim que os círculos do pedantismo bem pensante vêem o mundo, entre fumaças de Cohibas e mais uma citação de Oakeshott sacada à pressa da Internet.
A cada edifício civil destruído em Beirute, abrem mais uma garrafa de caro champagne; a cada ambulância pulverizada, gritam novos “vivas” ao poderio angélico e sempre esclarecido do Tsahal.
Se alguém ousa levantar a grimpa, é por certo um pós-soviético, um anti-semita do piorio e um anti-americano com posters de Bin Laden e do WTC destruído a encimar um pequeno santuário dedicado a Estaline.
Claro que não tenho de provar nenhum destes vómitos disfarçados de prosa. Sou poeta e os poetas vivem acima de pormenores como a inteligência, a verosimilhança e o equilíbrio.»

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Das três, duas

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A- Israel bombardeou por acidente o posto da ONU em Khiyam, provando asssim que a ideia é mesmo demolir às cegas, numa lógica de destruição e massacre generalizados, tendo já desistido de identificar os tais “bastiões” do Hezbollah.
B- Israel bombardeou propositadamente o posto da ONU em Khiyam, enviando mais uma poderosa mensagem ao mundo: “eis a consideração que nos merecem as vossas tentativas de interferência e os vossos observadores”.
C- Existe uma grande falta de falantes de Inglês nas forças armadas israelitas, pois o bombardeamento ao bunker da Unifil durou horas, tendo os observadores telefonado ao oficial de ligação israelita após a queda de cada uma das 10 primeiras bombas. A seguinte foi fatal.

Mais um “anti-semita larvar”, desta vez em Israel

Tenho pena de não dispor de tempo para traduzir este artigo de Ze’ev Maoz, professor na Universidade de Tel Aviv. Mas fico feliz por ver que muita gente em Israel ainda não sucumbiu à idiotice do dogma da superioridade moral israelita. Um dia, teremos por cá malta assim.
Recomendo-vos a visita ao “Haaretz” e deixo-vos com duas passagens: «On July 28, 1989, we kidnapped Sheikh Obeid, and on May 12, 1994, we kidnapped Mustafa Dirani, who had captured Ron Arad. Israel held these two people and another 20-odd Lebanese detainees without trial, as “negotiating chips.” That which is permissible to us is, of course, forbidden to Hezbollah.»; «What exactly is the difference between launching Katyushas into civilian population centers in Israel and the Israel Air Force bombing population centers in south Beirut, Tyre, Sidon and Tripoli? The IDF has fired thousands of shells into south Lebanon villages, alleging that Hezbollah men are concealed among the civilian population. Approximately 25 Israeli civilians have been killed as a result of Katyusha missiles to date. The number of dead in Lebanon, the vast majority comprised of civilians who have nothing to do with Hezbollah, is more than 300.» Bravo.

War fever

No “Da Literatura”, Eduardo Pitta prossegue a sua laboriosa campanha contra o anti-semitismo que, de olho clínico em riste, vislumbra a medrar por todo o lado. Esse insidioso vírus cresce pela calada em malta que finge ignorar as atrocidades que Putin vai ordenando na Tchetchénia; prospera em gente, como Eduardo Lourenço, que nada terá dito a propósito do genocídio do Ruanda ou dos primeiros ataques da UPA em Angola (!); floresce, por fim, na néscia manada que ignora olimpicamente a crueldade do blitz alemão sobre Londres e da invasão de Berlim pelos russos (a sério: o homem escreveu mesmo isto).
Tudo para atingir um corolário quase admirável: «argumentar com a soi disant “desproporcionalidade” não deixa de ser uma infantilidade. Insistir nessa tecla é uma forma naïf de dizer o indizível. Podiam assumir de uma vez por todas o anti-semitismo larvar.» Porquê? Não se explica. Mas entende-se: como desde há anos, o número de acusações de anti-semitismo em circulação num dado momento continua a ser um excelente barómetro do comportamento do Estado de Israel.
Noutras paragens, há quem imagine, de espírito dilacerado, uma horda de bandidos sanguinolentos acoitados em Espanha e dedicados a martirizar os pobres portugueses. Nesse caso, «teria ou não o Exército Português direito a internar-se em território espanhol, dar caça aos bandidos e eliminar redutos, arsenais, paióis e instalações utilizadas pelos terroristas?» E logo vem a conclusão triunfante: «Ora, é o que o exército de Israel está a fazer no Líbano. É o direito à resposta, o direito à retaliação; em suma, uma guerra justa.» Quer dizer que as pontes demolidas, os bairros residenciais arrasados, as populações sem água, as ameaças de represálias bárbaras, as carrinhas cheias de civis alvejadas do ar, etc… nada passa de uma sinistra montagem anti-semita: trata-se sim de uma mera questão de paióis e outros “redutos”, tudo tão bem camuflado. (Já agora, respondendo a este senhor, existe um tratado entre Portugal e Espanha a permitir perseguições transfronteiriças, desde que com conta, peso e medida, como é de esperar de nações civilizadas e democráticas. )
Que um colunista prestigiado como Akiva Eldar tenha perguntado «será possível que um estadista sábio mude a sua doutrina por causa de um bando de lançadores de foguetes? (…) Ainda não aprendemos que, na relação entre nós e os nossos vizinhos, a força é o problema, não a solução?» é pormenor de somenos para os cultores do simplismo; que mesmo organizações de direitos humanos israelitas acusem o seu exército de usar civis como escudos (coisa que só os malandros do Hezbollah fazem, como todos sabemos) é-lhes indiferente. Israel tem sempre razão, Israel é sempre moralmente superior, Israel tem o direito divino de esmagar tudo e todos e quem disto duvidar é parvo, anti-semita ou as duas coisas em simultâneo.
O pior é que a tontice revela-se mal contagioso. O infantil arremedo de raciocínio acima descrito foi destacado no Insurgente como “Uma pergunta para os amigos dos terroristas”; estes serão, suponho, malta como Eduardo Lourenço ou qualquer outro mânfio que não se tenha manifestado em tempo certo contra os ataques da UPA. A inteligência, como sempre, é a primeira vítima da guerra.

Memórias de Aqui-ao-Lado

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Leia-se, no «Público» de hoje, o artigo de Vital Moreira em que – a propósito dos 70 anos do deflagrar da Guerra Civil espanhola – se comenta a persistente recusa da Direita aqui tão perto, com a sua Igreja Católica, em eliminar a simbologia franquista da vida pública. Como se não bastasse, Direita e Igreja recusam-se a recordar as atrocidades que cometeram e permitiram. Poderiam aproveitar para lembrar que algumas delas se deveram a provocadores da Esquerda. Mas essa inteligência falece-lhes.

E porque hoje, 25 de Julho, é o dia da Pátria Galega, e porque as primeiras vítimas de Franco foram os seus compatrícios galegos (Franco subiu tranquilamente ao longo da nossa fronteira leste, chateando de caminho Badajoz), compatrícios que foram massacrados aos milhares (lembre-se «O Lápis do Carpinteiro», de Manuel Ribas, o livro e o filme), leia-se igualmente o artigo de Carlos Morais, no portal Vieiros (Caminhos), sobre as circunstâncias do martírio da Galiza.

Same old story

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Não é de todo difícil confirmar a minha antipatia de estimação com a Clara Ferreira Alves. Mas até um relógio parado dá as horas precisas duas vezes ao dia. E a hora da “Pluma Caprichosa” quase chegou no passado dia 8 de Julho. Quase; ou, como Graham Greene bem poderia ter dito, “close, but no cigar”.
A nervosa cronista foi desta vez irritada por um documentário sobre Portugal que a CNN resolveu emitir, a propósito da deslumbrante carreira lusa no mundial do chuto na bola. E com razão, se a coisa foi como ela a descreve: “uma charrete, um homem de colete e bota alentejana a tocar um cavalo, uns homens e mulheres rodopiando o vira, ou o corridinho, ou o que quer que seja e seja folclórico, mais o chouriço assado e a taberna, o lenço vermelho e a taroca, o boné e a festa popular.” Os espectadores da CNN terão assim ficado “com uma ideia de Portugal que nos coloca, exactamente, no tempo de Salazar mas… a cores.”
Até aqui, tudo mal. Mas a Pluma descarrila quando chega a altura de encontrar causas para a miopia do documentário. Saca de um preconceito para explicar outro: é americano, só pode ser ignorante. Assim: “O problema da CNN e da sua abordagem em ângulo fechado é o problema típico do império americano no século XXI, ignorância e falta de curiosidade à mistura com ingenuidade e arrogância.”
Será que já ninguém se recorda de uma pérola cinéfila de nome “Lisbon Story”, realizada por Wim Wenders, produzida com ajuda do omnipresente Paulo Branco e paga com dinheiro da Lisboa 94? O que ali se via de Lisboa poderia ter sido filmado bem antes de Salazar: eléctricos decrépitos, terraços sobre bairros de má nota, tralha derrelicta a cair pelos cantos. Com menos de 50 anos, só alguns prédios que teimaram em intrometer-se nos enquadramentos artísticos da obra. Como banda sonora, o neo-faduncho suburbano-depressivo dos Madredeus. Não foi preciso, naquela instância, encomendar a vinda de americanos para nos encontrarmos de tal forma retratados: um país melancólico, pobre, velho e infeliz.
Talvez não seja só má vontade de quem quer pintar frescos às três pancadas com a pobre pátria tuga como modelo. Talvez sejamos mesmo assim. Se pensamos em Espanha, imaginamos flamenco, largadas de touros, tomatinas, arquitectura arrojada, progresso, gente colorida em busca da praça e das tapas mais próximas. De Portugal, entrevemos lampejos de tascas escuras onde se geme o fado, destinos tuberculosos, saudade a escorrer a sua peçonha por calçadas às ondas.
Imagino que a CNN e Wim Wenders se tenham esforçado bastante para encontrar pontos de vista simpáticos sobre esta doença crónica disfarçada de país. Não é obra fácil.

Onde é que já vimos isto?

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Israel ameaça destruir 10 edifícios libaneses por cada novo ataque de foguetes.
Há uns anos, duas aldeias checas foram arrasadas como represália por um outro ataque. Mudam-se os tempos, permanecem as vontades de mais sangue.
O que vale é que os jornalistas lusos encontraram um lenitivo para mais este degrau na descida rumo à barbárie: os edifícios assim condenados estão, ao que parece, em “bastiões do Hezbollah”. É por certo uma espécie de “efeito Helena Matos”: se morreu, devia ser terrorista. Mesmo que, por exemplo, apenas tivesse cometido o crime de viajar de carrinha; hoje em dia, tal basta para atrair a fúria justiceira da “única democracia da zona”.

O acelera

Nunca diz que aprendeu a guiar à socapa. E sai do carro, ao cimo da subida, no triunfante jeito de quem cortou a meta. Trabalha ali na garagem de recolhas.
Começou a ajudar às lavagens, passava a camurça nos cromados, e fazia sinais aos clientes, olhe à direita, meta-lhe a marcha-atrás. Cabiam lá quarenta, mas entravam sempre mais. E quando saía um, o patrão mexia em três ou quatro. Ele passou anos a estudar-lhe as manobras.
Fez o baptismo de volante num dia em que o patrão foi ao médico. Depois nunca mais parou. Até que lhe cederam o comando, a arrumar as viaturas. Agora passa o dia em derrapagens controladas, ataca as curvas no limite, e na rampa de saída mete gás à tábua, como fazem os craques na recta da meta.
Ganhou esta paixão dos carros. E se um dia tiver um, há-de ir à oficina dum amigo, que se dedica ao tuning.

Jorge Carvalheira

IMPORTANTE

O Aspirina está, neste exacto momento, sob fogo cerrado do pulha Bigornas da estúpida Riapa. Enquanto manda patróticos comentários para posts recentes, o sacana vai atulhando de URLs pornográficos – às dezenas por minuto – posts mais antigos. O sistema paralisa então automaticamente, e por isso os vossos comentários não entram.

Ao Desertor Desconhecido

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Atravesso, no norte da França, as doces colinas da região do rio Somme. Nos bordos da auto-estrada preza-se a fertilidade dos campos, tal como noutros sítios se decantam os vinhedos. Mas a França não esquece a História, e relembra as batalhas aqui travadas nos finais da I Guerra Mundial. «Les batailles de la Somme», diz o placard gigante.

Às dezenas de milhares ficaram eles aqui. Alguns milhares eram miúdos portugueses, mal vestidos, mal treinados. E porquê? Porque o senhor Afonso Costa queria, à viva força, poder sentar-se com os grandes quando, em breve, o bolo fosse dividido. E uma bela fatia do bolo eram as nossas colónias africanas, em que a França e a Inglaterra (como, quando podia, também a Alemanha) punham gulosos olhos, mas que nós – nós – tínhamos o direito de explorar, enquanto a coisa desse. E deu ainda muito, mal sabiam eles. E pediu uma nova guerra, onde iriam morrer mais uns milhares de moços portugueses.

Apetece-me pensar que, em 1918, um deles não morreu. Ou que não morreu ali. Fugiu, escapou-se. Meu longínquo irmão, ele andou semanas aos tombos, até atingir a Holanda, a cento e cinquenta quilómetros, terra então pacífica.

Há guerras em que dizer «Não» é a única saída nobre.

fv, desertor do exército colonial português

Nacionalismo

Rui Moreira, economista e presidente da Associação Comercial do Porto, escrevia hoje no «Público»:

Nacionalismo é acreditar que a nossa selecção foi a melhor do Mundial.
Nacionalismo é acreditar que subjugamos todos os adversários.
Nacionalismo é afirmar que Angola e o Irão são equipas de topo a quem ganhámos.
Nacionalismo é afirmar que esprememos as laranjas holandesas e comemos os bifes ingleses.
Nacionalismo é chamar ladrão ao árbitro porque assinalou um penalti contra nós.
Nacionalismo é chamar fiteiro ao Henry e chorar a sucessão de faltas não assinaladas sobre o Cristiano Ronaldo.
Nacionalismo é dizer que perdemos com a França por isso e porque tivemos azar.
Nacionalismo é dizer que ainda bem que a Itália nos vingou ao ganhar aos cínicos gauleses.
Nacionalismo é apelidar o Deco de brasileiro quando joga mal.
Nacionalismo é apelidar o Deco de português quando joga bem.
Nacionalismo é insultar os holandeses pela falta de fair play.
Nacionalismo é insultar os que acham que nem sempre tivemos fair play.
Nacionalismo é multiplicar por dez os presentes no aeroporto e na festa dos heróis no Estádio do Jamor.
Nacionalismo é multiplicar por cem os elogios da imprensa internacional ao nosso futebol.
Nacionalismo é gritar que, mesmo que se perca, já se ganhou tudo.
Nacionalismo é gritar que ganhámos, quando não ganhámos coisa nenhuma.
Nacionalismo é defender que foi um feito histórico incomparável.
Nacionalismo é defender que, por isso, os nossos futebolistas e técnicos não deviam pagar impostos.
Nacionalismo é acusar de falta de profissionalismo quem ousa colocar reservas a algumas opções da selecção, como fez José Couceiro.
Nacionalismo é acusar de antipatrióticas as dúvidas sobre os critérios do seleccionador.
Nacionalismo é escrever que Scolari é o pai da pátria, agora que aprendeu a cantar o hino nacional.
Nacionalismo é escrever que ele levou o povo português a redescobrir o sentido da bandeira.
Nacionalismo é invocar que não se pode discutir a selecção, porque a pátria não se discute.
Nacionalismo é invocar que quem não está cegamente com a selecção está contra ela.
Nacionalismo é confundir mérito inegável com façanha inigualável.
Nacionalismo é confundir a selecção com a pátria.
Desculpar-me-ão por não me deixar contagiar por essa “doença infantil da humanidade”, nem querer pertencer a essa seita unanimista, cantada por Roberto Leal e pululada de oportunistas. Perdoar-me-ão, também, se não pactuo com as suas histerias e se temo as suas consequências. Absolver-me-ão se isto me traz à memória o tempo em que não podíamos ajuizar do nosso destino, em que à custa de vitórias morais ficámos “orgulhosamente sós”.
Resta saber se este nacionalismo não é uma nova versão do provincianismo que Pessoa e Eça identificaram como o grande mal português. Não, não sou nacionalista, porque acredito no trabalho e no espírito crítico, porque sou optimista e sei que se formos exigentes podemos sempre ir mais longe, porque não consigo ver milagres nos desempenhos felizes que espelham as nossas capacidades, porque não alimento o amor aos meus com o ódio aos outros, porque continuo a acreditar na nobreza do patriotismo.

P.S. – Soube que o “insuspeito e desinteressado” fervor de José Couceiro acaba de ser premiado: foi nomeado técnico adjunto das selecções.

Mais vale sozinho que mal acompanhado

Vive como se fosses morrer amanhã. Aprende com se fosses viver para sempre.

Gandhi

Durante a minha infância de bicho social interessado na politica, esse espaço da airada existência que se estendeu dos dezoito aos trinta e seis e do qual acordei de repente, todo excitado com o cheiro de cravos de viveiro, acreditava em quase tudo o que me contavam, quando o que me contavam não perturbava os ensinamentos básicos que tinha adquirido com a leitura de vários panfletos revolucionários e doutras obras avulsas da propaganda politica literária “aconselhável”, dita de descrição dos sofrimentos da humanidade lusa e internacional e das grandes lutas de resposta revolucionária para acabar com tais sofrimentos. Quem, por ignorância ou sabedoria, tivesse a impertinente ousadia de levantar um dedinho de direita para me contrariar já sabia que não seria convidado para o meu casamento, e o facto de nunca ter convidado ninguém para essa importante cerimónia (realizada com intenção ideológica num registo civil de paróquia salazarista) pode ter sido, vejo agora, o primeiro sinal de que um dia não iria perder tempo na fase madura da minha vida a ouvir gloriosos e recauchutáveis sermões, nem dum lado nem do outro.

Quem teve a pachorra de me ler até aqui é capaz de começar a pensar que me deixei de políticas e me entreguei de corpo e alma à cultura das tais malvas com virtudes balsâmicas. Nada disso. Ainda leio jornais (cada vez menos, é verdade, para fugir à mentira organizada e ao esforço sobre-humano de ter que pesquisar no vácuo das entrelinhas jornalísticas) e vibro a bandeiras despregadas com a suposta seriedade da política de esquerda e de direita. O Capitalismo, com a ganância sem fim que gera nos corações financeiros dos seus mais fiéis seguidores, continua a ser um dos alvos favoritos das minhas raivas matinais inexplicáveis e fonte inesgotável de oportunidades para a utilização do dicionário de ferroadas rancorosas que expressamente criei para o efeito. No entanto, há muito que desisti de ver nele a etapa histórica “natural” que fui ensinado a criticar e a combater (abaixo o comodismo do determinismo económico!) a partir de visões baseadas na força dum proletariado de calo e ganga que se tem deixado diluir no molho branco social que o vai empurrando para a robotização geral e completa, transformando-o na máquina anónima de produção que aos poucos o fará esquecer a foice e martelo. Esperem pela pancada, senhores veteranos: andam por ai a esquissar os novos símbolos das bandeiras proletárias.

Reconheço que o pessimismo político, como o que aqui demonstro com saciedade e sem vergonha, pode engendrar atitudes pessoais completamente desafectas ao espírito dos frequentadores de bares em festas partidárias anuais, ou ao dos períodos quentes de eleições da esperança. Não vou chorar por isso e até bebo um copo de reforço à saúde da convicção que tenho de que nada nessa atitude afectará a minha capacidade para continuar a fazer perguntas e a aprender como se “fosse viver para sempre”. E, meus senhores e minhas senhoras, sobre o tema geral do progresso, evolução, consciencialização política e de classe etc., uma das perguntas que apetece fazer, já agora, é a seguinte: mas afinal, que merda é esta de pensarmos que precisamos de situar-nos politicamente à esquerda ou direita de qualquer coisa para darmos uma opinião justa e serena, cheia de bom senso e abalizada sobre as soluções mais adequadas e necessárias a este planeta — planeta que não pertence a ninguém e que ninguém sabe donde veio, muito embora abundem por ai explicações divinas e outras acerca de implosões de matéria e irrealidades palpáveis? E quem são estes importantes Oito, que agora sentaram as suas anatomias com excessos de gordura exactamente iguais às nossas à volta duma mesa enorme, para se porem a combinar, sem mandatos directos de ninguém, sobre a direcção mais apropriada para esta Terra envolta em fogos muito reles que eles, ou aqueles que os precederam nos tronos da Intriga mandona, foram os primeiros a atear de mil e uma formas?

Não me puxem pela língua, por favor!

TT