Same old story

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Não é de todo difícil confirmar a minha antipatia de estimação com a Clara Ferreira Alves. Mas até um relógio parado dá as horas precisas duas vezes ao dia. E a hora da “Pluma Caprichosa” quase chegou no passado dia 8 de Julho. Quase; ou, como Graham Greene bem poderia ter dito, “close, but no cigar”.
A nervosa cronista foi desta vez irritada por um documentário sobre Portugal que a CNN resolveu emitir, a propósito da deslumbrante carreira lusa no mundial do chuto na bola. E com razão, se a coisa foi como ela a descreve: “uma charrete, um homem de colete e bota alentejana a tocar um cavalo, uns homens e mulheres rodopiando o vira, ou o corridinho, ou o que quer que seja e seja folclórico, mais o chouriço assado e a taberna, o lenço vermelho e a taroca, o boné e a festa popular.” Os espectadores da CNN terão assim ficado “com uma ideia de Portugal que nos coloca, exactamente, no tempo de Salazar mas… a cores.”
Até aqui, tudo mal. Mas a Pluma descarrila quando chega a altura de encontrar causas para a miopia do documentário. Saca de um preconceito para explicar outro: é americano, só pode ser ignorante. Assim: “O problema da CNN e da sua abordagem em ângulo fechado é o problema típico do império americano no século XXI, ignorância e falta de curiosidade à mistura com ingenuidade e arrogância.”
Será que já ninguém se recorda de uma pérola cinéfila de nome “Lisbon Story”, realizada por Wim Wenders, produzida com ajuda do omnipresente Paulo Branco e paga com dinheiro da Lisboa 94? O que ali se via de Lisboa poderia ter sido filmado bem antes de Salazar: eléctricos decrépitos, terraços sobre bairros de má nota, tralha derrelicta a cair pelos cantos. Com menos de 50 anos, só alguns prédios que teimaram em intrometer-se nos enquadramentos artísticos da obra. Como banda sonora, o neo-faduncho suburbano-depressivo dos Madredeus. Não foi preciso, naquela instância, encomendar a vinda de americanos para nos encontrarmos de tal forma retratados: um país melancólico, pobre, velho e infeliz.
Talvez não seja só má vontade de quem quer pintar frescos às três pancadas com a pobre pátria tuga como modelo. Talvez sejamos mesmo assim. Se pensamos em Espanha, imaginamos flamenco, largadas de touros, tomatinas, arquitectura arrojada, progresso, gente colorida em busca da praça e das tapas mais próximas. De Portugal, entrevemos lampejos de tascas escuras onde se geme o fado, destinos tuberculosos, saudade a escorrer a sua peçonha por calçadas às ondas.
Imagino que a CNN e Wim Wenders se tenham esforçado bastante para encontrar pontos de vista simpáticos sobre esta doença crónica disfarçada de país. Não é obra fácil.

7 thoughts on “Same old story

  1. É a dificuldade típica de querer ver um mundo que não existe, um mundo que só existe no Chiado depois da renovação, na Fnac, no Colombo e nos estádios de futebol. Quando essa senhora não passa pelo país típico, o famoso “Portugal profundo”, teremos estas avaliações.

    Sinceramente não me incomoda particularmente. No caso de Wim Wenders foram estas as imagens que o cativaram. Mesmo n’A Casa da Rússia (filme), tínhamos a vista sobre o Tejo a partir de uns bairros muito pouco parquedasnaçõezesco. Se formos para fora de Lisboa então ainda mais entramos nesse campo de imagens.

    Além disso, como se pode escolher a visão mais moderna com o cheiro das sardinhas assadas ao lado de um rancho folclórico a tocar e dançar? É quase impossível fugir a isto.

    PS – ainda há duas semanas, numa suposta “feira internacional” na cidade (holandesa) onde vivo, estava um grupo de holandeses com roupinhas tradicionais e socas de madeira a dançar músicas da região. Não me pareceu minimamente fora de contexto, mas cheirou-me imenso a rancho folclórico.

  2. Galego;qeiramos ou nâo:é ,éssa imagem que damos ao planeta.Temos que esperar pelos jovens!!Triste mas real.

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