Entre Cila e Caríbdis, sofrem os do costume

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Pacheco Pereira, logo ecoado pela coorte habitual, vem explicar-nos que o uso da palavra “massacre”, a propósito do ataque a Qana, é propagandístico. Por estes dias, também ficámos a saber que mostrar cadáveres de crianças é crime, quiçá até pior do que causá-los.
A reboque, marcha um pelotão variado: dos irrelevantes crónicos aos mais articulados. Estes últimos explicam-nos que “ao contrário do Hezbollah, Israel não faz qualquer ataque deliberado a civis libaneses”. Deliberado. De propósito, portanto. Já tínhamos lido coisas do mesmo jaez a propósito da morte dos observadores da Unifil, apesar dos 10 contactos que estes tiveram com as forças armadas israelitas a queixar-se da proximidade do bombardeamento — para nada. É que Israel não procura a morte de civis; apenas faz pouco para as evitar. (Imagino que a sua grande e única preocupação seja mesmo nunca bombardear nada com cidadãos americanos nas redondezas. Se um dos capacetes azuis “massacrados” fosse yankee, presume-se que a presente ofensiva já teria sido interrompida.)
E este é o ponto-chave desta guerra. Não estamos a testemunhar um conflito civilização-barbárie. É certo que de um lado temos o Islão mais extremista, fonte de obscurantismo, promotor de infindas violações dos direitos humanos, princípio motor de alguns dos movimentos e governos mais pavorosos deste mundo. Mas do outro lado não encontramos a linda e angelical democracia que muitos lobrigam em Israel. Trata-se de um país muito mais próximo de Esparta do que de Atenas; um estado que já se rege por algumas leis abertamente racistas; uma nação convicta da sua superioridade e até da sua comunhão directa com o Altíssimo; eleitores que procuram escolher os governantes mais radicais e belicosos. Só um país paralisado pelo medo e aguilhoado pela arrogância é que poderia desculpar as últimas acções das suas Forças Armadas. Claro que chegará o dia em que o arrependimento será chorado pelas ruas de Tel Aviv; mas sempre tarde demais.
Hoje, para quem defende Israel a outrance, todos os argumentos são válidos. Só haverá “massacre” quando se provar que houve intenção de massacrar, não apenas negligência criminosa; a “proporcionalidade” é uma invenção de cúmplices da Al Qaeda (como se durante anos Israel não tivesse lidado com os lançadores de foguetes a contento, com operações de tropas de elite e bombardeamentos de precisão); o ataque a edifícios cheios de civis é desculpado pelo lançamento prévio de folhetos a exortar os seus habitantes a ir viver para a estrada, a caminho de um campo de refugiados que os possa receber.
Hoje, há quem escolha criteriosamente a versão da história recente em que quer acreditar, elegendo como certa a única timeline que faz preceder o rapto de soldados do Tsahal pelo Hezbollah de um bombardeamento com foguetes a cidades israelitas; tudo para que a resposta posterior pareça mais equilibrada, suponho (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7… é fácil encontrar pistas de que não foi assim, até em dados do min. dos Negócios Estrangeiros de Israel. Não que faça grande diferença). Mas nada há de surpreendente nisto: também andam por aí a querer convencer-nos de que esta maré de violência tem como origem a independência de Israel, em 1948, fazendo de conta que não existia já então uma tremenda bagagem de ódio, terrorismo e massacres (sem aspas) a envenenar tudo e todos por ali.
Se alguém quiser continuar a crer que se trata de um conflito entre inocentes árabes e cruéis israelitas, tudo bem. Se preferirem achar que as bombas com a estrela de David são redentoras e os foguetes são armas de terroristas sem humanidade, idem. Mas creio que já está na hora de abrirmos os olhos para os monstros que se digladiam hoje no Médio Oriente. E vermos que a único partido que urge tomar é o dos inocentes apanhados de permeio.

17 thoughts on “Entre Cila e Caríbdis, sofrem os do costume”

  1. Nem de propósito. Mas será mesmo obrigatório cair na cegueira do extremismo tendencioso para se ter uma opinião sobre esta guerra?

  2. Ora nem mais, Luis. Nem mais. Tão monstruosos são os de um lado como os do outro, tão terrorista é o Hezbollah ou o Hamas como o estado de Israel (e por isso chamar terrorista só ao Hezbollah é um acto de propaganda), tão próximos do mais absoluto fascismo estão uns como os outros. Tudo o mais é treta. Poeira para os olhos. Cumplicidade mal disfarçada.

  3. “Todos os dias, lá os vemos em fileiras ordenadas e letais, espalhando a morte e a destruição por mais um campo de refugiados, sempre sob a protecção atenta de esquadrilhas de Apaches ou de couraçados bandos de tanques made in USA.”

    “como se durante anos Israel não tivesse lidado com os lançadores de foguetes a contento, com operações de tropas de elite e bombardeamentos de precisão”

    Ou seja, durante os anos em que Israel lidou com os lançadores de foguetes a contento (segundo o Luis Rainha) andavam a espalhar a morte e a destruição (segundo o Luis Rainha).

    “um estado que já se rege por algumas leis abertamente racistas”

    Primeiro, refere “algumas”. Além da que refere no enlace, qual é ou quais são outras leis a que se refere?

    Segundo, caso considere racista a “lei de retorno”, podemos inferir que também se regem por leis racistas a Alemanha, Espanha, Armenia, China, Bulgaria, Libano, Italia, Japao, Polónia, Irlanda, Grécia, Finlandia por terem leis de nacionalidade que prevêm que uma das razões para obter a nacionalidade (ou para facilitar a obtenção) é a ascêndencia étnica ou religiosa?

    Terceiro, a amenda a lei referida no enlace apenas determina que a autorização de residência não seja automaticamente concedida a pessoas provenientes dos territórios ocupados que casem com palestinos residentes em israel caso estas constituam uma ameaça evidente para a segurança do estado de israel, existindo possibilidade de recurso para os tribunais caso a residência não seja autorizada. Mas, se isto é racista, muito mais racistas são as leis portuguesas, que impõe critérios muito mais restritivos a pedidos de autorização de residência.

    “faz preceder o rapto de soldados do Tsahal pelo Hezbollah de um bombardeamento com foguetes a cidades israelitas; tudo para que a resposta posterior pareça mais equilibrada, suponho”

    Mas não foi o LR que escreveu isto: “Que eu saiba, a vaga de lançamentos de foguetes já foi uma retaliação à retaliação da retaliação”.
    E isto: “Reagir? Mas a presente crise no Líbano não eclodiu a propósito da captura de dois soldados israelitas pelo Hezbollah?”

    Se não faz diferença, qual foi o propósito de o escrever?

    “eleitores que procuram escolher os governantes mais radicais e belicosos”

    Depois de umas eleições em que o Likud ficou reduzido a quase nada, é uma apreciação curiosa. Isso inclui Shimon Perez e Amir Peretz? É impressão minha ou para o LR qualquer líder político israelita é radical ou belicoso?

    E já agora, não é curioso que o LR esqueça que, em Israel, aqueles que usam a força militar de forma desproporcionada são penalizados por isso, mesmo que sejam governantes?

    Enfim, julgo que a comparação entre as duas primeiras citações do LR diz tudo.

  4. O último parágrafo da análise do Luís está completamente de acordo com o meu sentir.
    Suponho que nenhum dos visitantes destes espaços tenha alguma vez estado,indefeso,debaixo de fogo (eu não),com os filhos ao lado e impotente para fazer seja o que for.
    Pelo menos que morram sem saber que morreram…

  5. Luis:
    Dizes bem: do lado dos inocentes apanhados de permeio. De uma e de outra parte. O problema já é antigo e não vai mudar, a não ser que se desse uma grande reviravolta no equilíbrio geoestratégico mundial…

  6. Ó Tiago!
    A acelerar dessa maneira onde há tanta curva, das duas uma:
    – ou V. quer mesmo dizer o que afirma, e deve ir já alistar-se nas brigadas da chacina,
    – ou então é um rabi que escondeu as trancinhas, e veio aqui lançar uma granada de fumo.
    Em que é que ficamos?

  7. Eu sempre achei os escritos do nosso camarada Pacheco estranhos. Assim como que a indicar-nos que ele não nos conta lá muito sobre as coisas mais secretas da sua pessoa, incluindo aquilo que faz depois do jantar, quem é que lava os alguidares e passa os aventais a ferro. Umas vezes fala com se que quizesse levantar as fraldas à camisa velha do Comunismo, que mistura com arrotos de alfarrabista entendido; outras nega-se a ver um missil de há três dias, com mensagens de amor de crianças israelitas a crianças do Líbano, que lhe entrou pelo nariz dentro e que acabou por lhe sair pelo ouvido direito sem ter explodido. Aqui há dias fartou-se de pedalar e em trinta linhas só conseguiu dizer uma de jeito: “O Israel de hoje não é distinto do do fim dos anos quarenta”. Fiquei arrazado com tamanho descuido do homem. É que até eu concordo com essa batata informadora, mesmo antes de ter tropeçado nisto, há dias, a caminho do vomitorium dum dos milhentos de sites dedicados ao “anti-semitismo” de geração espontânea sem utilização de catalisadores fotográficos:

    “We must use terror, assassination, intimidation, land confiscation, and the cutting of all social services to rid the Galilee of its Arab population.” — David Ben-Gurion, from Ben-Gurion, a Biography, by Michael Ben-Zohar (May 1948)-

    Quem melhor que ele (o entendido de livros velhos que nunca lhe dizem nada sobre os marmelos da aristocracia bancária da Europa e dos seus subsídios a jornais como L’Humanité quando esse jornal ainda andava de cueiros socialistas) para nos confirmar se o Gurion teve realmente o desplante de ter dito uma coisa dessas? Eu pelo menos não me lembro de ter visto nada disso no filme do Otto com o Paul Newman. Esperemos pela versão do Mel Gibson. Deve estar a sair.

    TT

  8. Carta do TT de Itarapuera pró seu amigo Zézinho

    Zé,
    Priciso ti contá esta história.

    Tava eu numa noite dessas procurando uma loja de coisas da tua profissão prá comprá o seu presente de Natal, quando encontrei um predião que me apontaram, tudo aceso, cheio de gente. Eta turma boa.

    Perguntei: “Aqui é loja de pedreiros?”- Invés de resposta, só foi abraço. Descobriram logo que sou mecânico, Zé, porque todo mundo me perguntava onde ficava a minha oficina.

    Lojona bonita aquela, com quadros, tapetes, ventiladores, até livro de visitas tinha que assiná. Gozado, com aquele calorão doido, queriam saber quantos graus estava fazendo e não tinha termômetro. Devia tá mais de 30, então “carquei” lá no livrão: 33. Acho que acertei na mosca, porque todo mundo me abraçava bastante.

    Depois todo mundo entrou pro salão onde tava as mercadorias. Tinha cuié de pedreiro, prumo, nível, esquadro, alavanca, compasso, régua, até pedra. Tinha também mesas e cadeiras que não acabava mais. Acho que algumas dessas mesas tava com o tampo solto porque os caras pegaram uns martelinhos e começaram a batê. Até a porta devia está emperrada, porque um sujeito começou a batê com o cabo de um espeto.

    Depois pensei que um indivíduo lá era cego. Perguntou onde sentava fulano…, onde sentava o sicrano…, queria saber que horas eram…, coitado! Teve um espírito de porco que falou prá ele que era meio-dia em ponto. E não é que ele acreditou!

    Depois outro sujeito foi perto dele e começaram a cochichar aqui e ali. Um deles reclamou de um tal de Arão que fez um estrago com óleo. Disse que derramou na cabeça, na barba e no vestido de uma tal de Dona Orla. Confirmei qie o cara era cego porque ele falou que a loja tava aberta e então olhei e vi que tava fechada. Nessa hora notei que até lá você era conhecido. Sentiram sua falta e começaram a perguntar: “e o Zé?, e o Zé?, e o Zé?”.

    Depois aguentei um tempão um sujeito falá umas baboseiras que não entendí nada e, até que enfim, mandaram fazer as propostas. Veio outro sujeito recolher elas com saquinho e então mandei a minha: dava cinqüenta mangos naquela corda pindurada lá em cima, toda enroscada.

    Sabe? O cara tava se fazendo mesmo de cego. Ele leu a minha proposta e não disse nada. Acho que fui munheca demais. Aí inventaram que estava chovendo, que tinha goteira na loja e acabaram me pondo prá fora.

    Tá certo, Zé, era justo, era perfeito. Mas se acharam pouco o valor que eu escreví, bem que podiam fazer uma contraproposta, não acha?

  9. Cordobes,

    1- Lidar com “lançadores de foguetes a contento” pouco tem de comum com ataques a campos de refugiados. Certo?
    2- Para muitos, a lei de compensação por actos terroristas é igualmente discriminatória, por não prever qualquer compensação a eventuais agressões perpetradas por israelitas. Chega, à laia de exemplo?
    3- Faz alguma diferença, mas apenas no sentido de fazer esquecer que o objectivo de encontrar os soldados capturados já foi convenientemente esquecido; parece muito mais “proporcional” responder assim a ataques de foguetes do que à captura de dois homens.
    4- Quando Ariel Sharon visitou a Esplanada das Mesquitas, como é que tal provocação, com a subsequente onda de violência, foi compensada pelo eleitorado? Pois.
    5- Claro que sim, claro que sim. É só ver o mesmo Sharon e os casos de Sabra e Chatila. Mas, infelizmente, há muito mais: em Maio de 2005, um tribunal marcial israelita sentenciou um soldado — culpado de alvejar, em Rafah, um palestiniano desarmado — a 20 meses de cadeia. De acordo com o “Haaretz”, essa foi “a punição mais severa imposta a um soldado de Israel nos quatro anos e meio de combates nos territórios (ocupados)”. Pode confirmar no site da HRW.
    6- Vou explicar outra vez, agora mais devagar. As duas primeiras citações são a propósito de coisas absolutamente díspares: responder a ataques de foguetes ou atacar com força bruta campos de refugiados densamente povoados. Já percebeu?

  10. Toda a política americana e sionista no Médio Oriente é, desde sempre, puro fariseísmo cínico (a começar pela política inglesa imperialista dos princípios do séc.XX, quando a Inglaterra ainda era algo mais que um cão de guarda da América).
    E quando algum dirigente judeu se aproximou de posições mais lúcidas na relação com ‘o inimigo’, liquidaram-no. O Rabin que o diga.
    Até ao Sharon, que não passa dum criminoso de guerra, lhe desabou o andar de cima, quando parecia tomar algum juízo.
    Só não vê isso quem não quer.

  11. Meu caro Luis Rainha,

    Simpaticamente refere-se a esta minha pessoa chamando-me “irrelevante crónica”. Que querido. Antes isso que ficar presa no insulto fácil, incapaz de formular um simplíssimo raciocínio sem apontar o dedinho acusador. Antes ser insignificante que a pretendida consciência da blogosfera portuguesa, sempre a espreitar os pecadores, os injustos, olhó ricooooo, olhá giraaaaa. Ser polícia dos valores morais dos outros nao vai muito com o meu estilo de vida. Será porque tenho mais coisas que fazer, sabe, como ser feliz ou andar de barco. Aliás, Luis, estou-me bem cagando para a sua elevada moral. Nao sei se me entende. E se lhe respondo agora é para que fique bem claro que até aqui chegamos, que nao volte mais a cheirar onde nao é chamado e que procure outro alvo para as suas fobias particulares.
    Que chato, homem, dasse, sempre a implicar. Porra.

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