War fever

No “Da Literatura”, Eduardo Pitta prossegue a sua laboriosa campanha contra o anti-semitismo que, de olho clínico em riste, vislumbra a medrar por todo o lado. Esse insidioso vírus cresce pela calada em malta que finge ignorar as atrocidades que Putin vai ordenando na Tchetchénia; prospera em gente, como Eduardo Lourenço, que nada terá dito a propósito do genocídio do Ruanda ou dos primeiros ataques da UPA em Angola (!); floresce, por fim, na néscia manada que ignora olimpicamente a crueldade do blitz alemão sobre Londres e da invasão de Berlim pelos russos (a sério: o homem escreveu mesmo isto).
Tudo para atingir um corolário quase admirável: «argumentar com a soi disant “desproporcionalidade” não deixa de ser uma infantilidade. Insistir nessa tecla é uma forma naïf de dizer o indizível. Podiam assumir de uma vez por todas o anti-semitismo larvar.» Porquê? Não se explica. Mas entende-se: como desde há anos, o número de acusações de anti-semitismo em circulação num dado momento continua a ser um excelente barómetro do comportamento do Estado de Israel.
Noutras paragens, há quem imagine, de espírito dilacerado, uma horda de bandidos sanguinolentos acoitados em Espanha e dedicados a martirizar os pobres portugueses. Nesse caso, «teria ou não o Exército Português direito a internar-se em território espanhol, dar caça aos bandidos e eliminar redutos, arsenais, paióis e instalações utilizadas pelos terroristas?» E logo vem a conclusão triunfante: «Ora, é o que o exército de Israel está a fazer no Líbano. É o direito à resposta, o direito à retaliação; em suma, uma guerra justa.» Quer dizer que as pontes demolidas, os bairros residenciais arrasados, as populações sem água, as ameaças de represálias bárbaras, as carrinhas cheias de civis alvejadas do ar, etc… nada passa de uma sinistra montagem anti-semita: trata-se sim de uma mera questão de paióis e outros “redutos”, tudo tão bem camuflado. (Já agora, respondendo a este senhor, existe um tratado entre Portugal e Espanha a permitir perseguições transfronteiriças, desde que com conta, peso e medida, como é de esperar de nações civilizadas e democráticas. )
Que um colunista prestigiado como Akiva Eldar tenha perguntado «será possível que um estadista sábio mude a sua doutrina por causa de um bando de lançadores de foguetes? (…) Ainda não aprendemos que, na relação entre nós e os nossos vizinhos, a força é o problema, não a solução?» é pormenor de somenos para os cultores do simplismo; que mesmo organizações de direitos humanos israelitas acusem o seu exército de usar civis como escudos (coisa que só os malandros do Hezbollah fazem, como todos sabemos) é-lhes indiferente. Israel tem sempre razão, Israel é sempre moralmente superior, Israel tem o direito divino de esmagar tudo e todos e quem disto duvidar é parvo, anti-semita ou as duas coisas em simultâneo.
O pior é que a tontice revela-se mal contagioso. O infantil arremedo de raciocínio acima descrito foi destacado no Insurgente como “Uma pergunta para os amigos dos terroristas”; estes serão, suponho, malta como Eduardo Lourenço ou qualquer outro mânfio que não se tenha manifestado em tempo certo contra os ataques da UPA. A inteligência, como sempre, é a primeira vítima da guerra.

13 thoughts on “War fever

  1. Não podemos ser maniqueístas: Israel não é totalmente bom nem totalmente mau. O mesmo se pode dizer em relação ao Hizbollah. Uma grande parte dos que estão contra Israel não são anti-semitas mas, não sejamos ingénuos, alguns são-no – e de que maneira… abraço

  2. Ora aqui está um comentário curto e incisivo do senhor Curate que deixa as pessoas abananadas com a fresquidão do produto. Toma, lá, Luís, assoa-te, dá a bicicleta ao homem e pede-lhe mil perdões. O que resta saber é se os marranos de discurso sionista e cristãos-israelitas da cabaladde Keops que aqui vêm não se sentiriam talvez mais seguros de si mesmos se o amigo Curate lhes explicasse (e de que maneira!) o que é que ele entende por anti-semitismo. Questão de actualização. Eu, mesmo como observador convidado, daria o cú e oito tostões por uma oportunidade dessas. Fico à espera, convencido de que ele não será capaz de vir com uma que me satisfaça, isto é, ridícula de enternecer…

    Por sim, por não, deixo ao senhor Curate pano para mangas para se inspirar nesta matéria. Não é muito, são só meia dúzia de linhas dum discurso, escandaloso a todo o comprimento, dado em Budapeste, em 1952, por um famoso rabino sionista, um tal Emmanuel Rabinovich, perante uma assembleia de confrades da Europa, tratando de negócios da mula da cooperativa:

    “……..Os russos, assim como os povos asiáticos, estão sob (nosso) controlo e não põem objecções à guerra, mas temos de esperar para segurar os americanos. Isto pensamos conseguir com a questão do Anti-semitismo, que tão bons resultados deu quando unimos os americanos contra a Alemanha. Estamos a contar fortemente com noticias de manifestações anti-semíticas na Rússia que por sua vez causarão indignação nos Estados Unidos, originando uma frente de solidariedade contra o poder Soviético. Simultâneamente, para provarmos aos americanos a realidade do anti-semitismo, faremos, através de novas fontes, chegar às mãos de conhecidos elementos anti-semitas umas massas que ajudarão a torná-los mais efectivos. E (sempre na sombra, claro, esta é minha) encenaremos (stage) várias manifestações anti-semíticas nas maiores cidades do pais. Isto servirá o duplo propósito de expor sectores reaccionários na América, que depois podemos silenciar, e de transformar os Estados Unidos numa devota unidade anti-russa”…

    Anti-semitismo a quanto obrigas….

    TT

  3. Curioso, ao ler o TT, constatei que o Euroliberal é agora um dos “redactores” do Aspirina. Boas companhias…

  4. Rabbi Emmanuel Rabinovich is a non-existent figure commonly cited in anti-Semitic propaganda. “Rabbi Rabinovich” supposedly gave a speech, sometimes titled “Our Race Will Rule Undisputed Over The World,” to the “Emergency Council of European Rabbis” in Budapest, Hungary on January 12, 1952. This forgery is taken as “proof” of a Jewish plot against whites, in much the same way as The Protocols of the Elders of Zion, another false document invoked in the Rabinovich speech, is used as “proof” of Jewish global conspiracy.

    The speech appears to have been invented by Eustace Mullins and appeared in the early 1950s racist newsletter, Common Sense, (“A Newspaper Upholding Christianity and Patriotism”) published by Conde McGinley. The paper was notorious for its use of invented quotes and stories throughout the 1950s and 1960s, including, famously, a made-up quote by Nikita Khrushchev[1]. The Rabinovich speech is often distributed online with a coverletter by a “Rose Rabbinovich” who states that the speech was found on her “rabbi’s favorite website,” the anti-Semitic Radio Islam, making the forgery even more obvious.

    http://en.wikipedia.org/wiki/Rabbi_Emmanuel_Rabinovich

  5. Feliz por ver tanta gente a falar de mim, especialmente o sr do nick comprido. Infelizmente, a actividade fagócita do Aspirina bloqueou a minha resposta, meio comprida, e classificou-a de “Spam”. Os gajos (os tais) preferem o Bigornas, pelos vistos. Bom segue isto para me absolver do “anti-semitismo”.

    http://www.rense.com/general45/full.htm

    TT

  6. Hoje, à hora do terço na Renascença, vamos todos orar em comunhão cristã pela sobrevivência dos papás e mamãs e criancinhas brancos – os verdadeiros Adâmicos! raça que há-de conduzir o mundo à segunda vinda do Messias – e também pela alminha do Rabbi Emmanuel Rabinovich e da irmã Lúcia.

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