«Marcelo: "Entrou-se num tempo novo. Vamos ver como o povo lê o que se passou nestes meses e dias"»
E atão? Como é que o povo leu os meses e os dias onde se passou a golpada judicial que ofereceu a Marcelo a dissolução do Parlamento? Sem surpresa, não podemos contar com o actual Presidente da República para o descobrir. Ignoramos o que ele pensa a respeito da transformação da maioria absoluta socialista obtida em 2022 no Governo do Montenegro e do Nuno Melo em 2024. É um mistério o que os seus neurónios concebem a respeito do fenómeno que levou 1 milhão de taralhoucos e abstencionistas a verem no traste do Ventura o salvador da pátria.
Teremos mais sorte se olharmos para a comunicação social. Tem patrões, os quais pagam as contas para desfrutarem das linhas editoriais que acham mais adequadas aos seus interesses. Para tal, põem no comando das redacções quem está disposto a aplicar a agenda. Estes rodeiam-se daqueles que estão disponíveis para os serviços inerentes ao contexto. E ai daqueles que levantem a bola contra o sectarismo pois de imediato serão carimbados como atacantes da sacrossanta liberdade de expressão e da imprensa. Não é difícil de perceber. Aliás, é tudo ostensivo. A dita “imprensa de referência”, RTP incluída, imita-se no jornalismo político e genérico ao ser uma fonte de sistemático sensacionalismo, alarmismo e intencional deturpação rapace das inevitáveis disfunções no aparelho do Estado. A violência emocional de um qualquer fulano com carteira de jornalista a entrevistar quem ele considere um alvo a abater (governantes e dirigentes socialistas, tudo o que fosse passível de ser relacionado com Sócrates) foi ainda mais tóxico para a salubridade do espaço público do que o exército de comentadores direitolas.
Mas o estado de maior derrelicção a abater-se sobre a comunidade vem do ocupante de Belém. Na véspera da golpada, Marcelo protagonizava sucessivas cenas caricatas, abstrusas, exibindo patológico descontrolo cognitivo. O seu papel nesta história que fez história não é só triste e lamentável, logo a começar na tomada de posse do Governo da maioria socialista e em crescendo a partir daí. Há também na sua conduta uma lição de antropologia: vulpes pilum mutat, non mores.