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Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Uma ideia “provocative”

«"Há uma solução que é um Governo PSD, CDS e PCP."

Para Bagão Félix "há uma solução que é um governo PSD, CDS, PCP. Uma ideia 'provocative'. Não estou a dizer que pode vir a acontecer, mas nós precisamos de abanar a cabeça senão morremos atrofiados. É quase impossível chegar a acordo com o PCP, mas, se alguma vez se chegar a acordo, este será cumprido. O PCP é muito respeitador, institucionalista."

"Não me repugnava que, num governo deste tipo, o PCP tivesse uma pasta social ou do trabalho. Jerónimo de Sousa é um homem sincero, um homem autêntico, um político sério. A certa altura sinto-me asfixiado pelas soluções equacionáveis. Precisamos de abrir o horizonte teórico das soluções".

"Sendo absolutamente não comunista, respeito o actual PCP e não o ponho no gueto."»

Jornal i, 5.3.2011

🤹

5 de Março de 2011. Cavaco tinha sido reeleito em Janeiro. O mês de Fevereiro foi passado com o secreto frenesim do Governo e da Europa na procura de uma solução que evitasse o resgate de emergência cruzado com o secreto frenesim da direita que planeava derrubar o Governo para precisamente afundar o País e obrigá-lo a aceitar o FMI e a cobertura que os senhores estrangeiros a aterrarem na Portela dariam à tentativa de reengenharia económica e social ambicionada pelos fanáticos da austeridade salvífica a salivar de gula com os olhos postos nos colossais negócios que a fúria de desmantelar e diminuir o Estado iria proporcionar.

5 de Março de 2011. Dentro de quatro dias, Cavaco iria à Assembleia da República fazer um comício contra um Governo minoritário seguro por arames e cercado por todos os lados. Nele declarou que não era político, que não queria mais sacrifícios (ou seja, que não queria a austeridade até então imposta pela Europa ao Governo socialista desde a eclosão da crise das dívidas soberanas um ano antes), e que a rua tomada pela “juventude” se devia levantar contra a classe política. Foi um Grândola Vila Morena tocado ao contrário. A 23 de Março vimos a esquerda sectária a entregar o poder à direita rapace, traindo o seu mandato eleitoral e as revolucionárias promessas de defesa dos trabalhadores, dos pobres, dos fracos.

5 de Março de 2011. Para Bagão Félix, como para toda a direita, Sócrates é um inimigo que parece invencível. Que parece, apesar de tudo o que foi lançado contra ele e ao longo de tantos anos, ir conseguir ficar à frente do PSD numas próximas eleições. Era o que diziam as sondagens ao tempo. Se 2009 se voltasse a repetir, o desespero no PSD e no CDS atingiria níveis psicóticos, a oligarquia começaria a limpar as armas. Este o ambiente mental de grave perturbação emocional que levou o Bagão para um repente “provocative” que, nove anos depois, ganha uma inusitada e triste actualidade.

O que o argumento diz de Jerónimo é convencional, destituído de surpresa, pese vir de uma figura da direita. O 25 de Novembro tinha há muito acabado com o papão comunista. Ao longo dos anos 80 e 90, com as profundas alterações económicas e sociais advindas da entrada na CEE e depois na União Europeia, o PCP foi garantindo um mercado eleitoral estável que, por causa da demografia e do aumento dos serviços, no entanto via diminuir a sua influência sindical numa dinâmica inexorável. O desaparecimento da URSS e do bloco soviético também não ajudou à saúde da ideologia, pelo que o PCP foi sempre um dos mais importantes aliados da direita ao se manter granítico na recusa de fazer qualquer acordo com o PS para lá da esfera autárquica. Os socialistas, por sua vez, jamais iriam cometer o suicídio de abandonarem o socialismo democrático defendido heroicamente por Mário Soares, pelo que o bloqueio durou até 2015, não entrando sequer na fértil imaginação do Félix em 2011.

O que entrou foi uma típica cognição de um típico conservador de direita que descobria num adversário com cara de mau um coração de oiro, tal qual como o seu ou até melhor. A “sinceridade”, a “autenticidade”, a “seriedade” que reconhecia em Jerónimo, essa dimensão moral clássica e essas virtudes também bíblicas, era precisamente o que Sócrates e os socialistas não tinham, bandidos e diabólicos do pior como eram. Já Jerónimo, com ideias parvas e perigosas, ainda assim podia ser influenciado, controlado, dominado caso fosse possível sacar-lhe uma assinatura num acordo. E, homem de fé que é, o céu na terra pareceu-lhe possível, visualizando em transe mediúnico o bom Jerónimo a levar os comunistas para um Governo do imperialismo capitalista a troco de um ministro do Trabalho ou de uma coisa dessas parecida que implique estar sempre em reuniões com o povo. Seria perfeito pois a CGTP passaria a fazer a segurança dos comícios do PSD e do CDS, começou a fantasiar um Bagão cada vez mais alegre e com vontade de dançar sozinho no salão, de saltar gaiato e cantar à janela para acordar os vizinhos.

Trago esta memorabilia para medirmos a distância a que se encontram, em 2020, Rui Rio, Manuela Ferreira Leite e Morais Sarmento, entre tantos outros dirigentes e comentadores direitolas, deste terreno decente, humanista, personalista, em que Bagão Félix arriscou o ridículo em nome de uma convicção que temos a obrigação de aplaudir: a de que a pessoa não é para a ideologia, a ideologia é que é para a pessoa. Nesse pressuposto, caem os sectarismos e podemos ficar juntos, com as respectivas diferenças de projecto político, na defesa do bem comum e na realização do interesse nacional – caso se chegue a acordo, lá está.

Rui Rio, Manuela Ferreira Leite e Morais Sarmento et alia nunca terão de responder a esta pergunta: “Acha que André Ventura é um homem sincero, é um homem autêntico, é um político sério, e que o Chega é um partido respeitador, institucionalista?” Nunca terão de responder porque não há quem lhes faça a pergunta e, mesmo que houvesse, nunca iriam dizer o que pensam a seu respeito em público. Estão, pois, muito bem uns para os outros quanto à hipocrisia e ao cinismo. Eis a decadência da direita no seu irrespirável fedor.

Thelma & Louise

A democracia liberal precisa de liberais

Uma suposta direita decente juntou-se no Abaixo assinado: A clareza que defendemos para denunciar a real indecência que o PSD acaba de introduzir na democracia portuguesa. Para lá de lhes ter fugido o chinelo para uma falsa equivalência, prata da casa, a parte mais interessante do texto consiste nas assinaturas. 54 delas.

Porquê? Porque nos permite fazer a seguinte pergunta: quantas dessas personalidades, as quais têm facilitado e frequente acesso aos principais meios de comunicação social do País, é conhecida pela sua paixão pelo Estado de direito democrático? Alguma?

A pergunta de cima pede pergunta debaixo: quantas dessas personalidades, as quais ocupam com regularidade e pleno usufruto da liberdade de expressão os principais meios de comunicação social do País e outros palcos de responsabilidade política e social, já mostraram publicamente preferir a chicana, o ódio tribal e a violação dos princípios fundadores do Estado de direito democrático à defesa intransigente dos valores liberais? Menos de metade? Mais? De mais?

Mas o mistério é o PS

Na semana em que vimos Rui Rio, Manuela Ferreira Leite e Nuno Morais Sarmento a selarem a aliança com André Ventura – e, pelo alto protagonismo destas históricas figuras do PSD, podemos também adivinhar o acordo de Cavaco e Passos à utilização do Chega para se tentar obter uma maioria parlamentar nacional – não encontro nada mais importante para iluminar do que o recente texto que Noronha Nascimento publicou num boletim da Associação 25 de Abril: Investigação criminal: o vermelho e o negro

Trata-se da primeira vez, na minha memória, que alguém em Portugal ousa ser explicitamente objectivo e frontal acerca do que tem acontecido na Justiça desde 2008, ano em que Ferreira Leite chegou a presidente do PSD e em que Cavaco estava a menos de metade do seu primeiro mandato presidencial. Noronha é alguém com autoridade e responsabilidade directas nas questões e casos que trata no artigo, e com o especial dever de contar o que lhe chegou ao conhecimento para que esses factos sejam usados como baluartes do Estado de direito democrático. Parece um bocadinho diferente, portanto, de um badameco irrelevante como aqui o pilas a teclar para três ou quatro malucos num arcaico blogue perdido numa viela da Internet. Por isso mesmo, não consigo esconder o consolo de ver confirmado por uma personalidade com a importância funcional e simbólica do antigo Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, que se tornou um alvo político da direita e da indústria da calúnia só por ter resistido a uma golpada cumprindo a Lei, tudo o que intuí apenas pela recolha da informação pública. Tudo e ainda mais.

O retrato do regime com que se fica ao chegarmos ao fim do seu implacável exercício é assustador. E precisamente por ser à prova de calúnias, por se oferecer à confirmação pelos seus pares, pelas autoridades, pelos cidadãos. Tanto que a única reacção que obteve na imprensa veio do Observador, com o pidesco Luís Rosa e o folclórico Miguel Pinheiro a trazerem sacadas de canalhices embrulhadas em sórdido ódio político para o ligarem a Sócrates e a Ivo Rosa. Mais nenhuma voz da opinião “de referência” fez referência a um juiz que grita no meio da praça estar a Justiça dominada por corruptos que a utilizam para atacar e destruir alvos seleccionados. Como explicar o silêncio dos partidos, dos deputados, do Presidente da República, da sociedade, dos fogosos editorialistas com as mãos negras de tanto auto-de-fé que incendiaram contra os “políticos corruptos”, face a esta denúncia vinda de quem estava no topo do sistema de Justiça blindado pela sua independência e teve acesso a todos os materiais necessários ao fundamento da legitimidade e veracidade das questões que levanta?

Infelizmente, explicar esse silêncio leva-nos de novo para Ventura e para a capitulação de Rio à mais obscena decadência política, cívica e moral. O “Sá Carneiro reencarnado num racista cuja missão política está profundamente ligada a Fátima” é como aquele mafioso que cresceu numa organização criminosa na mão da “gente séria”, pessoas respeitadíssimas por outras respeitadíssimas pessoas, e que depois começou a avariar dos cornos e a cometer crimes cada vez mais horríveis. Até que se sentiu tão forte que saiu para criar o seu próprio bando de facínoras. A “gente séria”, obrigada pelas circunstâncias a manter um certo teatro de aparências sob pena de toda a farsa ruir e perderem os holísticos poderes fácticos, não pode imitar o Ventura, por um lado, e passou a temê-lo, pelo outro. Então, recorreu à mais velha das lógicas, “se não podes vencê-lo, junta-te a ele”. Isto faz óbvio sentido – quando só o poder pelo poder é que dá sentido à política. Tal como sentido fez, até 2015, ver a esquerda pura e verdadeira a alinhar com esta direita decadente no ataque e desgaste do PS através de golpadas judiciais e supremacia mediática. Louçã denunciou a “Inventona de Belém”, honra lhe seja, mas essa fica como a excepção à regra da passividade apoiante (a esquerda pura e verdadeira não morre de amores pelo Estado de direito, artifício imperialista, é sabido).

O enigma, que vai a caminho de se tornar num mistério, é o do silêncio cúmplice do PS para com os criminosos a quem pagamos para serem procuradores e juízes em nome da República e em nome da Constituição. Aqui fica uma pista, para os valentes: nunca iremos ouvir Ana Gomes, campeã da luta contra a corrupção (ahahaha), a sequer citar Noronha Nascimento.

Esta parelha comediante também irá lançar piadas sobre castração, ovários e ciganada, sigam-nos no Twitter!

O charlatão e o próximo golpe

 

Trump acaba de demitir o ministro da Defesa (numa altura destas, que devia ser de transição pacífica do poder) e de politizar completamente a Justiça, através de ordens dadas (e aceites) ao Procurador-Geral. Está, portanto, a desenhar-se um golpe. Qual? Esperemos para ver a qualquer momento. É isto a que conduz o charlatanismo, o populismo e a vigarice nos mais altos cargos políticos.

 

Eis o que escreveu certeiramente no Twitter o antigo ministro do Trabalho dos Estados Unidos.

 

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Chega vs. PCP/BE – vamos lá sem filtro

Anda muito acesa a discussão sobre o acordo celebrado entre o PSD e o Chega com vista à formação de um governo nos Açores. A resposta de quem apoia esse acordo às críticas do PS e de alguns militantes do PSD consiste em fazer equivaler o PCP e o BE – considerados a “extrema-esquerda, mas comprometidos com um governo do PS – ao Chega – considerado a “extrema-direita”, assim justificando e desdramatizando esta nova aliança.

Se querem saber a minha opinião, eu acho que os regimes defendidos pelo PCP foram e são efectivamente ditaduras, historicamente repressoras das liberdades, niveladoras por baixo (ou seja, sistemas em que toda a gente é remediada ou um pouco pobre, sem hipóteses de ambições individuais, com uma consequente estagnação económica e científica e pouca inovação), excepto para a camarilha que ocupe o poder e os seus lambe-botas, que vivem invariavelmente bem – ver a ex-URSS, a Rússia actual, não comunista, mas sua herdeira, a actual Coreia do Norte e Cuba. A brutalidade de Stalin veio pelo meio coroar de violência um regime já de si ditatorial à partida e por natureza – chamassem-lhe ou não “ditadura do proletariado”. Entretanto, essa violência ficou para sempre registada e a História avançou.

Hoje em dia, será o PCP uma ameaça real à democracia? Com a maioria dos partidos comunistas praticamente extintos na Europa ou transfigurados, ou passados para ideologias de direita, as teorias que os poderiam levar ao poder estão totalmente desacreditadas. É uma impossibilidade, à hora actual, um partido comunista ou alguém que se intitule comunista assumir o poder, chegar ao poder por meio de alianças e muito menos tomar o poder por alguma qualquer revolução. Não há simpatia, não há apoios. Só por isso, que já é muito, o PCP não representa qualquer perigo para a democracia. Neste momento, em Portugal, e lembro que é praticamente o seu último reduto, limita-se a controlar alguns sindicatos, sobretudo na função pública. E também por isso, qualquer acordo de governo com estes 6% do eleitorado mais não incidirá do que em “direitos laborais”, dinheiro para a função pública e no acautelamento da relação de força em alguma autarquia. Os comunistas não representam hoje em dia mais nada. Servem ainda e porém para nos lembrar do obscurantismo e da violência do regime de Salazar, a última ditadura que nos foi servida. Mas nisso não são os únicos.

 

Já o mesmo não se pode dizer do Chega e dos seus aliados a nível internacional. Sem espaço nem tempo para escrever aqui um compêndio sobre o ressurgimento da extrema-direita na Europa e na América, digo apenas que os discursos populistas são hoje em dia bem deglutidos por uma boa parte da população. Nuns sítios mais por uns motivos (imigração muçulmana), noutros mais por outros (racismo histórico latente, excessos dos esquerdistas e do politicamente correcto, ocupação do “centro” político democrático e do centro-direita pela esquerda dita “socialista”), a verdade é que a incultura generalizada trazida à tona de água pelas redes sociais, nelas orgulhosamente verbalizada e explorada por oportunistas encartados contribui para a formação de hordas de energúmenos que se mostram dispostos a seguir a conversa de qualquer badameco bem falante (e às vezes nem precisa de o ser – é só ver o Trump) que se proponha “mudar o regime”, “acabar com os corruptos”, “defender os nossos valores cristãos”, ou fazer a “America great again”, etc., etc. Por isso sim, o Chega e os seus amigos, como o Front National da Marine Le Pen, são uma ameaça à democracia e à paz interna. Ancorados na tal horda de ignorantes e de puritanos e falsos puritanos incomodados com os “excessos de liberdades”, eles visam tomar o poder e, uma vez lá chegados, perverter as instituições democráticas, passando a controlá-las em seu favor. Olhemos o Trump, senhores! Os seus apoiantes são o Orban da Hungria, o Erdogan, da Turquia, o Bolsonaro e quejandos. Todos no poder. É perigoso dar a mão e palco a esta gente? Claro que é. Pois é isso que o Rui Rio acaba de fazer.

Repararam com certeza que não mencionei o Bloco. Resolvi omiti-lo desta equação, porque o Bloco para mim não é nada de enquadrável ideologicamente e está muito longe de ser uma ameaça para o regime democrático. São uma súmula e uma amálgama dos antigos grupúsculos de extrema-esquerda entretanto irrelevantes, transformados numa espécie de comunistas mais fofinhos e libertários, sem o histórico sério e pesado do PCP. Na Grécia, chegados ao poder através do Syriza, depois do desmoronamento do PASOK, governaram como qualquer bom europeu depois de terem percebido que quase nenhum dos seus governados queria abandonar a União Europeia. Portanto, o Bloco é mais conversa. Conversa que pode ser útil para o PS português, por exemplo, se os tiver como aliados, nos ataques à direita decadente. Calma, pode parecer que lhes estou a chamar idiotas úteis. Então, mas não chegaram ao poder na Grécia? Sim, chegaram. Por isso, vai daqui um “piqueno” elogio: direi que podem ser um “PS sobresselente” e, mesmo assim, são precisas circunstâncias.

Do novo amigo do Rui Rio

André Ventura mostra-se cauteloso, quiçá agnóstico ou então humilde, na questão de atribuir aos processos e dinâmicas da reencarnação a responsabilidade pela presença do espírito de Sá Carneiro dentro dele. Que se trata de um espírito, e que a sua propriedade é de Sá Carneiro, sobre isso não duvida. Como explica publicamente, sente a coisa a preencher-lhe o interior de si próprio, daí a sua confiança na identificação do que seja. Agora, saber como é que esse espírito lá foi parar e ter certezas a respeito, aí o cavalheiro revela prudência. A problemática é sobrenaturalmente complexa, como se sabe dos estudos budistas e pitagóricos (para só referir as tradições mais populares acerca do assunto). Devemos todos aplaudir a postura de André Ventura numa matéria onde, se não fosse tão decente e responsável, facilmente estaria a dar largas à pulsão de reclamar já uma reencarnação consumada, completa, oficial do tal espírito do tal Sá Carneiro que lhe está a dar força para lutar. Com ele não há cá desses populismos exploradores da crendice da turbamulta, antes prefere a austeridade e rigor do método científico, ficando à espera da evidência empírica.

Já em relação a Fátima, André Ventura partilha inequívocas convicções e disponibiliza as datas para quem as quiser confirmar. A chave está no dia 13 de Maio, quase sempre um dia propício para piqueniques e o uso de sandálias abertas e/ou camisolas de manga cava (para quem goste, não é obrigatório) desde que não chova. No caso deste senhor, ficamos na posse de um segredo: ele tem o sonho de concorrer para um qualquer lugar na Junta de Freguesia de Fátima. É bonito, é o que o povo merece, boa sorte André!

Quanto a querer todas as igrejas cristãs no CHEGA, o enfoque deve ser integralmente dirigido ao verbo. André Ventura sabe muito bem, e muitíssimo melhor do que nós pecadores e mortais, que não vale a pena estar a convidar, a sugerir, a pedir às igrejas cristãs para se reunirem espontaneamente num lugar à sua escolha. Tiveram dois mil anos para o fazer e deu invariavelmente merda. Pelo que só resta aparecer algo que imponha o triunfo da sua vontade. Essa entidade é André Ventura, muito provavelmente (é uma fezada minha, admito-o) por ser André Ventura o próprio Deus que essas igrejas dizem adorar e com quem vão passar a poder enviar pedidos e receber ordens directas sem as demoras das rezas e outras soluções arcaicas. Basta que declarem aceitar a sua transformação em franchisados do CHEGA e pronto, haverá logo distribuição de pacotes de leite e de frascos de mel nas assembleias religiosas aderentes. Aliás, o papa Francisco já foi avisado pelo nosso comandante de que vai ser despedido por incompetência não tarda. Justíssima decisão.

Pelo que tudo acaba por se resumir ao Paulo Pedroso, conclui-se inevitavelmente sem surpresa. Paulo Pedroso deixa o espírito de Sá Carneiro aos saltos, com isso provocando movimentos musculares descontrolados no André Ventura (alguns deles peristálticos, com todos os inconvenientes que se podem imaginar numa figura com tanta exposição pública). Paulo Pedroso, há que ter coragem para o dizer, nunca seria eleito para a Junta de Freguesia de Fátima, como acabará por acontecer ao André Ventura se existir alguma réstia de providência divina neste mundo. E o Pedroso, vamos falar francamente, não tem pinta de ter sido criado pelo mesmo Deus que está ao comando do CHEGA. Aquilo é mais obra do Diabo; ou até coisa pior, tal o cheiro a decência e a Estado de direito democrático que exala.

Ontem, Rui Rio e Manuela Ferreira Leite explicaram que o PSD está feliz com o início de uma amizade que promete casamento. O que se passa nos Açores não é para ficar nos Açores, é para chegar ao Continente, ocupar o Parlamento e tomar de assalto S. Bento. Foi o que se fez na Revolução Liberal, é o que se vai fazer na Santa Aliança em que o CHEGA pode – e deve – continuar a arregimentar o seu exército para-anormal, prometendo o Apocalipse da República e da racionalidade, enquanto o PSD trata das relações públicas dessa intimidade amorosa de forma a garantir a “moderação” nos costumes.

Tudo a bem da Nação, escusado será lembrar.

Começa a semana com isto

Há muitos truques com animais que “falam”, que “cantam”, que “fazem contas”. Até há truques para eleger animais para cargos de representação política. Se for aqui o caso, pelo menos o nosso tempo não será desperdiçado porque a cadela é giríssima. Mas também poderemos estar a assistir a uma descoberta. Ou a contribuir para um negócio. Ou ambos. Foi para isto que o Al Gore inventou a Internet, essa é que é essa.

 

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Os sósias de Trump

Podia dar um tiro a alguém no meio da 5.ª Avenida e não perdia um único voto, OK?“, disse Trump num comício em Janeiro de 2016. Esta declaração foi interpretada como mera manobra retórica, uma metáfora provocatória, chocante, para alimentar a voragem mediática que fez de Trump um exímio manipulador dos processos fanatizantes que lhe foram dando crescente força política. Mas o que nessa altura ainda podia passar por desbocada extravagância deixou de o ser quando, ao mesmo tempo, vimos há dias Steve Bannon a fantasiar a decapitação de Anthony Fauci e de Christopher Wray e, a partir da Casa Branca, com o selo da presidência atrás de si, vimos um Presidente dos Estados Unidos da América a dizer que a contagem de votos após o dia da eleição iria provocar situações de “perigo físico” por causa da violência vinda das ruas contra os funcionários eleitorais.

Pode-se fingir, por mil razões e circunstâncias, que não se tomou conhecimento destes factos. Não se pode é, sob pena de tal implicar não se estar na posse das capacidades cognitivas mínimas para ser autónomo, ignorar que estas duas pessoas estão activamente a tentar provocar crimes, e que esses crimes são potencialmente assassinatos, e que esses assassinatos visam o prémio supremo de atingirem Joe Biden. Num país em que há 120 armas na posse de particulares por cada 100 indivíduos, e em que os grupos militarizados do racismo, fascismo e nazismo norte-americanos foram convidados por Trump a ficarem em “stand by“, não é difícil prever o futuro. Num país em que pela primeira vez na sua História se vê um Presidente a tentar dinamitar a democracia no que tem de mais sagrado, a descoberta da vontade soberana dos cidadãos, e a recusar-se a aceitar a derrota, prever que o futuro desejado por Trump é a explosão demente do ódio letal não custa.

Aos ingénuos, como eu, é sempre uma surpresa ver pulhas com protagonismo social e poder político. O pulha é pulha porque se sente impune, seja este chamado Trump com uma espantosa carreira de vigarices ou um infeliz qualquer a despejar merda numa caixa de comentários perto de si. O pulha só respeita uma lei, a do vale tudo. E, porque foi tendo sucesso praticando essa anomia, não só fica condenado a ver todos os adversários como imitações de si mesmo como jamais respeitará qualquer valor que implique ter de abdicar do que considera ser a sua poção mágica. Convém é reconhecer que a pulhice é um factor que explica maioritariamente o que vemos acontecer no que se chama “fazer política” quando está em causa a direita decadente – isto é, a direita que não assume e promove o Estado de direito democrático e os direitos humanos como fundamentos invioláveis de qualquer ideologia ou programa político.

Por exemplo, quem leia e oiça Eduardo Dâmaso e Octávio Ribeiro a gabarem-se de conseguir cometer crimes em conluio com magistrados, de perseguir alvos políticos e de envenenar o espaço público com calúnias, ainda gozando com a concorrência que vai indo à falência por estar agarrada à deontologia jornalística, encontra sósias de Trump. Por exemplo, quem usa violações do segredo de justiça e captações da privacidade de testemunhas, suspeitos e arguidos (portanto, cidadãos estritamente inocentes ao tempo da captura dos materiais e sua exploração mediática) para ganhar dinheiro na comunicação social a fazer assassinatos de carácter é um sósia de Trump. E, sem outro exemplo comparável em Portugal, quem faz acordos políticos com um partido dirigido por uma pessoa que se mostra não só disponível mas febrilmente interessada em violar direitos de outras pessoas e em transformar a nossa comunidade no terreno selvagem de uma desumanização cada vez maior e mais perigosa, esses idiotas são sósias de Trump.

Democracia celular

As eleições nos Estados Unidos estão a animar os que estão cansados da democracia. O director do Público, por exemplo, está tão cansado que não está para procurar outras causas para o que se passou e está a passar naquele país, para ele a culpa é da falta de saúde da democracia. Mas quando aponta como causas para a doença da democracia “a desigualdade extrema” e “o empobrecimento das classes trabalhadoras”, aposto que não está a pensar apenas na democracia americana. Parece-me que está a querer dizer que a democracia não serve para resolver os problemas da Humanidade.

O que ele talvez não saiba é que as suas próprias células se calhar discordam. Como toda a gente sabe, as células nascem, vivem e morrem. Provavelmente, se fôssemos nós a decidir o que fazer a uma célula que deixou de cumprir as suas funções, a sua eliminação seria automática. Contudo, no complexo e altamente sofisticado mundo das células a coisa nem sempre se passa assim. Em determinadas circunstâncias, a célula em causa emite sinais químicos à vizinhança a dar conta do seu estado, ainda assim a sua eliminação só ocorre quando a maioria das células vizinhas “vota” nesse sentido. A democracia em todo o seu esplendor! Mas também aqui o sistema não é perfeito. De vez em quando surgem células que se cansam das regras da comunidade. Comportam-se de forma totalmente egoísta, esquecem o bem comum e trabalham exclusivamente para si próprias. Chama-se tumor e todos sabemos como é que pode acabar. Há cientistas que dizem que são sistemas extremamente inteligentes. Não concordo. Quão mais eficientes mais depressa se aproximam do seu próprio fim, não me parece lá muito inteligente. E podemos questionar porque é que os organismos não adoptam outro sistema. Um que não permita o surgimento de agrupamentos celulares hostis? Porque o processo que permite que surjam – mutações que ocorrem aquando da divisão celular – é o mesmo que permite que as espécies evoluam e se adaptem a novos ambientes. É o que nos trouxe a todos até aqui.

Portanto, quem pensa que a democracia é chão que já deu uvas, um sistema passageiro e ineficaz inventado por quem não tinha mais o que fazer, talvez possa sugerir um sistema alternativo à velhinha Natureza. Força nisso!

Da tribo à cidade

Perguntei a um amigo meu em quem ia votar. “Trump”, respondeu tranquilo. E acrescentou “Aqui na empresa [de comércio de automóveis] vai tudo votar Trump.” Mas porquê, insisti. “Porque os democratas querem aumentar os impostos”, foi a singular justificação.

O meu amigo vive em Miami. Nasceu em Angola e foi para o Brasil, com oito anos de idade, por causa da descolonização. Veio para Portugal adolescente, em meados dos anos 80, e emigrou para os EUA há 20 anos. É alguém que quer viver em paz com o mundo e com os vizinhos, evitar chatices, aproveitar a vida. Ele não dá atenção à política a não ser na dimensão em que ela afecte o seu conforto e segurança. Egoísmo em vez de altruísmo, individualismo em vez de idealismo, interesses financeiros em vez de valores cívicos e morais. Qual é a surpresa? Nenhuma de nenhuma. Atire a primeira pedra quem estiver em condições de provar que é imune a estas telúricas pulsões.

Assim, a democracia é um gigantesco e imparável caleidoscópio de ilusões. Pode-se votar em Trump porque se é fascista e racista, pode-se votar em Trump porque se papou a propaganda para acéfalos que faz de Biden um perigoso comunista, ou pode-se votar em Trump porque… dólares. Esta mistura de cognições, no caso do apoio a Trump, arrasta a democracia para o limite da sua capacidade de resistência à ameaça interna. Repare-se como os apoiantes de Trump não se importam, antes celebram, que Trump utilize o aparelho de Justiça como se fosse um escritório de advogados que ele contratou ou como se fosse uma polícia política. Atente-se como os apoiantes de Trump celebram, por nem sequer entenderem a importância do que está em causa, a conspurcação da dignidade das instituições soberanas dos EUA que serviu a Trump como táctica de marketing para dominar mediaticamente a política norte-americana.

O tribalismo, por ser um dos mais enraizados mecanismos de sobrevivência colectiva, não convive pacificamente com a democracia. Daí o recorrente triunfo dos ditadores ao longo da História universal. Só a cidade, necessariamente muralhada dada a animalidade inerente ao ser humano, consegue transformar tribos em cidadãos unidos pela liberdade.

Humildade e humilhação

No momento em que teclo, Biden vai à frente em mandatos e na probabilidade de chegar aos 270, mas não passa disso e o resultado final pode ainda demorar horas, dias ou até semanas. Para o Congresso, a desilusão e agonia é igual no lado do Partido Democrata, não apareceu uma vaga que consiga desbloquear o sistema. O que significa que, aconteça o que acontecer, Trump voltou a ganhar. Porque, mesmo que tenha de sair da Casa Branca, nunca irá reconhecer a derrota, irá lançar furiosas e maníacas teorias da conspiração, e deixa o caminho aberto para réplicas de si próprio – talvez logo dentro do seu clã – voltarem a meter o Partido Republicano no bolso.

A madrugada foi uma interminável e crescente experiência de humildade. Estes resultados de 2020 são muito mais surpreendentes do que os já inacreditáveis resultados de 2016. Porque 4 anos depois todo o eleitor americano sabe de ginjeira que Trump promove o racismo e grupos fascistas, que mente por sistema e orgulha-se de violar as leis, que despreza as mulheres e os mais fracos, que boicota a protecção climática do planeta e é responsável pelo aumento da epidemia de coronavírus no seu país e suas letais e socialmente devastadoras consequências. Como é que homens e mulheres, das mais diferentes idades, estilos de vida, regiões, conseguem ignorar este rol de misérias e dar-lhe o seu voto? Seja lá pelo que for, a democracia não é um concurso de argumentos ou motivações, é um simples cálculo de somar. E qualquer resultado é igualmente válido, eis a grandeza – e fragilidade – desta solução para se escolher quem vai governar numa dada comunidade.

Humilhação é outra palavra que se aplica à situação. Ver uma das mais desenvolvidas e historicamente fundamentais democracias a dividir-se para apoiar um tirano irresponsável e megalómano antecipa que a humanidade não deverá ser capaz de lidar com o crescente poder tecnológico que vai adquirindo. Quando a irracionalidade vence graças à democracia, ou ameaça voltar a vencer, as nossas crenças acerca da existência de uma preferência universal pela defesa dos direitos humanos fica irreversivelmente abalada, em queda.

Trump, Platão e Aristóteles

Imaginemos que todos os anos o Estado recorria a voluntários para termos professores nas escolas públicas – tivessem eles competências pedagógicas ou não. E que depois, para cumprir a democracia, quem aparecesse escolhia a matéria que queria dar apenas tendo como critério o seu gosto.

Imaginemos que quando o Estado queria construir uma estrada ou uma ponte abria um concurso a que podiam concorrer todos os cidadãos – com ou sem conhecimentos de engenharia, com ou sem recursos para fazer a obra. E que depois, para cumprir a democracia, o Estado atribuía a empreitada por sorteio.

Imaginemos que ao irmos ao hospital público havia uma lista de nomes para escolhermos – nessa lista aparecendo pessoas com conhecimentos de medicina, uns, de enfermagem, outros, e ainda pessoas sem conhecimento de nenhuma dessas áreas. E que depois, para cumprir a democracia, tínhamos de escolher às cegas com quem nos iríamos tentar tratar.

São exemplos grotescos de tão estúpidos, tão irracionais, tão impossíveis de aceitar, né?

Mas, então, por que misterioso processo mental aceitamos qualquer desqualificado para governar não só a educação, as obras públicas e a saúde mas todas as áreas onde o Estado exerce o seu poder? Por que raio não só desqualificados como retintos pulhas podem vir a ocupar lugares no Parlamento, em S. Bento e em Belém?

Por estas e por outras, a ciência política, desde Platão e Aristóteles, foi sempre uma investigação sobre os perigos da democracia para a coesão das comunidades. Em 2016, Trump deu-lhes razão. Em 2020, com as ameaças explícitas de querer provocar o caos e instigar à violência armada caso perca as eleições, Trump dá-lhes toda a razão.

Onde Platão e Aristóteles têm de baixar a grimpa é na contemplação da resposta dos cidadãos americanos, que estão a votar como se a sua vida dependesse disso. E depende, tragicamente. Gloriosamente.

Começa a semana com isto

The Flexibility of Female Sexuality with Wednesday Martin

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Para quem começou o fim-de-semana a ler A grande descoberta da vagina – que afinal se chama vulva – e desse grande mistério, o clítoris, onde se fala da anatomia e sexualidade feminina com ciência e sapiência, sugiro que se aproveite o balanço ficando a conhecer mais um olhar onde, a partir da ciência, se faz feminismo que é verdadeiro e fundamental humanismo. Não temos de concordar com tudo o que a Wednesday Martin diz, temos é de reconhecer que muito provavelmente ela sabe bem mais do assunto do que a enormíssima maioria de nós.

E posto que a semana tem vários dias à disposição, gastar um deles com Mais alguma vez nos vamos apaixonar?, recolha de testemunhos que dá a ver um mosaico de memórias e desejos imarcescíveis colados pela ternura da escrita, compõe um belíssimo ramalhete de inteligência sexual.

Revolution through evolution

Gender insecurity prompts women MMA fighters to date hypermasculine men
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World’s first agreed guidance for people with diabetes to exercise safely
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Positive Student-Teacher Relationships Benefit Students’ Long-Term Health, Study Finds
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Positive Outlook Predicts Less Memory Decline
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Good mental health and better sleep for the physically active
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Trump Supporters Increasingly Less Likely to Trust Health Officials, Survey Finds
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Cognitive decline distorts political choices, UCI-led study says
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