Da tribo à cidade

Perguntei a um amigo meu em quem ia votar. “Trump”, respondeu tranquilo. E acrescentou “Aqui na empresa [de comércio de automóveis] vai tudo votar Trump.” Mas porquê, insisti. “Porque os democratas querem aumentar os impostos”, foi a singular justificação.

O meu amigo vive em Miami. Nasceu em Angola e foi para o Brasil, com oito anos de idade, por causa da descolonização. Veio para Portugal adolescente, em meados dos anos 80, e emigrou para os EUA há 20 anos. É alguém que quer viver em paz com o mundo e com os vizinhos, evitar chatices, aproveitar a vida. Ele não dá atenção à política a não ser na dimensão em que ela afecte o seu conforto e segurança. Egoísmo em vez de altruísmo, individualismo em vez de idealismo, interesses financeiros em vez de valores cívicos e morais. Qual é a surpresa? Nenhuma de nenhuma. Atire a primeira pedra quem estiver em condições de provar que é imune a estas telúricas pulsões.

Assim, a democracia é um gigantesco e imparável caleidoscópio de ilusões. Pode-se votar em Trump porque se é fascista e racista, pode-se votar em Trump porque se papou a propaganda para acéfalos que faz de Biden um perigoso comunista, ou pode-se votar em Trump porque… dólares. Esta mistura de cognições, no caso do apoio a Trump, arrasta a democracia para o limite da sua capacidade de resistência à ameaça interna. Repare-se como os apoiantes de Trump não se importam, antes celebram, que Trump utilize o aparelho de Justiça como se fosse um escritório de advogados que ele contratou ou como se fosse uma polícia política. Atente-se como os apoiantes de Trump celebram, por nem sequer entenderem a importância do que está em causa, a conspurcação da dignidade das instituições soberanas dos EUA que serviu a Trump como táctica de marketing para dominar mediaticamente a política norte-americana.

O tribalismo, por ser um dos mais enraizados mecanismos de sobrevivência colectiva, não convive pacificamente com a democracia. Daí o recorrente triunfo dos ditadores ao longo da História universal. Só a cidade, necessariamente muralhada dada a animalidade inerente ao ser humano, consegue transformar tribos em cidadãos unidos pela liberdade.

10 thoughts on “Da tribo à cidade”

  1. Só a Filosofia pode fazer isso…organizar a Cidade para que isso possa ser real. Mas como toda a gente hoje quer é consumir , fast e a crédito de preferência, não estou a ver onde vão arranjar tempo para pensar.

  2. O apuramento dos resultados da eleição nos USA lembra os nossos. Aqui em Portugal , encerrada a votação,sabem-se as sondagens à boca das urnas, fazem-se as previsões dos intervalos para cada candidato, duas ou três horas mais tarde tudo está terminado,e sabido !
    Será o nosso atraso atávico que nos faz ser tão expeditos nessa matéria ? Deveríamos demorar semanas a contar os votos?
    Ou o sacana do Rei vai mesmo nu ???

  3. “apoiantes de Trump não se importam, antes celebram, que Trump utilize o aparelho de Justiça como se fosse um escritório de advogados”

    Tal como os seus detractores se serviram das Agências de Inteligência, e de uma parte do mesmo aparelho, para manter quase até ao fim uma espada de suspeição sobre o seu mandato?

  4. … mas ao ouvi-lo à bocado, enquanto dizia as alarvades do costume, notei-lhe um tom monocórdico, repetitivo, de quem tenta auto-estimular-se, um autêntico CALIMERO.
    … parece que vai ser preciso mandar os marines tirá-lo da Casa Branca á chapada …

  5. “O apuramento dos resultados da eleição nos USA lembra os nossos. Aqui em Portugal , encerrada a votação,sabem-se as sondagens à boca das urnas, fazem-se as previsões dos intervalos para cada candidato, duas ou três horas mais tarde tudo está terminado,e sabido !”

    dimensão
    portugal: 11 milhões de eleitores / 92 090 km² / voto: 1 cruz por boletim
    usa: 210 milhões de eleitores /9 147 420 km² / voto: 4 a 30 cruzes por boletim, depende do estado

    contagem de votos
    portugal: cada mesa de voto conta os seus votos (cerca de 1.000)
    usa: os votos são enviados para os centros contagem dos estados onde são contabilizados
    (comparar o tempo na contagem dos votos por correspondência em ambos países)

    “Será o nosso atraso atávico que nos faz ser tão expeditos nessa matéria ? ”
    o atávico és tu, que cagas opiniões ser perceber nada do funcionamento do sistema e da realidade.

    “Deveríamos demorar semanas a contar os votos?”
    sim, se isso evitar alteração da ordem pública. se houver probabilida de uma guerra civil é natural que ambas as partes (d+r) precisem de mais tempo para negociar uma saída ou convencer o trump a desistir antes dos “marines tirá-lo da Casa Branca á chapada …”

    “Ou o sacana do Rei vai mesmo nu ???”
    se calhar vai, mas isso será segredo bem guardado até estar resolvido. cá, já tinha sido 1ª. página do manholas e o ventoínhas já tinha confirmado que a procuradoria estava a investigar.

    adeus. ganha juízo e não digas tanta asneira, que parece um tributo ao trumpalhadas.

    * https://www.youtube.com/watch?v=glggureA_Kk

  6. Isto é deep :

    “ Só a cidade, necessariamente muralhada dada a animalidade inerente ao ser humano, consegue transformar tribos em cidadãos unidos pela liberdade “

    Como ?

    Que me lembre assim de repente, – e correndo o risco de o comentário não passar no crivo da censura prévia porque você não é lá muito tolerante no que concerne a escrever sobre os judeus e sobre o estado que fundaram – apenas os judeus, construiram um estado ( melhor dizendo, um etno-estado, visto que a tendência mais recente, de Nethan Yahoo, e a mais antiga, de Ariel Chorão, apenas permite a judeus e a mais ninguém, estabelecerem-se e viverem lá, – não escrevo o nome do país, porque senão activo o “filtro” ) que sendo mais ou menos (mais-que-menos) “muralhado”, se assemelha algo áquilo que você propõe (e ainda assim, sendo discutível, se vivem apenas e só em liberdade, ou se coexistem no dito etno-estado, a liberdade e a animalidade, e a meu ver e pela maneira como tratam os palestinianos, existe sem dúvida, animalidade ) .

    E o mais irónico da “coisa” é que dantes viviam em ghetos e diziam-se discriminados, depois, e logo que fizeram um estado, fizeram dele, e vivem dentro dele, como num gheto, protegido por um muro ou muralhas.
    Só que falta acrescentar, que vivem em ambos os lados da muralha, dentro, e fora do muro (nos territórios ocupados ).

    Faça agora, se faz favor, o resto do raciocínio, para que a sua tese obtenha vencimento, ou então, e direi assim, “resigne-se” à conclusão da inevitabiliade, da coexistência da liberdade e da animalidade, ou, se quizer, e dito de outro modo, da impossibilidade de, apenas e só, a liberdade pura, ( isto é, a essência que resulta do modo correcto de ser, estar e existir, expurgado de qualquer animalidade ) poder, apenas ela, existir .
    Aliás, a própria liberdade, à priori, pela sua própria natureza de “abertura a “, pode, conter dentro dela, a animalidade .
    Portanto, é uma realidade que não é solúvel de um dia para o outro, muito menos garantida e irreversível/imutável a prazo certo, tem um custo de muitos éons de evolução humana, e é precisamente para isso que cá andamos todos, a fazer um caminho , que se chama vida .

  7. Caríssimo Geórgia
    Noto com agrado que as aulas de civismo,português e hermenêutica tem produzido efeitos,mais que visíveis ,no seu psiquismo.
    A ironia em caixa de comentários é um animal raro,em vias de extinção. Tal não concede ao caceteiro direito a dar pauladas em todo o bicho careta e em todo o matagal que lhe apareça.
    Voltando à contagem de votos em Portugal versus USA: cá,os votos são contados e conferidos na Assembleia de Voto,logo enviados para a sede do concelho que os transmite, de imediato, à organização distrital que os faz chegar a Lisboa. O erro,se acontecer, imediatamente é detectado pelos fiscais dos candidatos presentes nas Assembleias de Voto e nos diferentes níveis de manuseamento de dados.
    Como se faz nos USA não sei nem quero saber: dado que nas passadas eleições Trump ganhou com menos 4.000.000 de votos que a candidata derrotada (?), seja lá como for, é um logro o super(?) sistema.
    Quanto à demora evitar a pancadaria ,essa é a sua opinião. Acho precisamente o contrário.
    Quanto à rudeza da sua linguagem,quem se assusta morre mil vezes,eu só quero e vou morrer uma única vez, basta-me.
    Saúde !

  8. “Como se faz nos USA não sei nem quero saber”
    o que não te impede de botar opinião e cagares umas “ironias” sobre a eficiência na contagem de votos portugal vs usa.

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