Todos os artigos de Valupi

Marcelo, sibila da decadência

Deve-se ouvir estas palavras do actual Presidente da República com toda a atenção: Dissolução da AR? Marcelo pede a partidos para garantirem estabilidade e evitarem “más notícias”

Nelas, ele discorre sobre dois assuntos, e apenas dois. Quanto ao primeiro, é impossível descobrir do que se trata. A expressão “factores de instabilidade” carece de senha ou intérprete oficial para se dar ao entendimento. Ignorando do que se está a falar, ignoramos as referências conexas e complementares presentes nas suas declarações — destacadas, e enfatizadas, pela comunicação social com o obsceno intento de espalhar alarmismo. O segundo, consiste na repetição de que ele, se lhe apetecer, obriga o País a eleições legislativas antecipadas.

Para darmos conta do contexto das suas palavras é necessário o exercício de memória relativo ao número de vezes que, nos últimos 6 meses, Marcelo verbalizou (e mandou verbalizar) exactamente o mesmo, isso de os Presidentes da República terem o poder de dissolver a Assembleia da República. Ajudaria muito nesse exercício dispormos de um mapa com o calendário dessas ocasiões. O primeiro resultado de tal análise seria o de se constatar que estamos perante um fenómeno inaudito. Nem Cavaco, no auge do seu combate e boicote aos Governos de Sócrates, teve este comportamento, optando antes por assassinatos de carácter e golpadas (bem pior, vai sem discussão). Logo a seguir, interessava recuperar o que antecede este ciclo, o período do início do Governo maioritário onde Marcelo se afundou num desnorte posicional súbito e imparável. Para além da perseguição patareca a ministros, foram os casos do Qatar e dos abusos sexuais na Igreja Católica portuguesa, em que Marcelo não esteve à altura das suas responsabilidades institucionais, a suscitar polémicas públicas de profundo mal-estar sociológico, deixando a direita em pânico. No Expresso apareceu a temática do “cansaço” de Marcelo, como justificação para a perplexidade da sua inépcia, e chegou-se a falar no comentariado direitola em “renúncia” ao mandato presidencial. Nisto, caiu do céu o caso TAP.

A TAP transportou Marcelo e Montenegro para uma ilha paradisíaca onde se podem fantasiar como os decisores do destino político de Portugal. Levados ao colo pela imprensa unanimemente ao serviço do ataque ao Governo e ao PS, um repete sem parar que está quase a rebentar com a maioria e o outro incha o peito a dizer que vai ser tudo dele. Se fosse apenas farronca e folclore, não apareceriam sinais de alarme relevantes (vindos de Santana Lopes, Rui Moreira, António Barreto, outros) onde se apela a Marcelo, e a quem o influencia, para acabar com a degradação institucional da Presidência, a qual é activamente um factor de instabilidade política.

Uma instabilidade política já tão inconsciente e inimputável que acaba a representar a denúncia do que é e faz. A serpente a engolir-se a si mesma.

O jornalismo é excepcional

«São considerados jornalistas aqueles que, como ocupação principal, permanente e remunerada, exercem com capacidade editorial funções de pesquisa, recolha, selecção e tratamento de factos, notícias ou opiniões, através de texto, imagem ou som, destinados a divulgação, com fins informativos, pela imprensa, por agência noticiosa, pela rádio, pela televisão ou por qualquer outro meio electrónico de difusão.»

Fonte

Nesta definição legal do que é ser jornalista, a parte mais importante é a locução adverbial “com fins informativos”. Se o fim é informativo, então a montante a capacidade editorial nas funções de pesquisa, recolha, selecção e tratamento de factos, notícias ou opiniões terá de ser coerente com essa finalidade para se constituir como jornalismo. Parece simples de perceber.

E em que consiste informar? O melhor tratamento da questão será aquele que os próprios jornalistas elaboram livremente e de comum acordo: Novo Código Deontológico. O que nos deixa com uma perplexidade nas mãos. A fundada, sistemática, diária, horária confirmação de que os rotulados jornalistas, inclusive na imprensa considerada “de referência”, cagam d’alto na deontologia da sua profissão.

Ora, se os jornalistas não respeitam o que os próprios definem como acto informativo, decorre que os jornalistas não são jornalistas. São outra coisa qualquer, perversa e tóxica.

Há excepções? Há. Há excepções. Excepções.

Malhar no Daniel Oliveira

Neste Augusto Santos Silva: o Partido Socialista é o regime? temos Daniel Oliveira a falhar nova oportunidade de criar uma de duas coisas: ou jornalismo ou opinião. Apesar da hora e quarenta minutos no ficheiro, num formato que não tem limite algum de tempo para além do que os próprios estabeleçam, o resultado é mais um exercício masturbatório do entrevistador. Não revela qualquer intento de oferecer ao público algo surpreendente (no sentido de acrescento relevante) nascido da inteligência e experiência de vida de Santos Silva. Em vez disso, quem perguntava despejou para cima de quem respondia as suas próprias opiniões de comentador profissional, dando-se por satisfeito quando assinalava a sua discordância e passava para a pergunta seguinte. A minha exasperação com esta superficialidade foi atingida na questão sobre a inflação e qual a política salarial que melhor faria diminuir os seus efeitos. Para o Daniel, o tipo de inflação em causa pede aumentos de salários; para o Augusto, esses aumentos levariam ao prolongamento da espiral inflacionista. Quando o entrevistador usou um argumento de autoridade para defender a sua opinião, o entrevistado usou outro. A situação, portanto, era perfeita para se aprofundar essa oposição, indo-se ao limite do conhecimento de cada um a respeito da matéria e servindo-se à audiência uma argumentação dialéctica e pedagógica. Pois népias, saltou-se para outra coisa. Pedindo emprestada a expressão ao Pacheco, “mau trabalho”.

Não ter feito uma única pergunta a respeito de Sócrates, quando se anda há anos a declarar publicamente a sua convicção de culpabilidade, coloca Daniel Oliveira como activo colaborador da indústria da calúnia. É previsível que a sua justificação para tal seja a de que o tema Sócrates está enterrado, é um processo de condenação concluído sem carência de se esperar pelo que a Justiça venha a deliberar. Mas, até por essa lógica, por que bizarra razão não se confronta Santos Silva acerca disso mesmo? Será que o Sr. Oliveira ignorava ter sido o seu convidado um dos mais próximos e importantes aliados do que carimba como um primeiro-ministro corrupto? Será que não teve coragem para afrontar, maldispor, o ex-ministro socrático com a vexata quaestio de ter sido unha com carne do que então será um dos maiores e mais infames criminosos da História portuguesa? Ou será que a verdadeira razão do seu silêncio remete antes para o cálculo de que as palavras do actual Presidente da Assembleia da República o expusessem a si como pulha?

Augusto Santos Silva daria um magnífico Presidente da República. Seria o primeiro a levar para o Palácio de Belém a cultura e a prática científica. Cada discurso seu ajudaria o País a pensar e a conhecer-se, a crescer. E ainda espalharia um humor sofisticado e erudito. Que pena se não acontecer.

Paiva Couceiro goes to Aspirina B

É uma evidência que (com ilustres excepções, odiadas, aliás, por este blogue) o PS foi sempre, desde a sua fundação, um bando de burgueses videirinhos (na melhor das hipóteses) ou de bandidos (na pior, com destaque para o sociopata venerado neste blogue), que usa o paleio do “humanismo” e do “socialismo” para arranjar empregos para a família e negócios para os amigos, tirando partido do medo, da miséria, da ignorância, e da falta de oportunidades deste país, em que dois terços das pessoas depende da gamela do estado para sobreviver. Em suma, o PS é o continuador, no paleio, nos métodos e nos resultados, da obra dos “democráticos” da República (só falta o colapso do regime democrático, que virá no dia a seguir a faltar o cheque da UE). Qualquer dúvida que existisse acerca da natureza do PS, acabou no dia em que, por absoluta fome de poder, o A. Costa do século XXI, tendo perdido as eleições mais fáceis de ganhar da nossa história democrática, se juntou àqueles que na véspera apodava de extremistas (os “Venturas” da altura), para formar um governo, com toda a seita a gabar-lhe o “génio político” (com ilustres excepções, odiadas, aliás, por este blogue). Escandalizar-se perante a hipótese de o PSD de fazer exactamente o mesmo, não passa de mais um exercício de refinado cinismo, como é dizer que o Ventura “já ameaçou passar à violência física” quando quem esteve para bater num velhote qualquer foi o A. Costa, e quem bateu mesmo, e a sério, no Assis foram os próprios militantes do PS (aliás, não foram os detractores do PS “quem se mete com o PS leva”, foi um figurão da própria seita). A única coisa que espanta é como precisámos de quase três décadas (contadas desde o livro do Rui Mateus) para ver, ouvir e ler artigos que afirmam claramente a natureza deste PS e tiram daí as devidas conclusões para o futuro da democracia portuguesa.


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Gossip influences who gets ahead in different cultures
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Diverse teams survive longer when facing environmental changes
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Teachers who struggle to cope with stress report far lower job satisfaction, study finds
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Conspiracy theories fuel populism
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Dominguice

Ninguém sabe como se vai comportar no futuro. Correcção: ninguém sabe como se vai comportar no presente. Pois o presente apenas existe como transição do futuro para o passado. Ao não sabermos de nós nesses amanhãs, ao não estarmos sujeitos a esses contextos inevitavelmente únicos, ignoramos se haverá cantorias ou choradeira ao chegarem. Portanto, não podemos nunca garantir, logo para nós próprios, que calhando termos poder para isso jamais cometeríamos imoralidades, ilicitudes, crimes. A ocasião fazer o ladrão é sapiência da mais elevada previsibilidade.

Que fazer? Só isto: desconfiar em primeiro lugar daqueles que clamam terem os outros de nascer duas vezes para serem tão honestos como eles. Estes e quejandos são os piores, certeza certezinha.

Marcelo causa do irregular funcionamento das instituições

«Rui Moreira considera que é "imprudente" o Presidente da República estar constantemente a falar da dissolução do parlamento. Em entrevista à RTP, o presidente da câmara do Porto defende que esse cenário prejudica o PS e o PSD, sublinhando também que não há motivo para o Governo cair neste momento.

"Se havia um momento em que o Governo poderia ter sido demitido e não foi, não parece, neste momento, que haja razões para uma dissolução do Parlamento, que é uma coisa bem diferente", afirma Rui Moreira, criticando a atuação de Marcelo Rebelo de Sousa.

"Quando o senhor Presidente da República ensaia permanentemente discursos sobre a capacidade ou o poder que tem de dissolver, mas diz que é quando houver uma alternativa, objetivamente isso para quem é que interessa? Interessa para as franjas", atira o autarca do Porto.

Rui Moreira diz que as referências "permanentes" de Marcelo sobre a dissolução "prejudicam o Governo". "Qualquer dia dissolve e já ninguém acredita que ele vai dissolver, acham que é uma brincadeira."

"Acho que é imprudente estar permanentemente a falar nisso, por muito que lhe seja perguntado. Acho que é prejudicial para o PSD, porque dá a ideia de que o PSD não quer ser poder. O PSD e o PS são os dois partidos do poder em Portugal e vão continuar a ser nos tempos mais próximos. Esta situação, não sendo benéfica para estes dois partidos, é benéfica para quem? Para os partidos que estão nas franjas", acrescenta.»


Fonte

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Nota

Temos estadista. Com esta posição, Rui Moreira fica como um excelente candidato presidencial para a direita.

Está frescote? Foram os americanos

Nos dois meses que antecederam a segunda invasão da Ucrânia pela Rússia, os EUA avisaram que esse acontecimento estava próximo, estava para breve, estava iminente. Enquanto o Pentágono constatava não só que as tropas russas se aglomeravam perto da fronteira como toda a logística militar para a invasão desenvolvia-se em marcha acelerada, os russos negavam tal intenção, juravam que eram invenções “ocidentais” e que Moscovo pretendia negociar uma solução. Tantos foram os avisos da Casa Branca, inclusive chegando ao ponto de estabelecer datas precisas para tal, que a insistência gerou reacções de gozação no comentariado da esquerda antiamericana ao se constatar que as previsões falhavam sucessivamente. Para além do prazer em ridicularizar os americanos, os escribas (exemplos nacionais: Miguel Sousa Tavares, Francisco Louçã, Daniel Oliveira, etc.) também davam conta do aparente absurdo estratégico de tal eventual invasão. A tese que os enchia de confiança era a de que Putin não seria tão estúpido como Biden o pintava. Aquilo dos tanques e soldados russos à beirinha da Ucrânia, portanto, era só mais uma jogada provocatória de um mestre em geopolítica e, no fundo, ainda e sempre um agente racional.

A partir de 24 de Fevereiro de 2022, deixou de ser possível continuar a gozar com Washington e um vero dilema preencheu o bestunto dos antiamericanos: ou condenavam a invasão, ou justificavam a invasão. Ou seja, ou tomavam partido pela Ucrânia ou tornavam-se partidários de Putin, não existindo terceira via. Esta situação causou profundo sofrimento moral e graves obstáculos cognitivos, pois interferia com a identidade ideológica e pública de cada uma destas (muitas mais, não só as três citadas) personagens. Com impacto histórico, o PCP de imediato optou por Putin. Com ele, através do pior momento na carreira política de Jerónimo de Sousa (que borrou a pintura do que era até então um belíssimo quadro), os seus militantes e simpatizantes. Mas não só, personalidades insuspeitas de fanatismo, como o já referido Miguel Sousa Tavares ou Vital Moreira, entre muitas outras consideradas moderadas e intelectualmente sofisticadas no socialismo democrático e na social-democracia, tentaram colocar-se numa fantasiada posição equidistante que não passa de um putinismo suave. Isto porque qualquer argumento que remeta para putativas responsabilidades de países e organizações terceiras na decisão de invadir uma nação que não atacou a Rússia serão sempre hipócritas, sonsas e intelectualmente desonestas formas de justificar a decisão de Putin. A propaganda russa e as suas opiniões só divergem na retórica, não na lógica.

Obviamente, pode-se discutir com proveito qual o sentido e benefícios de ir admitindo na NATO países que outrora foram territórios da URSS ou que agora tenham fronteira com a Federação Russa. É uma problemática onde todas as posições são bem-vindas, e que até merecia mais debate público por estar em causa a segurança europeia. O que não é racionalmente admissível é comparar o crescimento de países numa coligação defensiva com a invasão de um país para fins de mudança de regime e conquista territorial. Tal como ensina Tucídides, os invasores têm sempre razão, a sua. Há uma qualquer narrativa agitada para consumo interno e externo pelo agressor. Podemos aferir da grotesca ilegitimidade desta segunda invasão da Ucrânia pelo absurdo gongórico usado como bandeira por Moscovo ao se agarrar a ameaças inexistentes (o ataque à Rússia pela NATO é algo impossível de acontecer sem um prévio ataque russo) e inexistentes realidades (o regime ucraniano é democrático, não é nazi). Estando esta propaganda moscovita a espalhar a pura alucinação, quem escolheu o lado putinista só podia ir aumentando o seu grau de irrealidade e desvario no tortuoso processo da dissonância cognitiva em que se afundaram.

Um dos locais onde este fenómeno putinista atingiu expressão maximalista é o blogue Estátua de Sal. Não conheço o seu autor, acho que nunca sequer trocámos palavra nas caixas de comentário, mas alguns textos meus foram lá parar durante alguns anos antes da invasão — por vezes também eu fazendo ligações para textos publicados aí. Pelo que conheço bem o que era a linha editorial do blogue até Fevereiro do ano passado, caracterizando-se por oferecer um panorama ecléctico de autores colocados no espectro político da esquerda, misturando-se estrelas consagradas com figuras sem projecção mediática, e ainda ilustres nulidades como aqui o pilas. Ora, tudo isso desapareceu, foi varrido, assim que os tanques russos começaram a avançar em direcção a Kiev. Em sua substituição apareceram justificações para os acontecimentos que punham o odioso da questão não em quem escolhera destruir e matar, sem ter sido atacado, mas sim em quem procurava defender-se e em quem estava agora a ajudar aqueles que se queriam defender. A evidente contradição de culpar a vítima precisava de cada vez mais delirantes e inumanas justificações para ser mantida, e foi nesse terreno que o autor do blogue quis erguer um bastião invencível. Trouxe, pois, a propaganda russa na sua versão acéfala, onde os “americanos”, o “Ocidente”, a “Europa” se transformaram em entidades fantásticas, mitológicas, que deviam a sua existência ao único projecto que lhes dava sentido: destruir a mãe Rússia num apocalipse nuclear. Chegados aqui, sendo este o alimento mental de que dependiam para proteger a identidade, não espantou assistir ao nível seguinte da demência. A aberta, consciente, intencional adesão à carnificina de militares e civis ucranianos, num primeiro momento. E o êxtase contemplativo face a uma ordem mundial onde a tirania criminosa de Putin conseguiria impor-se como modelo universal, acabando com as actuais democracias, eis o pináculo da alienação.

Vou dar um singular exemplo do que é o putinismo enquanto aberração cognitiva, aqui: Segundo a Senadora Diana Ivanovici Șoșoacă, os EUA provocaram o terramoto na Turquia e na Síria. Quem ler os comentários, confirmará que o autor do blogue não estava na reinação. Para ele, e para grande parte dos maluquinhos que agrega e congrega, os americanos lembraram-se de atacar a Turquia (aliado dos EUA) via terramoto. Como, porquê ou para quê? O putinista não perde tempo com esses pormenores. Ele sabe que para os americanos tudo é possível, só por serem americanos. Esses cobóis podem mandar terramotos, vulcões, maremotos, inclusive perigosíssimos arco-íris, para onde lhes der na mona. Há até quem garanta que foram os americanos que pegaram fogo ao Sol.

Que se pode dizer? Como contra-argumentar quando a perturbação mental atinge este estado? Aceitam-se sugestões.

Ventura, um político com raça

Se interrompermos a marcha a transeuntes escolhidos ao calhas para lhes perguntar “Conhece João Marques de Almeida?”, mais de 99% irá responder “Não faço ideia de quem seja.” Se de seguida perguntarmos “Conhece João Miguel Tavares?”, perto de 99% irá responder “Sim, claro, faz parte daquele programa do Ricardo Araújo Pereira.” A separá-los, a radical assimetria na popularidade. A juntá-los, o labor mediático para normalizar o Chega e promover uma aliança com o PSD que permita ter um Governo para continuar a obra do passismo, ou coisa pior.

Neste exercício A marginalização do Chega ou o poder absoluto do PS?, o Almeida agita a fórmula: o Chega é só conversa, o inimigo da democracia é o PS! Dois meses depois, o Tavares imita-o ponto por ponto: Há algum perigo maior do que o Chega? Sim, o actual PS. A fórmula volta a ser repetida: Ventura diz umas porcariazitas, mas quem ameaça a democracia é Costa e o PS! Com Trump e Bolsonaro, a cassete foi igual, mutatis mutandis.

Os dois senhores estão na posse dos seus direitos cívicos, desfrutam de liberdade de expressão e possuem variegados interesses legítimos para quererem ter Ventura como ministro disto ou daquilo. A vida vai correr-lhes ainda melhor com o Chega a provar que compensa apelar ao medo, ao tribalismo e ao ódio — é nisso que apostam. Ao mesmo tempo, espalham uma cultura política onde tudo se resume a diabolizar os adversários e a usar qualquer recurso viável para destruir a racionalidade comunitária do debate político. No caso do Chega, para estes dois publicistas trata-se de validar seja o que for que saia do chunguismo de Ventura. Seja o que for. Eles apregoam que o cão ladra mas não morde, é um cordeiro com pele de lobo, no fundo Ventura é um excelente rapaz que anda a sacrificar-se em números de circo para livrar Portugal dos malditos e criminosos socialistas. O que tem as seguintes principais consequências:

1. Ventura dispõe de um aparelho mediático de grande alcance (pelo Tavares e parte do editorialismo) que relativiza, justifica e normaliza um discurso que instiga à violência. Começa por ser a violência verbal, transforma-se inevitavelmente numa violência emocional e simbólica, ambiciona constituir-se como violência política. E não só, o próprio Ventura já ameaçou passar à violência física explicitamente em diversas ocasiões, mostrando que a sua ligação à extrema-direita é bem mais do que apenas para gasto retórico.

2. Almeida e Tavares, ao fazerem a lavagem do Chega, anunciam que tudo o que já disseram ou venham a dizer sobre o BE e o PCP não passa de vácua propaganda. Quanto a honestidade intelectual, vale zero o que bolçam. Porque se admitem servir-se de quem despreza os direitos humanos e os ideais humanistas para alcançar o poder, então o paleio da ameaça esquerdalha fica reduzido ao ranger de dentes oligárquico.

3. Ao se permitirem cultivar imagens públicas onde brincam ao vale tudo, celebrando uma anomia selvagem em que só se vence pela força, esta parelha revela a sua paixão pelas ditaduras, pelos tiranetes providenciais que não se atrapalham com as “verdades” que têm de ser ditas e as porcarias que têm de ser feitas. O critério do que consideram excelência moral mede-se pelo poder, o poder dos seus. Sem acesso ao poder, sentem-se ameaçados pela democracia.

Quando se deu ao Tavares uma raríssima honra da República, colocando-o numa lista onde estão alguns dos mais ilustres portugueses, essa estapafúrdia decisão não passou de um deboche presidencial, o objectivo foi tão-só premiar um caluniador profissional antiPS numa altura em que estava em curso uma vasta e prolongada campanha para pressionar Ivo Rosa no julgamento da Operação Marquês. Mas se calhar Marcelo merece agora o justo reconhecimento de ter profetizado o que em 2019 ainda não era visível. Isso de o Dia da Raça ser realmente o palco mais adequado para o actual projecto político do fulano.

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Brinde:

Revolution through evolution

Lonely people’s divergent thought processes may contribute to feeling ‘alone in a crowded room’
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Smells influence metabolism and aging in mice
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Is artificial intelligence better at assessing heart health?
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Make creativity part of study programs for scientists-in-training, experts urge
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Underground water could be the solution to green heating and cooling
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Elephants as a new model for understanding human evolution
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Most existing methods to tackle conspiracy beliefs are ineffective, study finds
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Dominguice

Porque para cada um de nós o centro é onde está a consciência, a consciência começa naturalmente por acreditar que é esse centro. Sem ajuda exterior, continuará a fantasiar a realidade circundante como uma periferia. Muitas e muitas vezes, quase sempre, não há ajuda exterior que desfaça a alucinação. Através do pensamento mágico, reduzimos o infinito e o mistério a uma chachada. O resultado inevitável de estarmos a falar sozinhos.

A civilização consiste nesse caminho para os outros centros de que não temos consciência. É a curiosidade, estúpido!

A singularização do bem fazer

O conceito “banality of evil” foi criado por Hannah Arendt para analisar e reflectir a sua experiência pessoal ao ser a correspondente da revista The New Yorker no julgamento de Adolfo Eichmann, responsável militar nazi condenado à morte em Jerusalém no ano de 1961. É escusado dar informações acerca de um dos mais famosos julgamentos do século XX, fama surgida precisamente devido à produção intelectual de Arendt a respeito. Mas colhe marcar que estamos perante uma dilacerante questão que nasce do nazismo, remete para o Holocausto e está intimamente relacionada com a condição judia.

Miguel Pinto Luz, por sua vez, talvez venha a ficar na Wikipédia como alguém bem mais importante do que Hannah Arendt para estas matérias atinentes à civilização. Tudo graças ao que lhe passou no bestunto quando resolveu dar o seguinte título a uma cagada publicada na TSF: A banalização do mal fazer. Repare-se no brilhantismo da troca de “banalidade” por “banalização” e do acrescento do verbo, engenharia semiótica para não pagar direitos de autor e adormecer em paz com a sua pulhice. Quem perder o rico tempo a ler o esguicho de ódio, disfarçado de comentário sobre a TAP, chega ao fim e tropeça nesta síntese do seu superior pensamento:

«A grande pergunta que se coloca neste caso é que chefias retirar, que ministros remodelar? E a resposta é óbvia, com esta banalização do mal fazer, com esta transversalidade de uma cultura nefasta, é fácil de concluir que o responsável é só um: aquele que continua calado, o mestre das cortinas de fumo, o nosso primeiro-ministro António Costa.»

Ora, desde que há registos escritos que se podem ler acusações aqui e ali contra esta e aquela “cultura nefasta”. E a etimologia não podia ser mais apropriada ao terreno que o probo Pinto Luz escolheu para atacar os adversários políticos, dado que nefasto significa originalmente “o que está proibido pela lei divina”. Deus, qualquer deus que se preze, não pode curtir essa gente que teima em não respeitar quem manda, vai sem discussão. Daí, na História, o carimbo de “cultura nefasta” ter usualmente precedido a geração de ideias e entusiasmos relativos ao roubo, prisão, tortura, expulsão e assassinato desses em quem a “cultura nefasta” jaz entranhada de forma indelével.

Estará o singular Miguel, portanto, a sugerir que os socialistas são como os nazis, e que, como nazis que são, deviam ser apanhados e condenados à morte dado que neles o “mal fazer” é agora um antro de “banalização”? Não, claro que não, ai jasus. Isso é só o que ele pretende que o povo votante conclua da leitura do seu texto. Mas não tem nada a ver com o que ele pensa. Nada de nadinha de nada. Ele pensa outras coisas, coisas fixes. Com sabor a laranja. Ele nem sequer sabe quem é Hannah Arendt, coitado. Tem bem mais que “bem fazer”.

Lapidar

«Também digno de nota é o silêncio das pessoas com responsabilidades no debate público das leis e do direito. Com algumas exceções, é certo. Dias atrás, por exemplo, um juiz conselheiro decidiu escrever um artigo para dizer enigmaticamente que a lei "está no reino dos vivos", mas evitando comprometer-se com o sorteio dos juízes, que é o que está em discussão. Compreendo. A questão é delicada e convida à prudência e à pusilanimidade, deixando campo aberto para o exercício mais fácil de maldizer o governo e seguir a matilha afirmando que a ausência de regulamentação "alimenta sucessivos incidentes e recursos (...) (com vista) à desejável meta da prescrição". Quanto ao debate, nada; quanto a julgar as intenções dos outros, vale tudo. É tudo o que as luminárias do Direito têm a nos dizer. É a isto que chegámos.»


José Sócrates

ChatGPT dixit

Em abono da verdade, diga-se que não é só Passos Coelho (por actos e omissões) quem manifesta ter uma posição favorável ao papel de Ventura no sistema político nacional. Igualmente Cavaco Silva e Ferreira Leite se pronunciaram a favor de Ventura por alturas do acordo do PSD com o Chega nos Açores. Ou seja, a elite histórica do PSD (com a sua mais importante figura, Cavaco, e a mais desejada, Passos) quer usar os piores instintos da natureza humana para ocupar S. Bento.