
Sócrates não tem rivais. Nem na política, nem na opinião publicada. Não há uma única alma que consiga sequer ser credível na crítica ao Primeiro-ministro, quanto mais relevante. É a primeira vez que esta situação ocorre em Portugal. E é uma sorte estar a acontecer.
Os cães ladram e José Sócrates passa, a correr. Isto resume o principal da sua estratégia de comunicação. O episódio de maior notoriedade na aplicação desta filosofia do douto silêncio foi durante a crise da falta de quórum na Assembleia, em Abril do ano passado. De Sócrates, triplamente responsável perante os eleitores e a Nação, nem um vagido foi escutado. Falaram, pouquíssimo, os lugar-tenentes, nem sequer os coronéis deram a cara. E tudo passou, e rapidamente. Uma das maiores vergonhas na política portuguesa pós-25, sintoma de outros vícios debilitantes e letais para a democracia e a Justiça, foi anestesiada e varrida para debaixo do tapete. Em Portugal, a culpa morre solteira, e virgem.
Mas ele faz bem. Aliás, ele faz bem e o povo gosta; que ele faça, mesmo sem saber o quê. A oposição nada faz, e ainda consegue fazer mal esse nada. Do CDS ao BE, o que se exibe é um paradigma onde ser Oposição consiste em tentar, sempre e por todos os meios, prejudicar a actividade do Governo. Para os envolvidos, o processo é viciante, alienante. Quem aponta falhas imagina-se justiceiro, missionário da Verdade e do Bem comum. Contudo, como as falhas apontadas são invariavelmente demasiado técnicas ou insuficientemente legítimas, o resultado é o de suscitarem respostas suficientes da parte dos responsáveis governativos ou não captarem o interesse público. Porque insistirá a Oposição no seu suicídio?
Quanto aos jornalistas e publicistas, não se safam melhor. As críticas à pose e ao modo de Sócrates são a prova da falência da análise, agarrando-se ao despiciendo, ignorando o essencial. E o essencial é isso de Sócrates ser um chefe político que se decidiu a ser gestor do País. Há muito que a ideologia foi enterrada, só os zombies é que o ignoram, e, por isso, nenhum romantismo o move. Conhece a falibilidade e miséria moral dos seus pares de profissão, está vacinado contra o cinismo paralisante das elites portuguesas, e tem a coragem de ousar decidir a seu favor, a favor do futuro. Ou seja, é o primeiro político do século XXI, o século em que a própria política foi metida na gaveta.
Já temos um Sócrates, esperemos pelo Platão, sem o qual a coisa não fica composta, e o qual irá educar Aristóteles. Mas não o procuremos na Oposição; nem no PS, agora que mandaram o Cravinho dar a grande curva. Esses, todos, só têm cicuta para despejar na Cidade.








