O hífen da questão

ng1012329.jpg

Não escapou aos atentos a suprema ambiguidade desta acção de marketing do Gato Fedorento. A primeira reacção foi de surpresa agradável — em muitos casos esfuziante —, fosse pelo inusitado da intervenção, fosse pela empatia moral assim actualizada. E neste primeiro nível terá ficado a quase totalidade da população. O Gato Fedorento é a mais recente coqueluche nacional, das raras que há, e nem sequer a polarização da questão do aborto os afectou. Estado de graça, pois, que permite brincadeiras displicentes e arroubos de juventude.

Ainda a poeira não tinha baixado e já se podia vislumbrar a face melindrosa do cartaz. O problema não estava no facto de se explorar uma temática política para vender uma imagem comercial; porque, meus amigos, o Gato Fedorento é uma entidade que visa o lucro, não uma representação política ou a intervenção social em nome de um ideal humanitário. O problema formulava-se ao contrário: sob a bandeira da argumentação política contra uma organização no extremo do espectro — usando o estatuto e discurso humorísticos como inovação propagandista —, a acção resultava na anulação do gesto político intencionado. Tão nula foi a consequência que até os nulos do PNR a aproveitaram em seu favor.

Sob vários pontos de vista, é fácil adivinhar registos de irresponsabilidade e cobardia na lógica que permitiu o acontecimento. Irresponsabilidade, porque não se ponderou o efeito de notoriedade conferido à mensagem opositora. E cobardia, porque não faltam causas políticas, sociais e culturais a merecer o contributo cívico de qualquer cidadão, sendo que nesse rol não entram cartazes de grupos de extrema-direita ou ditos nacionalistas. Esse fenómeno, em Portugal, é circense, não tem expressão. Porquê ir bater em mortos, em trinca-espinhas?

Aquém e além do berbicacho moral, não pude deixar de reparar que se grafou “bem vindos” sem hífen. Um pequeno sinal de um grande erro.

57 thoughts on “O hífen da questão”

  1. Não me parece que seja um erro (de resto, inverosímil, se tivermos em conta que o RAP faz parte dos Gato Fedorento). O que está lá são mesmo duas palavras (advérbio e verbo) e não a palavra composta por justaposição. É um daqueles casos em que a gramática textual se sobrepõe à morfologia. Se leres o que vem a seguir ao «Bem vindos», penso que é óbvio que uma parafrase desse «Bem Vindos» poderia ser: ainda bem que vieram que «com Portugueses não vamos lá». Quem conhece bem os Gato, sabe que eles adoram esse tipo de armadilhas. Pelos vistos, caiste nela, primito.

    Quanto à primeira questão, mais importante, também eu tenho as minhas dúvidas sobre o gesto dos Gato. Gostaria muito de acreditar na «eficácia pragmática» da coisa ao nível das mentalidades. Mas parece-me que os únicos que saíram a lucrar foram mesmo os Gato Fedorento. Paciência.

  2. Primo, espantas-me com a tua apologia do óbvio erro. E esclareço: não me espanta a tua simpatia pelos rapazes, mas sim a tua antipatia para com a lógica. Preço que a estima não justifica.

    A tua argumentação consiste, tecnicamente, na utilização do argumento de autoridade: “inverosímil se tivermos em conta que o RAP faz parte dos Gato Fedorento”, “Quem conhece bem os Gato, sabe que eles adoram esse tipo de armadilhas.” Como sabes, argumentos de autoridade não puxam carroças.

    Quanto ao “tour de force” da ligação da expressão “Bem vindos!” com o bloco inferior, é algo que podemos agradecer à tua imaginação e apreciar com ternura. Mas não tem utilidade, porque é absurdo no contexto. O que de facto acontece é que “Bem vindos!” está a ser uma glosa de “Façam boa viagem”, expressão inclusa no cartaz parodiado. Mas tu já sabias disso, certo?

  3. «Tão nula foi a consequência que até os nulos do PNR a aproveitaram em seu favor.»
    – completamente em desacordo; as consequências sentiram-se e de que maneira; não só o sentimento generalizado de justiça (a maior parte das pessoas julgava ilegal a mensagem xenófoba) como se recuperou um bocado da autoestima que se perdeu com a eleição do mister universo de santa comba; sacudir os escrotos do PNR com a chacota geral em praça pública teve um efeito refrescante no crónico pessimismo nacional;

    «Sob vários pontos de vista, é fácil adivinhar registos de irresponsabilidade e cobardia na lógica que permitiu o acontecimento. Irresponsabilidade, porque não se ponderou o efeito de notoriedade conferido à mensagem opositora. E cobardia, porque não faltam causas políticas, sociais e culturais a merecer o contributo cívico de qualquer cidadão, sendo que nesse rol não entram cartazes de grupos de extrema-direita ou ditos nacionalistas.»
    — mais uma vez, completamente errado: (1) o PNR expôs um único cartaz que foi visto por todo país graças ao enfoque dos media; pretender que a acção dos gatos conferiu notariedade à mensagem xenófoba é tiro falhado pois se o primeiro cartaz não tivesse a visibilidade que teve inicialmente, não teria merecido resposta por parte dos humoristas;
    (2) cobardia? o contributo cívico de cidadãos em portugal é por si só um acto de coragem tal é a tacanhice e carneirismo que grassa;

    com o remate final da correcção ortográfica, caro Valupi, parece até que ficou mais incomodado com 2º cartaz do que com o 1º.

    de facto há coisas que falta de coragem não permite assumir, mesmo num espaço cívico tão restrito como a blogosfera.

  4. Valupi,

    Ele há mais causas? Sem dúvida. Mas que fazem os Gato, em cada segundo que nos ocupam, senão defenderem… causas?

    E não é esperteza dos rapazes testarem, com o cartaz, outro tipo de intervenção?

    Por fim: os tipos têm dinheiro, têm visibilidade, têm prestígio. Bela ideia, essa, a de – ganhando mais dinheiro – virem fazer o que tu, e que eu, com dinheiro, visibilidade e prestígio, gostaríamos de poder fazer: encher a cidade de cartazes pelas nossas causas.

  5. Inaltecer o súbito gesto “humanitário” dos GF é menorizar a democracia e os seus cidadãos em particular.

    Foi, isso sim, um oportuno rasgo de marketing social que a empresa GF bem capitalizou.

  6. oraessa

    Se perdeste auto-estima por causa de um programa de televisão, não perdeste grande coisa. Já não devias era ter nenhuma.

    O PNR tem direito a que o seu cartaz (desde que legal) seja visto por toda a gente que calhar vê-lo. Porém – e eu compreendo que o raciocínio seguinte já te escape – ao receberem a atenção do Gato Fedorento (os quais representam a indústria do espectáculo e o gosto popular), receberam concomitantemente uma caução social: foram reconhecidos como interlocutores legítimos; isto é, aparecem como tão importantes que se justifica entrar em diálogo, ou ter uma acção defensiva. Como, ainda por cima, motivaram a intervenção das maiores vedetas de Portugal no momento, a sua causa recebeu uma notoriedade que nenhuma campanha normal alcançaria.

    Há, então, boas razões para considerar o Gato Fedorento como cúmplice do PNR. Cumplicidade que não nasceu da intenção, mas sim da precipitação e do oportunismo. Feitiço que se virou contra o feiticeiro.

    O argumento, que vê na intervenção do GF um resultado do impacto do cartaz do PNR, é completamente falacioso. Nem merece ser desconstruído.

    Finalmente, caro oraessa, concordo muito com a tua última frase.
    __

    fv

    Quanto à esperteza dos rapazes, toda a gente está de acordo: foram uns grandes espertalhões. Mas o meu remoque é este: também se espera que sejam inteligentes.

    Se o fundo moral da acção for esse idealismo que pressupões, pois não faltarão cartazes contra os adversários que lhes poderão fazer, de facto, algum mal. Esses estão no Governo (eventualmente), nas autarquias (eventualmente), nos partidos (eventualmente), nos tribunais (eventualmente), nas empresas (eventualmente), no aparelho de Estado (eventualmente), na RTP (eventualmente), no futebol (eventualmente), na indústria do espectáculo (eventualmente), e em tantos outros locais deste país tão maltratado…

    Ou seja, a fazer fé na bondade da tua convicção, os Gato Fedorento vão cobrir Portugal com milhares, milhões de cartazes.

  7. —> Construir uma uma sociedade sustentável – leia-se, uma sociedade dotada da capacidade de renovação demográfica (ou seja, alcançar a taxa de natalidade de 2,1 filhos por mulher) – dá muito trabalho e fica muito caro:
    -> é necessário um incentivo monetário à natalidade;
    -> é necessário apoio médico à gravidez;
    -> são necessários apoios à Saúde e Educação… até à idade adulta.

    —> Fica muitíssimo mais barato (e dá muito menos trabalho) nacionalizar imigrantes (isto sem falar de muitas outras negociatas de lucro fácil que são feitas à custa de alienígenas).

    —> Isto tem um nome: PARASITISMO NO PLANETA!

  8. Valupi,

    Concordo: nada é inocente, decerto no showbizz. Esse é o aspecto odioso da coisa, aspecto a que tu és nitidamente sensível e que expões convincentemente.

    Mas eu vejo a utilidade da mensagem, a minha sensibilidade vai para aí. O tema, achei eu, mais do que justifica uma posição audível àquele ponto.

    Numa coisa tens, todavia, razão inteira, e nisso não pensara eu: os Gato Fedorento dão a um façanhudo grupo de opinião uma visibilidade imerecida.

  9. Tão certo como ser um erro (apesar de por mais uns anos apenas porque acabará por ter de se aceitar…) escrever bem-vindos sem hífen, ou eliotiano com maiúscula e dois eles é que não foi RAP a escrever aquilo.

  10. Ó começo do cartaz pensei, ganda malha!
    Ó depois hesitei e disse à minha, pensando bem a coisa não me cheira!
    Ó fim vem o Valupi explicar e tem razão, aquilo é tiro de culatra!
    E digo mais, os fadorentos já estão a caminho do eclipse. Porquê não sei dizer, mas o Valupi sabe, se quiser.

  11. Qual é o mal de dar visibilidade ao PNR? Os gatos nao concordam com eles (nem eu) e descobrir-lhes a careca pode ser a melhor maneira de chamar a atenção para um problema que existe (vide as prisões de hoje).

    Pretender que os gatos assumam posições em tudo – a partir de agora – é, no fundo, um exortar à inacção. Como é sabido, é impossível ir a todas, logo, para não deixar ninguém de fora, nao vamos fazer nada. É o mesmo raciocínio que diz: entao os EUA vão ao Kuwait, ocupado pelo Iraque? Entao porque é que nao vao a Timor? E a etc? E a etc?

    Finalmente, dizer que onde “lhes poderao fazer algum mal” é no Governo, nas autarquias, nas empresas, etc, é ser muito cínico e “esquecer” que houve ameaças bem reais à família do RAP.

  12. Tamém tenho a dizer ó senhor Punão que negociatas há, sempre que mete gado.´
    E que há parasitismo, si senhor. Há muito tempo. Eu sempre que calha ir à Mina, ao Ajudá, a Cabe verde, ao Congo, a Benguela, ainda oiço falar dessas cenas antigas.
    Mas há também outra coisa que eu aprendi quando andei à escola. O princípio dos vasos comunicantes.
    A malta é muita, passa mal, o copo enche e transvasa. Tem que ser.

  13. Fernando,

    A questão não está na mensagem, sim no mensageiro. Ao assumirem uma resposta política a um movimento político, o Gato Fedorento assume-se como entidade que tem posições políticas definidas. Mas onde?… Não sabendo nós qual seja o ideário político representado pelo Gato Fedorento, qual será, então, o sentido e propósito de atacarem seja quem for?… Torna-se absurdo, gratuito, suspeito. Isto é, torna-se irresponsável, pois impede qualquer critério de aferição: o Gato dirá o que quiser, quando quiser, e não tem de prestar contas a ninguém, nem a si próprio. Se é este o modelo da política para o século XXI, será pior do que um regime anarquista.

    Tudo seria diferente se o Gato tivesse feito um número televisivo onde debocharia com o cartaz, mensagem, programa e protagonistas do PNR. Nesse caso, estaria a fazer humor, pois o meio é a mensagem – e o meio, no caso, seria o contexto do programa. Ao ousarem replicar o meio utilizado pelo PNR, exibem uma sobranceria que põe em causa a comunicação de toda e qualquer organização política. É, a meu ver, uma autêntica perversão do discurso político. Porque se reclama de um direito assimétrico: o Gato Fedorento pode fazer política, o PNR não faz humor. Nem o poderá fazer. Ou seja, não poderá ser sarcástico e gozar com os gozadores.

    Perguntas finais: quem encomendou o sermão? Acaso não temos forças políticas que poderiam (deveriam?) responder ao PNR? Acaso há carência de organizações políticas para tomar posição quanto ao cartaz do PNR? Afinal, qual foi o critério da intervenção?

    O que confunde, neste caso, é a aparente legitimidade de castigar uma mensagem de nojo, a do PNR, parecendo que para tal vale tudo. Perigosíssima tentação.
    __

    jack knife

    Deduz-se da tua opinião que não tens o menor respeito, nem a menor esperança, pelos partidos políticos portugueses.

    E também se conclui que não pensas no que escreves.

  14. “Ao ousarem replicar o meio utilizado pelo PNR, exibem uma sobranceria que põe em causa a comunicação de toda e qualquer organização política.”

    Ora aqui está um problema de monta …

  15. “o Gato Fedorento é uma entidade que visa o lucro, não uma representação política ou a intervenção social em nome de um ideal humanitário.”

    Porquê? Será impossível acreditar que quatro pessoas com dinheiro e prestígio o usem por causas em que acreditam? Eu usaria e não tenho nenhuma razão para achar que outros não fazem. Confesso que esta argumentação me parece mesquinha. Conheço o Ricardo e sei que as suas convicções políticas não são de ontem. Não era diferente quando era menos conhecido.

    Os Gatos são artistas (como qualquer humorista), não são uma empresa. Ganham dinheiro com o que fazem, o que é mais do que justo. Mas não deixaram de pensar e de ter opiniões por isso. O que é excelente sinal. Esta ideia de que o dinheiro torna toda a gente em gente mercenária sempre me deixou um pouco espantado.

    Quanto ao hífen, faço minhas as palavras de outro comentador: irrelevante.

    Por fim, ainda ninguém me explicou porque é melhor nunca fazer nada e deixar que estas mensagens passem como naturais. E o o humor é sem dúvida a mais eficaz das respostas, como aliás notei na generalidade das pessoas fora dos blogues. Muito melhor do que tentar que o cartaz fosse retirado, o que seria um disparate. Ao contrário do que o PNR pensa, em política, muitas vezes ser notícia não é boa notícia. E quando o PNR tem os jovens como principal alvo, nada melhor do que os gatos. Como se viu no último referendo.

  16. Em última análise, os GF não foram, nem tolerantes nem inocentes. Em última análise, os GF expandiram a sua notoriedade e a do PNR. Em última análise, a PT também beneficiou com “visibilidade” dos seus “protagonistas”. Em última análise, prefiro a liberdade ao exibicionismo (com lucro).

    “Tudo seria diferente se o Gato tivesse feito um número televisivo onde debocharia com o cartaz, mensagem, programa e protagonistas do PNR. Nesse caso, estaria a fazer humor, pois o meio é a mensagem – e o meio, no caso, seria o contexto do programa. Ao ousarem replicar o meio utilizado pelo PNR, exibem uma sobranceria que põe em causa a comunicação de toda e qualquer organização política. É, a meu ver, uma autêntica perversão do discurso político. Porque se reclama de um direito assimétrico: o Gato Fedorento pode fazer política, o PNR não faz humor. Nem o poderá fazer. Ou seja, não poderá ser sarcástico e gozar com os gozadores.”

    Totalmente de acordo.

  17. “Porquê? Será impossível acreditar que quatro pessoas com dinheiro e prestígio o usem por causas em que acreditam? Eu usaria e não tenho nenhuma razão para achar que outros não fazem. Confesso que esta argumentação me parece mesquinha”.

    Este crochet do Daniel pode não estar à altura do melhor que se vê à venda em lojas finas de lavores aplicados e bordados exóticos. Mas mesmo assim creio que a maioria concordará com o remate do seu trabalho de agulha. Numa sociedade democrática cheia de gatos fedorentos e panteras mal cheirosas com dinheiro para dar e vender, com que estranheza se pode reagir à sua tremenda novidade-proposta de que não deveria ser crime nem pecado investir umas coroas nas nossas ideias politicas?

    É que nem o Valupi discordará disso, como veremos a seguir, com o gosto do costume e sem alarme.

  18. Tal como o jack knife referiu o que o Valupi realmente defende, com aquela de que «não podemos defender uma causa porque há outras mais importantes» é a inacção. Isso sim é cobarde. E muito português, infelizmente. As causas justas nunca são demasiado pequenas.

  19. Daniel

    Assustas-me. Assustas-me mais do que o PNR e seus cães de fila. Porque deles há apenas a esperar que se curem, enquanto de ti se espera um acordo no essencial da convivência democrática e da cidadania responsável. De ti espera-se uma submissão à racionalidade humanista e ao Estado de direito. E não o estás a mostrar no teu comentário.

    Primeiro equívoco: o [singular] Gato Fedorento não é um cidadão, ou conjunto de cidadãos – é um nome que designa um grupo de artistas; ou seja, é uma marca de um serviço (no caso, comédia). Assumindo um estatuto artístico sem ditames ideológicos desde a origem da sua exposição pública, não se entende a dimensão política desta marca. E repito: não se entende. Quero dizer, não há material informativo, teórico, ideológico, panfletário, discursivo, que permita reconhecer na marca Gato Fedorento um qualquer projecto político identificável. Valerá a pena apontar a singela evidência de que, a existir essa conotação política na marca, não se veria o Gato na RTP e na publicidade?…

    Segundo equívoco: os indivíduos que constituem o Gato Fedorento são distintos do grupo nisso de cada um ser um sujeito político e jurídico individual. O Gato Fedorento, entidade comercial que cobra pela sua actividade, não é fonte de posicionamento ideológico. Logo, se os seus membros usam a marca para veicular opiniões de carácter pessoal, estão a explorar (abusar?) a confiança popular depositada no nome Gato Fedorento. Ora diz lá: na lógica desta intervenção, a qual apoias, qual achas que deva ser a próxima tomada de posição política por parte do Gato? Aguardo a tua resposta com ansiedade. Porque, como decorre necessariamente do teu apoio, está em causa voltar a aplicar um qualquer critério que te pareceu legítimo neste caso.

    Terceiro equívoco: o que as pessoas fazem com o seu dinheiro, desde que seja legal, é o que menos me importa – mas o que as pessoas fazem de ilegal, mesmo que tenham dinheiro, não pode ficar impune. A operação de colocar o cartaz foi ilegal, e daí ele ter sido retirado. As pessoas que se queixaram da rapidez com que se cumpriu a lei, como foi o teu caso, revelaram comungar de uma concepção análoga à que criticam no PNR: o achincalho do Direito. Como o alvo era diabolizável, então poderíamos ter a sobranceria de ignorar a Lei e mostrarmos a dentuça, afinal, também reaça.

    Dá que pensar a resposta ao PNR não ter vindo do BE ou do PCP. Temos de concluir que de ti falas quando te queixas de ninguém ter feito nada e terem deixado passar aquelas mensagens “como naturais” até à chegada do Gato. E deixa-me perplexo que reclames o humor (assim tomado na sua universalidade genérica e vazia) como a melhor resposta ao discurso do PNR. Espero que saibas medir as consequências desse despautério.

  20. Nos outros países é vulgar os artistas usarem o seu estatuto para intervenção ou crítica social. O facto de o alvo do humor ser uma organização dita política não transforma o gesto dos Gatos Fedorentes em acção política.
    Talvez nos devessemos preocupar mais com a legitimidade e legalidade do cartaz apresentado pelo PNR que é, objectivamente, xenófabo, do que com a resposta dos Gatos. Ainda que nesta exista um juntar do útil ao agradável, aproveitando para fazer marketing.

  21. A questão é essa Isabel, não há almoços grátis. Quanto à legalidade do cartaz, esse foi considerado legal e legítimo pelas
    autoridades, goste-se ou não.

  22. É uma pena que se esteja a defender a legitimidade do cartaz do PNR e a apontar a ilegalidade (e impertinência) do dos Gato Fedorento. Eu, que tanto prezo o Estado de Direito, tremo antes este «legalismo».

  23. Daniel Oliveira,

    Não diga coisas destas porque deixa toda a gente de boca aberta:

    “Esta ideia de que o dinheiro torna toda a gente em gente mercenária sempre me deixou um pouco espantado”.

    Valupi,

    Por favor, não use “cão”: é descer à animalidade que ninguém espera num Cícero!

    Hifen,

    Cale-se, sua abóbora!

    Isabel,

    Sua Homófaba sem vergonha!

    Mao,

    Precisam de si para recepcionista num convento!

  24. Bela discussão! Eu gostei do cartaz dos Gato exactamente porque introduziu uma polémica saudável, que escorrega fora das bordas do politicamente correcto e abriu um espaço de intervenção não canónico (nem sindical nem partidário). Se tiraram algum lucro daí é possível, mas a moeda tem cara e coroa e a dialéctica obriga ao outro lado, aliás andaram com ameaças.

    Finalmente confesso, amigo Valupi, que aquele hífen sempre me irritou, acho mais bonito sem, não deturpa o sentido, e atmbém não se confunde com a piroseira flopiana daquele ‘benvindo’ doutros tempos.

    E como terás compreendido, por isso mesmo, não foi inocente.

  25. E, já agora, o doutor Valupi, onde pára essa famosa “marca Gato Fedorento” no cartaz? Em lado nenhum? O que lá se vê, afinal, são apenas os seus quatro membros, sem inscrição palpável desse nome? Oh… lá se foi o seu argumento.
    Pelo mesmo caminho segue esse outro segundo o qual quando “os seus membros usam a marca para veicular opiniões de carácter pessoal, estão a explorar (abusar?) a confiança popular depositada no nome Gato Fedorento”. Ideia perfeitamente imbecil: nenhum membro de um colectivo artístico, dos U2 aos Gilbert&George, poderia assumir posições políticas; como se fossem Noddies ou Teletubbies a desiludir as crianças tontas e incapazes de distinguir diferentes planos da vida e da acção daqueles que admiram.

  26. py

    Tudo bem, não há mal nenhum em ter gostado da acção do Gato. E, nessa mesma lógica, não há mal nenhum em não ter gostado. Na mesmíssima lógica.
    __

    Que palerma

    É provável que não saibas o que é uma marca, mas é absolutamente certo que não sabes a quantas andas.

  27. Argumentos lógicos que não se consegue contrariar?
    Não faz mal, diz-se que o outro ou não sabe a quantas andas ou não sabe ler.
    Respostas redondas.
    Serás acessor do Sócrates?

  28. Quer dizer que os componentes de um qualquer grupo de seres humanos que angarie notoriedade estão condenados a esse destino de verem a sua carne transformada em “marca” e a sua voz muda para qualquer causa que extravase a sua actividade. Brilhante!

    Tudo porque o eng.º Valupi acha que os fans do GF são tontos a pedir protecção urgente da desilusão que seria vê-los a tomar atitudes, em vez de se conformarem ao papel de palhaços e pronto.

    Mas você pensa mesmo nestes disparates ou é um gerador de frases tontas instalado no portátil do FV?

  29. Caro palerma

    Obviamente, não sabes o que é uma marca. Está claro. Mas não é grave. Iremos por outro lado.

    Aquando do referendo ao aborto, o Ricardo Araújo Pereira entrou na campanha de duas maneiras. Por um lado, deu o seu nome, o seu tempo, o seu corpo, a sua voz e a sua inteligência (pelo menos!) pelo SIM. Ninguém se queixou, nem tal faria sentido. Seria absurdo censurar um cidadão que quer intervir politicamente, fosse quem fosse. Por outro lado, enquanto membro do Gato, fez um número artístico onde criticava o Marcelo. Ou seja, usou os recursos da marca Gato para também assim influenciar a campanha. Foi um extremo, mesmo assim, aceite por toda a gente, incluindo os adversários. Isto revela o poder da marca Gato Fedorento.

    No caso do cartaz do PNR, a intervenção ocorre sob a marca Gato (aparece toda a equipa em contexto artístico, assumindo papéis teatrais – e não envolvendo os seus nomes pessoais). Para além disso, a intervenção extravasa o espaço performativo natural (o espectáculo televisivo, no seu caso – mesmo que não seja uma limitação). Daí a ambiguidade da situação, levando a que seja legítimo e interessante a análise e reflexão sobre o evento.

  30. A reflexão será “legítimo”. A tese é que é absurda. Para que este cartaz não envolvesse a tal “marca” de forma explícita, bastaria uma legenda com os “nomes pessoais” dos indivíduos do GF.
    Mas pior ainda é a história de “explorar (abusar?) a confiança popular”. Volto ao mesmo: falamos de crianças que têm de ser protegidas na sua credulidade inocência? Isto não é abusar de coisa alguma; é usar a notoriedade conquistada por mérito próprio. E não se vê porque seria de forma ilegítima.

  31. A temática da legitimidade, tal como a das boas ou más acções, fica para quem a pratica. É por causa da ambiguidade que há ocasião para pensar, para falar e para tomar uma posição.

    Para mim, a intervenção está ferida de ilegitimidade. Começa pela legal, onde se ofendeu a lei intencionalmente. Este aspecto da questão revela a patológica e decadente hipocrisia de todos aqueles que apoiam o acto. Nem sequer percebem que o Gato se colocou no nível moral do alvo que queria denunciar.

    Por outro lado, vejo como mais uma acha para o descrédito de todos os agentes políticos que se responda com um registo de pândega à mensagem do PNR. O que isso significa é que a ameaça do PNR não é para ser levada a sério…

    Finalmente, vejo puro oportunismo, arrogância e displicência. Enfim, vejo marketing às 3 pancadas, irresponsável.

  32. Valupi, fizeste-me a kpk pá!, mas pronto, democracia é assim.

    Eu gosto dos Gato, só me chateia é que eu há muito tempo que digo que sou um gato (felix sapiens non sapiens) e agora pensam que é por causa deles.

    Coisas!

    (Redondo, olha lá que é ‘assessor’, aqui não faz mal, mas numa briga feia vêm-te logo com essa aos molhos)

  33. 3 pontos finais:

    1 – Houve um claro oportunismo mediático (e não só) que perverte, em minha opinião, toda a civilidade e humanismo dos GF.

    2 – A lição de um democrata, por muito lhe custe (e neste particular custa), é tolerar todas as ideias, mesmo as mais marginais e intolerantes aos nossos olhos, desde que dentro da lei.

    3 – Além disso, a paródia dos GF, foi, paradoxalmente, considerada ilegal. E, paradoxalmente, só reforçou a visibilidade do PNR.

  34. Mao

    Exactamente! Assino por baixo a tua síntese.

    E acrescento, à laia de balanço: é por gostarmos tanto do Gato Fedorento que sobre ele devemos ser tão rigorosos. Porque, com o poder que tem, pode, de facto, ser um influenciador de mentalidades.

  35. …desculpyado, meu caro, alíás agora já não sou fuçanga, até gosto de partilhar democraticamente kpk’s.

    PS: e ainda há os números primos

  36. (Em relação aos apontamentos do Mao:)

    3 pontos finais:

    1 – Houve um claro oportunismo mediático (e não só) que perverte, em minha opinião, toda a civilidade e humanismo dos GF.

    (Acho, sinceramente, que agiram de boa fé. Poderão retirar algum benefício mediático mas, tendo em conta a projecção já têm, será pouco mais que residual.)

    2 – A lição de um democrata, por muito lhe custe (e neste particular custa), é tolerar todas as ideias, mesmo as mais marginais e intolerantes aos nossos olhos, desde que dentro da lei.

    (De acordo, mas não imunes à crítica ou às piadas)

    3 – Além disso, a paródia dos GF, foi, paradoxalmente, considerada ilegal. E, paradoxalmente, só reforçou a visibilidade do PNR.

    (Sendo ilegal retira-se o cartaz e pune-se o infractor. Reforçar a visibilidade do PNR pode não ser mau. Em Portugal há grupos de extrema-direita organizados e a muita gente isso passa-lhe ao lado)

  37. caraças,para que o meu comentário veja luz foi preciso,estou atrasado 3 dias,10 horas e 58 minutos,assunto algum espero ter sido perdido,normalmente devo estar a mudar,desejos faceis a crescer,não espero,creio,no principal segredo essas duvidas desfazem-se,como quase moles se tornassem. O.K.

  38. Nem os Gatos Fedorentos serão assim tão inteligentes nem a extrema-direita tem assim tanta força em Portugal. E, aqui para nós, enquanto exemplo de humor, o cartaz dos GF tinha palavras a mais.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.