Todos os artigos de Valupi
Uma Presidência escavacada
Mentiroso ou burro. Cavaco Silva entra, inevitavelmente, numa destas duas categorias após a declaração do dia 29 de Setembro de 2009, recebida com unânime perplexidade e tristeza. Uma declaração que começou logo por ofender os portugueses ao ser destinada à comunicação social, e acabou por nos deixar assustados com as dúvidas, umas antigas e outras novas, que ficaram a envolver o carácter e capacidades mentais do Presidente da República.
Pastéis de Belém
Da vasta fornada, o melhor ainda continua a ser este.
Cineterapia

La notte_Michelangelo Antonioni
Onde está o amor? Está esquecido. Vagueia numa cidade cercada de ruínas, de violência. O amor está no hospital. Morre desenganado ou é puro desespero. O amor está na rua e na multidão. É um amor indiferente, oco. Dividido. Cheio de luz.
Começava a década de 60.
O milionário quer comprar o intelectual na moda. O casal que não se ama, nem se odeia, assiste com prazer ao espectáculo erótico-circense do casal de pretos. A filha dos milionários é bela, transparente e lê Hermann Broch. Chove na festa, as máscaras são trocadas por máscaras. Perto da piscina, beija-se a estátua de Baco.
Naquela hora em que a noite acaba e o dia ainda não começa, ela lê a carta onde o escritor inventou o amor. Ele já não se lembrava de que o amor é um sono acariciado pela escuridão.
Depois, a câmara abandona-os. Nada mais têm que nos interesse. Eles são a natureza das coisas. Nós, o cinema.
Cu-incidências
Alguns dos que em Portugal exigiram segundo referendo ao aborto, e cujas repetições continuariam a exigir, até que o Inferno gelasse, enquanto não ganhassem, são também os que mais protestam contra o segundo referendo ao Tratado de Lisboa na Irlanda. Nos dois casos, para defenderem posições opostas, invocam sempre a democracia.
Como é larga, e lassa, a democracia destes democratas.
Marcelo do catano
A intempestiva pseudo-demissão de Lima poderá ter resultado do que disse Marcelo na noite anterior, quando exigiu uma radical mudança de estratégia na Casa Civil? É a melhor explicação para a sequência absurda que liga o adiamento para depois das eleições de nova jogada nesse tabuleiro e um movimento brusco que levou à perda da rainha. Mas a ter sido assim, seria condizente com o desnorte que a Presidência sempre exibiu desde o caso dos Açores, publicamente, e desde Abril de 2008, secretamente. Tal cenário também estaria de acordo com as sequentes manobras de Sol e Expresso, no fim-de-semana eleitoral, a recuperarem a conspiração das escutas, a baralharem o caso Lima e a prepararem um cenário passível de se adequar a diferentes resultados eleitorais.
Vendo-os ao longe, não os ouvindo, podemos cair num preconceito positivo: imaginar que os maiores responsáveis pela política nacional, governantes e dirigentes, sejam igualmente responsáveis maiores perante a comunidade e si próprios. Tal crença não resiste a uma 4ª Classe bem feita, mas no ricochete não devemos enfiar a cabeça no pólo oposto, assim deixando o cinismo e a decadência vencerem. Pelo que Cavaco tem direito a ter dúvidas e a enganar-se com cada vez maior frequência, sim senhor. Felizmente, também tem amigos como o senador Marcelo, o qual se esforça para salvar o que ainda restar para salvamento. Quando pediu um puxão de orelhas para a fonte do Público, ficou clara a sua reprovação pelo berbicacho onde Belém se tinha metido. Havia até um consolo sobranceiro na admoestação, como se ele tivesse anteriormente avisado para não irem por aí e agora estivesse a cobrar com juros o despeito de não lhe terem acatado o conselho. Esta possibilidade de um conjunto de humanos demasiado humanos andarem a brincar aos Estados é tão verosímil como a que pretendeu fazer de Sócrates o imbecil que chegava ao SIS e encomendava uma dúzia de microfones no Palácio de Belém.
Ontem, Marcelo e Vitorino tiveram mais uma ronda de negociações. O assustado rosto de Marcelo era a bandeira branca, o sinal da rendição completa. Ele só pedia uma coisa: deixem que o meu General conserve alguma dignidade. Nada de algemas nem de julgamentos. Passemos directamente para a prisão domiciliária, com ocasionais passeios no jardim. Marcelo garantia a Vitorino que Cavaco se iria portar bem. Bastava que todos fingíssemos acreditar naquela estouvada explicação do ultimato à portuguesa, e que não mais tocássemos na rocambolesca tramóia das escutas e vigilâncias.
Lá está, Agosto é um mês muito propício a acidentes com cadeiras.
Coisas que se podem dizer
Lêndeas da asfixia democrática
Os boçais que conceberam, produziram e trouxeram até nós a estratégia da asfixia democrática tinham falta de munição. Quando instados a fazer prova, mostravam as favolas e enchiam a boca com o Charrua. O Charrua, que tinha mandado vir com o Primeiro-Ministro recorrendo ao vernáculo, era o grande mártir da liberdade de expressão. O Charrua, que acabou protegido pela Ministra da Educação, foi o cliché supremo dos acusadores. Também referiam aquele caso em que agentes da PSP foram a um sindicato perguntar quantos indivíduos iriam a uma manifestação. Essa situação mereceu censuras públicas do Governo, por ser obviamente anómala, mas continuou a ser invocada para expor a tirania do Engenheiro. E depois acabava-se com as declarações e acções de Sócrates contra alguns meios de comunicação, e alguns jornalistas, que o difamaram.
Chegava? As sondagens diziam que não. Era preciso dramatizar. Esticar a corda. Portanto, era preciso jogar a cartada mais forte, criar uma situação em que Sócrates não pudesse contra-atacar sob pena de perder. Que tal lançar a notícia de que Sócrates está a asfixiar o Presidente da República? Homem para isso era ele, esse patife do Sócrates que persegue sindicalistas, professores e jornalistas, agora era só montar a coisa de maneira a que a dúvida ficasse em crescendo até às eleições. Como? Garantindo que Cavaco falava sem dizer uma única palavra. Nada tendo dito, a nada teria de responder. Mas tendo falado, nada mais havia a perguntar. Lima e Zé Manel tiveram umas ideias. O resto, já se inscreveu a negro na História.
Triste foi o que fizeram a Manuela Ferreira Leite. Ela entrou neste filme só porque Cavaco lhe pediu, é o que agora os acontecimentos permitem inferir. E cumpriu com excesso de zelo a sua missão. A senhora acabou a campanha a fazer coro com o Zé Manel na infâmia contra o SIS e a assustar os populares com a possibilidade de violação da sua correspondência pelo Governo. E também nos garantiu que os telemóveis poderiam estar todos sob escuta, qual reactualização da RDA, servindo-se para o efeito de declarações do Procurador-Geral da República retiradas do contexto e cujo sentido ficava adulterado. A cultura de grupo que permitiu tamanha indignidade, utilizando sem pudor a Manela como carne para canhão, é uma fatalidade do actual PSD. Um partido de advogados manhosos, videirinhos, e nada mais.
Asfixiados pelo seu próprio fel.
Ai é assim que elas se fazem?
“Acho evidente que a cinco dias das eleições em Lisboa tentar abater o presidente do CDS não é inocente”, concluiu.
Numa conferência de imprensa onde esteve presente a maioria do grupo parlamentar do partido, Portas revelou ter ficado “indignado” com a notícia do JN.
“O concurso dos submarinos é de 2003, as escutas de 2005, estamos em Julho de 2007. Durante quatro anos, ninguém me chamou a depor (…) A cinco dias das eleições em Lisboa é que se levanta a suspeita”, criticou.
Para Portas, a intenção é clara: “Descredibilizar o CDS, desmoralizar os seus eleitores, atirar à minha cabeça, do líder que à direita é visto como o mais capaz de fazer oposição a José Sócrates”.
Perante uma notícia que diz ser “uma completa falsidade”, o líder do CDS-PP faz “uma exigência, um convite e um alerta”.
“A exigência é às autoridades: trata-se de uma descarada manipulação vinda de dentro de uma instituição do Estado”, acusou, lembrando que a notícia tem por base fontes anónimas da PJ, e exigiu o apuramento de responsabilidades.
É tudo gente morta
Excelente elenco, alto perfil. Ainda por cima, tenho lá um amigo, o Diogo. Ide.
A josémanuelfernandização da deontologia
[…] o Diário de Notícias cometeu duas faltas deontológicas gravíssimas: primeiro, violou correspondência privada trocada entre profissionais do PÚBLICO; segundo, fê-lo para expor uma fonte deste jornal.
*
Esta balela, que tem sido repetida por todos aqueles a quem a publicação do email prejudicou, é uma intencional distorção. Implica que teria sido preferível, no estrito acordo com a deontologia suposta, não se ter publicado o conteúdo dessa correspondência conspirativa, nem os nomes envolvidos. Ora, a notícia do Público relativa a suspeições na Casa Civil estava a ser usada pelo PSD, levando a que se estabelecesse em parte decisiva da opinião pública uma conclusão inevitável: se Cavaco não desautorizava a fonte da Presidência responsável pelas declarações, era porque não havia fumo sem fogo. Vários foram os publicistas que, de imediato, exploraram o filão. Numa estratégia de assassinato de carácter que tinha sido lançada pelo próprio Presidente da República na segunda metade de 2008, ao centrar a sua retórica no lema Falar verdade aos portugueses, e culminando uma longa série de quezílias, em crescendo, entre Cavaco e o Governo, as peças do Público ambicionavam ser o golpe fatal na resistência de Sócrates. A fonte permaneceria anónima, mas credível. E o Presidente nada diria, para que tudo se pudesse dizer. Foi a este serviço que o Zé Manel se prestou, mais os jornalistas envolvidos.
Assistir a tamanha desonestidade intelectual, profissional e cívica, vendo os prevaricadores a atacarem quem os desmascarou e a não assumirem qualquer responsabilidade pelos danos causados, é uma grande lição. Que obedeça à deontologia destes tipos quem deles quiser ser cúmplice.
Noja
Num blogue em que participam vários deputados eleitos do PS sugere-se de forma muito pouco subtil que o Presidente é doente mental. No Mar Salgado Filipe Nunes Vicente assinalou a grosseria que se torna cada vez mais habitual no vale tudo em que estamos mergulhados e que a blogosfera e as enormidades que se escrevem no Twitter mostram todos os dias. Um dia em que alguém, farto da impunidade do insulto e da calúnia, processe meia dúzia dos habituais cultores do género, fica rico com as indemnizações.
Pacheco quer sangue, processos, perseguições. Quer acabar com os inquéritos à saúde mental alheia, especialmente se os visados forem detentores de altos cargos públicos e simpatizantes do PSD. Quer fechar o Twitter e desinfectar a blogosfera. Manifestamente, o Pacheco dá-se mal com a multidão e sua algazarra. Em nome do direito a ficar farto da impunidade do insulto e da calúnia, soltem os cães. Mas não Sócrates, esse tem de comer e calar. Se tiver o azar de ficar farto dos insultos e das calúnias, que sofra em silêncio. Tivesse ido para Presidente da República ou para amigo do Pacheco.
E de que insultos e calúnias fala o marmeleiro? De quem? Nunca se sabe. São assim as pitonisas, gaseadas e prolixas.
Nebulosa de Belém
Nuvem de palavras feita com a recente Declaração do Presidente da República Portuguesa, utilizando o Wordle. Se tocares nela, cresce.
Outro que também não anda nada bem
Jerónimo foi uma das duas pessoas no Hemisfério Norte que papou a tanga cobarde do Zé Manel quando este disparou contra o SIS, a outra vítima foi a Manela. Para Jerónimo, tal suspeita, de tão credível jornalista, era prova da governamentalização dos Serviços de Informação. Na sua alva cabeça, os Serviços de Informação eram concebidos à maneira do KGB, com capangas louros e maus prontos para todo o serviço, pelo que ele já estava a ver o filme do email gamado com soviética perspicácia. Agora, apareceu com outra declaração de igual calibre: é o Governo, acusado pela Presidência, quem deve esclarecer o Presidente. Imagino que o Jerónimo imagine que o Governo até poderá chegar ao ponto de assumir ter feito as escutas, só para descansar o Presidente. E pronto, o comunista mor resolve mais uma desvairada crise institucional com o seu marxismo metalúrgico.
Ó Jerónimo, chega aqui: larga a vodka, pá.
Torres de marfim
Vivemos num Estado democrático, estamos sempre a reclamar transparência, as pessoas gostam de saber quais são as razões das decisões e a atitude humilde e democrática que um responsável deve ter é explicar, não fechar-se numa torre de marfim.
Declarações de Rogério Alves, aparentemente a propósito dum mísero jogo de futebol. Mas nós sabemos do que ele está a falar.
Como é que o vamos tirar de lá?
Cavaco Silva é uma ameaça para a segurança nacional, para além de ser origem de grave – e inadmissível – perversão política. Cada dia que se antecipar à data da saída regular, algures nos primeiros meses de 2011, será um dia em prol do interesse nacional. Façamos um resumo da situação:
– Membros da Casa Civil conspiram com meios de comunicação social, em contexto eleitoral, para denegrir Sócrates, Governo, PS e instituições de segurança do Estado.
– O Presidente da República é conivente com as conspirações lançadas pela Casa Civil.
– O Presidente da República perturba, decisiva e caoticamente, o decurso da campanha eleitoral para as Legislativas.
– O Presidente da República afecta a campanha para as Autárquicas, ainda com consequências desconhecidas.
– O Presidente da República desprestigia a imagem de Portugal a nível internacional, com consequências desconhecidas, embora inevitavelmente negativas no plano económico e de segurança.
– O Presidente da República atenta contra os próprios Serviços de Informação do Estado, caucionando difamações prontamente desmentidas pelos responsáveis civis e militares.
– O Presidente da República aumenta o clima da já intolerável suspeição na ocasião mesma em que os portugueses esperavam que acabasse de vez com ela.
– O Presidente da República opta por piorar o que já era mau nas condições de governabilidade e estabilidade, assumindo que a Presidência vai entrar no combate parlamentar com uma agenda secreta.
O problema acaba de sair das mãos dos partidos. Isto agora é connosco, com cada um.
Os Silvas não são todos iguais
A noite eleitoral teve em Vieira da Silva o seu mais inesperado protagonista. Até este domingo, estava convencidíssimo que o Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social era o que restava de uma chaimite depois desta ter vindo a rebolar desde o Monte Pico até à Manhenha. Eis senão quando me aparece para a primeira declaração do PS após a divulgação das projecções. E aquilo que se seguiu foi lindo, ou coisa ainda mais bonita. Porque fez uma declaração que foi um portento de sentimento contido. Ele estava como Buda, o qual teve de se sentar debaixo de uma árvore quando descobriu que não vale a pena continuar a viver nem vale a pena desistir da vida. Enquanto a coisa não se resolve, e sabiamente, o melhor é esperar sentado. Já o nosso Vieira tinha de estar de pé, mas em conformidade dilemática: não dava para mostrar nem para esconder o que lhe ia na alma. O resultado foi comovente. O seu espontâneo domínio das pausas e dos silêncios, em resposta aos aplausos e pontuando o que ficava por dizer, revelou o homem.
Grande Silva, este.
Delenda Cavaco
Nenhum comentador, escriba, analista se debruça sobre se Cavaco Silva, depois desta questão em que aparece envolvido, ainda pode ocupar o seu cargo em Belém.
Do meu ponto de vista, o actual Presidente da República está ferido de morte e devemos estar preparados para umas antecipadas eleições presidenciais.
Tanto mais que esteve envolvido numa venda de acções, a preço de favor, outorgada pelo então presidente do BPN, Oliveira Costa.
É urgente que o PS aclare a sua estratégia para as próximas Presidenciais.
Um abraço do
Acácio
__
Recebido por email, a 18 de Setembro, do nosso amigo Acácio Lima. E agora recordado porque, diga Cavaco o que disser daqui por umas horas, não há condições morais para o Presidente da República continuar a exercer depois de ter faltado ao seu juramento. Para todos os efeitos, ele interferiu nas eleições legislativas de forma inadmissível e escandalosa. Fora.


