Cineterapia

la notte antonioni
La notte_Michelangelo Antonioni

Onde está o amor? Está esquecido. Vagueia numa cidade cercada de ruínas, de violência. O amor está no hospital. Morre desenganado ou é puro desespero. O amor está na rua e na multidão. É um amor indiferente, oco. Dividido. Cheio de luz.

Começava a década de 60.

O milionário quer comprar o intelectual na moda. O casal que não se ama, nem se odeia, assiste com prazer ao espectáculo erótico-circense do casal de pretos. A filha dos milionários é bela, transparente e lê Hermann Broch. Chove na festa, as máscaras são trocadas por máscaras. Perto da piscina, beija-se a estátua de Baco.

Naquela hora em que a noite acaba e o dia ainda não começa, ela lê a carta onde o escritor inventou o amor. Ele já não se lembrava de que o amor é um sono acariciado pela escuridão.

Depois, a câmara abandona-os. Nada mais têm que nos interesse. Eles são a natureza das coisas. Nós, o cinema.

6 thoughts on “Cineterapia”

  1. Val
    Andamos todos necessitados de algo que nos dê ânimo, seja na nossa rua, na nossa freguesia, vila ou cidade. Sejam os nossos pais; esposa; filhos; patrões; colegas; governantes; seja o que for, andamos todos necessitados. O mundo está cada vez mais difícil, é a inveja a intriga, é ver o que vem descrito num jornal: “Ontem, Pepe, assim se chama o bruxo, veio revelar quem pode estar por trás do servicinho.” Não tem um pingo de decência e não há lei nenhuma que ponha cobro a tal barbaridade. Continua ele a relatar. “É uma mulher famosa endinheirada, que está ferida sentimentalmente com Cristiano. Ela sentiu-se traída e, segundo me disse, esperava um homem e não uma barbie”. Isto foi contado ao El Mundo Deportivo e pelo que vejo não há uma recriminação desse jornal. Será este o motivo ou será outros clubes a jogar fora de campo. Assistimos a estas coisas impávidos e serenos, nem adversários nem agentes desportivos condenam estas situações. Parece que nos sentimos alegres, longe vão os tempos em que existia cordialidade, lembro-me de ver no cinema os duelos e que cavalheirismo. Morria-se com dignidade, hoje é só cobardia, anonimato, falta de carácter. Ao nosso vizinho desejamos o quanto pior melhor, idem para o nosso chefe, nosso governante, é ver o que se passa a nível de Assembleia da República, quando se anuncia uma medida toda a oposição espera que dali só saia desgraça. Assim colhem mais dividendos e não lhes interessa o êxito, isso gerava a desgraça deles, nós povo para eles pouco contamos, interessa-lhes sim o nosso voto.
    Dos locais com mais humanidade que encontrei foi o Instituto de Oncologia do Porto, ali somos tratados com um carinho fora do vulgar. Não desejo que passem por lá como doentes para se certificarem do que relato, mas para muitos talvez lhes fizesse bem uma temporada ali. De certeza tinham outro comportamento pela vida fora, sabiam partilhar melhor o bem comum e teriam outro conceito da vida. Assim é viver a vida à sua maneira não se importando de atropelar tudo e todos, o que lhes interessa é só eles e sempre eles. Um dia quando morrer e se fosse possível a minha reincarnação negava-me a ela ou se a aceitasse impunha condições, num mundo igual e assim com uma sociedade, antes prefiro o outro mundo, este é só hipocrisia.

  2. Valupi
    Fiquei com pena de ter emprestado a minha Noite, depois de ter lido as tuas palavras. Que vontade de a ver, neste dia. Puxei pela memória e lembrei-me da cidade a preto e branco e dos seus estados de alma, que tão bem combinam com a arquitectura da solidão que dá corpo aos personagens. Se a cidade está em obras, os seres humanos estão em crise e as personagens comportam-se como sonâmbulos. Estão de olhos abertos, mas a dormir diante da vida, por mais brilho que tenham as noites de festa. Ia jurar que o livro que Monica Vitti lê e aparece antes dela a apresentá-la, na sua casa de família rica, talvez numas escadas, é Os Sonâmbulos, de Hermann Broch, talvez daí o título do filme. Mas o que nos diz Antonioni ao ouvido? A aparente frivolidade esconde dramas universais e os mais belos, os mais ricos ou os mais talentosos também padecem do tédio e da angústia que desenham travellings pelo filme onde os brilhos da festa precisam da sombra do desespero para melhor se revelarem. Os sentimentos poderão tratar-se como quem cuida de um orgão doente no corpo? Cada um pelos seus motivos indizíveis, todos sofrem o problema da incomunicabilidade, a forma como o coração não consegue bater nas palavras, inundando-as de sangue e vida, fazendo a ponte para o outro. A personagem de Jeanne Moreau encontra-se ligada ao marido, o bem sucedido escritor interpretado por Mastroianni, pelo desconforto de um silêncio pesado, pelas cenas da vida conjugal de um casal desgastado pelo tempo, a ponto dele não se reconhecer como autor nas palavras e sentimentos de uma antiga carta de amor lida em voz alta por ela. A noite traz a lucidez e o seu outro lado é um quase dia sem esperança, de que a cena no hospital, onde Mastroianni bebe champanhe com o seu amigo moribundo, é uma fortíssima metáfora visual. Condenados à escuridão, à incomunicabilidade e à morte, os seres que habitam A Noite continuam a segurar uma taça na mão, com que vão brindando à vida, como se cumprissem o destino.

  3. eu prefiro imaginar as personagens do guião; ver o desenho – o meu – das letras da carta. esse amor, todo, a preto e branco, nos olhos rasgados e cabelos compridos. e unhas pintadas de magenta.

    (e não, o amor não está esquecido).:-)

  4. Manuel Pacheco, o mundo estará cada vez mais difícil? Os maiores imperadores da antiguidade dariam todas as suas riquezas para poderem viver neste futuro…
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    j de joão, fica o desejo de que o teu texto continuasse. Muito obrigado, pelas palavras e pelas imagens.
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    Sinhã, quais cabelos compridos?
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    claudia, concordo (muito) contigo: o que digo sobre ele é absolutamente genial!

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