A tomada de posse do XIX Governo Constitucional constitui-se como o efectivo começo de novo ciclo político em Portugal. Os cidadãos que dele fazem parte, assim como todos os deputados eleitos, merecem incondicional gratidão. Eles são os nossos representantes e a eles se entrega a direcção do Estado. É uma das mais altas responsabilidades que se pode assumir atingidos os 18 aninhos de idade. E uma das tarefas mais difíceis e desgastantes pelos desafios cognitivos, éticos, afectivos, emocionais, físicos e volitivos que coloca. Especialmente no Governo, a exposição é permanente e quase holística, sujeitos à fiscalização de entidades oficiais e populares. As oportunidades para errar são tantas quantas as ocasiões para decidir, pelo que os governantes estão sujeitos ao esforço máximo e aos mais variados riscos no seu exercício do poder. No mundo ideal – ou numa terra de ideais; ou tão-só para gente com boas ideias – a comunidade começaria por celebrar a disponibilidade destas pessoas para os cargos onde juram dar o melhor de si, prometendo ajudá-las a cumprir com tão alta missão. Porque elas estão ao nosso serviço.
Numa democracia, as eleições são um sacramento. Qualquer meio politicamente reprovável, moralmente errado ou eticamente iníquo usado até ao momento do sufrágio deixa de contar após o legal apuramento dos votos. Esta é a fraqueza e a força das democracias, capazes de acolherem o patife e o samaritano, não sendo óbvio quem o povo irá preferir. De resto, o samaritano pode ser completamente burro no que toca à governação e o patife pode ser luminosamente inteligente no que concerne ao interesse nacional. A república escreve direito por líderes tortos.
Aqueles que alimentam o discurso do ódio contra os políticos não ajudam ninguém, a começar por eles próprios, tornando-se parte do problema. Tirando os manipuladores, que exploram os sentimentos de desconfiança e desespero, quem verbaliza o seu fel contra os soberanos está, no fundo, a pedir ajuda. O seu estado de confusão e medo já deixou de ser controlável. O resultado é tóxico, contagiante e destinado a acabar numa qualquer forma de violência. Os democratas não ostracizarão estes pobres coitados, precisamente porque os compreendem. Os democratas também não serão complacentes com os demagogos e populistas sempre dispostos a aumentar a entropia cívica, aqui não fazendo prisioneiros.
Ser parte da oposição é ser parte da governação. É, num certo sentido, ainda mais importante do que governar. No Governo há um vasto conjunto de inevitabilidades que decorrem dos meros actos de gestão inerentes às tutelas, a que se somam os eventos sucessivos a que os governantes não podem faltar com a sua presença corporal ou mental. Isso significa que a actividade executiva não oferece oportunidades para a inovação, desenvolvimento e maturação intelectual. Governar é também reflectir, claro, mas adentro dos problemas concretos e urgentes. É na oposição que se pode realizar o trabalho de investigação e debate donde nascem novas propostas políticas, sociais e culturais. Uma oposição digna não cede na sua responsabilidade fiscalizadora, bem ao contrário: leva-a para dimensões e extremos que se confundem – mas não colidem, posto que noutro plano – com a actividade governativa. Não haverá oposição mais temível do que aquela que confia na capacidade do Governo vir a ser um exemplo de excelência, mesmo que em nada concorde com o seu programa e decisões.
Se tudo correr na perfeição, este novo Governo conseguirá chegar ao fim da legislatura com a obra realizada, aquela a que se propôs no início e aquela que as circunstâncias tornarão conveniente ou necessária, levando a votos os resultados obtidos. Se tudo correr na perfeição, as oposições e os parceiros sociais defenderão os seus interesses e farão acordos. Se tudo correr na perfeição, tu e eu ficaremos ainda mais apaixonados pela política, diariamente tomando posse do governo da nossa radiante liberdade.