A regra do jogo

Eu queria denunciar aqui aquilo que se está a passar em Portugal neste momento, onde é claro que a comunicação social trouxe à luz um plano do Governo para controlar os jornais, para controlar estações de televisão, para controlar estações de rádio.

Ainda esta semana um jornalista muito conhecido viu censurada uma crónica sua também por aparente sugestão do Primeiro-ministro. Perante isto, o Primeiro-ministro José Sócrates tem de dar explicações substanciais ao país e explicar que não está a dominar, a censurar, a liberdade de expressão em Portugal.

Pela forma que estamos a andar, Portugal já não é um Estado de direito. É um Estado de direito formal, onde o primeiro ministro se limita a formalidades, a procedimentos, a formalismos e não quer dar explicações substanciais.

Paulo Rangel ao Parlamento Europeu, Fevereiro de 2010

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É impossível ligar o televisor, papar um vídeo onde alguém diz que entregou envelopes castanhos com uns trocos lá dentro ao actual primeiro-ministro do país onde se calhou nascer e viver e não ficar irremediavelmente afectado nas suas certezas e convicções. Ou sair à rua, olhar para a banca dos jornais e ver impresso numa capa um suposto diálogo telefónico, supostamente captado pela polícia e supostamente validado por magistrados, com base no qual esse jornal mui amigo da transparência sugere que o actual primeiro-ministro do país onde um gajo deu por si a nascer e a viver é uma versão transmontana do Al Capone. Pura e simplesmente, não se resiste a uma campanha deste tipo. Vamos ao tapete porque não há como evitar os golpes sucessivos que acertam em cheio na nossa cabeça.

Mas nem todos os que vão ao tapete ficam por lá a tentar meter conversa com os ácaros. Alguns levantam-se e tentam resolver o problema com redobrada vontade, até porque do outro lado está alguém que só não vai dar cabo deles se não puder. No meu caso, voltar ao combate implicou encontrar um truque chamado Cavaco Silva. As acusações que se lançavam contra Sócrates, desde que o Público iniciou a sua vingança, passando pela perseguição de Moura Guedes e chegando à publicação das escutas do Face Oculta, eram todas de um calibre que permitiria ao Presidente da República intervir decisivamente. Se Belém permanecia em silêncio apreciando o auto-de-fé, então estávamos a lidar com conspirações e calúnias. Curiosamente, ainda hoje há quem mantenha a dualidade sem se dar conta do que ela diz deles próprios no plano moral e/ou cognitivo: por lado, acreditam piamente que Sócrates cometeu inúmeras e gravíssimas ilegalidades, ao ponto de merecer ser julgado criminalmente, por outro lado, não questionam a passividade de Cavaco que, permitindo que se mantivesse no Governo apesar do que se publicava e dizia, teria assim sido o principal cúmplice do monstro. Lá está, os afectos criam mundos paralelos.

Escolho este momento em que Paulo Rangel discursou no Parlamento Europeu como símbolo do que foi um longo período em que a direita nacional lutou pelo poder com uma violência nunca antes vista. Não se trata do episódio mais grave, longe disso, pois nada pode superar a Inventona de Belém e a golpada dos magistrados de Aveiro conluiados com jornalistas, ou o processo de derrube do Governo iniciado com a tomada de posse de Cavaco. O que me fez escolher o Rangel é a mistura da irresponsabilidade com a parolice. Eis um gabiru, candidato a presidente do maior partido da oposição, que não tem o mínimo problema em ir para Estrasburgo dizer que no seu país há um Governo que se rege pelos códigos das ditaduras sul-americanas ou, muito pior, das madeirenses. Esta descontracção estouvada é a marca d’água do modo de fazer política das sucessivas lideranças do PSD, Marcelo Rebelo de Sousa incluído. Para eles a vida política é apenas uma gozação, um jogo. E sabem que a maior parte dos árbitros é da sua família, pelo que fazer batota é a única regra que aprendem a respeitar.

7 thoughts on “A regra do jogo”

  1. Assisti ao massacre, ao auto de fé. Nunca me meti na politica e ando a dizer agora o que nunca pensei dizer, apenas para manifestar a minha indignação. Chamo ratazanas a essa gente que transformou a politica em completa bandalhice e agora chegarm ao poder total.
    Desculpo as pessoas que não conseguem, por iliteracia “cultural”, distinguir esse discurso de vergonha do Rangel, de uma homilia do cardeal. Aliás, percebem tanto do que fala Rangel como daquilo que prega o Cardeal. Mas fica-lhes na ideia que Sócrates é um malvado e Cristo um Santo.
    Não encontro desculpa para quem percebe a fundo a bandalhice e bate palmas. Não se trata de uma questão politica, mas de uma questão de honorabilidade. Trata-se do triunfo da mentira e da calúnia travestida de combate politico. E valeu tudo para derrubar um homem honesto e um governante que muitos consideram competente. Foi Sócrates agora como, em 2002, foi arrastada na infâmia da pedofilia a direcção de Ferro Rodrigues. Os mesmos actores: politicos, jornalistas, magistrados, policias e poder económico.
    Quem apoia estes golpistas, agora com o poder total, não é confiável. Não me refiro aos “iletrados” que puderam ser enganados e acreditaram em quem promoveu o auto de fé.
    Arrepia-me ver Rangel como deputado da nação depois daquele discurso e arrepia-me ainda mais, como bem refere Valupi, a cumplicidade de quem devia intervir ou para demitir o ditador Sócrates ou o autor do miserável discurso. Arrepia-me ver a “fina flor” da honradez lusa assistir passiva ao primeiro auto de fé na pessoa de um PM, neste inicio do século XXI.
    Vamos pagar todos esta infâmia, porque o seu veneno nos salpicou a todos.

  2. ai , se continuas a vender pratos requentados a malta deixa de vir à tasca.
    e há aií umas partes (aquelas da duplicidade?) : projecção pura e dura. trata-te.

  3. Quando a Alemanha conquistou a França e assinou a Paz, em 1940, também disse ao De Gaulle que agora não mais valia a pena resistir, que a Guerra tinha acabado e que o novo Governo francês, com sede na cidadezinha de Vichy, era amigo do III Reich.

    O que contudo, não impediu, que os resistentes franceses, com os seus “pratos requentados”, voltassem a escorraçar os invasores poucos anos depois, em condições pouco menos do que humilhantes.

    Em Portugal há também agora uma Resistência que não descansará enquanto não fizer pagar aos pulhas que foderam Portugal. Já chega, porra?

    UMA OVA! QUE ISTO AGORA É QUE VAI COMEÇAR.

    Habituem-se e gozem Paris enquanto puderem, que no final hão-de também preferir vê-la a arder.

  4. Eu por mim também gostava de fugir desse lamaçal mas, acontece que quem cala consente e permite que f.d.p. redobrem os seus ataques. Por isso não o faço. Faz-me lembrar no tempo do PREC quando houve a revolta dos militares. Muitos, diria a maioria ficou fechada em casa aguardando os acontecimentos. Mas outros, como o meu caso, saíram à rua, foram para a base aérea do Montijo e, durante toda a noite aguardaram pelo desenrolar dos acontecimentos. Felizmente, os comandos e Jaime Neves deram cabo dos intuitos de pcps, udp, brigadas revolucionárias e quejandos.
    Também me lembro de ter ido para a porta do Diário de Notícias gritar contra ditador chamado Saramago que tinha acabado de despedir 2 dezenas de jornalistas só porque não eram da sua cor.
    É por isso que quando a democracia está em causa nunca devemos esquecer o que passámos e permitir que outros façam o que bem entendem.

  5. larga o socratinto pá, que já não há pachorra para aturar tanto relambório piegas e repetente. pareces um viciado pá, ainda por cima agarrado a uma mistela tão ordinária e martelada. aquilo é uma zurrapa pá, livra-te dessa merda e vai beber água límpida. tens o fígado cerebral todo queimado de beberes essa mistela que nem para petroilo serve, pá. não tarda tens de ser internado compulsivamente, pá.

    lá está, pá, os afectos criam mundos paralelos e o socratinto universos demenciais, pá.

    trata-te pá!

  6. É muito cómodo ver as moscas, hoje poisa uma mosca rosa, amanhã uma laranja, noutro dia outra rosa e quem sabe também outra laranja.
    A questão que se levanta é; o que atrai as moscas?
    O que atrai as moscas é um sistema em que a aplicação da definição de uma estratégia politica conduz inevitávelmente ao estimulo de determinado segmento económico e a definição de uma estratégia politica é estimulada por determinado segmento económico.
    Obrigatóriamente haverá progressivamente mais moscas

  7. Obviamente que num país onde a palavra ética fosse colectivamente conhecida, nem o Rangel se levantava do chão, e o PR tinha sido forçado a demitir-se , isto para apenas mencionar o que já foram referidos, porque há mais nomes…

    Como tal não se verificou, temos de viver com eles, e viver com eles implica dar-lhes espaço para a queda.

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