Política, essa doença

Esta girafa ’tá muito mal. Muito mal… Vê estas malhas todas aqui? Isto é fígado! Sim senhor, fígado… Eu preciso é de lhe ver a língua. Tem a língua suja. Ela tem comido bem? Mal? Mal, sim. Olha, de hoje em diante, só água fervida, mais nada. Regímen absoluto, absoluto.

Canção de Lisboa

*

A decisão de viajar em classe económica nos voos europeus, que Passos passou a cumprir, não é censurável. Para além de ter sido anunciada na campanha, está de acordo com a moral que vem de ser validada politicamente em dois actos eleitorais consecutivos: legislativas e presidenciais. Também o voto em Cavaco legitimava o discurso contra a classe política que ele assumiu em crescendo desde 2008, e que este tipo de medidas hipócritas e irracionais simboliza. Na sua faceta mais radical, estamos no território dos remédios contra a doença, a metáfora que – na ausência de uma real criminalização de Sócrates e sua equipa governativa – atinge o propósito de castigar e anular o inimigo. Se não vão para a prisão, irão para o hospício. Veja-se o à-vontade, mesmo júbilo, com que César das Neves espalha esta mensagem.

Os tempos estão bons para populismos. O magnífico triunfo de Cavaco, ao conseguir derrubar o Governo e dar a maioria a PSD e CDS, foi feito apenas com essa estratégia. Não havia mais nada para dizer, muito menos para pensar, tratava-se só de uma questão de insistência, de repetição. Tendo na mão os patrões da comunicação social, e parte da RTP, conseguiu-se uma transversal base sociológica, da extrema-direita à extrema-esquerda, de apoio ao ataque às instituições democráticas. Os discursos das capturas dos políticos, das negociatas com as empresas e da gordura do Estado nunca eram substantivados, nunca se demonstrava a suposta ilegalidade ou falha de gestão, ficavam apenas pela exploração das aparências no intento de as deturpar. Quem aparecesse com uma proposta a desconstruir as calúnias e a promover a racionalidade, chamando a atenção para os institutos e mecanismos fiscalizadores, tanto nacionais como internacionais, não seria sequer levado em conta.

Quando o maior partido da oposição, secundado por uma legião de comentadores a ocupar todos os espaços de opinião, aposta na envenamento da honorabilidade dos governantes, levando ao extremo a natural desconfiança que sempre existe em relação ao exercício do poder, gera-se uma vaga de fundo que vai aplaudir aquilo que consegue entender. Passos a voar em económica é algo que qualquer um entende; saber se as suas políticas para a Saúde, Educação e Ciência são as melhores, isso já poucos entendem. São coisas lá dos políticos, doenças.

13 thoughts on “Política, essa doença”

  1. Eu gostaria de estar no avião e ver o Passos e os restantes que viajaram para Bruxelas. Se o voo estivesse cheio, o que muitas vezes acontece, seria delicioso observar o Passos e cª. entre 2 emigrantes daqueles que tresandam de mau cheiro, ou então junto duma mãe com uma criancinha irriquieta. E o bom do Passos, apertado, com a pasta debaixo das pernas, o computador em cima das mesmas e já agora meia dúzia de dossiers espalhados pelo chão. E entre a algazarra que é habitual nestes voos tentar ouvir suas excª.s a arquitetarem o plano para apresentar. Oh Passos, tás a ouvir pá! Estou aqui a ver os problemas da dívida. – O que pá, não se ouve patavina. Está aqui uma criancinha que valha-nos Deus pá dá vontade de lhe dar umas galhetas! Oh Passos não faças isso, meu, já te tramaste com a outra a quem quiseste oferecer uma enxada. Não me consigo mexer nesta merda de lugares pequenos comó caraças!
    Realmente isto não vai durar muito tempo a não ser que queiram lixar a TAP. ´
    É assim: qualquer tripulante de cabine se vir o Passos em económica logo o convidará para ir para a executiva que normalmente anda vazia. Então o Passos passará a viajar em executiva pagando económica. Isto é de chico-esperto e quem se lixa é a TAP que deixa de receber o devido. A ver vamos. Mas isto é poupar no farelo.

  2. Não vai durar muito este franciscanismo para deslumbrar. Por enquanto, ainda ninguém quer “matar” o homem. Daqui a uns tempos, já não vai ser assim, e a discrição, privacidade e segurança vão ter de ser a prioridade.
    Pela parte que me toca, não acho graça. Utilizo regularmente a TAP nas ligações LIS-BRUXELAS e vice-versa e receio bem que esta procura bastante expressiva da classe económica por quem iria normalmente em executiva comece a inflaccionar os preços…
    Lá está, as populações têm interesses contraditórios.

  3. Deixemo-nos de tretas! Quando ministros do PS viajavam em económica não eram notícia, quando os deputados europeus passaram a voar em económica, tiveram direito a um ataque a Miguel Portas que viajou em executiva numa viagem a Moçambique paga por quem o convidou, quando o senhor primeiro-ministro decidiu trocar os bilhetes (porque é que não deu a ordem antes de os ter encomentado) foi o frenesim total!
    Numa era de telemóveis com possibilidades de fotografar, de filmar e por aí fora, é estranho que ainda não tenha havido ainda uma única imagem do interior do avião que levou o nosso PM mais os acompanhantes, sentadinho nos lugares da económica!
    Quer a nanda, quer a/o Manteigas, já tocaram em alguns pontos fulcrais e óbvios.
    Viajei muitas vezes em executiva, apenas por ser detentor de um cartãozinho de passageiro frequente e sem pagar mais um tostão do que o que tinha pago pelo bilhetinho de económica, dada a disponibilidade de lugares desertos nessa classe (é esse o procedimento normal) pois assim tratam-se bem os clientes fiéis e ao mesmo tempo levam-se mais uns passageiros.
    Não houve quem achasse estranho, que um nóvel ministro detentor de uma Montblanc baratucha, tivesse de se socorrer da humilde esferográfica Parker que estava à disposição dos utentes, para assinarem o termo de posse, pois pelos vistos ter-se-á esquecido de verificar se a caneta tinha tinta, ou se calhar a deslocação do ar ter-lha-á secado uma vez que chegou de lambreta de que rapidamente se desfez para se sentar no automóvel com motorista!
    O amigo acabou por dizer aos jornalistas que ele não quis deixar o motorista sózinho, e uma vez que o carrito já lá estava… aproveitou!
    Não teria sido curial que o ministro Mota, previamente tivesse feito saber ao motorista que não necessitava de aguardar, pois que a partir dessa data passaria a andar de lambreta?
    Havendo em algumas medidas uma interessante dose de exemplo não é por isso que não deixam de ser folclóricas, e de folclore já andamos cheios, infelizmente.

  4. “Passos a voar em económica é algo que qualquer um entende; saber se as suas políticas para a Saúde, Educação e Ciência são as melhores, isso já poucos entendem. São coisas lá dos políticos, doenças.” – Val, é isso mesmo, porra, é esta a questão! E mais uma vez é a comunicação social que transformou a análise politica em comentário das aparências, tendo alimentado o populismo, sobretudo desde 2009.
    E este governo que só falou em redução de ministérios – depois de ministros – sem explicar quais os critérios, segue de vento em popa, e já nenhum “analista politico” levanta questões sobre tais opções…!

  5. Quem não sabe discutir o pano, discute as linhas. Mas é pelo cortar do tecido que se vê a qualidade do fato, não pela poupança nos alinhavos. Vamos esperando, sentados, pelos dados inequívocos das mesmas variáveis económicas com que se atiçavam os mastins ao Governo anterior. Quem os ensinou a morder, bem pode assustar-se quando os ouvir a ladrar.

  6. Resumindo, o Coelho, quando não viajar no Falcon (irá privatizá-lo?), vai ter em económica o tratamento de executiva, em detrimento da receita da TAP e da situação dos passageiros normais de económica, que vão passar a passageiros de terceira. Os seguranças e os assessores do pm vão sentar-se nas filas á sua volta, para impedir que um bloquista a cheirar a chulé comece a espreitar o seu laptop ou a meter conversa com o gajo. Como os banqueiros e outras clientelas do governo psd viajam sempre em executiva, só vão poder abordar ali o Miguel Portas, o que é injusto e triste, apesar de o Miguel não cheirar a chulé.
    E que tal se o Coelho deixasse simplesmente de voar? Salazar nunca voou e deu-se bem com isso, além de o seu governo ter prodigalizado um inesquecível rol de benefícios para o povo. Navegar é preciso, voar não é preciso.

  7. Já só falta uma medidazinha de poupança. Falta largarem as gravatas e desligarem os ares condicionados como fizeram os Japoneses há uns tempos atrás.

  8. Caro Val,

    Estes sinais de demagogia barata, vão-nos sair muito caros a todos… Só quem não tem a mínima ideia do que é ser-se Primeiro Ministro (PM) de um País hiper-centralista como Portugal – com todos os dossiers quem tem que coordenar, com a agenda de reuniões e de eventos nacionais e internacionais sobrecarregadíssima, com os contactos reservados que tem que efectuar, com a preparação cuidada das reuniões que tem que realizar, é que pode sequer pensar neste tipo de franciscanismos bacocos… Enfim, só um PM que pensa estar num papel de turista acidental, pode pensar em viajar em Classe Turística… Para curar estes súbitos ataques do “síndrome da classe turística”, aconselho-lhe a tomar uma Aspirina, nesta caso, a B, pois claro… ( http://www.mulherportuguesa.com/saude-a-bem-estar/90/1240-a-aspirina-e-o-sindrome-da-classe-turistica) :-).

    Ah, sim e fico a aguardar as cenas dos próximos capítulos na Comunicação Social sobre o que dirá ou fará o PM quando ele próprio ou um membro da sua Corte optar por viajar em Classe Executiva. Ou, quando for apanhado num Hotel, vá lá, de três estrelas, em vez da Pensão Estrelinha… Ou, então, quando for apanhado a tirar férias na Costa da Caparica (já nem falo do Algarve, vade retro, tentação…) em vez de aproveitar o sol de Massamá… Ou, ainda quando for filmado a comer, vá lá, uma requintada siricaia com doce de ameixa, em vez das suas populares farófias ou papos de anjo…

  9. Lá para trás falava-se em identidade e marca. Creio que não existe melhor exemplo para definir a identidade, no caso de um governo. De tão, mas tão honesto e poupadinho torna-se ridículo. Esta dissintonia é igualmente passivel de ocorrer nas marcas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.