Já somos dois

Górgias (workflow)

Há um exercício retórico ao qual me dedico amiúde e que surge sempre sem eu querer:

1. Indigno-me com alguma coisa e começo a escrever sobre ela, argumentando ao sabor da minha indignação - tanto que, grande parte das vezes, não estou a escrever sobre o que me indignou, mas sobre a indignação em si.
2. Mais ou menos a meio do texto apercebo-me de que a minha posição é indefensável.
3. Mais por prazer do que por orgulho ou teimosia continuo a defender a minha posição indefensável.
4. Limo o texto, usando de subterfúgios pseudo-estilísticos banais e de uma lógica aparente (e aparentemente lógica).
5. Quando estou satisfeita com a minha fraude, releio-a várias vezes, com prazer.
6. Se a cadência e a fluidez do que escrevi me conseguirem fazer esquecer as minhas mentiras, retiro-me do texto.
7. Se me acontece voltar ao texto, muito tempo depois, penso: que bem que eu escrevia, que diletante que sou.

Filigraana

9 thoughts on “Já somos dois”

  1. Continuas a procurar explicações, Marco, e fazes muito bem. Segundo o “Teeteto”, é essa a principal característica da juventude.

  2. Tu e os gregos – até aposta que isso também há-de explicar alguma coisa, mas agora não me dá jeito ir procurar uma coisa que seja explicada pela supracitada coisa, só para provar o meu ponto de vista da explicação das coisas.

    E coisa e tal.

    (eu gosto de saber coisas – se isso me fizer jovem durante mais anos, é um bónus adicional, mas não o objectivo imediato)

  3. A juventude não diz respeito à idade mas à relação com o mundo. Pode-se continuar jovem indefinidamente ou atingir a “fonte da eterna juventude” em qualquer provecta idade. É a lição dos gregos, mas também dos chineses, indianos, alquimistas e sportinguistas em geral.

  4. ai , V , tu desculpa , mas nunca te retiras do texto. até ao ponto 5 podem ser dois , a partir de aí passa a ser só um , a filigraana e mais nenhum. mas arranjaste um bom modelo , isso é de louvar. com um bocadinho de esforço , quem sabe?

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