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Da falta de juízo

A ideia de que os cursos de Direito formam licenciados com um mínimo de interesse em levar vidas ética e deontologicamente exemplares só é comparável à ideia de que os cursos de Arquitectura formam licenciados com o máximo de interesse em passar o resto da vida a carregar com sacas de cimento no lombo.

A monarquia de Passos

A promessa eleitoral de ter um Governo reduzido a 10 ministros e 25 secretários de Estado, inclusa no Programa do PSD, fez parte da demagogia anti-políticos que a São Caetano cavalgou numa estratégia de terra queimada para capitalizar nas insatisfações inevitáveis e na ignorância ignominiosa. A mensagem era a de que havia excesso de governantes, assim validando o populismo mais rasteiro que pretendia defenestrar ministros sob o pretexto de serem apenas despesa a pedir abate. Eles nem previram a magna complicação de realizar a efectiva redução de ministérios, o que até suscitou admoestações públicas de Belém.

Neste Fórum da TSF – Futuro Governo PSD/CDS-PP – discutiu-se a questão. Os participantes dividiram-se entre os crentes e os analistas. Os crentes apoiavam a diminuição, dando como principal argumento o popular pressuposto de que os governantes devem ser poucos, mas bons; entenda-se: devem ser trabalhadores, coisa que os actuais não são; devem ser transparentes, coisa que os actuais não são; devem ser honestos, coisa que os actuais não são. Os analistas rejeitavam a diminuição, realçando que pelo lado financeiro a poupança assim gerada é completamente irrelevante, e que pelo lado da gestão há graves problemas a caminho de um Governo reduzido. A acumulação de pastas levará a várias disfunções dado não ser possível termos no futuro próximo dias de 72 horas e ministros com o dom da ubiquidade. Isso causará uma irremediável perda de autoridade dos super-ministros, obrigados a delegar em secretários de Estado e a falharem eventos e conversações com os representantes dos diversos sectores tutelados.

Paulo Baldaia, juntando ao cargo de director da TSF a reputação de não ser propriamente um tosco, deixou no Fórum um curioso sofisma: reduzir o número de ministros pode vir a ser bom em matéria de coordenação política, sendo indiferente haver ministros ou secretários de Estado. E detalhou: um só ministro decide com mais visão e rigor caso domine duas áreas distintas, pois as vê num conjunto e pode obter resultados impossíveis de alcançar caso elas estejam separadas e entregues a distintas individualidades. Baldaia, entusiasmado consigo próprio, leva-nos para o psicologismo, prensando o processo político no momento cognitivo da decisão. De caminho, promove a tese de que uma cabeça pensa melhor do que duas. Às malvas manda a morosidade na assimilação da informação e a complexidade na obtenção de acordos, a que se junta a complexidade na assimilação da informação e a morosidade na obtenção de acordos. Tudo se resume ao quero, posso e mando.

Pois bem, o corolário destes raciocínios só pode também ser um: que Passos Coelho acumule todas as pastas e abdique de todos os ministros. Depois poderemos fazer um referendo para saber se ainda vale a pena continuarmos a chamar “república” a esta absolutista poupança.

A fotografia e o retrato

Tenho condições para sair do exercício deste cargo com consciência tranquila, de quem pôs sempre o interesse do país acima do interesse pessoal. Se eu quisesse ficar bem na fotografia, já não estaria aqui. Mas nem sempre o mais importante na vida é uma fotografia. O mais importante para mim foi servir o país, foi ocupar este cargo com sentido de responsabilidade, enfrentando condições de grande dificuldade.

Teixeira dos Santos

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Aqueles que têm o desplante de apontar falhas a Teixeira dos Santos a partir do começo das sucessivas crises económicas e financeiras, por isso também fiscais e orçamentais – cuja dimensão afectou gravemente todos os países do Mundo, e depois ainda mais a Zona Euro, de forma inescapável e desvairada – teriam feito melhor ou sabem de alguém que tivesse feito melhor? E a redução do défice, enquanto o Governo lançava um ambicioso programa de reformas e ainda se mantinha a racionalidade dos mercados, pode ser de boa-fé ignorada na sua avaliação?

Acima e antes de tudo, o exemplo de Teixeira dos Santos é magnífico – uma magnífica lealdade a Sócrates, e a todos os restantes colegas de Governo, quando teria sido tão mais fácil, cómodo e proveitoso fugir.

Que belo retrato de carácter.

A cena do ódio

Este é o país da completa bagunça.

Chegámos aqui com um trabalho bem orientado pelo senhor primeiro-ministro, que tem tido o cuidado de se fazer rodear de indivíduos absolutamente incompetentes, que manifestam o maior apreço pela sua própria incompetência e pelo carácter de ditador inconsequente e sem consciência. É um indivíduo impreparado para qualquer coisa que seja uma actividade política.

Nesta entrevista à Renascença, o antigo bastonário da Ordem dos Advogados apela a Cavaco Silva para que se recandidate à Presidência da República. “Eu ficaria surpreendido que ele [Cavaco Silva] estivesse disposto, mas daqui, como o indigitado candidato que não sou nem nunca fui pelo Diário de Notícias, o incito a que concorra outra vez para nos livrar desta escumalha que tem governado o país”, refere Pires de Lima.

Sócrates é um aldrabão de feira.

Pires de Lima, Fevereiro e Julho de 2010

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Os ataques virulentos à suposta incompetência dos políticos começaram na antiga Grécia, com o advento mesmo da democracia – isto é, da política feita pelos cidadãos. Quem fazia os ataques nessa altura eram os poderosos, donos das terras e da tradição. As leis do sangue e da riqueza, as que melhor serviam os seus interesses, permitiam conservar a ordem social e as hierarquias de classe cujas origens se perdiam na noite dos tempos. A democracia grega, aumentando incontrolavelmente a quantidade daqueles com direito a exercer o poder, provocou uma reacção de defesa, e repulsa, nos oligarcas que permanece até aos dias de hoje. Há até quem diga que toda a ciência política não passa da reflexão acerca desse trauma inicial, feita a partir do ponto de vista da aristocracia.

Este Pires de Lima, filho de um próximo colaborador de Salazar, verbalizou publicamente o que os derrotados de 2005 e 2009 diziam em almoços e jantares, casamentos e baptizados, empresas e clubes. Aliás, ele apenas apresentou eufemismos, pois na privacidade os senhores sempre se confundiram com os carroceiros quanto ao gasto do vernáculo e pulsões animalescas. Estas citações têm a vantagem de ilustrar o ambiente moral da nossa elite social e financeira, pela primeira vez após o 25 de Abril afrontada por um rival que conhecia a sua decadência e contava com ela. A raiva que cega Pires de Lima é exactamente igual à que invadiu o espaço público vinda de Soares dos Santos e Belmiro, Ferreira Leite e Pacheco, Paula Teixeira da Cruz e Maria João Avillez, Moura Guedes e Crespo, Francisco José Viegas e Eduardo Cintra Torres, Henrique Neto e Carrilho, entre dezenas de outras figuras – à cabeça das quais está Cavaco Silva – que publicamente manifestaram o seu ódio repetida e crescentemente até ao dia 5 de Junho de 2011.

A magnitude do fenómeno não se explica através da redução ao simplismo do par Governo-oposição e seus conflitos, pois os poderes fácticos querem é fazer negócios, lidando igualmente bem com a direita ou com a esquerda – como se constata banalmente a nível autárquico, por exemplo. Para algo com esta dimensão nunca antes vista, em que diariamente podíamos ouvir e ler relatos pungentes da brigada dos deprimidos e apocalípticos, e tendo inclusive recorrido à tentativa de criminalização de um primeiro-ministro envolvendo polícias e magistrados, só há uma realidade psíquica e sociológica onde as peças encaixam na perfeição: o medo.

Estavam apavorados por não terem quem alcançasse superar Sócrates em força executiva, coragem reformista, carisma na liderança. Então, repetindo as conspirações na antiga Grécia contra Péricles, recorreram à calúnia sem vergonha ou hesitação. Como nem desse modo o conseguiam chantagear e assustar, a impotência aumentava ainda mais o seu desespero. A cena do ódio foi, assim, a medida do medo.

Cineterapia



Running on Empty_Sidney Lumet

Os anos 60 geraram muitos grupos de esquerdistas radicais na América, usualmente ligados ao activismo universitário e unidos na rejeição do sistema capitalista e na luta contra a guerra no Vietname; entre outros ideais de que comungavam e que permanecem bandeiras cívicas ainda a fazerem o seu caminho, como a ecologia e a condição feminina. Alguns dos revolucionários nascidos na cultura do Tio Sam chegaram a cometer actos criminosos, sob a forma de assaltos e atentados terroristas. Isso levou a que muitos desses militantes envolvidos na luta armada entrassem na clandestinidade, perseguidos pelo FBI em qualquer canto dos EUA, sendo suportados por uma extensa rede de secretos apoiantes locais. Este filme conta-nos uma dessas histórias, ficcionada a partir de vários casos reais. Mas pura ficção.

E ficção da mais pura. Com actores que fingem tão completamente que chegam a fingir que é amor o amor que deveras sentem. Exacto, bem lembrado: River Phoenix e Martha Plimpton apaixonaram-se durante as filmagens. Ou aquela puta daquela cena onde Christine Lahti vai ter com Steven Hill e nunca, jamais, alguém, jamais, nunca, irá conseguir apagar esta certeza de termos testemunhado uma filha e um pai a partirem o coração um do outro após 12 anos de separação e silêncio, só para descobrirem que o sentimento de pertença à família é indestrutível. O final? Judd Hirsch podia ter estado calado no resto do filme desde o princípio, e num certo sentido esteve, que as suas derradeiras palavras justificariam plenamente a presença num mergulho ao que fica depois de se perderem as ilusões de pretender mudar o Mundo. E o que fica é a esperança, ainda mais louca, de que seja o mundo a mudar aqueles a quem mais queremos.

O género musical, seja em cinema ou teatro, define-se pela função narrativa dos números de dança e canto, os quais fazem avançar a acção, acrescentam ou alteram a história em curso. Em sete mil milhões de seres humanos actualmente a devorarem este planeta, não passaria pelo bestunto a nenhum deles catalogar Fuga sem fim como um musical. Porém, a música é aqui um elemento mais importante do que muitas das personagens. Ouvimos Beethoven, Madonna, Bhrams, Roy Orbison e James Taylor. Temos até direito a uma aula de iniciação à música clássica. Mas temos um momento cuja centralidade e síntese é tão densa que opera com um epílogo antecipado, alegórico, do destino de todos, do deles e do nosso. Ao som de Fire and Rain – uma canção nascida na morte, no desespero e na tortura – estes cinco, minutos depois de estarem ali sentados, dançam a mais feliz das danças. Esse momento tornou-se num imperativo categórico para a minha cinefilia: eis um dos mais surpreendentes musicais alguma vez feito. E por fazer.

Barbaridades germânicas

Em declarações aos jornalistas, à margem da inauguração de um “mercado criativo” em Abrantes, António Serrano desvalorizou as suspeitas alemãs por causa da bactéria E.coli descobertas em folhas de alface de um produtor hortícola na Baviera, tendo observado que as mesmas “não se fundamentam em qualquer evidência científica”.

O ministro criticou as autoridades alemãs, tendo afirmado que “continua a haver uma irresponsabilidade muito grande” da sua parte, “avançando, de suspeição em suspeição, sem provas” concretas. “Até parece que o problema não está lá, na Alemanha, mas sim em outro país qualquer”, observou.

“É lamentável é que a Alemanha continue a deixar passar informação que não está devidamente validada do ponto de vista científico, que continue a provocar estragos na nossa agricultura, quando precisamos é de restabelecer a confiança, sobretudo nos países onde não há nada a temer, como é o nosso caso”, continuou António Serrano, acrescentando que as “suspeições” têm originado “consequências económicas profundas”, em termos de prejuízos, aos agricultores portugueses.

Fonte

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De facto, está a ser inacreditável o grau de desorientação das autoridades alemãs perante a crise da bactéria E.coli. E que isto aconteça num país com as competências e capacidades científicas da Alemanha, a que acresce a sua tradição de rigor na gestão, é de deixar qualquer um assarapantado.

Mas não admirará, então, que os alemães ainda se vejam mais à nora para lidar com as infecções e viroses financeiras da Zona Euro.

O teste Valupi não engana

3 115. Foi este o número de espectadores que viu o documentário 48, de Susana de Sousa Dias, na sua passagem por Lisboa. Mas ainda mais revelador da decadência da extrema-esquerda, a tal que manda nas ruas e nas avenidas mas não vai ao cinema, é o “Teste Valupi” a que sujeitei aqueles blogues onde se reúnem os maiores cagões da imbecilidade nacional. Pesquisando pela quantidade de ocorrências para Susana de Sousa Dias 48 e Valupi, eis os resultados:

Vias de FactoValupi: 6 | Susana de Sousa Dias 48: 1 (em 2010…)

5 DiasValupi: 7 | Susana de Sousa Dias 48: 1

ArrastãoValupi: 0 ou 25 (se contarmos os comentários) | Susana de Sousa Dias 48: 0

Blogues onde se gastam milhões de caracteres por mês a crucificar Sócrates e o PS, a derrubar o capitalismo e a levantar a revolução, a perseguir implacável e verborreicamente os desvios milimétricos às ortodoxias individuais entre adeptos e iniciados, não foram capazes de promover – quanto mais celebrar! – um documentário que é uma original viagem ao passado daqueles a quem mais devemos a democracia. Aqueles que, diríamos ingénuos, seriam os seus heróis favoritos. Mas não são, acabamos por aceitar. Quando se aproximam muito do povo e são obrigados a prestar atenção, a terem de ficar em silêncio para compreenderem o que não viveram mas acham que podem apropriar, estes guerreiros de lombada arrepiam-se, espirram e abalam para zonas onde lhes passe a alergia ao pensamento.

Os imbecis, como eles fazem questão de nos mostrar diariamente, deixam-se ficar sedentariamente instalados na utopia e já não têm curiosidade em conhecer outras paragens. Agora, estão só na converseta uns com os outros, esperando pelo fim da História numa versão em tons de vermelho carregado – e até se dão à suprema luxúria de preferirem gastar o tempo que resta com o irrelevante Valupi a ter de aturar as esquisitices artísticas da Susana de Sousa Dias.

Cunhal tem dado tantas voltas na tumba à conta destas luminárias que até Marx já está a ficar incomodado.

A guerra que nunca acabou

Quanto é que Portugal deve a estes homens e suas famílias?

[audio:https://aspirinab.com/ficheiros/Fórum-TSF-Guerra-Colonial.mp3|titles=Fórum TSF – Guerra Colonial]

Esta edição do Fórum TSF – Memórias da Guerra Colonial – é do maior interesse e gera a maior compaixão, seja qual for a tipologia das vítimas que aparecem a dar um testemunho sempre lancinante. Começa com um diagnóstico que explica muito do que continua a passar-se na sociedade e, portanto, na política. O país que escondeu a Guerra do Ultramar, escondeu os agentes da PIDE e seus informadores, maltratou os militares que voltaram feridos e os retornados, continua 40 anos depois cheio de silêncios e, sintomaticamente, ofuscado por uma caça às bruxas feita em nome da verdade e da transparência.

Velhas e relhas histórias que nos amordaçam, diminuem e violentam.

Good food for good thought

The researchers found a wide variation in the degree to which various societies impose social norms, enforce conformity and punish anti-social behavior. They also found the more threats experienced by a society, the more likely the society is to be restrictive, the authors say.

“There is less public dissent in tight cultures,” said University of Maryland Psychology Professor Michele Gelfand, who led the study. “Tight societies require much stronger norms and are much less tolerant of behavior that violates norms.”

“Tight” refers to nations that have strong social norms and low tolerance for deviation from those norms, whereas another term, “loose,” refers to nations with weak social norms and a high tolerance for deviation from them.

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Impressionar no emprego, seduzir em festas, brilhar nos jantares

Gene Therapy Reverses Type 1 Diabetes in Mice
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Health Care Providers Need Training to Recognize Signs of Domestic Violence, Says Nursing Expert
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Study: Schoolyard Bullies Four Times More Likely to Abuse Spouses as Adults
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People Judge Therapists By Their Offices
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What Mom Thinks Matters When It Comes to Mental Illness
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What Happens in the Brain as It Loses Consciousness: 3-D Movie Constructed
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Moderate to Intense Exercise May Protect the Brain
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Weight Loss in a 3D Virtual World
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Be It Numbers or Words, the Structure of Our Language Remains the Same
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Current Carbon Dioxide Emission Higher Than It Was Just Before Ancient Episode of Severe Global Warming
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Dangerous and Under the Radar: New Study Examines Ways to Protect Sex Workers
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An Egalitarian Internet? Not So, Study Finds
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Nighttime Lights Clarify Economic Activity: Combining Lights and Statistics May Yield High-Resolution Global Economic Data
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Debt Boosts Young People’s Morale
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Women Warriors Show Resilience Similar to Men, Psychological Study Shows

Ética republicana ameaçada de extinção

Ana Gomes aproveitou a crónica de Ferreira Fernandes para tentar corrigir as interpretações do que disse em Estrasburgo. Estava especialmente interessada em afastar a temática sexual da questão. E deixou uma síntese à prova de hermenêuticas enviesadas:

O senhor quis ver nas minhas palavras sobre Paulo Portas a alusão a comportamentos para alguns socialmente desviantes, mas certamente irrelevantes do ponto de vista criminal. Desviou assim as atenções das suspeições por crimes que eu explicitamente imputei a Paulo Portas: corrupção, facturas falsas, fraude fiscal, burla ao Estado, difamação e calúnia de inocentes. Serão suspeitas irrelevantes para determinar a idoneidade, a credibilidade e a vulnerabilidade de um governante?

A resposta de Ferreira Fernandes não tem qualquer interesse para o ponto irreversível a que o caso chegou, pois se limita a uma defesa no âmbito pessoal. O que tem absoluto interesse é constatar que estas segundas declarações de Ana Gomes não suscitaram qualquer reacção. Nem sequer uma de algum bronco! Contudo, e incontornavelmente, posto que se fazem acusações relativas a crimes que se nomeiam, elas obrigam a um esclarecimento, seja de quem for: de Ana Gomes, de Portas ou do Tribunal.

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Título para uma biografia política

Entre a aridez das pedras e a verdura dos pinhais, o interior do País pode ser uma metáfora de Portugal inteiro.

Diz que é uma espécie de Presidente da República

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No discurso que proferiu no 10 de Junho de 2010, Cavaco disse que tínhamos chegado a uma situação insustentável, recordando que de tal tinha deixado aviso na altura devida. Simultaneamente, declarava que este é o tempo de fazer um esforço suplementar para concertar posições e gerar consensos, não é o tempo para querelas partidárias ou quezílias ideológicas que nos possam distrair do essencial. E o essencial era a sua reeleição, sem a qual o Cavaquistão arriscava não conseguir voltar ao pote. O discurso do 10 de Junho do ano passado, como outros desde o Verão de 2008, foi uma peça de combate político contra o Governo e o PS, servindo a estratégia de médio e longo prazo de Belém. E só num país onde vigore uma verdadeira asfixia da inteligência e da coragem é que se tolera escutar do Presidente da República a mensagem de que nada pôde – nem pode! – fazer para evitar a insustentabilidade da situação que garante ter visto chegar primeiro do que todos os outros à sua volta; e isto apesar de o Governo ser minoritário e não faltarem razões e ocasiões para dissolver a Assembleia perante o bloqueio da oposição, o agravamento da especulação dos mercados de financiamento e a incapacidade da Europa para proteger as economias mais débeis, as quais, por isso mesmo, eram alvo de maior pressão internacional.

Usando uma técnica típica das situações de manipulação psicológica, Cavaco apresentava duas mensagens que se contradiziam, dessa forma gerando um estado de confusão no receptor. Por um lado, existiam culpados a merecer o maior e mais urgente castigo; por outro, ainda não tinha chegado a hora da perseguição e linchamento, havia que fingir sermos todos amigos. Resultado pretendido: ficar a ideia de ser ele o juiz e o carrasco, mas ao seu modo e no seu calendário. Temos de reconhecer que acertou em cheio na manigância, pois não só foi reeleito como derrubou o Governo e levou a direita a ter o poder político absoluto. Por causa deste colossal sucesso, no futuro vários investigadores dirão de Cavaco que foi, enquanto agente individual, alguém cuja influência no regime desde finais de 70, tanto na extensão temporal da sua acção como nas consequências, só encontra paralelo em Salazar. Não por acaso, e cada vez de forma mais marcada e desavergonhada, Cavaco permite-se exibir a sua apetência pela posse da herança cultural salazarista, tanto no que diz respeito à hierarquia axiológica (Deus, Pátria, Família) como à mundividência oligárquica e à tentação, ou fuga, solipsista.

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