Ética republicana ameaçada de extinção

Ana Gomes aproveitou a crónica de Ferreira Fernandes para tentar corrigir as interpretações do que disse em Estrasburgo. Estava especialmente interessada em afastar a temática sexual da questão. E deixou uma síntese à prova de hermenêuticas enviesadas:

O senhor quis ver nas minhas palavras sobre Paulo Portas a alusão a comportamentos para alguns socialmente desviantes, mas certamente irrelevantes do ponto de vista criminal. Desviou assim as atenções das suspeições por crimes que eu explicitamente imputei a Paulo Portas: corrupção, facturas falsas, fraude fiscal, burla ao Estado, difamação e calúnia de inocentes. Serão suspeitas irrelevantes para determinar a idoneidade, a credibilidade e a vulnerabilidade de um governante?

A resposta de Ferreira Fernandes não tem qualquer interesse para o ponto irreversível a que o caso chegou, pois se limita a uma defesa no âmbito pessoal. O que tem absoluto interesse é constatar que estas segundas declarações de Ana Gomes não suscitaram qualquer reacção. Nem sequer uma de algum bronco! Contudo, e incontornavelmente, posto que se fazem acusações relativas a crimes que se nomeiam, elas obrigam a um esclarecimento, seja de quem for: de Ana Gomes, de Portas ou do Tribunal.

O modo como as primeiras declarações foram rejeitadas, ou deixadas ao abandono, por elementos da área socialista mostra uma característica que distingue política e sociologicamente o PS do PSD e CDS: a ética republicana. À direita – nesta suposta direita agora triunfante – as calunias são usadas como recurso primeiro para o combate aos adversários. É um comportamento que tem séculos de prática, pois nasce nos círculos das elites, das cortes, onde a conspiração e os assassinatos de carácter são modos habituais e lógicos para conquistar o poder face à ausência de alternativa por via da assembleia, golpe de Estado ou revolução. Curiosamente, mas sem surpresa, temos assistido a que PCP e BE repitam os assassinatos de carácter por incapacidade de captarem favor eleitoral. Transformaram-se em sósias palacianos daqueles que fingem combater, mas com quem se aliam sempre que podem para enfraquecer as soluções democráticas, as tais que revelam a irrelevância e ambição totalitária destes partidos que sonham chefiar ditaduras.

Dentro da tal ética republicana que é o garante cívico do Estado de direito, Ana Gomes nunca deveria ter avançado para um ataque deste calibre sem ter apresentado os elementos de que dispõe para construir a acusação. Se pretende com este número levar o caso para tribunal apesar de não existirem provas suficientes, será ainda assim uma intenção tortuosa e indicadora de vendetta. É sabido como ela se indignou no caso Casa Pia, onde viu camaradas e amigos seus serem arrastados na lama de uma forma que atingia a própria reputação do PS. E há várias declarações suas ao longo do tempo que não diferem, na substância, destas feitas em Junho de 2011. Por tudo isto, e pelos atributos de coragem que já demonstrou noutras ocasiões, dela se exige uma conduta exemplar. O exemplo que continua a dar, infelizmente, é tão mau que acaba por gerar simpatia para com Paulo Portas, diluindo a gravidade do que se deixou como acusação – e esse é um péssimo serviço ao País.

25 thoughts on “Ética republicana ameaçada de extinção”

  1. Viva Valupi,

    não quis tirar força (como se isso fosse possível) à sua fabulosa campanha pró Sócrates, fui dando conta que o estilo é e continua de alto nível, as temáticas é que ainda perduram.É da vida, como diria o outro batata. Mas seguramente que teremos outros assuntos bem trabalhados por si no futuro.

    Quanto ao que faz Ana Gomes, está certo o que afirma, temos ali alguém que se considera também ela, e de alguma forma o é, estar muito longe dos deveres dos reles mortais.

    Só tiro o chapéu a esta senhora pelo que afirmou sobre o tomar ou não posição por um candidato a secretario geral, afirma que está à espera que certas pessoas o façam, não para os seguir mas seguramente pelo contrário, para lá não estar.

    É obra para quem já tem a segurança de ser inamovível nos próximos anitos de confusão.

    Abraço

  2. Desde 2002 que vejo a nossa justiça “capturada”. Todos se lembram da vergonha protagonizada por Adelino Salvado, Director Nacional da PJ , apanhado a fornecer a um jornalista dados processuais em segredo de Justiça refrentes ao processo Casa Pia e da complacencia absoluta do PGR com essa inacreditável situação. Adelino pediu a demissâo e continuou calmamente a sua magistratura e o PGR foi, mais tarde, condecorado pelo presidente Cavaco.
    Deixo apenas este exemplo, dos incontáveis atropelos à justiça levados a cabo por agentes da justiça, nestes últimos dez anos. Mas relembro ainda a escarradela na justiça dos magistrados que ainda tinham 27 perguntas para fazer a um cidadão, não por acaso PM, no fim de seis longos anos de investigação e centenas de milhares de euros gastos para descobrir um pintelho que lhes permitisse constituir Sócrates como arguido.
    Durante seis longos anos a justiça deste País permitiu que um cidadão, não por acaso PM em exercicio, fosse submetido às suspeiçôes mais torpes, a ponto de eu ouvir, em tudo quanto é espaço público que Sócrates está podre de rico com o dinheiro recebido por corrupção passiva.
    A calúnia repetida tornou-se verdade absoluta. “E ninguém fez nada”!!!
    A classe politica permitiu uma justiça em “roda livre” e não em liberdade democrática. Agora corram atrás do prejuizo. Não sei se vai ser possivel reverter o estado a que chegou, com estes magistrados.
    A direita e a esquerda radical não precisaram de uma “ana gomes”, porque a comunicaçâo social fez o trabalhinho sujo todo.
    Quem quiser condenar a deputada do PS, deve e pode fazê-lo, mas tem de condenar com muito mais vigor, e em primeiro lugar, aqueles que assistiram passivamente ou aplaudindo em surdina, aos dez anos em que a pulhice capturou a nossa justiça. E colocar os nomes na praça, porque sâo sobejamente conhecidos, seja pela omissão seja pela participaçâo activa na destruiçâo do pilar de uma democracia, como é a justiça.
    As vaias que Sócrates ouviu no Dia de Portugal traziam o selo da calúnia mil vezes lançada, e assimilada pela gente simples enganada.
    Perdi com Sócrates, não com o PS, que não sou militante; e não tenho vergonha de vos confidenciar que me vai doer por muito tempo este triunfo da mentira e da manipulação como eu nunca tinha visto. Perdi o respeito por muita gente, ao mais alto nível, porque as considerava pessoas de bem e dignas e se revelaram, rasteiras, mesquinhas e pactuantes com a calúnia vil.
    A justiça é que está mesmo doente e a precisar de cura urgente. Sobre esta imensa mazela o sr Presidente da República disse nada, no dia de Portugal. E ainda tivemos que ver (eu não vi) a condecoração de uma senhora que queria suspender a democracia por seis meses? seis anos? sessenta anos?

  3. bem , eu cá não sei ao certo, mas repugnante , mosca morta e tal não são facadinhas no carácter que procuram a morte política do visado ? é que li essas coisas aqui acerca de um republicano. ainda por cima do ps.
    tb li que o cavaco patati patata dos partidos e cabrão que inferioriiza políticos , sacana de discurso que prejudicou eleições. e depois leio que pcp e be e não sei quem mais são uns merdas de partidos que só existem para sacanear o partido da união nacional (suponho que será esse ).
    isto vai para aqui uma confusão nas cabeças do éticos republicanos que fico mesmo contente de ter um rei.

  4. João Lisboa, what?
    __

    Ovitelo, what?
    __

    Mário, cada caso é um caso. É precisamente nessa atenção ao individual que reside a ética.

  5. Sim, Val, cada caso é um caso e não é por haver o caso Adelino Salvado, Crespo ou Marcelo que se pode condenar a justiça e a sua (não) aplicação em bloco. Mas quando durante oito consecutivos anos (não sei se isto vai parar, porque se está a sugerir, em “bocas” de magistrados e barretos, a responsabilização (criminal?) de Sócrates pela crise actutal) se assiste à degradação em plano muito inclinado da justiça, a responsabilidade passa a ser colectiva. Quem de direito, as magistraturas, permite; quem devia denunciar, os media, consente; quem deveria atalhar caminho, as instituições, a começar pela Presidencia da República, pactua, já não se trata de “cada caso é um caso”. Nem tão pouco da ética republicana (seja lá o que isso for) ou outra. Porque o que está em causa é falencia da própria ética.
    O discurso arrasador do PSTJ do dia 3 de junho 2011 não foi silenciado por acaso. Não sei se mereceu uma simples referencia dos marcelos e quejandos. Em quaqluer país onde houvesse o normal funcionamento das instituições a denuncia do PSTJ nunca poderia ter acontecido. E o Presidente da republica sabe disso e a AR da republica sabe disso e o país que pensa sabe disso.
    Estamos muito poara além da casuistica.

  6. Ana Gomes falhou!
    E depois?
    Quem estiver livre de pecado que atire a primeira pedra!
    A Ana tem vários defeitos, é voluntariosa, fala muitas vezes sem pensar, diz coisas complicadas de modo simples e por isso paga!
    Paga com a sua imagem, paga pelas interpretações dúbias que as suas palavras deixam no ar, paga ao ser vítima de ataques de todos os quadrantes que se sentem ofendidos e que muityas das vezes fizeram o mesmo na maior das impunidades.
    Nínguém terá nada a ver com a orientação sexual do próximo, desde que o próximo não se arme em paladino da moralidade e bons costumes tradicionais portugueses.
    O ladrão não deixa de ser ladrão pelo facto de ser polícia e andar no gamanço.

  7. Portanto, coitadinhos, no meio disto, os socialistas, coitadinhos, são patos sentados, vítimas inermes, virgens impolutas, sob os ataques elitistas da Direita e da Extrema Esquerda. Os socialistas, coitados, essa Esquerda Desmesurada e Imoderada sobre o Estado-Deles, coitada, é a reserva de ética e decência. Compreendi-te, Valentim.

  8. não oh impronunciavelrex! tadinhos são os direitolos da santa comunhão de interesses inconfessaveis que ainda não governam e já estão a pedir para não lhes fazerem o que eles a andaram a fazer durante 6 anos.

  9. Mário, estás a misturar dois assuntos distintos, embora similares e aparentados, diria. O facto dos problemas na Justiça terem, em última instância, uma responsabilização colectiva é inegável. Contudo, essa problemática em nada colide com a crítica – seja para louvar ou repudiar – das acções individuais que calhem merecê-la.
    __

    Teofilo M., e depois? E depois, quem reclamou contra as calúnias que se abateram sobre Sócrates deve ser o primeiro a marcar a sua oposição a essa prática, ainda com mais exigência se tiver algum tipo de afinidade com o PS.
    __

    PALAVROSSAVRVS REX, larga o vinho.

  10. Caro Val, desculpa lá, mas que o erro da Ana Gomes seja considerado crime de lesa-majestade e nos ponha todos num pranto de rasgar vestes e ranger de dentes é que não concordo.
    Critico-a por ter errado, ponto final parágrafo.
    Daí a puni-la com a expiação eterna, que me parece que é o que se pretende fazer, vai uma distância considerável.

  11. Teofilo M., mas qual a necessidade de trazer esses extremos da expiação eterna? Quem é que está a propor tal? Entretanto, na ética não há meias-tintas, apesar de toda a eventual complexidade que seja necessário pensar até chegar a uma conclusão: se uma acção se conclui estar errada, então essa acção está errada. Tudo o que for mitigação, ou esquecimento, dessa evidência, será cumplicidade com o erro.

    Talvez seja por causa deste rigor, e suas agruras e desafios, que a ética apareça mais como uma arma para atirar aos adversários do que como uma fonte de exemplos para os nossos e, em especial, para cada um.

  12. Val, Val, vamos por acabar a ser vítimas da nossa própria ética, pois os restantes estão a marimbar-se na dita, e crfeio que o problema da Ana não é um problema de ética mas antes de estética.

  13. Compreendo VAL, mas, no caso, a minha simpatia vai para Mário.
    O que me leva a confessar um grave pecado, a que não consegui opor-me, contra a “ética republicana”.
    Não posso deixar de assinalar que me deu um certo gozo ver o “lacrau” provar do seu próprio veneno. Resquícios da barbaridade bíblica ?…
    Quanto aos desenvolvimentos do caso, a escolha anunciada de Garcia Pereira – cuja legitimidade não se contesta – é mais que reveladora de um óbvio tacticismo que se sobreporá, creio eu, a uma mera reacção de alguem ofendido na sua honra e dignidade.
    Quanto a Ana Gomes, seja qual for o fundamento do que afirma, sempre terá de correr o risco de se defrontar com o peso probatório de 40 a 50 mil documentos (ainda que fotocopiados).
    Provas são trunfos… e nesta bisca lambida, até agora, ninguém os mostrou.
    Finalmente, opinando, terei de concluir que a razão deveria ter conduzido a “truculenta” deputada europeia a construir o caso e depois exibi-lo… para além de qualquer ética…

  14. mike41, mas qual veneno? 0 que está a resultar das palavras de Ana Gomes é a criação de um antídoto. Ninguém ficou indignado contra Portas, mas sim contra ela! Achas que esta situação pontual de insinuações não provadas, sequer devidamente explicitadas, acaba por favorecer quem?

  15. “Ninguém ficou indignado contra Portas…”

    portas já não indigna ninguém e tudo é expectável em portas.

  16. Citando Ana Gomes : “Digo isto, finalmente, com plena consciência do que estou a dizer…”
    Da minha parte concedo que o resultado da sua (dela) diatribe poderá mostrar-se algo contraproducente, mas que marcou terreno marcou.
    Pela minha parte “quod scripsi, scripsi”…

  17. mike41, isso é óbvio: marcou terreno. Só que é um terreno infecto. Ora aplica a sua receita a uma situação onde tu, ou alguém a quem queiras bem, é a vítima deste tipo de afirmações. Gostarias? Achas que deve ser essa a norma na vida pública?

  18. Nunca defendi a posição de Ana Gomes… pelo contrário, parece-me imprudente e muito pouco (ou nada) ética.
    Fechado o espaço de crítica à posição de AG, cidadã com responsabilidades acrescidas dada a sua qualidade de deputada no Parlamento Europeu, não consigo, por muito que me esforce, ignorar as “qualidades” da sua vítima e os processos tantas vezes por ela usados para combater os seus inimigos, contribuindo e de que maneira para infectar o terreno da luta e do debate político.
    Claro que não gostaria de me defrontar com afirmações daquele tipo… que não deve ser norma na vida pública.
    Seria, aliás, incapaz de um procedimento semelhante.
    Respondidas as perguntas, mantenho tudo o que disse. Como se vê não é difícil nem custoso concordar contigo.

    Entretanto,
    “A propósito da notícia recentemente vinda a público referindo a eventual representação pela minha pessoa do sr. dr. Paulo Portas num processo contra a srª drª Ana Gomes, venho por este meio esclarecer que não aceitei patrocinar tal causa”, refere Garcia Pereira, também dirigente do PCTP/MRPP, num comunicado divulgado hoje.

  19. Essa decisão do Garcia Pereira é curiosa e aumenta a expectativa para o passo seguinte de Portas.

    Quanto a Portas merecer provar do mesmo veneno que, eventualmente, terá dado a beber a outros, isso é precisamente o que está em causa. Imitá-lo seria ser seu cúmplice.

  20. Cúmplice será excessivo, mas tudo bem…
    Tempo de virar de página ?
    OK.
    Continuação de excelentes “post”s.
    Os tempos não são só de crise… mas dos mais desvairados oportunismos, um pouco por todo o lado, e na nossa comunicação social não abundam tribunas de livre expressão de ideias… A blogosfera, entre outros meios, terá que preencher a lacuna. “Aspirina B” tem tido um papel e uma expressão que não passam desapercebidos…
    Tenho a certeza que continuará a merecer as nossas visitas.

  21. É para mim óbvio que não podemos descer nunca ao mesmo nível dos que criticamos. Não foi preciso ter lidado profissionalmente com crianças para ter isto como máxima indefectível. A mesma iniquidade fica ainda pior a quem sempre a condenou, do que a quem primeiro a praticou.

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