Título para uma biografia política

Entre a aridez das pedras e a verdura dos pinhais, o interior do País pode ser uma metáfora de Portugal inteiro.

Diz que é uma espécie de Presidente da República

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No discurso que proferiu no 10 de Junho de 2010, Cavaco disse que tínhamos chegado a uma situação insustentável, recordando que de tal tinha deixado aviso na altura devida. Simultaneamente, declarava que este é o tempo de fazer um esforço suplementar para concertar posições e gerar consensos, não é o tempo para querelas partidárias ou quezílias ideológicas que nos possam distrair do essencial. E o essencial era a sua reeleição, sem a qual o Cavaquistão arriscava não conseguir voltar ao pote. O discurso do 10 de Junho do ano passado, como outros desde o Verão de 2008, foi uma peça de combate político contra o Governo e o PS, servindo a estratégia de médio e longo prazo de Belém. E só num país onde vigore uma verdadeira asfixia da inteligência e da coragem é que se tolera escutar do Presidente da República a mensagem de que nada pôde – nem pode! – fazer para evitar a insustentabilidade da situação que garante ter visto chegar primeiro do que todos os outros à sua volta; e isto apesar de o Governo ser minoritário e não faltarem razões e ocasiões para dissolver a Assembleia perante o bloqueio da oposição, o agravamento da especulação dos mercados de financiamento e a incapacidade da Europa para proteger as economias mais débeis, as quais, por isso mesmo, eram alvo de maior pressão internacional.

Usando uma técnica típica das situações de manipulação psicológica, Cavaco apresentava duas mensagens que se contradiziam, dessa forma gerando um estado de confusão no receptor. Por um lado, existiam culpados a merecer o maior e mais urgente castigo; por outro, ainda não tinha chegado a hora da perseguição e linchamento, havia que fingir sermos todos amigos. Resultado pretendido: ficar a ideia de ser ele o juiz e o carrasco, mas ao seu modo e no seu calendário. Temos de reconhecer que acertou em cheio na manigância, pois não só foi reeleito como derrubou o Governo e levou a direita a ter o poder político absoluto. Por causa deste colossal sucesso, no futuro vários investigadores dirão de Cavaco que foi, enquanto agente individual, alguém cuja influência no regime desde finais de 70, tanto na extensão temporal da sua acção como nas consequências, só encontra paralelo em Salazar. Não por acaso, e cada vez de forma mais marcada e desavergonhada, Cavaco permite-se exibir a sua apetência pela posse da herança cultural salazarista, tanto no que diz respeito à hierarquia axiológica (Deus, Pátria, Família) como à mundividência oligárquica e à tentação, ou fuga, solipsista.

Esta metáfora da aridez das pedras e da verdura dos pinhais arrisca ser um dos momentos de maior transparência para espreitarmos a alma de Cavaco. É uma imagem que nos fala de um país partido ao meio, onde não se vislumbra um raio de esperança de que algum dia nasçam flores da aridez das pedras, quanto mais pinheiros viçosos. Há uma fronteira interna, uma cisão, instaura a dicotomia metaforizada. Há um Portugal bom, vivo e um Portugal mau, morto. Há um Portugal são, pronto para curar, e há um Portugal doente, recusando ser curado.

Não é a primeira vez que Aníbal assume estar em luta contra uma parte da Nação, tendo começado a espalhar o seu fel já sem qualquer disfarce na noite eleitoral em que pediu a cabeça de quem ousou investigar o enriquecimento que obteve através do conluio com finíssimos biltres e escroques da sua confiança. Seguiu-se o aproveitamento da tomada de posse para rasteirar o Governo e mandar sair as chaimites dos quartéis. Empresários, jornalistas, comentadores e políticos do seu círculo levaram a guerra civil ao seu extremo pré-militar, ofendendo Sócrates com os maiores insultos de carácter que conseguiam encontrar e declarando que o Governo era composto por incompetentes e criminosos que eram culpados de todos os males que se pudessem listar. Esta campanha, que obtinha o apoio tácito ou entusiasmado do PCP e BE, foi absorvida por largas camadas populares e deixou um caldo de ódio que está no limite da sua materialização em violência física. Testemunha-se uma apetência de revanchismo que nunca se tinha registado na História da democracia portuguesa, bastando recordar que com Cavaco e Santana nenhum sentimento de animosidade durou para além dos actos eleitorais. Por emanação directa de Belém e seus círculos de influência e identificação, temos sido informados, em palavras ditas e escritas, do desejo de perseguir, castigar e destruir Sócrates, mais as suas equipas governativas, numa esfera judicial ou, pelo menos, moral – assim extravasando a dimensão política e abrindo um inaudito espaço de purga e ostracismo que nem sequer para os agentes da PIDE se procurou fazer. Alguns, na cegueira da raiva, salivando pela desforra e convencidos de que agora têm as costas quentes, andam a tentar acender rastilhos que não saberão como apagar caso a situação ameace explodir nas suas mãos.

Concedamos um final reconhecimento às palavras que o actual Presidente da República achou por bem espalhar pelo éter no Dia de Portugal em 2011. Realmente, e falando verdade aos portugueses, não será possível encontrar metáfora que mais fielmente represente o seu legado político, social e cívico – superior a 30 anos de ocupação dos principais cargos do Estado – do que esta:

Cavaco, O Deserto Interior.

14 thoughts on “Título para uma biografia política”

  1. Mas enquanto Sócrates esteve no poder as hostes socialistas estavam de bico calado e só falavam em surdina, pois muitos deles não queriam ser excluídos das listas de deputados…
    Maria de Belém concede uma entrevista a um conhecido diário onde afirma:
    Sócrates decidia sem ouvir ninguém !
    Estava rodeado de subservientes !
    E os tais subservientes ficam calados perante uma acusação destas ?
    E ainda a procissão vai no adro !

    Será que o PS ( Que ingratos foram os portugueses a correrem com melhor PM de que há memória!) não capitulou perante a troika, começando por ceder na Segurança Social e acabar no SNS, em que o tendencionalmente gratuito passou a TENDENCIONALMENTE PAGO ?
    E as taxas moderadoras? E os transprtes?
    E as medidas que a Troika obrigou o governo a implementar “JÁ” !
    Quanto ao BPN, é bom não deixar de fora pessoas do PS e a supervisão (Vítor Constâncio) !
    E também não queiram “esquecer” o caso “Face Oculta”!
    Há muitos telhados de vidros em ambas as partes.
    Sócrates foi embora, parece que para Paris, mas ficam cá alguns a defender as mesmas falsidades !
    Será que o resultado eleitoral não correspondeu a uma condenação da governação Sócrates ?
    Até Mário Soares o confessou !
    E António José Seguro não fêz de lema da sua candidatura “NOVO CICLO” ?

  2. Muita gente estúpida, cretina, mal intencionada, sem escrúpulos, mentirosa aparece por aqui.
    Senão vejamos:” enquanto Sócrates esteve no poder as hostes socialistas estavam de bico calado e só falavam em surdina” o que é que isto quer dizer? Traduzido por miudos é lixo.
    “E os tais subservientes ficam calados perante uma acusação destas ?” Para já subserviente era a sua prima. E quem ficou calado? Não se insurgiu o partido contra as falsas escutas de Belém? E contra outras atoardas do mesmo género? Eu sei que é difícil lutar contar PPD, CDS, PCP e BE todos juntos. Fala um dum lado e 4 do outro. Só estes é que se ouvem para mais se os pseudo jornalistas enfeudados aos donos da comunicação contribuirem para essa orquestra.
    E o que é isso do SNS ser tendencialmente pago? É o copo meio cheio ou meio vazio? Quando se quer denegrir tudo serve. Mas o aumento de camas nos hospitais não serve; o suplemento para idosos deita-se às urtigas. O cheque dentista é uma merda. Os cuidados continuados de saúde é folclore e mais, muito mais. Mas quem só quer ver uma árvore e não vê a floresta está f…
    O BPN então é de morte. Como há gente tão estúpida! Se calhar não é assim tão estúpida, se calhar é gente interessada em também ir ao pote. Portanto o crime foi cometido pelo polícia (Vitor Constâncio que não reparou num banco que funcionava no computador dum sujeito sediado em Cabo Verde) e não culpa do ladrão, do vigarista e seus comparsas. De agora em diante prendem-se os polícias que não descobrirem os crimes e deixamos de lado os criminosos. Inteligente maneira de ver as coisas.
    Há telhados de vidro? Há pois há. Mas quem os tinha mais escavacados era o Cunhal. Se alguém anda à procura de alguém perfeito dirija-se à igreja mais próxima que aí talves encontre. Agora com labregos destes não há nada a fazer.

  3. E já agora sobre outra mentira: “E António José Seguro não fêz de lema da sua candidatura “NOVO CICLO””
    Quem falou em novo ciclo foi o próprio Sócrates na noite das eleições. Mas esta gente só ouve o que lhe interessa.
    Pobres diabos!

  4. Aplausos, Valupi!
    Preparemo-nos para a guerra, se é isso que querem. Razões contra eles não faltam. A sede de vingança desta gente está a ir longe demais. Se assim continua, já com o presidente do Supremo ao barulho, não tarda junta-se à crise da dívida e às medidas de austeridade troikianas uma guerra institucional, uma tensão parlamentar irreversível e depois guerra civil. Estão loucos.
    A tal víbora condecorada (e por que razão? Por ser amiga íntima de sua cavaquência?) já há muito que pensava ser conveniente impor uma ditadura. É para aí que tudo se encaminha?

  5. É verdade! Entre a aridez das pedras que ainda não foram vendidas aos estrangeiros e o verde dos pinhais que não arderam.
    Só que quem tal diz, não tem legitimidade para o dizer. No seu longo consulado de governação nada fez para contrariar tal situação; pelo contrário, muito se fez para desertificar o interior nessa altura. Todas as politicas activas iam no sentido de acabar de vez com a agricultura em Portugal, não de a modernizar. Mas os muitos milhões e milhões que vieram da, então CEE,, para esse efeito, esses levaram um sumiço e foram transformados em jipes, grandes mansões, vilas no Algarve, etc.. O mesmo aconteceu com a não renovação da frota pesqueira; e não se diga que essa era a politica europeia de então. Aqui ao lado, a nossa vizinha Espanha, com Felipe Gonzalez, bem que aproveitou os mesmos fundos e tem hoje uma agricultura e uma frota e industria pesqueira florescente. Pois é!…
    As lágrimas agora derramadas, são de crocodilo, e para pacóvio ver

  6. Este presidente da república, que deve ser um dos personagens que mais tempo tem estado no poder desde o 25 de Abril (não fiz contas), lembrou-se agora de que a agricultura que ajudou a destruir será uma das portas da saída para a crise!
    Já não falo das aldeias do xisto ou das Monsantos espalhadas por esse país tristemente abandonado aos fogos e à desertificação, que segundo o douto personagem será outra forma de arranjarmos uns carcanhóis para pagar as dívidas.
    E a macacada aplaude!
    Uma das avenidas da capital vai-se transformar num imenso supermercado que irá encher os bolsos do pobre capitalista que teve tão peregrina ideia para escoar os produtos nacionais, o que não fazem nos seus hiper locais onde a importação é dona das prateleiras.
    E a macacada abana que sim com a cabeça!
    O manto de silêncio que cobre os BPN’s, as luvas pagas pelos alemães, os gastos sumptuários do ex-presidente da FLAD, os negócios esquisitos de compras e trocas envolvendo figuras de proa do estado, a mega-operação em curso para a unicidade informativa, as associações de figurões a empresas sedentas de ir ao pote, etc., são matéria que não passam pelos editoriais inflamados dos que clamam o julgamento dos responsáveis pela bancarrota.
    Nesta panela de pressão, onde tantos e explosivos condimentos se misturam há quem não desista de a ir aquecendo elevando cada vez mais a pressão interior.
    Pode ser que não rebente, mas se estourar, muitos vão sair queimados, só espero estar suficientemente longe para não apanhar com os salpicos.

  7. Teofilo, pegando nestas suas palavras “Este presidente da república, que deve ser um dos personagens que mais tempo tem estado no poder desde o 25 de Abril (não fiz contas), lembrou-se agora de que a agricultura que ajudou a destruir será uma das portas da saída para a crise!”

    Na verdade, e sejamos sérios, a agricultura começou a ser destruida quando Portugal negociou a entrada para a CEE, essa “destruição” era uma exigência para Portugal entrar.

  8. Caro Adolfo Dias,
    então agora a União Europeia não quer a destruição da agricultura portuguesa? O que terá mudado na política agrícola europeia para alterar os factos?
    O que a CEE da altura quiz, não foi acabar com a agricultura em Portugal, mas acabar com o tipo de agricultura que se praticava.
    Ainda hoje, conheço centenas de proprietários que são pagos para não cultivarem, porque será?
    Porque é que a agricultura do Thierry Roussel recebeu 1 milhão de contos (5 milhões de Euros) da CEE, a fundo perdido, no tempo do senhor Cavaco, e deu cavaco com a guita deixando centenas no desemprego e milhões em débito à CGD por via do seu projeto agricola?
    Onde estará o senhor Cavaco que dizia em 87 que o Alqueva só avançaria se a sua reforma agrária avançasse, e que depois colocou as obras em banho-maria?
    Já não quero falar no seu programa de sucesso, lembra-se, o JEEP (Jovens Empresários de Elevado Potencial), que serviu para a compra de jipes Toyota (do apoiante Salvador Caetano) com os dinheiros do FSE e da PAC e de umas obritas em casas que se destinavam a turismo rural mas onde os únicos hóspedes eram os moradores e respetivos familiares e amigalhaços.
    A agricultura começou a ser destruida quando não se ouviram as sensatas palavras do Sousa Veloso sobre o associativismo a sério, a mecanização agrícola prudente, o desemparcelamento do minifúndio, as colheitas especializadas, a ordenação das propriedades, a escolha das espécies a produzir, a rede de frio e de silagem equilibrada, a aposta na diversidade e na qualidade.
    Onde estão os rebanhos, que é feito da pastorícia, onde está a proteção das espécies nacionais, onde pára o ordenamento florestal, por onde andam os carvalhos nacionais, os castanheiros que dão castanhas, os negrilhos para forragens, as nogueiras que nos dão nozes e bela madeira, os amieiros fixadores de azoto, e toda uma flora diversificada, amiga do ambiente e resistente ao fogo.
    Será que o Cavaco se preocupou com isto ou foi a CEE que não deixou?

  9. Independentemente de todos os erros cometidos, os agricultores franceses têm muito mais poder que qualquer mísero governante português.

  10. Parece que ainda ninguém notou a excelência deste texto fabuloso. Parece já a redação acabada do que um dia, nos livros de História, se irá narrar sobre o início desta sombria década que se abateu sobre os portugueses com a conquista do Palácio de Belém, pela primeira vez desde o 25 de Abril, por um sujeitinho que se considerou em devido tempo integrado na ditadura salazarista.

    Leiam de novo e sintam-se crianças em 2050, que só por essa altura haverá distanciamento histórico para que o que aqui já se pode ler seja muito naturalmente ensinado às crianças dessa década futura. Que serão filhos dos heróicos sobreviventes das crianças que irão nascer nesta década desgraçada que mal iniciámos.

    Deserto interior é pouco. Deserto de sal, sim. Corrosivo e estéril, mas que por fim o há-de queimar também. Anseio por esse dia de enorme felicidade.

  11. ó pázinho, valupi do caraças, pá, não te doi o dedo de escreveres sobre merda pá?! deixa lá o 23% em paz, que esse gajo tá de saída pá, não fez nada, não faz nada, por isso, o gajo nunca se engana, meu. ele e a trave grossa pá.vai ser bonito vai, já se formou o sindicato das sopeiras do IC19, pá. chiça penico pá, já viste que vamos gastar mais em despesas com cabeleireiro, pá, não sei se tás a ver o aumento da despesa publica para fins particulares.

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