A guerra que nunca acabou

Quanto é que Portugal deve a estes homens e suas famílias?

[audio:https://aspirinab.com/ficheiros/Fórum-TSF-Guerra-Colonial.mp3|titles=Fórum TSF – Guerra Colonial]

Esta edição do Fórum TSF – Memórias da Guerra Colonial – é do maior interesse e gera a maior compaixão, seja qual for a tipologia das vítimas que aparecem a dar um testemunho sempre lancinante. Começa com um diagnóstico que explica muito do que continua a passar-se na sociedade e, portanto, na política. O país que escondeu a Guerra do Ultramar, escondeu os agentes da PIDE e seus informadores, maltratou os militares que voltaram feridos e os retornados, continua 40 anos depois cheio de silêncios e, sintomaticamente, ofuscado por uma caça às bruxas feita em nome da verdade e da transparência.

Velhas e relhas histórias que nos amordaçam, diminuem e violentam.

14 thoughts on “A guerra que nunca acabou”

  1. Caro Valupi (val se preferires),

    Ao contrário de pessoas como Fernando Venâncio, Daniel Oliveira, José do Carmo Francisco, Rui Tavares, Luís Raínha ou Rodrigo Moita de Deus, optas por escrever com um carapuço enfiado nos cornos (um véu que te cobre, suavemente, a face, se preferires).
    Falo de carapuço e cornos pois é assim que se fala no meu Ribatejo.
    Partimos para o despique ritmado do fandango ou para a cara do touro com um sorriso nos lábios e um olhar de frente, embora saiba (saibamos) que há touros (mansos) só pegáveis de cernelha.
    Escreves meia dúzia de palavras não comparáveis com nada, Val.
    Que sabes tu da guerra em África (chamas-lhe guerra do ulltamar)?
    Que sabes tu daqueles meninos (e meninas) que foram com vinte e poucos anos para África?
    O teu pai era um graduado de engenharia que morreu em 1962 na fazenda de Tentativa?
    A tua mãe foi acompanhar o marido prá guerra, deu-te à luz e foi assassinada a golpes de catanas?
    Se calhar… não.
    Não mistures, por favor, tudo no mesmo saco.
    Há pessoas que perderam o pai e a mãe na guerra e sabem injusta a guerra em África, sabem que aqueles povos, aquela gente, lutava contra a ocupação duma potência estrangeira, «eles» lutavam pela terra, pela terra deles, «nós» por uma falsa ideia de pátria que nos tinham enfiado nos cornos…
    A diferença entre nós, é que eu assino e estou (apesar de tudo) do lado d´eles; tu carapuças-te não te comprometes, achas que o problema foi a pide, o salazar e o kaúlza de arriaga, achas, ingenuamente, que nós tínhamos direito àquilo, ao «ultramar» como lhe chamas.
    Sabes Val, sou um gajo monárquico, acho que a monarquia impediria cuspidores de bolo rei (como Cavaco)
    Num sistema como o nosso, um gajo [um Rei] seria menos um chulo à conta dos nossos impostos e passo a referir; António Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio e Aníbal Silva representam o quadrúpulo das despesa que o estado espanhol tem com a Casa Real Espanhola, este caganito, a que chamamos república portuguesa gasta quatro vezes mais com os manjericos referidos que a Espanha… entretanto Val, tu falas da tua guerra, do ultramar e choramingas com saudades de Sócrates (e do Magalhães, presumo.
    Eu choro, sinceramente, os que morreram em África e sonho com o retorno duma monarquia liberal, liberal na economia e nos costumes que faça de Portugal (a que insistem em chamar: república portuguesa) um estado sério com a Dinamarca, a Suécia, a Holanda, a Espanha ou o Reino Unido…

  2. oh meu! desembrulha lá a teoria da monárquia alltramada, que não percebi pêva.

  3. Caro gerómino [o apache presumo (e etc.)],

    Explica-te melhor em português se conseguires, mas podes tentar, também, em inglês, catalão, francês ou alemão (peço desculpa, mas são as únicas que domino com fluência, embora como trabalhei alguns anos na mitsubishi/tramagal [não confundir com berliet-tramagal] desenrasco-me em japonês técnico…)
    Estás à vontade, escolhe a língua que quiseres, não fales é isto: «monárquia» monaaarquia não sei o que é; «monárquia alltramada» muito menos… deve ser um dialecto inventado por ti, pelo sócrates e pelo val, uma espécie de novas oportunidades linguísticas (com tele…ponto, obviamente)

  4. eu não interpretei nada disso que dizes que o Val disse, pedro oliveira. no entanto, perspectivas meramente políticas e humanistas confundem-se no texto. ora relê.

    tu gostas de cegonhas brancas. e de lavar a louça? :-)

  5. Há muito por onde criticar o regime o Estado Novo, bem como os responsáveis pela guerra em África, Valupi, mas não com argumentos do seu texto.

    Eu fiz a guerra em Angola de Janeiro de 1965 (tinha 17 meses de tropa, e já não esperava a mobilização quando ela apareceu, 6 meses antes), até Março de 1967. Regressei ferido e fiquei em tratamento no Hospital Militar até Fevereiro de 1968 (duas intervenções cirúrgicas, depois de já ter sido sujeito a outra em Luanda) .

    Posto este introito, permita-me algumas observações.

    Não me parece que a guerra tenha sido escondida, mesmo porque não era possível escondê-la: na prática, não havia família que não tivesse tido alguém, mais ou menos próximo, na guerra. Por outro lado, os órgãos de comunicação, embora numa perspectiva de apoio ao Governo, noticiavam-na quase todos os dias.

    Toda agente conhecia a existência da PIDE, e só não sabia o seu papel quem andasse muito distraído.

    Durante o tempo em que estive hospitalizado não me apercebi de da existência de camaradas maltratados, bem pelo contrário: eram-nos prestados todos os cuidados, tendo em vista a nossa recuperação. No caso dos amputados, essa preocupação incluía deslocações à Alemanha para execução de próteses, que mais tarde começaram a ser fabricadas cá, pelo menos em parte.

    O que se pode dizer é que muitos, sobretudo os ficaram a padecer de problemas psíquicos, acabaram por não ter apoios do sucessivos Governos. E foram muitos, alguns dos quais nem sequer foram alguma vez a um psiquiatra ou psicólogo.

    E, ainda hoje, muitos deles se recusam a falar de muitas das ocorrências em que foram actores. Tive essa experiência pela última vez em Março deste ano, durante o nosso encontro actual.

  6. também há coisas bem divertidas que o meu pai conta. por exemplo, ele foi colega do Marco Paulo na Guiné e era uma risota. :-) (vocês estão muito ressabiados e tensos)

    tu lavas louça, Carlos Serra? :-)

  7. Carlos Serra, agradeço o teu comentário. Vamos lá:

    – São os próprios que se ofereceram para lutar movidos por um ideal patriótico a dizer que a guerra era escondida – leia-se: as razões verdadeiras da guerra, não a propaganda.

    – Quanto à PIDE, não é a sua existência que se diz ter sido escondida, isso seria absurdo, mas o julgamento dos operacionais e informadores, os quais se diluíram na sociedade e não foram denunciados após o 25 de Abril.

    – Os maus tratos que sintetizei no texto (mas porque estou a remeter para o programa, onde o assunto foi bastamente exposto) dizem respeito ao sentimento de culpa e vergonha que se dirigia contra qualquer um que estivesse ligado ao Estado Novo e às Colónias. Mais uma vez são os próprios, mesmo que não todos, a relatá-lo. Esses maus tratos continuaram com a ausência de apoios para as vítimas e com um certo véu ostracizante que levou o regime a não se poder orgulhar, celebrando os seus heróis, de um conflito politicamente indigno, mas onde muitos deram a vida e o futuro com honra.

  8. Vem mesmo a calhar: o CES de Coimbra promove amanhã e depois de amanhã uma série de colóquios/debates no Fórum Picoas-Plaza na Rua Tomás Ribeiro 65 Lisboa. Começas ás 10 horas de amnhã e acaba às 19 horas do dia seguinte com o lançamento da «Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial» edição Afrontamento. Eu tenho alguma poesia escolhida nesse livro organizado por Margarida Calafate Ribeiro.

  9. uih…uih…o tóino aparece na antóinologia colonial, preparem-se para uma balada de berliet a rimar com gêtrê. uma sandes de lagosta e um capilé a quem adivinhar quem pagou edição & croquete session.

  10. A Guerra que nunca acabou:
    Fui um dos intervenientes da Guerra Colonial. Fui para ali em 1971 e regressei em 1973. Quando ali cheguei comi de alguma papa, como se costuma dizer – que os mais antigos nos deixaram: Quartel – antes era à base de tendas de campanha – com edifício rudimentar, o que levou o meu comandante de Companhia, Capitão, José Joaquim Lofregen Rodrigues, ali falecido vítima de acidente, a melhorar as nossas condições laborais e habitacionais.
    Beneficiamos das melhorias feitas nas picadas, mesmo assim era uma confusão em dias de chuva, quantas vezes ficamos atascados várias horas, derivado às viaturas que não conseguiam romper por essas mesmas picadas, para quem não sabe o solo em dias de chuva mais parece barro.
    Estive no mato – nome dado aos aquartelamentos isolados – durante o tempo da comissão, vinte e dois meses e meio. Bastantes meses sem ver uma alma do sexo oposto, as nossas vistas regalavam-se todas quando víamos uma, tivesse ela dezasseis ou sessenta e um anos, como acontecia quando passavam em colunas militares para irem para certas povoações e só o podiam fazer através destas colunas.
    A vila mais próxima era o Caxito, hoje cidade e capital do distrito do Bengo. Quando ali íamos de mês a mês era o desforrar da miséria vivida até então: comer um almoço “civil”, petiscar uma moelas ou um pires de camarão, ir às prostitutas, estávamos fartos da irmã da esquerda e às vezes da esquerda.
    No aspecto da guerrilha provamos de tudo. Corri a floresta do Quifuso por várias vezes em operações a nível de Sector, o meu, era Santa Eulália, de Companhia e do Batalhão, umas vezes transportados em helicópteros, com Pára-quedistas e Comandos – iam espevitar o inimigo, vinham para Luanda e a partir daí éramos nós que os tínhamos de suportar – deixados perto do objectivo, outras, saídos do Quartel a pé. Estive em vários acampamentos dos chamados “Turras” onde contribuí para o seu detioramento. Escusado será dizer que este tempo foi passado entre os meus vinte e dois e vinte e quatro anos, os melhores anos, na vida de um jovem.
    Vou relatar um facto passado no dia catorze de Março de mil novecentos e setenta e três, aniversário da U.P.A (União dos Povos de Angola).
    No dia catorze levantei-me cedo tomei o pequeno-almoço e fui até ao posto de rádio estava de serviço o soldado Alves, chamávamos-lhe (voluntário) era mais novo que nós dois anos. Ouve-se através do rádio, mas muito baixo, alguém a comunicar e ninguém respondia, ao que eu disse. – Alves está um posto de rádio a chamar e ninguém lhe responde. Disse-me que não ouvia.
    De imediato peguei no microfone e comecei a chamar. Ao posto que se encontra no ar informe o seu indicativo pausadamente condições audíveis bastantes difíceis. De repente ouvi melhor, pedia ajuda rápida, tinham caído numa emboscada. Perguntei-lhe qual a localização em que se encontravam ao que respondeu entre Quicabo e Balacende, na zona das antigas sete curvas.
    Estava um pelotão prestes a partir com os trabalhadores da J.A.E.A., (Junta Autónoma Estradas Angola) disse ao furriel que comandava o pelotão para irem em auxílio de uma coluna de soldados que tinham caído numa emboscada. Para irem com cuidado que não sabia a localização ao certo. Disse ao rádio telefonista para levar o rádio em escuta permanente para saber o que se ia passando.
    O meu posto rádio continuou a fazer “de posto rádio em trânsito” uma vez que o posto director era Quicabo, como não havia condições climatéricas competíamo-nos tomar esse lugar. De manhã quase sempre nos víamos com estas dificuldades – diziam os entendidos – que eram devido a ser zona de minério. As condições tinham melhorado, o nosso pelotão tinha chegado à zona da emboscada e tinha disparado uns morteiros tendo o inimigo se retirado.
    Fez-se o balanço. Do nosso lado tinha morrido um furriel, três soldados e dois civis e o soldado condutor auto-rodas Damas, dado como desaparecido. Era uma coluna que ia para a J.A.E.A., com funcionários da mesma, para fazer pagamentos aos trabalhadores. Do lado do inimigo, mais tarde soubemos, que foi para comemorar o aniversário da U.P.A., tiveram várias baixas.
    Foi pedido ao comando de Luanda, meios aéreos, que prontamente bateu toda a área mas não se encontrou nenhuma vivalma parecia que havia esconderijos subterrâneos. Viemos a verificar que a emboscada tinha sido bem planeada. Na entrada e saída tinham metralhadoras, à medida que as nossas viaturas iam entrando nessa zona, era feito fogo cruzado. O furriel foi o primeiro a tombar, seguia na primeira viatura. Os soldados que compunham essa viatura assim como outras que também entraram nessa zona, saltaram das viaturas para as valetas da estrada cobertas de ervas e arbustos. Quando ali chegavam estava um grupo de assalto com catanas. Foi morto um soldado à catanada.
    Além do azar, podemo-nos dar por felizes porque as viaturas não entraram todas na zona da emboscada e assim puderam repostar ao fogo do inimigo e comunicar via rádio a pedir auxilio.
    Mesmo assim que saudades tenho de Angola. Em conversa com amigos, os que tiveram a sorte de não ir à tropa, ou ao ultramar – como se usa dizer – admiram-se de fazer tanta referência a Angola, dizendo que não compreendem tal entusiasmo. Não lhes chamo hipócritas, só em pensamento. Deixei lá quase dois anos, dos melhores anos da minha vida.

  11. oh pacheco! se tens sódades, voltá pra lá e deixa-nos em paz com a treta do desgraçadinho que foi prá guerra e nem sequer um tiro levou. devias mostrar arrependimento, alegar inconsciência política ou inércia para ter colaborado na repressão de quem lutava pela sua libertação, mas não, em vez de aceitares o resultado das tuas opções e à boa maneira comuna, lá vem o tadinho do fascismo reclamar uma medalha de herói colonial.

  12. Pedro Oliveira,

    Com todo o respeito pelos teus sentimentos, devo dizer-te que o envolvimento pessoal nos factos, altera a perspectiva de analise dos mesmos. Prova disto é o teu texto. Aquela guerra deixou um lastro de traumas, tanto no portugueses como nos nativos (alguma vez te preocupaste em saber qual o sentimentos do filhos que viram assassinar tribos inteiras de que faziam parte???) Pois é. Devem ter uma dor semelhante à tua e com menos hipótese de terapia de grupo. Lamento.

    E este é um assunto.

    Outro assunto é a monarquia, e não percebo porque os ligaste, mas desconfio. E relativamente ao tema monarquia, tens de me provar factualmente onde estão as vantagens, claro, para além de uma imprensa cor de rosa a dar para a realeza, o que torna a coisa mais Chique.

  13. Caros amigos: o livreo foi lançado hoje no Picoas Plaza. Editora Afrontamento. Coisa monumental. POnto de partida para trabalhos futuros…

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