Cineterapia



Running on Empty_Sidney Lumet

Os anos 60 geraram muitos grupos de esquerdistas radicais na América, usualmente ligados ao activismo universitário e unidos na rejeição do sistema capitalista e na luta contra a guerra no Vietname; entre outros ideais de que comungavam e que permanecem bandeiras cívicas ainda a fazerem o seu caminho, como a ecologia e a condição feminina. Alguns dos revolucionários nascidos na cultura do Tio Sam chegaram a cometer actos criminosos, sob a forma de assaltos e atentados terroristas. Isso levou a que muitos desses militantes envolvidos na luta armada entrassem na clandestinidade, perseguidos pelo FBI em qualquer canto dos EUA, sendo suportados por uma extensa rede de secretos apoiantes locais. Este filme conta-nos uma dessas histórias, ficcionada a partir de vários casos reais. Mas pura ficção.

E ficção da mais pura. Com actores que fingem tão completamente que chegam a fingir que é amor o amor que deveras sentem. Exacto, bem lembrado: River Phoenix e Martha Plimpton apaixonaram-se durante as filmagens. Ou aquela puta daquela cena onde Christine Lahti vai ter com Steven Hill e nunca, jamais, alguém, jamais, nunca, irá conseguir apagar esta certeza de termos testemunhado uma filha e um pai a partirem o coração um do outro após 12 anos de separação e silêncio, só para descobrirem que o sentimento de pertença à família é indestrutível. O final? Judd Hirsch podia ter estado calado no resto do filme desde o princípio, e num certo sentido esteve, que as suas derradeiras palavras justificariam plenamente a presença num mergulho ao que fica depois de se perderem as ilusões de pretender mudar o Mundo. E o que fica é a esperança, ainda mais louca, de que seja o mundo a mudar aqueles a quem mais queremos.

O género musical, seja em cinema ou teatro, define-se pela função narrativa dos números de dança e canto, os quais fazem avançar a acção, acrescentam ou alteram a história em curso. Em sete mil milhões de seres humanos actualmente a devorarem este planeta, não passaria pelo bestunto a nenhum deles catalogar Fuga sem fim como um musical. Porém, a música é aqui um elemento mais importante do que muitas das personagens. Ouvimos Beethoven, Madonna, Bhrams, Roy Orbison e James Taylor. Temos até direito a uma aula de iniciação à música clássica. Mas temos um momento cuja centralidade e síntese é tão densa que opera com um epílogo antecipado, alegórico, do destino de todos, do deles e do nosso. Ao som de Fire and Rain – uma canção nascida na morte, no desespero e na tortura – estes cinco, minutos depois de estarem ali sentados, dançam a mais feliz das danças. Esse momento tornou-se num imperativo categórico para a minha cinefilia: eis um dos mais surpreendentes musicais alguma vez feito. E por fazer.

11 thoughts on “Cineterapia”

  1. vi no cinema, e terá sido por aí (enfim, já não sei quando passou cá, mas sei que foi durante a minha vida de estudante. e depois em vídeo, na fase já de mãe, que só via filmes alugados.

  2. na altura fiquei fã da martha plimpton que, por não estar no cânone da beleza da época, creio, não fez a carreira que merecia. ainda a vi num papel muito fixe, num woody allen, filha de uma das irmãs. a christine lahti entrava no espaço 1999, se não erro, ou numa qualquer série do passado, e também foi uma surpresa vê-la ali transmutada naquele personagem intenso e dramático.

  3. E o Judd Hirsch fez logo a seguir o “Dear John”, uma série televisiva cómica de grande popularidade que acaba por contaminar “a posteriori” este seu papel aqui no filme. Até parece que foi mal escolhido.


  4. Been walking my mind to an easy time my back turned towards the sun
    Lord knows when the cold wind blows it’ll turn your head around
    Well, there’s hours of time on the telephone line to talk about things to come
    Sweet dreams and flying machines in pieces on the ground

  5. Numa onda menos anglo-saxónica, mas profundamente europeia e na mesma problemática do idealismo juvenil que desemboca no «cul-de-sac» do terrorismo, recomendo o sublime “A Segunda Pátria” («Die Zweite Heimat»), de Edgar Reitz.

    Disponível pelo menos em vídeos emprestáveis (treze Episódios) na Biblioteca do Instituto Alemão, em Lisboa. Fascínio puro e incomparável.

  6. É uma obra densa e intensa, para ver com atenção e exclusividade. Espero que se fascine, para assim me sentir menos em dívida pelos bons momentos que aqui os seus Artigos têm proporcionado às minhas meninges.

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