Os partidos vão acabar com o desemprego

Aqueles que encheram as televisões, jornais e rádios com crescentes, inflamados, lancinantes e desesperados avisos de estarmos à beira do abismo, ou já em queda parabólica no vazio, calaram-se de repente. Alguns, passaram a exibir as saudáveis cores da segurança e da tranquilidade. Outros, de imediato mudaram de disco e lembraram, cheios de razão, que precisamos de enfrentar os desafios com optimismo, pois sem essa confiança em nós próprios é que nada se alcança. Desde o lançamento do mote do difuso mal-estar – com que a malta da SEDES anunciava em Fevereiro de 2008 estar muito preocupada com a implosão do BPN e BPP, a que se somavam as consequências desgraçadas da guerra intestina entre Jardim Gonçalves e Paulo Teixeira Pinto e entrega do BCP aos maçónicos – que temos tido 3 anos seguidos de promoção do catastrofismo e da ruína moral. Foi uma campanha extraordinária nos meios reunidos e na sua intensidade, consistindo na mensagem de que os vencedores das eleições legislativas desde 2005 não tinham legitimidade para governar por serem incompetentes e corruptos, por um lado, e, pelo outro, de que só o FMI conseguiria pôr ordem nisto, afastar a ladroagem, disciplinar os indígenas e entregar o poder às pessoas de bem, a gente séria, aqueles que nasceram para mandar nesta merda toda. Felizmente, a 5 de Junho estas centenas de políticos, empresários, jornalistas e comentadores puderam finalmente descansar. Tinham salvado Portugal das garras do demónio.

Esta história contém uma lição da maior importância para os 700 mil desempregados: os partidos, mesmo que um asteróide de 100 quilómetros esteja a poucas horas de acertar em cheio em S. Bento, estão sempre prontos para assumir os sacrifícios da governação. Aliás, em tempos de penúria ainda maior surge a ferocidade com que se tenta obter o alimento; isto é dos livros e da selva. Assim, a solução para o desemprego está à vista de qualquer um: inscrição num partido como militante. Para o desempregado é a carreira ideal, pois pode dedicar todo o seu tempo ao partido. Subirá no respeito, consideração e estima da hierarquia em menos de nada, graças à colagem de cartazes, distribuição de panfletos, participação em sessões de esclarecimento, comícios, manifestações e greves (caso se escolha um partido que seja proprietário de sindicatos). Para além deste quotidiano cheia de animação e interacção popular, os partidos fornecem aos desempregados as condições mínimas para levaram uma vida saudável e confortável, porque há sempre nas sedes partidárias frigoríficos cheio de minis e dispensas com sacos de amendoins e latas de salsichas. À noite, pode ficar-se a dormir nas salas de reunião e corredores. O ambiente para os novos residentes é familiar, à direita, e de camaradagem, à esquerda. Claro, os partidos têm diferente riqueza patrimonial e financeira, não sendo igual entrar no PSD e passar a frequentar a Lapa ou escolher o Partido Humanista e ir parar a uma cave insalubre sabe-se lá onde. Mas, no final, vai dar tudo ao mesmo. Pense-se só no que poderiam alcançar os desempregados portugueses se fossem militantes do Partido dos Animais. Pois, seriam logo a terceira força política no Parlamento, e receberiam 3,16 euros por voto. É fazer as contas.

2 thoughts on “Os partidos vão acabar com o desemprego”

  1. Alerta! A humanidade já sofreu duas guerras mundiais, a de 14-18 e a de 39-45. Ambas tiveram início na Europa, envolvendo a Alemanha, a França e a Inglaterra. Recordo-as, a propósito ou despropósito, ao assistir ao que se passa na Europa no momento presente. Que é, o euro em perigo, países a ameaçarem a bancarrota, a U.E. a mostrar dificuldade ou mesmo incapacidade em empedir que tal aconteça. E o mais grave, o não impossível, o não improvável, desmembramento da própria União. Porque se tal acontecer, em cada país, face ao colapso económico e ao avassalador desemprego, agravam-se os antegonismos de classes, os preconceitos raciais, e sobem de tom os nacionalismos. E depois, mais cedo do que tarde, vêm as desavenças entre os estados. E depois, vem o que ninguém quer ou pode admitir que aconteça. Até acontecer!

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